Contos - Aventuras Mágicas
24 Eu duvido
Notas iniciais
Outro dia...
Em uma tarde qualquer os quatro amigos Nightmare, Sis, Thony e Naoki saíram para passear pela cidade. O plano era só sair de casa, mas acabaram indo mais além se envolvendo em compras quando Night contou que precisava de alguns materiais para ajudar Kuragari em casa empolgando também a feiticeira a participar do plano.
Foi em uma loja não muito distante que os dois entraram procurando por comida onde a tartaruga Thony e a besta Naoki foram deixados para trás. Eles não tinham tanto interesse nisso quanto os outros por isso ficaram sentados no banco de madeira em frente ao comercio os esperando voltar.
Viam criaturas indo e vindo, ouviam conversas, mas não se falavam. Assistiam as nuvens serem sopradas lentamente dali e o tempo passar por seus pensamentos calados.
Thony não tinha problemas com situações assim. Gostava do silêncio, da calmaria e principalmente dos raios de sol mornos aquecendo sua pele. Entretanto, Naoki era o completo oposto e ficar parado naquele tédio era tortuoso pra ele.
Estava bufando alto para incomodar o outro quando uma ideia cruzou sua mente.
— Olha, – começou a falar fazendo o rapaz o olhar de canto sem simpatia — eu duvido você acertar uma pedra naquela placa.
O desafio não fez o jovem mudar sua expressão, mas conseguiu com que mudasse a direção de seu olhar para o local onde ele apontava. Ao lado da loja onde os amigos tinham entrado havia um outro comércio simples que deveria vender poções ou algo do tipo onde logo na entrada havia uma placa pendurada próxima a porta com alguma coisa que não conseguiam ver escrita.
Depois de analisar a situação e a curta distância que os separava dali Thony olhou de volta para ele sem entender o motivo daquele comentário.
— Por que eu faria isso?
— Porque ficar aqui é um saco! – Se balançando no banco como uma criança birrenta, respondeu sendo julgado pelo rapaz. — E, olha, se você acertar eu paro de te provocar com doce por um mês. – A condição rapidamente atraiu a atenção que queria o deixando convencido a continuar. — Mas se errar vai ter que comer pelo menos um doce.
— Que?
— Tá com medo?
— Sabe que isso pode me matar né? – Incrédulo perguntou vendo o sorriso do outro crescer.
— Sei, mas é só você acertar e pronto. – Seu olhar irônico não fez o rapaz se acalmar, na verdade só aumentou ainda mais sua raiva. — Se não tiver um risco então não tem graça.
— Tá, mas eu quero fazer diferente.
— O que?
— Se eu ganhar você fica um mês sem comer doce. – Naoki ia protestar, mas Thony continuou mais rápido. — O mínimo por tentar me matar.
— Ah, que dramático. Tá bom.
Apesar de ainda desconfiar dele, Thony acabou assentindo as condições. Olhando ao redor procurou por uma alguma pedra pequena que estivesse próxima ao banco. E teve sorte de encontrar uma que cabia certinho em sua mão.
Quando voltou sua visão para a placa teve certeza que não queria participar disso, porém saber que poderia ganhar o sofrimento do outro por um mês era motivo o suficiente para o fazer mirar e com um arremesso forte jogar a pedra direto na placa.
Os dois fitaram com atenção a pedra voar por cima da cabeça daqueles que passavam e, de fato, acertar a placa. Isso seria motivo de comemorar a vitória, porém eles não contavam que a força do arremesso fosse tão grande ao ponto de fazer a madeira balançar para trás dando espaço para acertar também o vidro da porta.
O impacto abriu um buraco que estilhaçou pedaços pelo chão assustando os dois. Assim que perceberam o estrago que tinham causado abaixaram a cabeça quase em sintonia disfarçando não terem visto nada quando ouviram o dono da loja sair gritando em busca pelo culpado.
— A culpa é sua.
— Foi você quem jogou! – Entre sussurros e olhares baixos eles culpavam um ao outro na tentativa de diminuir a tensão que os invadia.
Não demorou muito para as coisas se acalmarem e o homem voltar para dentro aceitando que teria de arcar com o dano sozinho. Assim que perceberam puderam levantar os rostos soltando suspiros aliviados. Principalmente Thony que tinha um sorriso vitorioso no rosto fazendo o outro fechar a cara emburrado.
— Eu realmente achei que você não ia conseguir.
— Vai ter que se esforçar mais se quiser me matar. – Convencido retrucou arrumando a postura. — Tá, agora é minha vez. – Seus olhos percorreram a cidade com calma em busca de algo que fosse o suficiente para humilhar o rapaz. — Duvido você... Ir no meio da cidade e começar a gritar.
— Isso... – Thony tinha demorado para se decidir e quando Naoki ouviu seu desafio não conseguiu evitar a expressão decepcionada — é meio idiota.
— Quebrar a janela também foi.
— Mas isso aí foi culpa sua. – Acusou rindo fitando o olhar claramente bravo do outro. — Tá, e quais são as condições?
— Se você fizer, eu não vou mais implicar com você hoje. Faz o que quiser e não vou dizer nada.
— E se não fizer?
— Você não vai dizer mais nada hoje. Só responde o que te perguntarem. E respostas curtas!
— Nossa... Odeia minha voz, Thony?
— Odeio você.
— Tá... – Rindo sem acreditar na bobagem ele se levantou arrumando a calça. — Vamo lá.
Thony não tinha certeza se a besta realmente faria o que ele sugeriu, mas estava curioso para saber o que aconteceria por isso o seguiu dali em direção ao centro da cidade.
Diferente de onde estavam essa parte era a mais movimentada e, consequentemente, mais lotada de todo tipo de criatura. Viajantes, comerciantes, moradores próximos, todos com algum objetivo. Fosse encontrar uma nova missão, um novo lar ou as melhores frutas, o centro das cidades era o lugar perfeito para receber as respostas.
Como era esperado à essa hora havia diferentes espécies relaxando pelos bancos e aproveitando de alguma comida suave antes de voltar para o trabalho. Os dois andaram por ali observando cada canto e imaginando que não havia momento melhor para realizar o desafio.
Naoki riu ao perceber a situação em que estava se perguntando o que realmente iria acontecer quando fizesse aquilo. Sem esperar ele seguiu em frente enquanto o outro ainda olhava para as lojas.
Quando Thony percebeu onde o rapaz havia se metido as dúvidas que o incomodava foram mandadas para longe deixando somente a curiosidade ali.
A besta estava parada no meio de uma encruzilhada onde o movimento não tinha fim. Ele sabia que iria no mínimo dar um susto em todos que passassem por perto e mal podia esperar para ver acontecendo. Com um longo suspiro ele soltou o grito mais alto e longo que pode.
A cidade inteira parou o encarando. Alguns realmente tinham pulado dos bancos como tinha previsto enquanto outro só o observavam tão confusos quanto assustados.
Thony estava mais ao fundo, mas mesmo assim conseguiu ver tudo com clareza deixando seu rosto em uma mistura de surpresa e constrangimento.
Claro que toda essa confusão atraiu muita atenção e, com isso, não demorou até os guardas aparecerem para saber o que estava acontecendo. Naoki levou tempo se explicando fazendo uma brincadeira e outra para conseguir diminuir a preocupação e sair dali somente com uma bronca.
Foi difícil, mas conseguiu voltar para Thony com piscadelas que mostrava seu contentamento na vitória.
— Eu não acredito.
— Você tinha que ter me dado um bônus só pelos guardas. – Falou rindo enquanto o rapaz ainda o olhava indignado. — Olha, eu duvido você subir ali. – Sem desviar o olhar falou fazendo Thony seguir encontrando uma pequena torre de vigia abandonada. A expressão aterrorizada do jovem fez a besta rir sabendo que ia ganhar mais uma. — Duvido mesmo.
No final ele conseguiu subir até metade do caminho antes de cair machucando o braço. Isso acabou gerando uma discussão se ele realmente tinha completado o desafio ou se aquilo não contava.
E eles não pararam por aí. Os desafios continuaram por toda a cidade envolvendo comidas que não podiam comer, roubos bobos que os fizeram correr para se esconder e até mesmo estranhos que quase acabou os levando de volta para os guardas de antes.
Ficaram nisso por horas e em quase todos se feriram de alguma forma. Tinham até esquecido de sua tarefa inicial que era esperar a dupla voltar das compras e agora estavam sentados em um gramado com as roupas amassadas, manchadas e com a pele ralada em vários lugares.
— Eu duvido... – nenhum dos dois conseguia se levantar, mas sua vontade de humilhar um ao outro continuava de pé os movendo nessa brincadeira sem fim — você correr daqui até aquela parede sem parar.
— E quebrar minha cara? – Sentado ao lado, Naoki perguntou rindo enquanto amarrava o cabelo roxo em um rabo de cavalo.
— É... – respondeu falando devagar por causa do cansaço ignorando o sorriso dele. — Se fizer isso eu faço qualquer coisa que quiser por uma semana.
— É sério? – Perguntou tão animado que parecia que todas as suas energias tinham sido recuperadas no mesmo instante. — Então pode se preparar para comer muito doce por mim. – Ele gargalhava, mas Thony nem fez questão de mudar a expressão entediada enquanto esperava se calar.
— Mas... Se não fizer, vai ter que parar de carregar a Sis por aí.
Essa única frase foi o suficiente para apagar o sorriso do rosto dele. Thony sabia que causaria essa reação, porém não se importou e menos ainda procurou olhar para ele.
— É isso? – Levou alguns instantes para Naoki voltar a falar, mas quando fez sua voz estava carregada de raiva. — Então eu duvido você falar pra ela que também gosta dela.
— Que? – A falta de sentido foi tão grande que o rapaz foi obrigado a se virar para encara-lo. Viu ali um olhar sério que não esperava e só conseguiu se sentir ainda mais confuso. — De quem?
— Da Sis, idiota.
— Mas... – ainda não fazia sentido para ele realizar esse desafio a não ser que fosse para deixar a garota incomodada — ela sabe disso. A gente é amigo.
— Não, idiota. – Inconformado com a lentidão para entender o que dizia Naoki suspirou tentando se acalmar antes de continuar a falar. — Você sabe do que eu tô falando.
— Que... Eu... Não gosto dela. – Suas palavras saíram com dificuldade por conta de sua mente confusa ainda tentar processar o que estava ouvindo. Ele não entendia a razão da besta ter certeza do que dizia quando nunca tinha passado por sua cabeça algo assim. Enquanto fitava a grama, Naoki o observava procurando decifrar o que ele pensava. — Ah, espera. Você disse também?
— É. Também. – Os olhos castanhos surpresos encontraram os seus que pareciam derrotados pela primeira vez naquele dia. — Você só percebeu agora... Oh, Thony, você já gostou de alguém?
— Já-
— O que você sente pelo Mischief não conta.
Foi rápido em cortar sua fala sabendo que a resposta dele seria automaticamente guiada ao homem. Thony sabia que era óbvio que diria aquilo por isso se calou por alguns instantes antes de gritar:
— Já!
— Era seu mestre também? – A pergunta parecia irônica, mas o rapaz estava sério. Não houve resposta de qualquer forma, só um olhar que dizia que sua paciência estava acabando.
— Ah, tá, e como é que você sabe que gosta dela?
— Eu... Olha, não sei... Não sei como é esse negócio todo e isso pode ser algo que o Malphas colocou na minha cabeça, mas... – ele estava mais perdido que o amigo ao responder, mas a expressão preocupada era honesta suficiente para tomar sua atenção. — Eu quero ficar com ela.
Thony nunca tinha pensado nesse assunto apesar de sempre ouvir comentários que apontavam sua relação próxima com a feiticeira e se quer tinha considerado que Naoki gostava dela já que o rapaz era uma criatura mundana.
O silêncio tomou a fala de ambos por minutos os fazendo perceber que estavam presos em suas caixas por mais tempo do que tinham percebido.
— Eu duvido – olhando para as criaturas na cidade a tartaruga começou a falar sem chamar seu olhar — você ouvir a resposta dela.
Thony sabia que por muito tempo o coração da jovem pertencia a outra pessoa e talvez não houvesse espaço para outro entrar. Naoki também já tinha ouvido sobre isso e sabia que esse desafio talvez fosse o mais difícil de realizar. Um sorriso amargo surgiu no canto de seus lábios enquanto Thony ainda o observava intrigado.
— Oh, seus otários!
Foi quando finalmente conseguiram se acalmar que ouviram a voz de Sis não muito distante os chamar. Seus olhos automaticamente procuraram por ela a vendo caminhar em suas direções com Night ao lado enquanto carregavam comida nos braços.
— A gente não falou pra esperar? Qual é o proble- que isso? – Logo que se aproximaram puderam ver melhor os dois e consequentemente os ferimentos por todos os lados. Nightmare automaticamente congelou temendo que tivessem sido pegos por alguma criatura, já Sis começou a rir esperando alguma confissão idiota. — Pode contar o que aconteceu.
Seus olhos não descolaram dela mesmo com as provocações. Nesse momento eles não viam somente a Sis feiticeira amiga que formou o grupo e sempre fazia piada com tudo. Não era só a menina chata que não tinha medo de ninguém. Nesse momento tudo o que viam eram incógnitas e uma confusão de ilusões e realidades que não conseguiam distinguir.
Ainda era cedo para terem a respostas, mas estavam determinados a descobri-la. Porém hoje era melhor só contar como caíram da torre e foram perseguidos por criaturas o dia todo porque estavam entediados.
—Fim. XXIII
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