Contos - Aventuras Mágicas
2 Míngua
Notas iniciais
A fome é a necessidade de preencher o vazio. Dor conhecida por todos os seres vivos ou mortos. Fome que dói o interior, que causa fraqueza e faz cada parte do corpo agonizar se remoendo; fome de sabores, sentimentos, de lembranças e de ser lembrado. Fome é a consequência da sádica necessidade de existir.
A vida toda assisti criaturas se alimentarem de desespero, negligência e angústia. Seres infames que se arrastavam pela lama se escondendo na escuridão em busca de migalhas para diminuírem seu pesar e preencher algum vazio em seus egos esburacados.
Existências que nunca veriam o sol se banhavam no sangue um do outro nessa fome de viver, implorando por misericórdia dia após dia enquanto misturavam seus gritos a tantos outros que faziam inocentes se tornarem culpados.
Conheci miseráveis afortunados que entupiam suas bocas com a piedade dos outros cada vez que contavam suas estórias vis aos ouvidos assombrados pela inferioridade e tive visões de falsos prazeres que alimentavam momentos enquanto drenavam anos.
São os cegos pela agonia que tentam saciar o verme que instiga sua dor bebendo do leite vermelho que brota dos seios cadavéricos do egoísmo. São os alucinados pela solidão que procuram pelo beijo dos lábios da banalidade sugando sua língua envenenada pela mentira. E dos derrotados pela própria covardia que se agarram as tripas dos mortos em busca de sabores esquecidos.
Existem mil faces para a fome, mas para mim nunca foi sobre ser perdoada, amada ou lembrada. O meu desejo sempre foi comer e me sentir cheia.
Tudo o que me satisfazia era ver essas pobres almas levianas se enriquecerem de terror, culpa e arrependimento. Era prende-las ao corpo coberto pelo ódio e assisti-las correndo até mim com esperança em seus olhos tão tristes como se fosse possível fazer a fome desaparecer. É nesse momento que eles se tornam o prato perfeito.
Cercados nesse escuro que eles mesmos se colocam para preencher suas dúvidas e cegar seus medos que eu tomava forma abocanhando seus calcanhares esqueléticos e agarrando suas gargantas elásticas.
Sentir sua impotência me faz poder apreciar seus olhos revirando quando suas almas estão na deriva dependendo somente da força dos meus dentes; ouvir suas súplicas me deixa apaixonada pelos espasmos que borbulham o sangue escorrendo pelo chão abaixo de mim como uma forma de choro pelas perdas e ver suas bocas que tremem espumantes tentando implorar por piedade pelos vermes deprimentes famintos pela vida me levam ao ecstasy.
Não me importo com corpos, são inúteis, mas gosto da bagunça que fazem quando estou comendo.
Para mim, todo sangue tem o mesmo gosto já as almas são incomparáveis. Às vezes amargas como no dia que se descobre a traição, outras azedas como quando é abandonado, podem ser geladas como quando se mata e, talvez, quentes como quando se rouba.
Carregam tudo aquilo que a criatura realmente é. O peso em seus corações, as dúvidas do certo e errado, os arrependimentos diários e os desejos que o corpo se esforça tanto em impedir. Tudo o que eles escondem está preso a alma como uma cicatriz que não tem cura.
A forma como alguém escolhe viver não altera o que sua alma quer. Mesmo que queira saciar as bocas famintas daqueles que os julgam com atitudes exageradas, mesmo que queiram engolir o próprio coração no silêncio mortífero, eles ainda são quem são. E enquanto existirem serão como eu. No final, todos precisam comer.
—Fim. I.
Fale com o autor