Contos - Aventuras Mágicas
10 Ondas douradas
Notas iniciais
Outro dia...
Mischief tinha acabado de sair do banho quando decidiu se sentar na varanda de casa para relaxar antes de ir se deitar.
Seu longo cabelo castanho ainda estava molhado quando se abaixou nos degraus olhando o céu estrelado daquela noite fresca. Não havia quase ninguém andando pelos caminhos de areia da vila e o som dos insetos era a única coisa que se ouvia.
Seus olhos passaram pelos postes acesos com fogo esverdeado o lembrando que isso era um sinal de que não choveria e estavam seguros para sair pelos arredores. Depois ouviu as vozes no fundo da casa atrás dele deixando claro que ainda era cedo para dormir.
Tinha trabalhado o dia todo como de costume, mas não estava tão cansado como normalmente ficaria. Ainda queria aproveitar aquela noite linda antes de se entregar para o próximo dia, mas não tinha ideia do que fazer.
— Eu quase não te vejo por aqui essa hora.
Foi quando estava começando a se fazer sugestões que uma voz gentil chamou sua atenção. Desviando o foco das estrelas ele encontrou, parada alguns passos a direita dele, a jovem Alcione que o olhava sorrindo com os olhos o instigando a fazer o mesmo.
— Posso dizer o mesmo de você. – Se ajeitando melhor, direcionou toda sua atenção para ela mostrando uma curiosidade amigável. — O que faz por aqui?
— De passagem. – Respondeu olhando ao redor enquanto se aproximava para encostar na pilastra próxima a escada deixando claro que assim como ele não tinha plano algum. — A noite estava me convidando para dar uma caminhada e aqui estou.
As palavras eram ditas com calmas enquanto sua voz soava cheia de empolgação. Falar com ela sempre trazia essa sensação de bem estar. Talvez fosse por sua positividade ou por simplesmente gostar de tudo o que fazia.
Mischief a observou por alguns instantes sem nem notar o sorriso no rosto a vendo fitar o céu como se procurasse por algum tesouro escondido. Ele nunca tinha se dado conta do quanto gostava de ficar com ela e menos ainda notava que seu corpo relaxava como se, em algum lugar dentro dele, estivesse feliz por vê-la.
Não demorou para Alcione sentir seu olhar sobre ela e rapidamente se virou o pegando no flagra sem deixa-lo constrangido.
— O que foi?
— Nada. – Desviou ainda sorrindo sem realmente saber o que responder. Ela, entretanto, continuou o encarando desconfiada do que escondia quando o viu balançar a cabeça rindo timidamente. — Você... Lembra quando eu disse pra gente viajar junto algum dia?
— Ah... Já faz tempo isso, mas sim, lembro. – Empolgada com a lembrança a jovem se afastou do pilar mostrando estar tão surpresa quanto animada com os olhos brilhando como se a conversa tivesse acontecido há milhares de anos. — Espera. Você quer fazer isso agora?
— Não. – Riu acenando negativamente com as mãos afastando a ideia, mas não o olhar dela. — Não acho que seria certo sair assim e deixar a casa. Eles são minha responsabilidade. – Se virou novamente a vendo concordar e, logo em seguida, suspirou. — Mas nada me impede de andar por aí agora.
A sugestão a fez se calar fitando seu olhar convencido se perguntando o motivo de um simples encontro ter os levado a essa possibilidade. Sim, era uma noite calma onde ambos não tinham nada para fazer então sugerir um passeio não era a coisa mais incomum, mas mesmo sem parecer errado aquilo foi inesperado.
A amizade deles era algo estranho. Ambos sempre estavam ocupados em suas próprias tarefas e nem se davam ao trabalho de arranjar tempo um para o outro. Podiam ser considerados por todos mais como conhecidos do que amigos de verdade, mas quando se encontravam falavam como se vivessem juntos e nada os impedisse de fazer o que queriam.
— Então vamos. – Falou sorrindo enquanto se colocava em frente a ele sem dar espaço para que voltasse atrás. — Conheço alguns lugares.
Ele nem questionou sobre onde era ou como chegariam lá, apenas se levantou a seguindo quando viu a jovem andando sorridente em direção a entrada da vila.
—
Era normal durante o dia as criaturas serem movidas pela agitação das tarefas e até mesmo quando o sol não estava presente o calor era eminente. Algo comum em lugares cheios, entretanto quando chegava à noite tanto a vila quanto seus arredores verdes se tornava sereno com o silêncio.
Não era um som mórbido que ouviam enquanto caminhavam descalços pela grama molhada, na verdade era pacifico ouvirem suas respirações se misturando ao canto de insetos. Sentir os galhos tocando em seus corpos e puxando seus pijamas não era assustador ou os urgia a correr de ameaças, ao invés disso os fazia notar a vida calada ao seu redor.
A cada passo molhavam mais as solas dos pés e sujavam as bordas das roupas, a cada passo apoiavam suas mãos pelos troncos descascados buscando por espaço enquanto as atenções permaneciam voltadas para as conversas que nem tinha importância os fazendo rir.
À noite tudo se tornava diferente trazendo novos encantos em qualquer lugar. Era a hora mágica onde seres místicos surgiam e criaturas cintilantes ajudavam a espalhar brilho e cor por todos os lados.
Demorou alguns minutos que nem viram passar até chegarem ao ponto onde Alcione tinha certeza que o rapaz iria gostar.
Como esperado a visão que teve assim que passou pelas ultimas árvores fizeram os olhos dele se arregalaram e sua boca sorridente se abrir primeiramente sem palavras para conseguir explicar o espanto alegre que dominou seu corpo.
Diante deles estava uma alta cachoeira dominada por cores azuis esverdeadas onde a água descia com força brilhando como cristal levantando a fumaça gélida do rio fazendo um espetáculo antes de seguir seu curso calmamente.
Havia pedras com musgos decorando a subida da montanha e vagalumes que rodeavam o gramado mediano fazendo o chão brilhar como estrelas. Também tinha dezenas de peixes por ali. Espécies que mais pareciam joias com suas escamas coloridas e seus olhos cintilantes. Era o paraíso para qualquer ser aquático. E, claro, para sereias como eles.
— Eu conheci esse lugar faz uns meses aí passei a frequentar quase todos os dias. Sempre me encantava, mas no dia que resolvi vir aqui a noite... Tudo mudou! – A jovem começou a explicar se sentando na beirada do rio sem se importar com a sujeira da terra enquanto esticava as pernas molhando os pés. — É incrível como é perto da vila e mesmo assim passou tão despercebido.
— Eu tô sem palavras ainda. – Seus olhos brilhantes assistiam a obra majestosa da cachoeira quando falou a fazendo rir do quanto ele parecia uma criança.
— Eu sei... Mas você vai ficar só olhando ou vai nadar também?
Só foi preciso ouvir essas palavras para tirar Mischief do encanto em busca do rosto sorridente dela mostrando a surpresa no olhar como se não tivesse percebido que podia fazer isso. O próximo passo pôde ser previsto antes de acontecer e logo o rapaz já estava na superfície jogando o longo cabelo castanho molhado para todos os lados sentindo a frieza dominar seu corpo sem incomodar.
Depois disso foi a vez dela que com graciosidade mergulhou. O jovem a observou nadar abaixo dele como se houvessem luzes no fundo daquele rio de águas claras. Sua pele roxa combinava com o azul e seu cabelo dourado dançava nas ondas como se fossem um só.
Ao lado dele ela emergiu afastado as gotas dos olhos antes de o fitar e trocarem risadas de pura felicidade.
Foi quase automático a reação de voltarem para baixo e buscar ir ainda mais fundo. Eles nem precisavam falar nada para saber como se sentiam naquele momento. Dois amantes da água sentindo seus corpos serem acolhidos junto aos peixes como se fossem um só era o ápice de satisfação. E eles não queriam somente o fundo do rio, mas seus arredores, suas bolhas, sua vegetação, seus peixes, sua vida para viver com eles.
Minutos logo viraram horas entre mergulhos, braçadas, saltos e até brincadeiras espirrando água um no outro. Fizeram isso até estarem cheios e finalmente se acalmarem.
Mischief se sentou em uma pedra mais afastada do som alto da cachoeira enquanto Alcione ainda estava na água flutuando observando as algas de cima. Seus olhos a observaram nadar de um lado para o outro movimentando as mãos sobre a calma superfície e os pés ficarem nas pontas sem tocar o fundo. Era como se estivesse dançando.
Seus cabelos loiros brilhavam como ouro derretido enquanto os peixes rodeavam a saudando. Ela parecia uma princesa em seu reino de paz.
O jovem não tirou os olhos dela em momento algum. A tranquilidade que passava e as sensações de alegria vivas em cada movimento era tudo dela, mas tinha algo que o fazia pensar em outra criatura. Talvez fosse o cabelo longo que de costas na água mostrava a silhueta distorcida ou talvez fosse a falta de luz solar que o encantava em suas ilusões.
A jovem se virou encontrando os olhos sobre ela e, como sempre, sorriu fazendo seus olhos azuis brilharem como a própria água. Alcione não era quem estava pensando naquele momento. Ele sabia disso, mas por um instante não conseguiu evitar a comparação.
Mischief notou sua presença e, consciente, sorriu um sorriso calmo e distante. Essa era a primeira vez que pensava sobre a falecida namorada sem estar com as adagas sujas de vermelho. Era a primeira vez que não quis matar e a primeira vez que conseguiu sorrir com sua imagem em mente.
— Faz quanto tempo desde que estamos morando aqui? – Perguntou ainda distante desviando sua direção para as árvores na terra.
— Hm... Alguns anos. – Sua resposta foi incerta, mas foi o suficiente para o fazer suspirar.
Tinha passado muito mais tempo do que isso desde que a mulher em sua mente havia partido e ainda assim ele continuava agindo daquela forma. Foi nessa pequena troca de palavras que percebeu que por todos esses anos evitou falar sobre o ocorrido e até pensar nela que agora já não sabia como se sentir além da vingança.
Ele olhou novamente para o rosto da jovem que agora assistia as estrelas no céu escuro.
— Todo esse tempo e a gente quase não sai juntos.
— Você é ocupado demais. – A voz dele estava ligeiramente séria, mas não era preocupante a fazendo responder no tom amável de sempre. — É o que todos dizem.
— E você acredita?
— Sempre te vejo andando pra todo lado naquela vila então... – se virou para ele vendo o rosto quase sarcástico a encarando em busca da resposta trazendo um sorriso em sua fala. — Não acho que faça isso só porque gosta de se movimentar.
— Aí eu não posso negar. – Completou rindo enquanto se levantava para pular na água novamente.
Ele não queria pensar em nada disso agora. Queria estar ali da mesma forma que fazia desde que descobriu que tinha pessoas importantes ao seu redor. Queria continuar ao lado deles e não das lembranças de um passado que o movia de encontro com sua própria morte.
O jovem nadou vagarosamente deixando claro que havia pensamentos demais em sua mente. Alcione o assistiu cruzar o caminho todo até parar ao seu lado para ter certeza que seus olhos estavam realmente assustado.
— Você está bem?
Estavam próximos a ponto de tocarem suas testas com um único avanço para frente quando ela o chamou. Seus olhos se encontraram quase mergulhando um no outro sem ter nada para dizer. Ele não queria que ela caísse em sua água, mas não conseguiu desviar a direção porque no fundo ele precisava se banhar naquela luz por um instante.
— Mischief?
Sua voz era diferente. Seu nome foi chamado diferente. Ele voltou, deixando um suspiro rápido cortar o clima ainda a encarando.
— Sereias são bem assustadoras. – Falou quase rindo na tentativa de esconder o tremor em sua voz.
Criaturas como eles tem o poder de encantar qualquer um intencionalmente ou não. Elas são poderosas e, por isso, até depois que morrem podem atrair outros para o suicídio.
— O que? – Alcione não entendeu o motivo daquilo, mas riu. Sem deboche, apenas por diversão. — Somos lindas, lembra?
Sem jeito e ainda abalado por suas visões o rapaz só conseguiu retribuir o sorriso passando a mão molhada pelo cabelo antes de assentir como uma criança. Nesse instante, ela pôde ver a solidão em seus olhos e acabou dando um pouco de espaço entre eles.
— Todas as criaturas são assustadoras. – Falou se deitando na superfície deixando seu corpo flutuar na paz do leito. — A vida é assim.
Mischief ouviu suas palavras, mas só quando ela se calou que ele levantou o rosto encontrando os olhos gentis o observando. Ele não tinha o que fazer, mas ficou grato por ela não fazer nenhuma pergunta.
Tinha saído de casa só para relaxar e afastar o estresse de seu corpo, mas acabou se encontrando com ilusões que queria ter deixado na sua vila antiga junto com o sangue que derramou. Estava com medo do que todos esses pensamento poderiam causar em sua mente e o quanto isso mudaria seu destino. Como sempre teve. Porém estar ao lado dela o fez se lembrar do que realmente importa. De quem realmente importa.
A vida estava por todos os lados e, talvez, fosse hora de deixar os mortos dormirem em paz.
— Fim. IX
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