Contos - Aventuras Mágicas
5 Em sincronia
Notas iniciais
Outro dia...
Hisashi estava esparramado no sofá da sua casa tirando um cochilo sem se importar com o longo cabelo azul armado sobre o rosto ou as roupas amassadas quando a porta foi aberta por sua amiga Akaji gritando por seu nome.
Receber as visitas inesperadas dela era tão comum quanto ele aparecer na casa dela. Estavam tão acostumados um com o outro que ela sabia antes de entrar ali que o encontraria dormindo em algum canto e por isso começou a fazer escândalo o mandando acordar enquanto seguia para o sofá puxando por seus braços.
Sua voz sonolenta só o permitia resmungar perguntas ao mesmo tempo que pedia para ela desistir do que quer que fosse e se deitasse com ele ali para continuar dormindo.
No final, depois de longos minutos explicando que precisava da ajuda dele, a jovem acabou conseguindo o convencer a segui-la em direção ao festival que acontecia em uma cidade distante dali.
Pelo que pôde entender a mulher estava participando da comemoração como ajudante nas barracas de venda, ele só não conseguiu decifrar por qual motivo fazia isso.
— Tá, é aqui. – Parando seus passos no meio de uma rua cercada por todos os tipos de vendas, ela avisou chamando o olhar curioso dele que se admirava com o movimento apesar do horário.
Seguindo a direção apontada encontrou uma barraca vermelha com vários doces no balcão e uma placa no topo anunciando um nome que ele não se deu o trabalho de ler. Seus olhos se voltaram novamente para a jovem vendo o rosto calmo o observar.
— O que você quer que eu faça?
— Cuida dessa barraca pra mim.
— Que?
— É que me chamaram pra ajudar em outra na rua da frente e aí eu precisava colocar alguém pra abrir essa que era pra ser minha.
— Que?
— Hisashi! – Gritou ao ver que ele não parecia prestar atenção.
— É, sério, eu não entendi. Você voltou lá pra casa só pra me chamar pra isso? Não dava pra ter pego alguém aqui?
— Eu não conheço ninguém aqui! – Respondeu irritada porque também não queria ter feito todo esse caminho para algo tão simples. — Os doces que estão ali são do Anthony. Ele fez pra essa barraca.
— E cadê ele?
— Não pôde vir.
— Hm... Aí você veio?
— É. Eu ia só trazer os doces, mas acabei querendo ajudar a vender também, mas aí me viram e pediram ajuda.
— Agora eu entendi. – Falou mostrando um sorriso preguiçoso a vendo assentir. — E eu só preciso ficar aqui? Parado?
— Ajuda a vender.
— Ah, tenho que trabalhar? Ah, Akaji... – Reclamando como uma criança birrenta questionou a fazendo cruzar os braços frustrada.
— É só um pouco! Depois que eu terminar eu volto aqui. – O rapaz estava de olhos fechados, mas quando a ouviu falar abriu um deles vendo o rosto pidonho o olhando. — Por favor.
— Tá bom, mas você vai precisar me pagar por isso.
— O Anthony me deu uns doces separados de presente então...
— Aceito.
— Beleza, até depois então.
Sem olhar para trás a jovem correu o deixando ali rindo do jeito como ela se destacava no meio da multidão. Tinha dois metros de altura, mas parecia tão perdida quanto um filhote de cachorro.
Com calma, seguiu em frente afastando o pano da lateral da barraca se permitindo entrar. Viu os doces coloridos e sentiu o cheiro saboroso dominar aquela área se perguntando quando foi que Anthony conseguiu tempo para esse tipo de coisa. Depois olhou ao redor vendo estar sozinho na entrada quando ouviu um barulho na parte de trás onde, provavelmente, estoques estavam guardados.
Ele pensou em entrar, mas se impediu quando percebeu os passos se aproximando. Logo, de trás dos panos vermelhos, um rapaz alto de longo cabelo branco preso em um rabo de cavalo e franja caída sobre um dos olhos apareceu. Assim que Hisashi o viu seu olhar preguiçoso foi substituído por uma expressão incrédula.
Não demorou para o jovem também notar sua presença e automaticamente soltar um alto:
— Ah não!
— Eu quem diga... Oh Akaji! – Se apoiando no balcão da frente berrou mesmo sabendo que a mulher já não estava por ali.
Era inacreditável que há poucos minutos ele estava em casa aproveitando de um cochilo preguiçoso e relaxante para agora estar parado ao lado da criatura que mais odiava.
— O que você está fazendo aqui? – Irritado, Klaus perguntou apoiando as mãos na cintura.
— É da sua conta?
— É, né? – Sem acreditar no que ouviu falou vendo o outro se afastar do balcão para encara-lo. — Você está invadindo a minha área.
— Ah... Olha, a Akaji me pediu pra ajudar ela aqui, mas não falou em momento algum que tinha que te aguentar.
— Akaji?
— É!
Confuso o maior cruzou os braços tentando encontrar alguma pista que respondesse o que estava acontecendo. Hisashi percebeu que algo estava errado, mas preferiu não falar com ele o deixando resolver o enigma sozinho.
— Foi ela quem trouxe os doces?
— Foi. O Anthony pediu.
— Ah, agora faz sentido como tem tudo isso aqui. – Falando consigo mesmo sorriu um sorriso amargurado enquanto pensava na situação que o fez chegar ali. — Ainda bem, porque se ele tivesse vindo aqui só pra trazer isso e ido embora eu ia matar ele.
— Tá aqui por causa dele?
— Tô. Esse barraca é do pai dele e ele queria ajudar, mas...
— Ele não pôde vir, é eu sei.
O maior assentiu cansado, porém quando percebeu que estava falando com ele normalmente tossiu voltando a mostrar sua expressão enjoada.
— Mas que seja! Eu não acredito que vou precisar passar por isso de novo! – Hisashi notou a mudança drástica do tom de voz e acabou rindo ao se lembrar que essa era a segunda vez que precisavam trabalhar juntos.
— Pois é...
Depois de se estranharem, discutirem e imporem limites sobre até onde cada um podia ir, Klaus explicou sobre a importância em vender tudo para juntar o máximo de dinheiro e fazer a barraca ganhar um tipo de título importante nesse festival. Hisashi não dava importância para isso, tinha acabado ali por acidente, mas já que tinha começado iria pelo menos tentar terminar.
Com os cabelos presos e as aventais vestidos os dois começaram a trabalhar tentando chamar a atenção com seus gritos, conversas, oferecendo amostras e até exibindo seus melhores sorrisos. E que sorrisos!
Eram o puro charme e carisma que fazia qualquer um parar para vê-los. Cada um do seu jeito, mas ainda tão encantador quanto o outro. E, provavelmente, esse foi o maior motivo para atrair tantos clientes.
Foi em uma dessas demonstrações que uma cliente se aproximou fazendo o pedido de uma caixa de doces só para poder ver o rosto longo de Hisashi de perto. Ele notou a insistência em seu olhar enquanto empacotava uma dúzia com calma e não deixou a oportunidade passar.
— Aqui. – Entregou a caixa a pegando de surpresa fazendo seu rosto se tornar vermelho e o dele risonho. — Se você gostar, – se aproximando falou com a voz mais doce que tinha a vendo paralisada a sua frente — pode voltar aqui mais tarde para provarmos algo ainda mais doce.
Se afastando a viu agradecer gaguejando antes de deixar o dinheiro no balcão e sair dali com pressa quase sem rumo. A reação exagerada o fez rir satisfeito por saber que ainda conseguia capturar a atenção com charme depois de tanto tempo sem sair com ninguém além dos amigos de sempre.
Ele se virou para guardar o dinheiro quando encontrou o olhar de reprovação de Klaus o encarando. Sem entender o motivo o encarou de volta acenando com a cabeça como se perguntasse qual o problema.
— Parece que não está mais interessado no Anô se está tão livre assim. – Com uma voz que esbanjava ciúmes, ele respondeu à pergunta fazendo Hisashi cerrar os olhos incrédulo com a atitude.
— Não era pra vender? Então, tô fazendo minha parte.
— Ah, claro.
A forma irritada com que falava com ele não fazia o mínimo de sentido, mas ele também não perdeu seu tempo em dar atenção para essas coisas só para acabar perdendo a paciência de novo.
Logo foi a vez de Klaus atender um jovem tímido que tinha sido enfeitiçado por sua aparência encantadora. E assim como Hisashi, ele também usou da doçura em sua voz para causar arrepios no rapaz antes de entregar a compra.
Hisashi observou a cena com a expressão mais cínica que podia até Klaus finalmente olhar em sua direção desfazendo o sorriso do rosto.
— O que?
— Nada, nada... – rindo respondeu enquanto o outro resmungava irritado.
Parecia errado que as criaturas só estivessem ali pelo interesse neles ao invés da comida que o alado se dedicou tanto a fazer, mas, naquele momento, o importante era vender tudo o que podiam. Até porque, no final, todos que compraram iriam poder apreciar os sabores maravilhosos da culinária do rapaz do mesmo jeito.
Os charmes continuaram por longos minutos assim como as trocas de farpas e cutucões que davam um no outro sempre que a oportunidade aparecia e antes que percebessem tinham conseguido vender mais da metade do estoque na barraca no tempo ideal.
No meio da bagunça quando a multidão em frente a eles diminuiu, a jovem Akaji chegou sem folego se apoiando no balcão parecendo mais cansada do que deveria.
— Já posso ir embora? – Ignorando as condições dela, Hisashi perguntou a vendo o encarar irritada.
— Não! Tem mais uma coisa pra vo- Ah, oi, Klaus! – Passando a mão pela trança ela se ajeitou tentando mostrar um sorriso para o rapaz emburrado ao lado.
— Oi nada! Você é a culpada por me prender com isso. – Apontando incomodado falou alto sem deixar ela se defender.
— A barraca nem tem porta, sai quando quiser. – Sem olhar na direção dele Hisashi respondeu ainda mais rápido fazendo ela perder a paciência.
— Ai, cala a boca! – Gritou chamando a atenção dos dois. Ela tinha corrido de um lado a outro desde o momento que se despediu do amigo, mas era incrível como os dois eram o motivo que conseguia a deixar mais cansada. — Olha, é o seguinte eu escutei lá atrás uns abissal falando que vai ter um concurso agora.
— Concurso de que?
— De apresentação em barraca. – Falou parecendo não saber do que falava os deixando mais confusos. — Eu não entendi o que é, mas parece que vocês precisam fazer uma demonstração extravagante do que é a barraca.
— Mas como?
— Eu sei lá! Dancem, cantem, qualquer coisa!
— É obrigado isso aí?
— É... Vai ter um juiz passando de barraca em barraca.
A explicação fez Hisashi estalar a língua e se jogar sobre o balcão vazio cansado de ficar o dia todo se mostrando para estranhos.
— Desculpa, Hisashi. – Ela falou mostrando honestamente estar arrependida por ter dado tanto trabalho desnecessário para ele e sem querer acabou fazendo sua voz parecer triste.
— Relaxa. – Levantando a cabeça ele buscou pelo rosto dela antes de continuar. — Se eu fizer isso vou poder cobrar um pouco mais do Anthony. – Riu a fazendo sorrir.
Klaus ao lado assistiu à cena sem mudar a expressão intrigada desde o começo da conversa. Ele conhecia o rapaz bem o suficiente para odiá-lo, mas toda vez que o viu com Akaji a sensação que passava era diferente. Ele não odiava a relação dos dois, não tinha motivos, mas ver isso o fazia pensar.
Logo que terminou de explicar, a jovem partiu de volta para o trabalho de carregar caixas e retirar produtos das prateleiras mais altas nas barracas na outra rua enquanto os dois ficaram ali sem se falar pensando no que seria possível fazer dentro dessas circunstancias.
Foi um pouco depois disso que perceberam a agitação no final da rua tomar espaço onde criaturas se aglomeravam para ver o que estava acontecendo e outras com pranchetas andavam em direção a uma das barracas. Era exatamente como Akaji tinha dito e agora eles não tinham tempo para perder.
— Vai lá ver. – Hisashi ordenou fazendo Klaus se virar para ele sem entender. — Vai na barraca ver o que eles estão fazendo!
— Desde quando você me dá ordens?
— É sério?! Você não quer terminar isso logo?
— Ora, então vai você.
O jovem até quis ficar ali e ser teimoso a ponto de tirar o maior do sério, mas, como tinha dito, eles não tinham tempo para gastar com bobagens.
Retirando o avental ele rapidamente pulou o balcão correndo em direção ao final da rua deixando Klaus surpreso para trás. Ele realmente não esperava que o rapaz fosse ceder tão rápido sem ao menos discutir um pouco.
Não demorou 10 minutos para estar de volta sem fôlego se jogando sobre o balcão cansado. Era impressionante como olhando de fora ele parecia alguém tão charmoso, mas quando se conhecia via que não passava de um sedentário que não aguentava correr quatro casas sem quase desmaiar.
Klaus aguardou de braços cruzados Hisashi se recuperar antes de poder questionar o que tinha acontecido.
— Eles fizeram meio que uma dança pra mostrar o prato. – Ainda sem ar falou sentando-se na cadeira de madeira no canto da barraca.
— Que?
— Eu não sei... Era... Como se aquele prato fosse a marca deles e tinha que mostrar. Meio que isso, sabe?
— Parece idiota.
— É idiota.
Se esticando na cadeira ele tomou mais um longo suspiro antes de se levantar colocando o avental de volta. Klaus o assistiu com uma expressão distante de quem pensava em algo e antes que o outro o questionasse ele correu para dentro procurando algo nas caixas.
— O que mais vendeu aqui foi – voltando com um prato e três doces rosados em formas de estrela continuou falando — esse doce então-
— Tem que apresentar isso... Como? – Hisashi ficou olhando esperando Klaus responder, mas ele não fez ao invés disso só o encarou.
— O que?
— Você é o extravagante. Deveria saber.
— Ha... Eu... Nem vou te responder.
Apesar das discussões e desavenças ambos tentaram o melhor que puderam para trabalhar juntos e descobrir uma resposta rápida. Entretanto nada que diziam os fazia concordar.
Hisashi já estava perdendo a paciência quando viu o juiz se aproximando deixando claro que era para sua barraca que estava vindo. Klaus viu a tensão em seu olhar e sabia que não poderiam fazer mais nada.
Foi em meio a essa bagunça que o maior olhou para o prato e uma ideia surgiu. Ele não teve tempo de contar ao outro seu plano quando o juiz se aproximou e sem dar avisos o pegou pelo braço aproximando seus corpos.
Hisashi estava chocado demais para conseguir perguntar algo e apenas o encarou, a única coisa que Klaus pôde fazer foi dizer:
— Estrela.
Sem conseguir entender ele deixou que o maior o guiasse no que parecia ser passos de dança pela tenda. Não estavam com qualquer ânimo e a apreensão era óbvia em seus olhares, mas mesmo assim Klaus sorria. Hisashi viu e no momento em que notou o que planejava também sorriu, porém forçadamente.
Foi uma pequena dança de mãos dadas que acabou com os dois de braços entrelaçados e mãos esticadas como se transformassem-se na própria estrela do doce.
Os juízes mostraram sorrisos contentes ao mesmo tempo que aplaudiam. Não estavam rindo deles, mas se divertindo com eles. Foi para isso que o maior sorriu no início, afinal se o doce tinha uma imagem amável e o mínimo que podiam fazer era transmitir isso. Entretanto isso era algo que os juízes viam enquanto eles, ainda sorrindo, mordiam os dentes forçando suas cabeças uma contra a outra resmungando baixo o ódio que sentiam.
— Eu vou te matar. – Klaus falou fechando os olhos.
— Não se eu me matar primeiro. – Hisashi destacou acenando para os juízes.
Demorou alguns longos minutos antes do resultado ser anunciado fazendo a dupla como campeã daquele festival bobo. Eles receberam de presente um pequeno troféu de pedra que tinha a forma de duas bandeiras cruzadas marcando um “x”. Não era nada de especial e só servia para trazer agitação ao festival e novas memórias para quem participasse, entretanto, de certa forma, ficaram felizes por receber.
— A gente pode ir agora? – Com o cabelo solto e o avental no ombro, Hisashi perguntou encostado na barraca enquanto Akaji olhava o prêmio no balcão.
— Sim... Espera só eu pegar minhas coisas. – O vendo assentir ela correu atravessando a rua novamente o deixando ali.
Klaus tinha acabado de guardar as últimas caixas e já estava se aprontando para ir embora quando viu o rapaz suspirando sozinho no canto. Seus olhos correram para o troféu e logo sua mão o alcançou sem dar importância.
— Toma. – Esticando o braço ele chamou Hisashi que olhou sem entender.
Por um curto instante os dois se olharam sem mostrar expressões sínicas ou dizer provocações desnecessárias. Por um curto instante apenas se viram.
— Pode ficar. – Hisashi respondeu se afastando da madeira e colocando o avental no balcão. — Eu já vou carregar a vergonha para o resto da vida.
Sem se despedir direito ele se afastou indo na direção da mulher deixando Klaus ali com o objeto pesado nas mãos.
Ele não entendia por qual motivo segurou com tanta força e menos ainda percebeu o sorriso que se formou em seus lábios após ouvir aquilo e repetir quase em sussurro:
— Para o resto da vida... né.
— Fim. IV
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