Contos De Baker Street
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Eu estava sentado na poltrona, lendo, como fazia todas as tardes. O mundo estava vindo à baixo lá fora. Chovia muito e ventava. A minha sorte era estar aquecido e confortável em minha poltrona.
Toc-toc-toc.
Revirei os olhos. Só podia ser uma pessoa para perturbar a minha paz de espírito. Desci as escadas e perguntei quem era, apesar de saber a resposta.
-Sou eu, Sherlock –respondeu uma voz fraca.
Abri a porta e encontrei o Consulting Detective ainda mais pálido do que já era. Ele tinha os braços cruzados e tremia violentamente. Suas roupas estavam encharcadas e ele respirava com certa dificuldade.
-Meu Deus, Sherlock, o que aconteceu com você?! Entre, vamos, rápido! –ele o fez, porém devagar e fechei a porta. Era uma sorte que Mrs. Hudson tivesse saído, porque minhas próximas palavras poderiam ser constrangedoras- Tire essa roupa logo, você precisa se esquentar!
Ele mal se mexia de frio. Tirei seu sobretudo de maneira brusca e puxei seu cachecol, deixando tudo amontoado no chão, formando uma poça ao redor. Desabotoei sua camisa agilmente enquanto ele fazia o mesmo com a calça. Em pouco tempo ele estava de cueca.
-Suba, tire isso, entre na banheira e fique embaixo do chuveiro. O mais quente que você aguentar –eu disse, apontando para a peça de roupa restante. Ele assentiu e subiu as escadas, devagar.
Peguei toda aquela roupa molhada e levei até a máquina de lavar. Joguei tudo lá dentro e escrevi um bilhete para a Mrs. Hudson:
Poderia lavar isso para Sherlock, por favor? Obrigado. John.
Ouvi o chuveiro sendo ligado. Suspirei. Ainda bem que, dessa vez, ele estava seguindo as minhas ordens. Fui até o quarto dele e peguei uma toalha. Eu planejava deixá-la na maçaneta da porta, porém eu a encontrei aberta.
Sherlock estava sentado na banheira, abraçado aos joelhos. A banheira já estava quase completamente cheia, porém o chuveiro continuava ligado. Sua cueca estava pendurada na pia, pingando. Fui até ele e fechei o chuveiro.
-Está frio, John.
-Eu sei –fui até a pia, peguei o sabonete e estendi para ele- Aqui, tome um banho.
-Não estou sujo, John. Só estou congelando.
-Sherlock, por favor...
-John...
-Sherlock...
-Se faz tanta questão, me dê banho você mesmo. –disse ele, virando a cara.
Suspirei. Tão infantil. Ajoelhei-me, peguei a bucha que ficava ao lado da banheira, ensaboei-a e virei Sherlock de costas para mim, um tanto bruscamente. Devagar, comecei a lavá-lo.
-O que está fazendo? –perguntou ele enquanto eu massageava suas costas.
-Te dando banho, oras.
-John, você...
-De nada, Sherlock. Agora fique quieto.
E ele anuiu. Lavei todo o seu corpo e me molhei inteiro nesse serviço. Foi, de certa forma, constrangedor. Porém eu sabia que Sherlock não iria caçoar disso ou tornar esse fato público, por isso nem me importei muito. Quando achei que ele estava limpo o suficiente, desdobrei a toalha e pedi para que ele se levantasse. Assim que ele o fez, coloquei a toalha sobre seus ombros. Ao fazê-lo, nossos corpos se encostaram, como em um leve abraço, e pude sentir que ele ainda estava horrivelmente frio.
-Ponha as roupas mais quentes que encontrar e se enrole em algum cobertor. Eu levo alguma coisa para você comer. Deve estar morrendo de...
-John.
-O que foi? –respondi, enquanto esvaziava a banheira.
-Faça de novo.
-O que?
-Me abrace.
Posicionei-me atrás dele e envolvi seu corpo com meus braços. Apesar da altura, ele era demasiadamente magro, encaixando-se perfeitamente em meu abraço. Encostei minha face em suas costas e senti suas mãos geladas envolverem as minhas, quentes. Alguma coisa despertou em mim naquele momento. Eu não conseguia me importar com a toalha molhada contra meu corpo, nem contra o gelo de seu corpo, nem com nada. Só queria ficar perto dele, do jeito que ele pediu. Mesmo sabendo que ele adoeceria por ficar tanto tempo exposto ao frio, eu não me importava. Pela primeira vez em minha vida eu seria egoísta. Egoísta por dar mais atenção à minha vontade do que à necessidade dele.
Depois de alguns momentos, liberei-o do abraço e lhe disse para ir colocar alguma roupa. Ele assentiu e subiu as escadas para o seu quarto. Peguei a cueca molhada e, indo até a máquinda de lavar, joguei-a lá dentro, junto com as outras roupas. Quando subi de volta para meu quarto, encontrei Sherlock deitado na minha cama, enrolado em um espesso cobertor e vestido com roupas quentes.
-Ainda está com frio? –perguntei, sentando-me defronte ele. O detetive assentiu com a cabeça. Repousei minha mão em seu rosto e rocei meu polegar pela sua bochecha, como uma carícia.- Vai passar, Sherlock.
Ele me encarou, como se não acreditasse.
-Confie em mim –eu disse, sorrindo e beijando sua testa- Vou fazer chá para ajudar, ok?
-Ok...
Já passou, John, pensou Sherlock, enquanto todo o seu corpo esquentava depois do pequeno beijo depositado nele. Já passou.
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