Contos Clichês
3 Uma história para o jornal III
♥
Naquela noite, ela permitiu que ele a levasse até sua casa. Um apartamento em um prédio modesto de uma rua pacata.
—Obrigada.- ela sussurrou.
—Eu que agradeço. Foi... muito bom.
Ela encolheu os ombros e sorriu timidamente. Havia sido bom, ela tinha que admitir. Após ele confessar que sua vida havia se transformado em um inferno, que todas as pessoas ao seu redor tinham interesse apenas em seu dinheiro, que havia se afastado da família por conta da sua arrogância e que a cada dia não via mais amor no que fazia, conversaram. Sobre coisas banais. Coisas do dia a dia. Coisas que gostavam. Coisas que não gostavam. Coisas simples. Coisas que mostram quem realmente somos.
—Boa noite.- ela desejou e subiu os degraus.
—Ei!- ela virou-se.- Ainda me odeia?
Ela levou os olhos para o céu e engoliu em seco.
—Sabe, amanhã ainda tem show.- comentou quando baixou os olhos castanhos.- E Wilson faz um martini ótimo!
Dito isso, entrou no prédio.
♥
Ele continuou com as noites no bar.
Ela continuava a cantar.
Saíram mais vezes. Eram diferentes em muitos aspectos, entretanto havia algo em comum. Algo que os dois poderiam passar horas e horas conversando, que ninguém mais conseguia entender o que eles viam de tão fascinante e que os ligava de uma forma assustadora. A música. Ele a levou para sua casa e mostrou seus tesouros, os quais ninguém nunca havia entendido o amor que ele tinha. Eram discos, instrumentos, cd's e até mesmo biografias de outros cantores e músicos. Ela se encantou com tudo. E ainda mais pela transformação que ele passava, ao recitar uma melodia favorita, ou com a calma que tomava quando falava do tempo em que cantava com vontade. Eles passaram o dia inteiro juntos. E mais um. E mais dois. E mais outros. Somente eles.
E a música.
♥
Um dia qualquer, ele chegou mais cedo.
Tinha notícias positivas para si. E talvez fosem para ela.
—Olá, Wilson! Como está esta noite?
—Vivo. O que vai querer?- indagou, já pegando uma garrafa de vodka.
—Ela. Por alguns instantes antes do show.- pediu com um sorriso largo.
O velho fitou o relógio.
—Vocês têm uma hora e meia.
—Ah, obrigada!- e correu para os fundos do bar.
Atravessou o corredor e no fim deste estava a porta com uma estrela rosa pregada. Havia sido um presente da pequena Alice. Ele bateu três vezes e aceitou o silêncio como um “entre”. Ela pintava os lábios com um batom nude. Quando ela viu o reflexo dele no espelho, teve que controlar-se para não abraçá-lo sorrindo. Ao invés disso, virou-se e fingiu surpresa.
—Chegou cedo.- notou e ele aproximou-se agarrando suas mãos pequenas.
—Venha.- sussurrou.
—O quê?- indagou, desconcertada com aquele comportamento diferenciado.
Ela nunca havia visto ele sorrir daquela forma.
—Por favor.- suplicou com os rostos a centímetros.
Ela aceitou ao ver seus olhos brilhando pela primeira vez em tanto tempo. Pegou o casaco e saíram pela porta dos fundos. Eles correram até a ponte e ela admirou a lua iluminar o Big Ben. Carros e pessoas cruzavam as ruas e as calçadas, mas ele não disse nada. Continuava a fitar a linha do horizonte, todavia sorrindo.
—O que houve?- ela perguntou com os braços cruzados e observando o rosto dele.
Ele se virou.
—Tenho novidades.
—Eu também tenho.- murmurou com os ombros encolhidos e sorriu timidamente.
—Deixe-me falar primeiro! Por favor!- ela assentiu.- Seu sonho vai se realizar.
—Como...
—Eu conversei com o meu empresário! E conseguiram um iate e uma rota tranquila!
—Ou seja...
—Uma nova turnê!- ele esclareceu e ela deixou os ombros caírem.
—Ah... parabéns...
—E você vem comigo!
—O quê?!- ela gritou, surpresa.
—Você vai cantar comigo! Você, eu, nossa música, nossa voz, podemos conquistar o mundo da música! Imagina o que podemos ganhar?- ela suspirou.
Era bom passar tempo com ele. Ele tinha virtudes, mas seus defeitos se sobressaíam. E isso a preocupava.
—James, por favor...
—Verônica, vamos poder jogar na cara daqueles que duvidaram de nós!
—Mas eu não quero...
—Seremos um dos poucos a rodar o mundo, mesmo com perigo! Seremos mais! E você não terá que voltar para casa porque é o único jeito de você sobreviver decentemente! Nem para seu país ruim! Vamos...
—James!- ela gritou.- O que é isso?- sussurrou com olhos marejados.- Você disse que ia mudar. Que ia tentar, mas na primeira promoção você... resbala...
—Mas é muito mais do que sonhamos!
—Do que você sonhou! Não confunda você, comigo.- explicou.
—Você não vem?- perguntou, perplexo. Poderia jurar que ela aceitaria.
—Lamento...
—Por quê?
—Eu fiz uma...
—Ah! Promessa! Que você fez quando era uma garotinha!- zombou, irritado com a resposta.- Agora, você é uma mulher e pode fazer o que quiser!
—Eu quero honrar minhas palavras.- a face dele tornou-se séria.- Lamento.- desculpou-se e fez a volta.
Ainda tinha um show naquela noite.
—Eu achava que tinha encontrando alguém que se importasse! Alguém especial! Mas você é como todas as outras!- ele vociferou cada vez mais alto, a cada passo que ela dava e a cada lágrima que brotava.
♥
A mulher de bochechas rechonchudas deu o último trago e calou-se.
A jornalista tinha os olhos arregalados e a boca entreaberta. Era tanta coisa para digerir que já havia desistido de pegar o bloco.
—Uau...
—Pois é. Alguma pergunta?
—Por que ela não quis ir? Realmente, foi só por conta da promessa?
—Promessa?- a mulher riu.- Dali a três dias ia sair um avião exclusivo para o Brasil. Acreditavam que aquela semana os tornados iam se dirigir para outro lugar, deixando as rotas livres. Ela podia voltar, mas ela não ia.- ela mostrou surpresa. A mulher voltou a ficar séria.- Essa era a novidade dela. Ela ia largar tudo para ficar aqui. Com ele.
—Mas qual o problema dele aceitar a turnê?
—Eu te contei o resumo, mas em meio às lacunas, nada foi às mil e uma maravilhas. Eles brigavam muito e, geralmente, por conta do comportamento dele. Ele era muito ambicioso. A fama o ensinou a ter valores diferentes. E era muito orgulhoso.
—Orgulhoso? Para ele ter ido procurá-la na primeira vez, não achei tanto.
—O desespero nos leva a cometer atitudes que jamais faríamos em sã consciência. Ele retomou o controle depois e achou que sem ela, ficaria bem. Ele veio procurá-la duas semanas depois, mas já era tarde demais.
—Ele não foi procurá-la no Brasil?
—Não havia mais como. E depois, ele perdeu as esperanças. Não ter fé, é algo triste. É como se você já estivesse morto. Você vive, mas com um corpo oco. Satisfeita?
—Claro. Obrigada...- gaguejou, ainda zonza.
Deixou o dinheiro na mesa e vestiu-se para enfrentar o frio cortante de fora. Porém, antes de abrir a porta, ela virou o rosto para a mulher. Ela ainda fitava a TV.
—Como você sabe de tudo isso?
—Eu era a única amiga dela aqui. Ela chorou no meu colo naquela noite. E, além do mais, eu os apresentei.- ela franziu as sobrancelhas e a mulher esclareceu.- Eu disse por onde ela saía.
Ela deixou a boca abrir, completamente estupefata.
—Você é...- a mulher levantou uma mão.
—Uma história por noite. Se a de hoje salvar seu jornal, volte. Eu te pago outro drink. Ou um chocolate quente.- e sorriu, com olhos tristes.
♥
Fale com o autor