Contos Clichês

4 Entre lençóis e cigarros I


—Félix!- revirou os olhos.

—Já vou...

—Félix!

—Já disse que já vou!

—Félix!

—'TO INDO!

Fechei a aba do Redtube e tirei a mão da calça. Saí do quarto e desci as escadas. A cada passo, podia ouvir as risadas aumentarem. Não que eu odiasse churrascos em família, desde que não atrapalhassem a minha terapia de garoto-virgem-de-dezessete-anos-e-sempre-chutado.

—Ah, saiu da toca!- minha mãe exclamou e todos me cumprimentaram com um sorriso.- O que estava fazendo?- ela perguntou no meu ouvido.

—Trabalho do colégio.- ela me fitou com seu olhar 43 e aceitou minha versão.

—Vou pegar mais refri. Já saiu coraçãozinho.- avisou e apontou para a churrasqueira.

—O seu favorito também, Félix!- exclamou Douglas, um primo. Ergui a sobrancelha.- Linguiça.

Os outros dois primos e as três primas dispararam a rir. Os adultos repreenderam Douglas. Eu sorri cordialmente e fui me servir. Meu pai assava a carne e colocou um pedaço farto no meu prato.

—Está bem?- perguntou. Deve ter percebido minhas bochechas coradas.

—Sim.

—Douglas?

—Sim.- meu pai riu.

—Ignore ele. Veja bem.- observei meu primo de dezenove anos ainda concluindo o terceiro ano e bebendo uma garrafa de cerveja sozinho-, não será ninguém. Vocês são bem diferentes.

—Tá bem, pai.- concordei e fui sentar.

Outro fato: não que eu não quisesse escutar os conselhos do meu pai, mas acreditar que eu poderia ser melhor que alguém, era difícil.

Não que minha autoestima fosse baixa (mentira, era uma merda), mas tirando minhas notas perfeitas que os professores não valorizavam porque me achavam metido e arrogante, não havia muito atrativos em mim. Digo, beijara quatro garotas até os meu dezessete anos de existência e apenas uma durou por algum tempo. No entanto, me trocou por um garoto formado em engenharia e cinco anos mais velho que eu. Acho que o fato de ser magrelo, ter o rosto preenchido por espinhas e usar aparelho acompanhado dos óculos “fundo de garrafa” não ajudava muito. Porém, já não dava mais importância a isso.

Almocei afastado dos primos e me dignei a fingir interesse nas conversas dos adultos. Foi tão divertido, que eu quase dormi. Quando todos estavam distraídos, aproveitei para voltar para o quarto, mas antes que pudesse fechar a porta, Nanda entrou rapidamente e me dirigiu aquele sorriso exagerado de sempre.

—E aí, Fênix!

—Félix.- corrigi.

—Tanto faz.- deu de ombros e começou a pular na cama.

Revirei os olhos e fechei a porta. Como não podia visitar meu site favorito, comecei a escrever no blog. Senti algo no ombro e diminuí a tela.

—Qual seu problema?- perguntei, sabendo que Nanda observava o que eu fazia.

—Sei lá!-e voltou a pular na cama.- Por que você não lê livros?- perguntou enquanto pulava e observava as paredes nuas.

— Eu leio.

—E cadê eles?

—Aqui.- e voltei a escrever no computador.

—Por que você lê histórias aí?

—Porque eu prefiro.

—Por que prefere?

—Porque é mais prático.

—Por que é?

—Por que você faz tantas perguntas desnecessárias?!- exclamei, virando-me.

—E por que você sempre se irrita?

—Desisto de falar contigo!

Ela riu e deu um último pulo que acabou por se sentar na cama.

—Relaxa, Fênix. Vim conversar na paz.- e levantou dois dedos.

—Você? Só pode mesmo, porque se comporta como uma criança.- ela fechou a expressão e baixou o indicador, deixando o dedo do meio.

— Estou tentando ser legal. Aproveita.

—Aproveitaria se você tivesse algo a me oferecer. Algo que me interessasse. E não piadinhas infantis.- e voltei para o maravilhoso mundo da internet.

—Acredite, isto interessa qualquer um como você.- na mesa, um papel foi jogado.

Era um cartão. Nesse, havia uma boca vermelha e do lado, letras cursivas brancas sobre um fundo negro. Arregalei os olhos.

—Mas isso é...

—Uma boate. Ou um puteiro, em palavras vulgares. Eu vou com uma amiga e três garotos da minha sala. Está convidado. Sexta, às oito a gente passa aqui para te buscar. Diga para sua mãe que vamos em um cinema. Acho que isso é melhor que sites pornôs.- e se levantouda cama.

—Por que você disse que interessaria qualquer um como eu?- ela se virou antes de fechar a porta e lamber os lábios, fazendo minha nuca esquentar.

—Qualquer um que tenha essa “coisinha” entre as pernas.

♥

Sexta-feira.

Coloquei os óculos e fui para a sala. Minha mãe mexia no notbook com a TV ligada enquanto comia pipoca e falava com a irmã dela pelo telefone. Como ela gosta de dizer, “uma mulher ligada nas novidades”.

—Mãe, já 'to indo.- ela afastou o aparelho da orelha e me jogou um beijo.

—Vai com Deus, filho. No máximo, duas horas da manhã.

Fiquei esperando na calçada, em frente a casa. Enfiei as mãos nos bolsos, depois de erguer a gola para me proteger do frio.

—Aleluia!- exclamei depois de meia hora de espera.

O carro parou e a porta de trás foi aberta. Do outro lado da janela estava um casal se pegando sem vergonha alguma.

—Mas que porra...

—Entra logo, Fênix!- gritou Nanda do banco de carona.

Depois que o carro afastou-se da minha casa, observei os meus futuros acompanhantes da noite. O casal continuava a se pegar. Perdão. Correção: continuava a se engolir. Ela era loira e ele, moreno. O que dirigia era loiro e do meu lado era um japa com cabelos tão negros que com a luz, parecia ganhar uma tonalidade azul. Nanda dançava junto com o motorista ao som de “We're the champion”. O cara do cabelo negro-quase-azul virou-se para mim.

—Seu nome é mesmo Fênix?- minha prima riu. Filha da mãe.

—É, cara. Na verdade, sou a Fênix de Dumbledore. Fui embora de Hogwarts porque não aguentei de saudades do meu vovô.

Todos riram, exceto o cara do meu lado, que parecia não ter entendido a piada. Nanda se virou.

—Ele é lerdo. Ignora. É capaz de você pegar mais que ele hoje.

—Quem não vai querer esta beleza?- brinquei e apontei para mim.

Ela correu os olhos e se aproximou, deixando à vista seu decote.

—Quem não vai, né?- e mordeu os lábios.

Nanda era capaz de me excitar, assim como qualquer outra. Mas ela era minha prima. Algo a mais que observar seu corpo jovem e trabalhado de garota de quinze anos e imaginar como seria uma noite junto àquela beleza da natureza, estava fora de cogitação.

Confesso que havia ficado surpreso. Não esperava aquele cartão de Nanda. Ela tinha aquela carinha de menina inocente, com piadas toscas, comportamento infatil e notas regulares. Não confiava nela. Sabia que ela não era nenhuma santa, mas não achei que era ao extremo. Como pude perceber, nunca conhecemos realmente alguém. Digo, por mais que saibamos sua ficha inteira, a gente nunca conhece de verdade. Nunca mesmo.

♥

A boate estava vazia. Pelo menos, na frente.

Só dava para saber que estava aberto por conta das letras acesas. O amigo de Nanda estacionou bem na frente e não pareciam preocupados com a ideia de serem vistos ou não. Nanda bateu na porta e a mesma foi aberta, deixando apenas uma fresta de onde podia se ver um olho e uma careca brilhante.

—Somos nós.- o olho se revirou e a porta foi aberta totalmente.

Era um cara de terno, alto e musculoso. Franzi o cenho depois de nos afastarmos e entrarmos na multidão dançante.

—Um segurança careca e fortão? Que coisa mais clichê!- repreendi.

—Não reclame para mim, reclame com o dono.

—Que você deve conhecer muito bem, já que o homem só bateu o olho em ti, te reconheceu e deixou a gente entrar.

—Sou cliente V.I.P.- explicou e jogou-se em um sofá com uma mesa no centro.- Relaxa, daqui a pouco trazem as bebidas.

Me sentei ao seu lado e rodei os olhos pelo lugar. Sem fumaça, porém, poucas luzes e estas eram coloridas. O casal desapareceu e o loiro já estava dando em cima de uma ruiva peituda. Corpos dançavam, bocas se beijavam, mãos masculinas atacavam a puberdade feminina e línguas saboreavam bebidas alcoolizadas. Era o paraíso da orgia. Para ser sincero, não me lembro da estrutura do local. O que me lembro era do bar, banheiros e dois palcos redondos com um poste fino no meio. O resto, pouco me importei. Para que me preocupar com saídas de emergência quando a paisagem de coxas e ombros desnudos era muito mais interessantes?

—Está servido de quê, Fênix?- voltei o olhar para minha prima e atrás dela e do sofá, tinha um garçom com várias bebidas na bandeja.

—Ah, sei lá.

—Um “sei lá”, por favor.- e o garçom lhe entregou uma garrafa preta e retirou-se.- Aproveite!

E ela virou uma garrafa de vodka na boca. Abri a minha e virei o líquido em direção a minha boca. Fosse o que fosse, era uma delícia! Com o gosto de doce de leite, mas dava para sentir o álcool arranhar a garganta. Depois da primeira, vieram mais três. Quando eu já estava abrindo a quinta, o loiro reapareceu a me tomou a garrafa.

—Ei, qual é amigo...- pedi com a voz meio grogue.

—Acredite, você vai querer estar sóbrio daqui a pouco.- e sentou-se ao lado de Nanda.

Estranhei suas palavras, mas fiquei quieto. Ele já havia ido naquela boate inúmeras vezes. Devia saber do que falava. Depois de um tempo, todos se sentaram e o local inteiro ficou escuro. Uma música qualquer, que descobri ser Bossy por conta de Nanda sussurrar em meu ouvido, começou a soar no recinto. Admito que minha nuca esquentou ao sentir seus lábios roçando em minha orelha, mas quando os dois palcos se iluminaram, minha mente se fixava apenas no que estava à minha frente. E nela.

A luz provinha de lâmpadas que contornavam o redor do palco, deixando a pele morena de suas pernas visíveis. Eram coxas grossas que suportavam uma cintura fina, seguida de um quadril largo. O mesmo se requebrava ao som da música, balançando suas nádegas escondidos pelo short preto e brilhante. Sua barriga estava descoberta, fazendo-me imaginar como seria a textura que rodeava seu umbigo. Seus seios balançavam e uma vontade imensa de arrancar seu top e descobrir a cor dos seus mamilos, atacou-me violentamente. A prova disso, era o volume exagerado entre minhas pernas.

Seu corpo dançava, rebolava, e requebrava no palco. Depois de alguns segundos, suas mãos subiram e suas pernas rodearam o pole dance. Jogou suas costas para trás e seus cabelos negros e escorridos deixaram o seu rosto à mostra. Estava de olhos fechados, mas a boca fina, o nariz reto e o rosto pontudo me fascinaram. A gravidade trazia seus seios para baixo e ela os balançava, junto com os ombros. Voltou a se pendurar e escalou o pole dance. Quando chegou no topo, levantou as pernas para o alto, equilibrando se apenas com uma mão. Suas pernas se enroscaram novamente, mas dessa vez, soltou as mãos e começou a descer enquanto seu corpo girava. Parou no chão, porém não levantou-se. Pelo contrário, seu peito começou a subir e descer e suas mãos percorriam suas coxas e o interior deles.

Aquilo era uma menção ao sexo. E como eu queria ser aquele pole dance no qual suas pernas roçavam. Ela levantou-se. Seus quadris requebravam até o chão e quando abriu as coxas, jogou os cabelos para trás e lambeu os lábios, as luzes apagaram e seu corpo sumiu, junto com os brilhantes da sua roupa.

♥