Contos Clichês

6 Entre lençóis e cigarros III


♥

Abri os olhos.

O ventilador de teto do meu quarto estava desligado. Lembrava que estava exausto demais para ligá-lo. Lembrava que estava exausto demais para tomar banho. Lembrava ainda dos seus cabelos, presos no suor do seu corpo e lembrava dos seus olhos, cheios de luxúria e fúria.

Suspirei e sorri como um idiota. Me virei para voltar a sonhar com aquele corpo, mas fui interrompido por um furacão que irrompeu no quarto e teve como destino minha cama. Infelizmente, não sou um morcego e não durmo pendurado em um cabide ou galho.

—O QUE VOCÊ 'TÁ FAZENDO AQUI?!- berrei, bebâdo de raiva.

—Ih, relaxa, Fênix! Você está muito nervoso.- minha “adorável” prima repreende e sentou-se na minha cama, em cima das pernas.

—O que você quer?

—O pessoal quer que você também vá.

—Aonde?

—Na minha casa. Vamos ver uns filmes. Hoje à noite.

—Ah, acho que não...

—Por favor! Me incomodaram a semana inteira. Se quiser, volta cedo, mas vai.- pediu e abriu bem os olhos, chegando perto do meu rosto.

—Eu vou, se você se afastar e deixar eu respirar o ar puro e não esse perfume enjoado de criança.- ela fez bico, porém saiu da cama.

—Estamos combinados?

—Tá, tá. Agora me deixa.- e desapareci baixo as cobertas.

Ouvi a porta batendo e depois, mais nada.

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Eu não queria ir.

Claro que não. No entanto, minha mãe me chutou para fora de casa. Disse que queria “privacidade” com o papai. Eu não questionei. Já sabia que sexo era bom e meus pais mereciam algo do tipo. Sendo assim, bati cinco vezes na porta da casa de Nanda, que era há sete quarteirões da minha. Ela atendeu em menos de um minuto e meio. Arregalei os olhos para sua roupa. Ela apenas riu.

—O que foi?

—Seus pais deixam você ficar assim?- perguntei e apontei para seu pijama extremamente curto.

—Meus pais não estão em casa.- informou e me puxou até a sala.

—E não vão ficar bravos em saber que você se veste assim perto dos seus amigos?- me sentei no sofá e tomei posse do controle.

—Que amigos?- disse e sentou-se perto de mim. Muito perto.

—O pessoal?- perguntei retoricamente. Ela riu de novo.

—Não vêm.

—Por quê?

—E eu sei lá! Cala a boca e vamos ver o filme.- e deu play.

Fiquei concentrado os primeiros vinte minutos, até que senti um braço sobre meus ombros, uma boca no meu pescoço e outra mão na coxa. Eu me encolhi, mas ela insistiu. Então eu a empurrei e saí do sofá.

—Tá louca?- gritei enquanto limpava o pescoço.

Ela se levantou com um sorriso convencido. Subiu as mãos pelo meu peito até segurarem minha nuca.

—Eu sei que você quer.

—Como pode achar isso?

—Porque sei que me olha. Serei caridosa com você, ok? Não mordo.- avisou e aproximou a boca da minha.

—Acho que você bebeu.- concluí e me desvencilhei do seu agarramento.- Não quero. Obrigada.

De repente, seu rosto tomou uma expressão atônita, mas rapidamente mudou para uma possessa.

—Deixe-me ver se entendi: você, Félix-nerd-virgem-que-não-pega-alguém-há-mais-de-dezenove-meses, está me dispensando?

—Sim.- respondi e sorri.

Ela ficou vermelha e grunhiu entre dentes.

—Vaza.

—Perdão, o quê?- fingi não ter escutado.

—VAZA!- e arremessou o controle da TV na minha direção.

Desviei a tempo e fiz continência antes de voltar para a rua.

♥

Não voltei para casa naquela noite.

Pelo menos, não tão cedo. Eu fui para a boate outra vez. Não entrei, nem fui encontrá-la. Marquei outro dia, numa Sexta-feira e fiquei sentado, encarando o segurança. Trocamos olhares (isso soou estranho), até conversarmos sobre o quadro. Descobri que ele havia comprado em um antiquário. Disse que lembrava um dia feliz do seu passado.

—Qual é o seu passado?- ele calou-se e fitou as mãos.

—Há coisas que devem ficar no lá.

Fui embora com a descoberta que mesmo com aquele tamanho enorme e a cara carrancuda era, na realidade, um homem tão sensível quanto a pele fina e úmida de uma rã. É... sua aparência me enganou. Era um cara legal. A gente se divertiu em algumas conversas. Foi o amigo mais sincero que tive. Em toda a vida.

♥

Aquela semana foi tranquila.

Gabaritei todas as provas do colégio e minha mãe adiantou minha mesada. Ela disse que eu podia ficar fora o fim de semana inteiro, com a condição de voltar todo dia para dormir. Transei com ela por três dias seguidos. Foi a mesma coisa que a primeira, mas não enjoei. Com ela não havia como enjoar. Trocávamos poucas palavras, apesar de eu querer o contrário.

Outra semana se passou.

Minha mãe perguntou se eu não falava mais com a Nanda. Eu disse que ela devia passar mais tempo com os amigos de jardim dela do que comigo. Minha mãe riu e foi fazer pipoca. Eu saí porta afora. Só a vi no Sábado. Ela estava com os dias lotados. Mas foi nesse dia que criei coragem para formular algumas palavras com conexão.

—Qual seu nome?

—Lola.

—O verdadeiro.

—Eu não sei.

—Como não?

—Eu esqueci.

—Como?

—Ele não é necessário para mim. Por isso eu o deixei para trás.

—Onde?

—No passado.- e foi tomar banho.

Antes de sair, vi seus olhos marejados. Pelo visto, muita gente ali era atormentada pelo passado. Tempos depois, eu ia ser o próximo.

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Mais uma semana. E mais duas transas.

No Domingo, décima transa, foi nossa segunda conversa.

—Quantos anos você tem?

—Que importa? Não tenho rugas ou carne caída, e ainda tenho uma elasticidade grande.

—Mas há quantos anos você faz isso?- ela se virou e achei que fosse dormir, mas sua voz soou suavamente.

—Desde minha primeira menstruação.

—Qual sua cor favorita?

—Azul.

—E comida?

—Por que quer saber?!- gritou em um pulo e seus seios balançaram.

—Quero saber.

—Por quê?!- parecia ansiosa para a conversa terminar.

—Quero ser seu...

—Meu?!

—Amigo.- mentira, claro. Queria ser mais.

Ela corou violentamente e sua expressão mostrava clara irritação.

—Olhe bem, eu já diminui o preço da transa. Quer mais o quê? Ser amigo para fazer de graça? Então, vamos deixar bem claro que jamais transarei contigo de graça.

—Mas eu realmente quero ser seu amigo.- ela suspirou.

—Já acabamos. Vai embora.

—Mas...

—Vai embora!- e eu fui. Mas ia voltar.

♥

Como eu pretendia, voltei. Porém, com uma surpresa.

Fiquei o Sábado inteiro fora de casa. A reação dela foi engraçada quando me viu chegar às nove horas da manhã.

—O que está fazendo aqui a essa hora?!

—Você é minha hoje. Por um dia inteiro.- contei com um sorriso convenido e ela arregalou os olhos.

—Por quê?

—Gosto da sua companhia.

—Companhia ou corpo?

—Os dois, mas gostaria de conhecer mais a primeira. Se me permitir.- e fiz uma reverência exagerada. Ela riu.

—Certo... a cama está desarrumada, mas...

—Já tomou café?

—Não.

—Se vista. Vamos sair.

—Mas...

—Conheço uma cafeteria perfeita! Vamos, se arrume.- eu mandei e a empurrei para o quarto.

Fiquei no corredor esperando e posso dizer que a espera valeu à pena. Ela vestia um short jeans escuro e uma regata preta. Calçava coturno e o cabelo em uma trança. Não usava maquiagem. Estava simples, porém linda. Descemos até o estabelecimento e ela manteve-se quieta nos primeiros minutos.

—O que espera com tudo isso?- perguntou quando o café chegou.

—Respostas. Então, quantos anos você tem?

—Vinte um.

—Qual seu passado?- respondeu e sorriu divertida.- Não se preocupe, eu tenho paciência.

—Mas a vida não.

—Por quê?

—Conclusão minha.

—Adoraria entendê-la.

—Vai ficar querendo.

Revirei os olhos e ela riu. Depois conversamos sobre coisas banais. Descobri que ela gostava de perfumes doces, chocolate ao leite e queria conhecer a França. Eu disse que ia levá-la e ela riu. Contei para ela que era viciado em games, escrevia em um blog idiota com histórias idiotas, sem vontade de ser alguém na vida e gostava de Harry Potter. E ela riu de novo. Depois fiz bigode com a espuma do café para ouvir seu riso outra vez. Seria capaz de dançar macarena fantasiado de palhaço no Maracanã, se ela deixasse eu ouvir sua risada todo dia.

Depois voltamos para o quarto e transamos. Eu fiquei por cima. E na boa? FOI MUITO MANEIRO! É legal ficar no controle e não parar mesmo quando imploram. Depois fumamos enquanto jogávamos cartas e esperávamos o almoço; ligamos para um restaurante japonês. Depois dividimos um cigarro e tomamos banho juntos. E eu fui por trás! Depois voltamos para o quarto e ela dormiu em meus braços depois de ter ouvido minhas piadas patéticas. Pelo menos, ser idiota uma vez na vida serviu de algo; dormi com o som da sua risada.

♥

Fiquei duas semanas sem vê-la.

Não podia me descuidar dos estudos ou passar estranhas impressões para meus pais. Marquei por telefone na quinta para ir na sexta. Quando cheguei ela não falou comigo. Deitou na cama e esperou. Aquela vez foi relativamente boa, mas ela parecia... distante.

—O que houve?

—Nada.

—Fale.

—Vai embora. Agora.- tentei abraçá-la, mas ela me empurrou.

Bufei.

—Ok!- e saí.

Antes de voltar para casa, o grandalhão pigarreou de propósito.

—Quê? Eu já paguei.

—Se decida se quer prazer ou sentimentalisamo, ou proibirei sua entrada.

—Quê?!

—Pare de magoá-la.

—Quando que eu o fiz?!- ele me olhou cético.

—Talvez quando desapareceu por duas semanas e aparece apenas para sexo?

Bati no rosto.

—Ela ficou magoada?- ele assentiu.- Espera, ela fica magoada?

—Ela aparenta ser algo, mas não significa que o seja. As aparências enganam.

—'To sabendo.

Eu não sabia de nada.

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Descobri que às duas horas era a folga dela.

A persegui até a lanchonete onde ela almoçava. Após eu a ter puxado para explicar o porquê do meu desaparecimento, ela ter me xingado e seus olhos terem marejado demonstrando que ela havia sentido minha falta, eu a empurrei contra um banheiro e aquela foi a décima e quarta transa. Eu a paguei depois, claro. Depois fomos em um cinema e como era chato o filme, fizemos a tão famosa “mão boba” e ela me chupou. Sim, eu repito: ELA ME CHUPOU! Foi incrível. Não faço a mínima ideia do que ela fez com meu gozo. Eu estava vendo estrelinhas de prazer naquele momento.

Voltamos para a boate em meio aos risos, mas de repente, ela parou e fechou a cara.

—Vá para casa.

—Quando posso te ver de novo?- ela sorriu de lado, com um olhar melancólico.

—Marque a hora. Já sabe o número.

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Mais quatro vezes.

Me lembro que foi na décima oitava. Não lembro qual era o número dessa conversa. Acontece que eu a visitava no meio da semana, sem dia exato, mas sempre às duas horas. Descobri com o tempo que ela não era o que as outras “trabalhadoras do local” ficavam cochichando no corredor. Ela era engraçada, sensível e insegura. Ela não dizia, mas a cada dia era mais transparente aos meus olhos. E era triste. Ela ria de tudo e fazia piadas junto comigo, mas eu a vi ter muitos surtos de choro e gritos. E não, não era a TPM. Era algo muito mais do que estresse do corpo...

Porém, aquela conversa me assustou porque o que ela havia dito, eu jamais poderia imaginar.

—Você vai embora?

—Bem... tenho que ir para casa, sabe? Amanhã tenho prova de matemática e...

—Você volta?- observei seus olhos melancólicos e naquele instante, me apaixonei de verdade por ela. Sem porquê, sem pra quê; sem como, sem onde; apenas aconteceu.

—Sim. Eu volto.

Achei que ela fosse chorar, espernear ou gritar como fazia nesses momentos incompreensíveis dela. No entanto, ela sorriu e me abraçou. Quando senti o calor do seu corpo nu sob minhas mãos, não contive meus anseios e a joguei na cama outra vez.

♥

Em um fim de semana, fizemos quatro vezes; duas a cada dia.

Eu não ia vê-la mais por duas semanas seguidas. Ia começar os estudos para tentar entrar em alguma faculdade. Não estava preocupado, no entanto, minha mãe já me lançava olhares furiosos por eu não estar me “esforçando para o meu futuro”. E como eu não queria ser descoberto, acatei com seus desejos e enfiei a cara nos livros. Primeiro, eu fui na Sexta e depois, no Sábado. E foi na segunda vez que tive uma “bela” surpresa...

Eu começava a criar uma péssima mania de chegar mais cedo e só não entrava no quarto meia hora antes do marcado, porque o grandalhão me barrava. Eu ficava na salinha, esperando pacientemente (mentira, eu tinha vontade de quebrar o quadro de tanta ansiedade) para eu subir. Nesse dia, ele deu uma escapada para o banheiro e eu subi para o corredor. O erro dele foi ter deixado eu espiar onde guardava a chave do alçapão, atrás do quadro.

Corri para o quarto e abri a porta em uma enorme brutalidade. Meu sorriso se desfez na hora. Perdi o ritmo da respiração e a ficha caiu novamente.

Ela estava por baixo e ele, por cima. Ele era bem rápido e o corpo dela tremia abaixo, enquanto seus lábios finos deixavam escapar seus doces gemidos pelo quarto. Eu não me movi. A cena me deixou estático. Depois de segundos, ela entreabriu os olhos e parou seus movimentos. Ela o empurrou gentilmente por um lado e veio até mim em passos lentos.

—Sua hora ainda não chegou.- alertou, sem emoção na face.

Bati a porta com raiva.

Fiquei escorado, esperando e meditando. Por que eu estava bravo? Não havia porquê. Eu sabia o que ela fazia. Era óbvio que o tempo dela era dividido em treinos de pole dance e outros caras. Então, por que, diabos, eu me sentia traído? Depois de meia hora, o cara saiu. Ninguém me convidou para entrar. Nenhum som emitiu de lá. Entrei do mesmo jeito. Ela fumava na cama com as pernas cruzadas como índio. Vestia uma camisola transparente.

—Olá.- instintivamente, eu a ataquei.

Digo, não a bati, maltratei ou feri. Apenas desconti minha fúria no que eu a havia pagado para fazer. Depois de meia hora, vesti a calça e senti seu olhar queimar minha nuca. Virei-me e ela me encarava com um olhar intenso.

—O que foi?- grunhi.

—Quer mesmo que eu responda? O gênio não consegue pensar sozinho?

—Impressão minha, ou você está bravinha?- perguntei ironicamente enquanto fazia um beicinho.

—Vai embora.- sussurrou.

—O quê?

—Vai embora!- gritou e levantou-se, me empurrando para o corredor. Segurei suas mãos, impedindo-a de se mexer.

—Agora vai ficar putinha? Não tem dessa! Por que você acha que é só você que sofre?!

—Nunca achei isso!- gritou e eu gritei de volta.

—E por que está putinha?!

—Porque eu sou uma!- eu engoli em seco. Merda.- Porque você sempre soube o que eu quera! Sempre soube o que eu fazia! E ainda assim, insistiu! A culpa não é minha se você sofre pelo próprio erro!- terminou de gritar em meio as lágrimas e soltou-se de mim.- Você acha que é fácil para mim? Pois saiba que não é! Você não me conhece direito! Não sabe de nada! Vai embora, já que não aguenta! Vai embora, já que não suporta! Vai embora e seja outro hipócrita que me fez acreditar em dias bons, imbecil!- e caiu na cama.

Os segundos pareceram congelar. Eu estava errado. Claro que sim. Eu poderia ir embora e achar outra fácil. Ela estava me deixando ir, mas eu queria ir?

—O que está fazendo?- murmurou, enxugando as lágrimas.

—Nunca ouviu falar em abraço?

—Mas você devia...

—Sh! Fique quieta e me desculpe. Fui um idiota.- ela riu baixinho.

—Sim. Você foi.- beijou meu pescoço e eu afaguei seus cabelos. Fizemos mais uma.

Eu não queria ir. Não queria deixá-la. Nunca quis.

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