Contos Clichês
5 Entre lençóis e cigarros II
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—E aí, Fênix! O que achou?- perguntou o rapaz loiro quando saímos da boate.
—Bem... legal.
LEGAL?! O que eu realmente tinha achado é que eu queria me tornar cliente V.I.P o quanto antes possível. Porém, não tinha como eu passar todo meu entusiasmo e fascinação por voz oral. As imagens do seu corpo estavam vivas na minha mente. Eu precisava tocar aquela pele, como nunca quis tocar outra.
—Eca.- me virei e Nanda revirava os olhos com braços cruzados.- Vocês têm péssimo gosto.
—Por que acha isso?- dessa vez, foi o garoto do cabelo-quase-azul.
—Por quê?! Ah, fala sério, Thiago! Negra e gorda? Péssimo gosto!
—Não seria morena?- perguntou Thiago, coçando a nuca, confuso.
—Depende da preferência da própria pessoa, dona de si. Mas entre nós, por não a conhecermos e não podemos perguntá-la, qualquer dos termos convém, dependendo é claro do tom usado.- respondi, olhando de esguela para Nanda, a qual deu de ombros e fingiu não me ouvir. — E a propósito: não era gorda. Ela tinha uma barriga bem lisinha. Suas pernas que eram bem carnudas.
—Não duvido que era silicone.
—Um último ponto a ser notado: está com inveja.
—O quê?! Por que eu estaria com inveja?!
—Porque, por um momento, o centro das atenções não era você e porque a nossa “coisinha” entre as pernas ganha muito mais vida com ela do que com você.- suas bochechas coraram.
—Não sabe do que sou capaz.- grunhiu entre dentes.
—Você é fofa. Não excitante.- informei a ela e entrei no carro.
Certo que eu já havia ficado excitado, sim, com ela. Mas depois de ver aquela mulher, Nanda parecia mais uma boneca que uma professora pornô. Vi sua figura fazer a volta pelo carro batendo o pé e ouvi seus bufos até chegar em casa. Fora isso, não houve muitas complicações. A não ser que continuar excitado por mais alguns minutos apenas com a lembrança, fosse uma complicação.
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Sábado.
Eu voltei lá de novo, mas sem a “cliente V.I.P”. Tudo bem que eu devia agradecer a ela por ter me levado para tal belíssimo lugar, mas já estava cansado de sua companhia. Bati na porta três vezes e esperei. Olhei para os lados da rua, com uma grande apreensão de ser pego no flagra. Quem me conhecia por aquele lugar? Ninguém. Não que eu me lembrasse, pelo menos.
Meus pais haviam ficado bem felizes de saber que eu ia sair outra vez. De acordo com eles, “o mundo que criamos para nós, é belo e seguro. Mas não é o mundo real. E, infelizmente, vivemos no mundo real”. Mas acho que eles não sabiam como era o mundo que eu queria. E o melhor era que continuasse assim. A porta entreabriu-se, como na noite anterior, e o mesmo segurança clichê retirado de filmes americanos me fitou intensamente.
—Estamos fechados.- avisou e olhou por cima do meu ombro.
—Se realmente estivessem, você estaria de folga.- repliquei e percebi o maxilar do homem se projetar para frente.
Por um momento, tive medo de morrer.
—Veio por quê?
— Drugs, sex and rock n' roll.- brinquei. Ele continuou com a mesma cara.-Não sou espião, nem polícia.- ergueu a sobrancelha.- Sou cliente.
—E o dinheiro?
—Dinheiro?
—Claro. Pensa que é de graça?
—Bem... ontem passei limpo.
—Ontem já passou. Devem ter pagado para você. Hoje são trinta reais.
Arregalei os olhos, mas tirei a carteira da calça e lhe dei as notas altas. Ele as pegou na ponta dos dedos e fechou a porta na minha cara. Estava tentando dirigir a ideia de ter sido enganado, quando ela se abriu de novo e deixou a passagem livre.
—Seja bem vindo.- e estendeu a mão para a outra porta que dava à pista.
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Parecia mais cheio do que na sexta.
Sentei no mesmo lugar de ontem e cuidei o horário, mas ela não veio. E eu fiquei puto. Meio tonto por conta das três garrafinhas pretas, eu era jogado de um lado para o outro enquanto tentava chegar até a salinha de recepção que havia entre a pista e a rua. Quando cheguei, o segurança gigante estava sentado em uma poltrona com as pernas cruzadas enquanto lia um livro. Observei aquela imagem surpreendente, até ele perceber minha presença e jogar o livro pelo ombro.
—Posso ajudar?- parecia envergonhado. Tranquei o riso.
—E a apresentação?- ele arqueou as sobrancelhas.- Pole dance.
—Hoje ela está trabalhando.
—E ela não devia estar lá?
—Ela é uma mulher atarefada. Tem mais de um emprego.
—Ela trabalha em outra boate?
—Não. Apenas aqui.
—E?
—O quê?
—Cadê ela?
—Por que o desespero?
—Preciso vê-la.
—Tem hora marcada?
—O quê?- perguntei desconcertado e ele revirou os olhos.
Levantou-se e cruzou a sala até o outro lado, onde tinha uma mesa alta e um caderno.
—Durante a semana ela está ocupada, porém estará livre no próximo Sábado, às 21:00. Ela decidiu por conta própria baixar o preço. De duzentos reais, foi para oitenta e cinco. À vista ou parcelado?
—Perdão, mas pelo o que eu estaria pagando?
Ele me encarou e logo depois, riu.
—Ah, não precisa fingir, rapaz! Não iremos pedir seu nome ou idade, se é esse o medo. Te daremos o número e você vem. Simples. Sabemos que a fama da Lola está crescendo, até mesmo entre os casados.- engoli em seco.
—Que fama?- ele continuou a rir e me deu um tipo de ticket com um número. 23.
—Da melhor prostituta da região! É óbvio! Tenha uma boa noite!
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Os dias passaram vagarosamente.
Era uma sensação estranha. Eu sentia tudo o que fazia de forma rápida, porém, tudo ao meu redor parecia comportar-se como uma tartaruga. Logicamente, eu deveria ter recusado e ter me surpreendido. Não minto: sim, me surpreendi, sem razão. Ela dançava em uma boate seminua, por que não rodaria bolsinha na esquina? Mas eu aceitei. Os porquês:
Ela era gostosa.
Precisava vê-la de novo.
Eu tinha economias de meses sem destino.
Eu era virgem.
Acho que apenas o último porquê, era o suficiente para eu ter aceitado o ticket e ter voltado para casa após ter esgotado toda a grana da carteira com a ansiedade consumindo-me pelo próximo sábado.
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Sábado chegou.
E nunca me senti tão nervoso como naquele dia. Tudo bem, era uma prostituta, devia estar acostumada. Não estava nervoso por ela ou fazer feio, mas por mim. Perder a (enfim!) virgindade com dezessete anos. Nenhum segundo de total prazer deveria ser escanteado. Se eu estava ansioso? COMO NÃO ESTAR?! Eu ia transar! Enfim eu ia compreender o que meus amigos tanto falavam de “mamar” ou “roçar antes e ver a fúria nos olhos dela antes de enfiar”.
Saí sem meus pais reclamarem. Se o colégio me atrapalhava? Eu era o 02 da minha turma. Só não era o 01 porque tinha pena daquela gordinha que era zoada constantemente. De qualquer forma, os trabalhos estavam prontos e dali uma semana, iam começar as provas. Eu tinha que aproveitar o tempo livre com algo interessante.
Cheguei às 20:30
Bati na porta e era o mesmo segurança emburrado.
—Vem cá, você não tem folga, não?- perguntei e ele grunhiu algo indecifrável.
—É às nove horas.
—Eu sei.
—E?
—E o quê?
—O que está fazendo meia hora adiantado?!
—'To nervoso.- confessei.
—Você é virgem?- engoli em seco.
—Bem...- ele disparou a rir.
—Para sua primeira vez, fez uma escolha muito boa, rapaz.
—Obrigada, eu acho...- murmurei desconcertado.
—Olha- começou a dizer e colocou a cabeça um pouco para fora-, ela está descansando. Ela sempre tem meia hora de descanso antes. Mas se está ansioso, posso falar com ela e você faz companhia até ela ficar pronta. Tem problema com fumaça?
—Hã?- revirou os olhos.
—Você tem problema nos pulmões?
—Não.
—Ótimo. Venha comigo.
Entrei na salinha e ele foi até a mesma de recepção, com o intuito de usar o telefone. Fiquei encarando o único quadro do recinto. Uma paisagem de horizonte infinito com um carvalho no meio.
—Ela aceitou. Venha, mas faça silêncio.- dito isso, virou-se para a parede e a única coisa que vi foram seus ombros se mexendo.
Em seguida, uma parte vertical da parede se levantou como um alçapão e ali dentro, via-se uma escada que subia. Minha boca abriu-se por completo e meus óculos escorregaram até a ponta do nariz.
—Nunca vou me cansar de ver essas reações.
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Subi as escadas atrás do grandalhão e acabamos em um corredor mal iluminado e recheado de portas de madeira com a pintura descascando. Cheirava a bebida, cigarro e água sanitária.
A cada passo que eu dava, podia ouvir sussurros e gemidos por trás de qualquer um dos quartos. Quase no fim, o grandalhão parou à frente de uma das portas. Dei um pulo para o lado quando ouvi um berro ecoar no recinto.
—Não se preocupe. Virgínia é um pouco escandalosa.- contou o segurança e deu três batidas na madeira.
A porta se abriu e ele cumprimentou ela com a cabeça. Passou por mim e largou um tapinha no ombro.
—Aproveite a noite, rapaz.- e sua silhueta ia diminuindo pelo corredor.
—Bem, antes de mais nada, temos que conversar sobre os termos de uso.- me virei e me controlei para não deixar a boca cair e ele levantar.
Os cabelos presos em um coque. Camisola rosa deixando as coxas roliças à mostra e alças curtas que, infelizmente, deixavam o decote bem no alto. No entanto, era uma bela vista. Seus olhos eram escuros, quase negros. Seus dedos brincavam de balançar um cigarro e por entre seus lábios, a fumaça subia até o alto e logo se espalhava pelo corredor.
— Entre.- e o fiz, fechando a porta com as mãos trêmulas.- Me chame de Lola.- alertou e se sentou na beira da cama com as pernas cruzadas.
—Belo nome.- gaguejei.
—Não é meu nome.
—Como?
—Apenas me chame de Lola.
—Ah, claro! Como quiser!- pigarreei e dei o meu melhor sorriso amarelo.
—Por que está tão nervoso?- olhei para os meus tênis.- Você é virgem?
—Defeitos da vida.- e dei de ombros.
Ela meneou a cabeça e levantou-se. Aproximou-se e pude sentir o cheiro de cigarro e canela.
—Tem certeza que quer isso?
—O quê?
—Sua primeira vez.
—Por que não? São dezessete anos, sabe? Se não for agora, nunca será.- ela suspirou.
—Como queira. Mas tenho algumas exigências.
—Do tipo?
—Primeiro: apenas transo com homens que fumam.
—Por quê?
—Tenho repulsa à homens “limpos”. Me acostumei com o cheiro de cigarro na pele.- tragou mais uma vez e jogou o resto por uma janelinha de ventilação que dava para um beco.- Segundo: não beijo meus clientes. Então, sem gracinhas.
—Por que não?
—Gosto do cheiro de cigarro. Não do gosto. E outros motivos.
—E por que fuma? Não faz sentido!
—Porque o meu corpo é viciado. Não minha alma. Ele precisa das 4.600 substâncias tóxicas que tem nesta merda.- se agachou frente à cama e mordi os lábios.
O contorno dos seios aparecia. Debaixo da cama, ela tirou um maço de Malboro e o estendeu para mim.
—Eu vou ao banheiro. Fume rápido. Tenho mais um depois de você.- e saiu do quarto.
Ela não era bem o que eu esperava. Digo, pensei que fosse me jogar na cama, abrir as pernas e fim. Mas não era. E eu gostei disso.
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