Contos Clichês
1 Uma história para o jornal I
Notas iniciais
A esperança de dias melhores a perseguiam. Mas uma coisa eles tinham em comum.
Era o suficiente para juntá-los, assim como era para separá-los.
Ela entrou no bar agradecida pelo calor que a acolheu. Esfregou as mãos e soprou por sobre as luvas de couro. Deu alguns pulinhos e se encaminhou para a mesa do bar. Retirou a touca, luvas, sobretudo e cachecol. Era impressionante como aquele lugar a esquentava rapidamente. Não sabia dizer se era o fogo sempre bem alimentado da lareira ou se eram os móveis de madeira antigos que liberavam aquela sensação.
Observava o bar de teto baixo, várias mesas e cadeiras espalhadas com poucos visitantes que navegavam em suas canecas de bebidas e fitavam a TV sem interesse que passava algum jogo de futebol. Um estrépito desviou sua atenção e ela suspirou quando viu que era a barman limpando as canecas com um pano limpo.
--Vai querer o que hoje?
--Vocês têm chocolate quente?- já havia ido ali várias vezes, mas desconhecia o cardápio.
A moça levantou uma sobrancelha.
--Sem álcool?
--Por favor.- ela pediu e massageou as têmporas.
Se bebesse mais um gole daquilo, sua cabeça explodiria. Assustou-se quando a mulher pousou uma caneca fumegante em sua frente. O líquido achocolatado parecia tentador. Assoprou e deliciou-se com o gosto que banhava sua língua.
--Como foi a ressaca?- a mulher perguntou, limpando a mesa do bar.
Ruborizou-se. Conhecia muito pouco a mulher. As poucas palavras que tinham trocado eram as regras básicas de educação. Mas a palidez do seu rosto e as olheiras profundas deviam tê-la denunciado.
--Não pude aproveitar. Tinha trabalho.- a mulher se sentou e ela observou sua feições.
O rosto era rechonchudo, com bochechas rosadas lábios pequenos. Olhos que pareciam sempre fechados, mas pôde ver um brilho verde neles. Tinha cabelos loiros escuros e curtos. Vestia uma calça moletom cinza e uma camiseta rosa. Não tinha olheiras e o péssimo estado em que ela se encontrava, mas parecia tão cansada que ela quase foi capaz de lhe dar um abraço. Como se soubesse como era sua dor.
--Trabalho no jornal?
--Como sabe?- admirou-se com os olhos arregalados.
--Sempre observadora e com um caderno em mãos. Já joguei vários sacos de bolinhas de papel no lixo.
--Ah... Desculpa.
--Não se preocupe. Você compensa comprando meus drinks.
--Ah, bom saber que minha fama de alcoólatra está firme.- alfinetou, querendo parecer ofendida, mas no fundo estava envergonhada.
A mulher deixou uma risada escapar. Não parecia se importar com o que tinha dito antes.
--Isto é um bar. Todos são bêbados aqui com histórias desgraçadas. Eu, você, ele- apontou para um homem adormecido em uma mesa-, e até meu pai. Que Deus o tenha.- disse e mostrou a foto de um senhor magro e decaído, pendurada na parede.
--Ah... Claro.- olhou para a foto um momento e deixou os ombros caírem.- Bem, talvez eu seja uma jornalista bêbada.
--Já vi todo tipo de pessoal por aqui, mas uma repórter é novidade! Achei que ficassem cheios de notícias para ter tempo para beber.
--E ficam, mas não sou repórter. Sou uma jornalista mesmo.- a mulher arqueou a sobrancelha. Ela suspirou.- Escrevo para o jornal. O de papel.
A mulher riu.
--Isso ainda existe?
--Os sociólogos acreditam que isso possa evitar o individualismo, manter os bons costumes e incentivar a leitura.
--Mas nos dias de hoje, você e eu sabemos que isso não acontece mais.
--É. E as chances de trabalho são mínimas. Se eu não aparecer com uma história capaz de salvar o jornal,vão fechar a gráfica e “olá” desemprego!- desabafou e voltou a tomar o chocolate.
A mulher a fitou por alguns instantes, como se estivesse debatendo consigo sobre aquela pessoa desnorteada à sua frente. Ela pouco se importou se agradava ou não a mulher. Tinha problemas maiores para se preocupar ao invés de saber se a dona do bar ia com a cara dela. A realidade era que pouca gente lhe dirigia alguma palavra. Observava o líquido e a textura da caneca, quando a mulher voltou a falar.
--Eu tenho uma história.- a frase despertou o interesse dela imediatamente.
--Como?- engasgou com a saliva. Tentou descobrir se era uma brincadeirinha ou não. A mulher, no entanto, fitava a TV serenamente.
--Uma história. Já faz muito tempo.
--Onde foi?- perguntou, tentada em pegar o bloco e anotar cada palavra pronunciada.
--Aqui.
--Será que... poderia?- pediu, acanhada. Quando o assunto era trabalho, era o único momento em que ela tentava perder a vergonha.
--Ah! Claro.- ela se levantou e pegou uma garrafa.- Deixe-me fazer um drink. É uma história longa.
♥
Há anos atrás as coisas eram bem diferentes.
O mundo estava ruindo. Os aeroportos haviam sido fechados por conta da desgraça que o mundo sofria. A camada de ozônio estava se desintegrando e as calotas derreteram, afetando no fim as correntes marítimas. As mudanças climáticas eram terríveis. Nevava no Brasil; enchentes engoliram Nova York; chovia incessantemente no Saara; os rios de Veneza secaram; ciclones atravessavam todo o Atlântico. Não se sabia o que esperar do próximo dia. Os meteorologistas estavam tão confusos quanto seus aparelhos.
♥
Londres, Inglaterra
17/09/2020
A noite era chuvosa.
O cuco já havia cantado às nove horas já fazia vinte e sete minutos. Faltava três para a sua apresentação.
--Está pronta? Papai falou que já estão te esperando!- alertou a menina baixinha com a cabeça dentro do camarim.
--Obrigada, querida.- a menina saiu e a mulher fitou seu reflexo mais uma vez.
Suspirou e encolheu os ombros desnudos. Já não sabia mais o que fazer. Sentia falta de casa. Havia feito uma promessa. Mas amava o que fazia...
Seus pés encharcaram-se ao pisar nas poças que se formavam na calçada rachada. Correu o olhar por toda a rua, a fim de saber se ainda o perseguiam. Seus olhos se detiveram no único estabelecimento iluminado e seus passos o direcionaram para o que parecia uma casa de madeira com uma placa que acendia e desligava em segundos, com os seguintes dizeres.
“Bar dos Wilson”.
Limpou os pés no tapete e entrou com os ombros curvados.
Jamais poderia achar que mais uma de suas fugas se tornariam sua melhor lembrança.
♥
Ela saiu e caminhou com a cabeça erguida até o pequeno palco. Enquanto ajeitava o microfone, a menina se aproximou e estendeu um copo com uma bebida amarelada.
--Está linda.- ela elogiou e a mulher tomou-lhe o copo com um sorriso nos lábios carnudos e rosados.
--Obrigada, querida. Agradeça ao seu por mim pelo drink.- a menina assentiu e saiu correndo para longe.
Sentada, bebendo à espera dos músicas afinarem seus instrumentos, praguejou quando a porta da frente foi aberta e uma corrente de ar envolveu-lhe a nuca. Um homem de sobretudo negro e chapéu sentou-se no bar.
--Preparada?- ela assentiu e aproximou a boca do microfone.
Ele pediu o vinho mais caro da coleção do homem.
--Não vai tirar o casaco, rapaz?- perguntou o barman com os olhos verdes rodeados de olheiras, cabelo ralo e uma barriga saliente, denunciando a idade avançada.
--Dá-me o vinho.- exigiu.
O velho deixou a garrafa aberta e a taça limpa para que o homem se servisse ao seu gosto. Pegou um banco, sentou-se e cruzou os braços com os olhos fixos no fundo do recinto. O homem, curioso, virou-se e arregalou os olhos.
Jamais havia visto tão bela criatura. Claro que estava acostumado a viver entre belas mulheres com quilos de maquiagem no rosto e corpetes tentando esconder o físico não aceito pela sociedade. Mas ela era simples. E só então ele percebeu há quanto tempo não convivia com a beleza natural das coisas.
Ela tinha cabelos castanhos claros presos em um coque alto. Sua pele era tão branca que parecia capaz de refletir a luz do holofote improvisado. Um vestido preto com a saia rodada escondia boa parte do corpo alto e magro. No entanto, os braços e ombros estavam à mostra e as linhas das pernas visíveis, exceto pela sua pele que estava escondida pela meia-calça escura.
Ela cantava.
Sua voz o seduziu. Sem luxúria ou maldade. Era de uma pureza que ele não ouvia há tempos. Chegou até mesmo se lembrar de como era o início de tudo... Fechou os olhos e deixou-se se deliciar com o som que parecia trazer tanta paz e calma para si.
Horas se passaram.
A voz sumiu.
Quando ele voltou a abrir os olhos, já não a encontrou. No palco só estavam os músicos guardando seus instrumentos. Ele se levantou e correu o olhar pelo recinto. Ela já havia desaparecido.
--Vai querer mais um vinho?- ele virou-se e encontrou o barman limpando sua taça com um pano úmido.
--Onde ela está?- perguntou em um sussurro rouco e se debruçando na mesa.
O velho arqueou uma sobrancelha e parou de limpar a taça.
--A garota que cantava! Onde está?!- ele insistiu e apontou para o palco freneticamente.
Quem o visse, pensaria que estava louco. Mas a verdade era que há tanto tempo não sentia serenidade. E como sentia falta! Sua alma já havia sido corrompida. A mesma perturbava seus dias constantemente. A esperança já tinha se esvaido do seu corpo. Até encontrá-la.
--Desculpa. Ela trabalha aqui, mas pediu sigilo quanto sua vida. Não posso ajudá-lo.- e virou-se para ajeitar as garrafas das prateleiras.
Ele praguejou e rodou todo o bar com passos torpes. O efeito do álcool já começava. Depois de passar por entre as mesas três vezes, se dirigiu até o banheiro e enfiou a nuca baixo a água gelada.
Fitou o seu reflexo.
Cabelos pretos caindo sobre as sobrancelhas, rugas criando-se pela pele mal cuidada, as olheiras parecendo dois sacos de carvão pendurados nos olhso azuis sem vida. Levou os dedos para o rosto e tocou cada milímetro, sem se reconhecer. Envelhecia a cada dia mais, sem saber se já não estava morto.
--Ela sai pela porta dos fundos.- uma voz fina e baixinha soou.
Ele baixou a cabeça e se surpreendeu com o fato de uma criança de, aparentemente, seis ou sete anos estar em um lugar adequado para maiores de vinte. Os cabelos formavam perfeitos anéis que caíam sobre seus ombros e terminavam na altura do peito. Um sorriso tímido se encontrava entre as bochechas rechonchudas e logo ela sumiu com passos ligeiros e silenciosos.
Ele balançou a cabeça para retomar o senso e saiu do banheiro até a lareira. Esfregou as mãos diante do fogo e colocou seu sobretudo que estava ali pendurado. Voltou para a chuva e com as mãos escondidas nos bolsos, apressou os pés para os fundos do bar.
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