Contos De Baker Street
1 Capítulo 1
Reflexões de John
Já fazia quase um ano que eu estava morando junto com Sherlock. E eu poderia dizer com absoluta franqueza que aquele fora o melhor ano da minha vida, apesar dos tiros dentro de casa de madrugada, das bactérias que ele criou na minha antiga mochila do exército e das partes humanas na geladeira.
Tudo isso foi irrelevante. E na verdade, até um pouco divertido. Eu não conseguia ficar bravo com ele de jeito nenhum e sempre preferi me afastar a dar uma bronca nele. Eu sabia que aquilo era puro instinto científico, como ele costumava dizer. E, sinceramente, eu não me importava tanto assim. E, com certeza, prefiro tê-lo comigo a ter que ficar longe dele.
Aliás, isso tem se tornado um problema. Eu não consigo mais ficar longe de Sherlock Holmes. Eu preciso sentir ele por perto o tempo todo. Seja ficando com ele no mesmo cômodo, ir até seu quarto quando ele já está dormindo para ver se tem cobertores o suficiente ou saber onde ele vai e com quem vai estar. É claro que ele já havia reclamado sobre essa última parte, dizendo que eu estava parecendo Mycroft. Mas o que eu podia fazer se, ultimamente, eu me importava mais com aquele homem do que com qualquer outra pessoa?
Acho que... Sherlock Holmes é o homem mais tóxico do mundo. E eu estou completa e absolutamente viciado nele.
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Reflexões de Sherlock
Um ano morando com John. Nem parecia tanto tempo assim. Nós nos demos bem desde o primeiro dia que nos conhecemos e acho que isso definiu a convivência durante o ano. Ele é um ótimo homem e um ótimo parceiro. Eu nunca me senti agradecido por alguém uma vez se quer na vida. Mas quando estou com John e quando resolvemos algum mistério juntos... Bem, é assim que eu me sinto. E eu tento expressar isso. E, sinceramente? Eu acho que ele até consegue entender.
Ultimamente, tenho percebido um John um tanto preocupado comigo. E eu estou gostando, apesar de, óbvio, eu não demonstrar. Percebo que ele fica sempre por perto. Ele também anda indo até ao meu quarto quando eu já estou deitado, só para ver se eu estou aquecido o suficiente. E também reparei que ele nunca mais arranjou uma namorada. Nunca mais houve garotas nesse apartamento além da Sr. Hudson. E, sinceramente, me sinto muito feliz com isso.
Não só porque as garotas me incomodavam, mas também porque agora posso ter John o tempo todo só para mim. E isso me deixa feliz. Muito feliz.
Sempre me considerei casado com o trabalho. Mas... acho que você pode ser meu amante, John Watson.
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–John...
Eu estava sentado em uma das poltronas que ficava defronte à lareira, lendo o jornal do dia. Levantei meus olhos vagarosamente para Sherlock, que olhava para mim com as sobrancelhas arqueadas.
–O que foi, Sherlock?
–Eu... fui até o seu quarto...
–Para...? –me remexi na cadeira, fechando o jornal e ficando de frente para Sherlock.
–Eu queria usar aquele espelho grande que você tem no seu armário. Lembra que você disse que eu parecia um morcego com o meu casaco? Eu queria checar isso.
–Certo. Só isso?
Sherlock revirou os olhos.
–John, a sua cama está quebrada!
–Ah! –exclamei, levantando-me e indo até a cozinha. Não queria que Sherlock tivesse visto a cama. Tinha decidido que não iria incomodá-lo com isso- Bem, está. Anda meio desconfortável dormir nela, mas não tem problema, vou consertar ela logo.
–Por que não me avisou?
–Precisava?
–E por que não dorme em outro lugar?
–O sofá é bem mais desconfortável, acredite.
–Eu não estava me referindo ao sofá.
Virei-me com as sobrancelhas erguidas, olhando do chá que estava preparando para Sherlock. Ele tirara o celular do bolso e o jogava para cima, girando-o, como se uma situação constrangedora não estivesse acontecendo.
–Estava se referindo à que lugar?
–À minha cama, oras.
–À sua...
–Não tem problema dos amigos como nós somos dormimos juntos, tem? –cortou Sherlock, enfiando o celular no bolso e fixando seus azuis em mim- E não é como se realmente quiséssemos, é por um imprevisto.
Mas é claro que nós dois queremos, pensei. E Sherlock pensou a mesma coisa, ao mesmo tempo, embora eu não soubesse.
–Bom, se você não vê problemas...
–É claro que não, John. Só traga um cobertor extra e o seu travesseiro –e, dizendo isso, Sherlock sentou-se à mesa, de frente para o seu microscópio.
–Certo –confirmei, colocando uma xícara de chá ao lado dele- Quer leite?
–Por favor.
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Sherlock passou a tarde estudando e eu fiquei no meu notebook. Não nos falamos em nenhum momento. Nós dois sabíamos que o outro estava se preparando para a noite que viria. Poderia ser desastrosa, como também poderia ser épica.
Quando fiquei com fome, cozinhei macarrão e ofereci um pouco ao detetive, que estranhamente aceitou. Nós jantamos juntos, porém em silêncio, e depois Sherlock se ofereceu para lavar os pratos. Consenti e fui para o sofá, ler. Sentei-me em uma das pontas e, pouco tempo depois, Sherlock se juntou a mim, também com um livro nas mãos. Porém, deitou-se na outra ponta e apoiou seus pés em meu colo. Olhei para ele com as sobrancelhas arqueadas e ele deu de ombros, antes de esconder a face em seu livro. Coloquei uma das mãos em sua perna e o acariciei levemente enquanto lia.
Mal sabia eu que havia feito o detetive consultor perder a concentração.
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Ficamos aproximadamente duas horas ali, até que ele finalmente se levantou.
–Vou dormir, John. Você vem?
–Vou colocar meu pijama e estou indo.
Segui Sherlock pelas escadas e entrei em meu quarto. Coloquei meu pijama, fui ao banheiro e escovei os dentes. Quando me olhei no espelho, me senti estranho. Eu queria sorrir. Queria muito. Iria dormir com Sherlock, o homem que eu estava... amando. Mas como um bom soldado, eu não conseguia sorrir. Talvez porque meu alvo estivesse deitado, parcialmente inofensivo, à minha espera. Peguei meu cobertor e meu travesseiro e fui até o outro quarto.
Ele já estava deitado, coberto até a cintura, com as mãos embaixo do travesseiro, de costas para a porta e de frente para a parede. Posicionei meu travesseiro e meu cobertor e me deitei, de frente para as costas dele.
–Boa noite, Sherlock.
–Boa noite, John.
Eu ia fechar os olhos quando percebi um movimento. Era ele, se movendo devagar, para trás.
Vindo em minha direção.
Estendi minha mão e encostei em sua cintura. A parte de cima do pijama havia subido um pouco e meus dedos encontraram a pele fria de Sherlock. Envolvi-o levemente e também me aproximei, puxando-o de encontro a mim, até o momento em que nos tocamos. Apesar de ser bem mais alto que eu, ele se contraíra como um gato, fazendo com que eu fosse a “grande concha” dali. Seu corpo estava completamente frio contra o meu e sua cabeça estava aninhada em meu peito. Levantei um pouco meu pescoço e olhei para ele, percebendo seus olhos ainda abertos.
–Por favor... Não me solte –ele sussurrou, sem olhar para mim.
–Eu não vou –abracei sua cintura de maneira ainda mais forte e afundei meu rosto em seus cabelos negros- Nunca, Sherlock. Nunca.
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