Contos De Gaveta
6 Nossa cidade.
Notas iniciais
Hoje é terça, pai.
Lembro-me que deveríamos almoçar sobre as vigas de concreto erguidas no seu mais novo brinquedo. Deveríamos sentar, com os pezinhos balançando, na ponta do arranha céu. Você recontaria todas aquelas histórias da cidade que mudamente acreditávamos ser sua. Com o peito inflado de orgulho, você talvez me apresentasse aos novos peões, mesmo sabendo que eu me esconderia atrás do seu macacão cinzento. Com sorte, quem sabe eu não subisse sobre os seus sapatos, e sentindo as ponteiras de ferro, dançaríamos a dança sem música. É, pai. Quando eu era pequena era sempre assim. Mas eu cresci.
E nessa terça, pai, apesar disso, você guiará novamente meus passos. E eles não mais apoiarão nas velhas ponteiras duras, e sim no encarpetado vermelho estendido pelo chão. Papai, nossos passos me levarão ao altar. E, se você tiver lágrimas nos olhos, por favor, enxugue-as, pois sua menina vai se casar na igreja que você construiu.
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