Contos - Aventuras Mágicas
13 Cortando caudas pela raiz
Notas iniciais
Outro dia...
Já tinha passado das dez da manhã, mas o ar ainda estava fresco como na hora em que está amanhecendo. Era o clima perfeito para tomar um longo suspiro e se colocar para trabalhar. Ou só aproveitar a quietude do local como o jovem de cabelos vermelhos fazia.
Estava sozinho em casa, o que não era comum já que sempre recebia visitas dos amigos do marido ou de seus conhecidos. Entretanto também não reclamava da solidão, gostava dela. Antes de começar essa vida barulhenta ela foi sua companhia quase diária. Assim era melhor para pensar e se organizar nesses momentos do que no meio da gritaria alegre de sempre.
Não havia muito o que fazer por ali então acabava ficando sentado no sofá lendo algum de seus livros ou tirando o pó de algum lugar que o incomodava. Andava de um lado para outro sem resmungar permitindo o som dos pássaros vagar pela casa com ele assim como qualquer outro barulho.
Um suspiro lhe separou os lábios delicados. Estava acostumado com as longas horas que o marido passava fora, mas ainda era impossível ignorar como aquela casa ficava três vezes maior sem ele ali. Era como se o silêncio preenchesse cada vazio com sua transparência falhando em consola-lo.
Suas reflexões foram repentinamente interrompidas pelo som desesperado de batidas na porta da frente. Ele não fazia ideia de quem era ou o que queria, mas só aquilo foi o suficiente para fazê-lo revirar os olhos azuis cristal antes de seguir até lá.
O puxão na maçaneta foi brusco para mostrar o incomodo, porém ao ver o homem alto cabisbaixo parado ali ele só conseguiu fechar os olhos suspirando novamente se questionando o que teria que aguentar agora.
Ele abriu toda a passagem da entrada observando a postura tristonha e inquieta a frente. Mike era um dos amigos de Pehleq, seu marido, e tinha se tornado uma boa companhia para ele também. Sua espécie canina sempre o fez ser agitado e carinhoso – coisas que o ruivo não lidava bem. Entretanto, agora, se suas orelhas estivessem a mostra estariam abaixadas e sua cauda entre as pernas.
— Soul. – Chamou baixo como uma criança arrependida. – Me ajuda.
— O que foi?
Ao fazer a pergunta ele viu o outro cerrar os punhos como se tomasse coragem para responder o fazendo aguardar ainda incomodado. Se fosse com outra pessoa essa situação automaticamente traria preocupação a conversa, porém não para Soul que já sabia que isso resultaria em algo bobo. Sabia disso até o ver erguer a cabeça dando a resposta envergonhado.
O rosto comprido era o mesmo, o cabelo castanho repicado e bagunçado também, porém os olhos haviam mudado. Tinham as cores diferentes de sempre – um azul e outro dourado fazendo par com o irmão gêmeo –, mas a íris estava fina como de um felino. O ruivo não entendeu e nem quis questionar, apenas fez sinal para que entrasse antes de ouvir mais.
Nos sofás da sala se sentaram e sem nem precisar pedir, ouviu Mike explicar a situação. Contou como se levantou animado pela manhã ajudando Pehleq na caçada, como brincou com o irmão e Rudra em casa e como, depois de correr pela floresta, encontrou uma pedra magica que ao pegar nas mãos disparou uma luz forte o deixando assim.
O ruivo ouviu toda a história pacientemente sem acreditar no descuido do maior em tocar em coisas perdidas no meio do nada.
— O Rudra me atacou. – Resmungando falou com um olhar entristecido.
— Foi bem feito. – Disparou vendo os olhos prestes a chorar o fitando. — Mas por que veio atrás de mim?
— Você entende disso.
— E o Kazuaki?
— Ele disse que ia procurar remédio pra amenizar ou algo assim, mas ele não conseguia fazer muito. Foi ele que falou pra mim vir aqui. – Apesar de não querer se intrometer nisso Soul sabia que era verdade e ficou aliviado por saber da sensatez do mais velho deles. Assentiu enquanto pensava no que ele tinha contado sobre o item. — Me ajuda, eu não quero brigar com o Nikki e o Rudra.
Apesar dos olhos brilhantes que imploravam a sua frente, o menor não se abalou permanecendo em silêncio enquanto pensava.
— Olha, – respirou fundo se ajeitando no sofá — maldições e feitiços são coisas diferentes e eu não sei qual é o seu caso. Se for feitiço deve sair sozinho ou, pelo menos, é fácil de tirar, mas maldição... – Ele o encarou vendo o rosto sério se perguntando se estava realmente prestando atenção. — É complicado.
Os ombros de Mike caíram ao mesmo tempo que seus lábios se curvaram. As poucas palavras tinham o derrotado com um golpe direto em seu coração. O ruivo assistiu à cena como se sua explicação fosse um decreto de morte o fazendo coçar os olhos cansado.
— Ah... Mas se... Achar o ponto de início dá para tentar resolver. – Ele nem tinha terminado de falar quando o outro se levantou animado. — Como a pedra que você tocou.
— Vai me ajudar?
— Se parar de chorar.
Feliz como se tivesse ganhado o presente perfeito de Natal Mike correu abraçando o corpo menor e delicado de Soul que nem se surpreendeu com a atitude, mas ainda se incomodou.
— Tá bom, agora não vou mais te ajudar. – Falou calmo o fazendo pular para trás tão assustado quanto arrependido.
— Desculpa!
• • •
Soul precisou se trocar e arrumar seus vários equipamentos de magia que tinha certeza que precisariam usar mudando todos os seus planos para aquele dia. Eram coisas pequenas que podia levar na cintura e sua arma que carregaria em mãos o tempo todo. O jovem não era de demorar quando precisavam sair – isso é especialidade de seu marido –, entretanto ainda levaram um tempo para poder finalmente partir nessa missão.
Saíram dali com o sol alto os cobrindo e a temperatura agradável os acolhendo enquanto se dirigiam para a parte de trás da vila onde a saída era menos utilizada. Assim era melhor para evitar que os outros dois lobos encontrassem Mike e acabassem se estranhando.
O mais alto foi na frente como ordenado pelo ruivo mostrando o caminho por onde passou permitindo que pudessem refazer alguns passos analisando o ambiente e, no caso de Soul, sentir energias magicas próximas.
A floresta ali tinha pontos com muita claridade e outros que só era seguro passar quando o sol ainda estava no céu. Todo aquele verde cercava a vila tanto protegendo o local quanto atraindo criaturas boas e ruins. Também tinha a sorte do ar ser puro e por isso quando havia algo de incomum eles logo notavam a energia mudar.
O caminhar deles era lento, mas preciso chegando ao ponto do início da história em poucos minutos. Comparado com o que Soul esperava o item estava muito mais perto deles do que deveria deixando a impressão de que se alguma criatura colocou aquilo ali, ela com certeza era abusada.
Estava no chão como uma pedra esquecida pelo tempo. Tinha uma estrutura simples que lembrava as enormes rochas da cidade de pedra abandonada depois da guerra e era pequeno como um prato de sobremesa. As cores o fazia pensar que era um tronco podre de árvore, mas o brilho do sol refletindo deixava claro que o material era de vidro.
O ruivo não tocou para saber se emitia alguma sensação, ao invés disso usou o cajado curto para liberar magia e revelar qualquer armadilha oculta por ali. Assim que percebeu que não havia nada ele avançou pegando o artefato nas mãos.
— Parece que parou de funcionar. – Comentou deixando Mike o ver de trás dele. — Você fez algo?
— Eu mordi antes da luz aparecer e depois que a luz sumiu eu joguei aqui. – A resposta soou como se falassem de sua bolinha favorita e não de um item perigoso. Soul o olhou incrédulo antes de retomar os pensamentos.
— Não sei se quebrou, também não me importa. Dá pra usar isso.
— Vai fazer o que?
— Hm... Olha.
Em um movimento rápido ele jogou a pedra para o alto e ainda mais rápido elevou o cajado na outra mão com um único movimento circular prendendo o item no ar como se estivesse em uma bolha de sabão. Em seguida moveu as mãos em sincronia fazendo fumaça azulada sair da arma em direção ao objeto. O brilho o cercou até engolir o item bem a sua frente e então como em uma explosão se espalhou pelo ar.
O artefato desceu lentamente até a mão de Soul revelando o caminho com a fumaça de antes assim que teve contato com a pele do menor. Com isso eles seriam capazes de seguir o rastro por onde isso havia passado encontrando a fonte causadora.
— Nossa...
Ele ouviu o sussurro e se virou para ver o rosto provavelmente espantado em encanto. Como esperado Mike realmente estava surpreso, porém foi Soul quem arregalou os olhos ao ver orelhas finas de felino no topo da cabeça dele.
— O que foi?
— Ah... – desviando o olhar tentou disfarçar se virando para frente e amarrando o artefato na cintura. — Nada. Vamos seguir.
O moreno parecia não ter percebido a mudança e Soul, percebendo isso, resolveu manter assim. Não queria que ele se desesperasse e começasse outro drama canino quando tinham apenas começado a caçada.
Demorou pelo menos uns trinta minutos para darem de cara com uma parede de pedras cinzentas onde a fumaça acabava. Eles olharam em silêncio vendo terem chegado em um beco sem saída onde não havia como subir e nem como dar a volta, aquilo era praticamente uma montanha.
— E agora? – Confuso Mike perguntou esperando que o outro pudesse abrir uma passagem para eles.
Soul não tirou os olhos das pedras e parecia ligeiramente perturbado. Sua magia o obedecia e nunca errava o rastro quando era ordenada então isso não deveria ter acontecido a não ser que aquilo não fosse um final de linha, mas um bloqueio na passagem para a chegada.
— A gente se purrdeu-
Suas mãos taparam a boca assim que ouviu o ronrono em sua voz antes de terminar a pergunta. O ruivo automaticamente se virou para ele com os olhos arregalados o vendo tão surpreso quanto ele.
— Purr que- – tentou falar, mas se interrompeu novamente. — Socorro... – sussurrou abafado com os olhos trêmulos.
Nesse tempo que passaram andando Soul tinha percebido algumas mudanças estranhas acontecendo com o jovem e agora ele podia ver claramente uma cauda fina balançando ali deixando óbvio que se demorassem mais os sintomas poderiam piorar de vez. Entretanto não era isso que o fez encarar a situação de Mike com tanto terror.
— Soul... – chamou quase em um miado triste acordando o menor das perguntas.
— Ah... Tive um dejá vu... – Balançando a cabeça se virou respirando fundo. — Não estamos perdidos. É só que alguém foi esperto.
— Como?
— Fica pra trás.
Ao comando o rapaz deu alguns passos atrás suficiente para se afastar já se encolhendo em defesa. O ruivo seguiu com o plano arrastando o cajado no chão de grama a sua frente sem sair do lugar fazendo uma luz dourada emanar dali e como se o cajado fosse um pincel o passou pela parede marcando pontos invisíveis.
Com calma deu um passo para trás assistindo a grama se levantar se amarrando pela parede com força. Assim que todos os pontos foram preenchidos ele ergueu a arma para o céu e em seguida a abaixou com força para o chão. Quase no mesmo instante a grama forçou a parede para seguir o movimento com uma pressão tão grande que as supostas pedras se desfizeram em pó.
— Parede falsa... – seu curto sorriso sarcástico se desfez assim que sentiu um cheiro doce do tipo que faz o nariz coçar sair dali. Era familiar demais para ele.
— A gente pode entrar?
— Devemos.
O local era escuro quase como uma caverna, mas não chegava a ser tão fundo quanto. Também não havia caixas ou qualquer bagagem que a denunciasse como morada. Era mais um esconderijo improvisado.
— Quem tá aí?
Saindo da parte escura um pequeno goblin surgiu gritando estridente fazendo Mike apertar as orelhas percebendo só agora a transformação em seu corpo.
Assim que alcançou a luz eles puderam ver a criatura um pouco melhor. Parecia algo comum da espécie, era baixo de garras longas e pernas curtas, porém tinha olhos e bigodes de gato.
— Como conseguiram entrar? Como acharam esse lugar?! Quem são vocês?! – Ele aumentava a voz junto ao desespero fazendo Soul bufar irritado com tanta gritaria desnecessária.
— Olha... Sabe quem fez isso? – Apontou para Mike ignorando tudo o que dizia.
— Quê... – olhou vendo o rapaz andando em círculos quase chorando, sem entender do que se tratava até que encontrou as partes felpudas. — Curiosidade, talvez.
Sem paciência o ruivo pegou o artefato da cintura o jogando nos pés do goblin se segurando para não acertar a cabeça dele.
— Você quebrou! – O pequeno gritou se ajoelhando como se aquilo fosse sua vida. — Seus monstros! Depois de tanto tempo procurando... Ah!
— Tá, agora dá pra desfazer isso?
— E por que eu faria?! – Rápido como um lince se levantou cuspindo as palavras em fúria. — Ele teve o que mereceu! É o castigo por mexer no que é meu!
Sem mudar a expressão séria do rosto Soul movimentou o cajado fazendo a grama rapidamente se levantar tão firme quanto cipó se amarrando nos punhos e tornozelos do goblin antes que percebesse o levantando a sua altura para encarar seu rosto.
— Que isso... Espera!
— Eu perguntei se você pode fazer, não se você quer. – Sua voz era baixa e ameaçadora o suficiente para fazer o outro engolir ríspido sofrendo com a imaginação do que poderia lhe acontecer.
— Vai... me matar se eu não fizer? – Questionou com o rosto levantado tentando disfarçar seu medo com orgulho. — Porque... se fizer isso ele fica assim pra sempre...
— Ah, não, não vou te matar. Existe outros meios de conseguir o que eu quero sem fazer isso.
Sua ameaça foi como um comando para que a planta criasse um novo ramo subindo até a cabeça do goblin. O pequeno assistiu à cena tremendo sentindo a planta se enrolar em sua orelha cutucando a entrada do ouvindo com a ponta.
— Tá! Tá, eu faço!
Um movimento de mão e ele estava novamente no chão. Mike assistiu parcialmente a conversa sem entender do que tudo aquilo se tratava exatamente, mas ficou feliz ao ver o goblin concordando.
— Não é difícil, mas você vai ter que ficar parado.
Era óbvio que o lobo estava assustado, mas o olhar de Soul no fundo o encorajou a fazer o que era mandando. O pequeno foi rápido em preparar o local jogando tinta pelo chão e recitando palavras em uma língua que Soul não conhecia. O processo todo não levou nem dez minutos o que poderia causar desconfiança, porém a energia magica era legitima não deixando dúvidas.
— Pronto, agora quem vai consertar meu artefato?
— Não pode fazer isso?
— Escuta, foram vocês que-
— As orelhas ainda estão aqui. – Tocando como se quisesse as arrancar dali o rapaz comentou preocupado.
— Magia demora, Mike. É normal.
O pequeno os viu conversar como se sua existência não fizesse diferença nenhuma ali e não conseguiu evitar a fúria que se instalou em seu corpo. Bufando ele cerrou os punhos se preparando para gritar.
— Quer saber? Se não vão me ajudar então sumam daqui!
— Sim, vamos, mas antes tem uma coisa que está me incomodando desde que cheguei aqui.
— O que agora?
— Você... já esteve no abismo do desconhecido? – A pergunta o fez desfazer sua expressão irritada e o encarar seriamente. — Então aquele orbe era seu.
— Como você sabe disso? – Ele estava desesperado fazendo Soul rir das lembranças.
— Você não vai querer ouvir.
— Eu quero, sim. Você não quebrou ele, quebrou?
— Não.
— Então? Tem que me falar!
— Eu deveria é queimar esse lugar com você junto pelo que me fez passar por aquilo! Porém... Como o resultado não foi ruim, vou deixar passar. – Ele se virou para a entrada fazendo sinal para Mike seguir. — Não está comigo, – falou olhando por cima do ombro e sem olhar para o goblin seguiu em frente — mas também não ficou lá.
• • •
A volta foi muito mais pacifica do que a ida os permitindo respirar o ar fresco das árvores e poder perceber que eles usaram o caminho mais aberto que o local possuía onde o verde brilhava com os raios de sol.
— Você conhecia ele? – Mike perguntou em um tom baixo ainda tocando nas orelhas.
— Não.
— Então-
— Não pergunta.
Ele não prosseguiu e apenas continuou seguindo quando percebeu estar vários passos atrás do menor sentindo seu corpo ficando lento. Soul percebeu não ter ninguém próximo a ele e automaticamente se virou vendo o outro quase arrastando os pés em sua direção.
— O que foi?
— Sono... Eu acho.
— Ah... – O ruivo sabia que esse era um efeito colateral esperado quando não se era acostumado a ser exposto a magia por tanto tempo. Por isso, pacientemente, voltou ao encontrou dele. — Vem aqui.
Falou se dirigindo até uma árvore onde se sentou na sombra esperando Mike fazer o mesmo. O maior até tentou ir com calma como ele fez, porém, sem controle do corpo, acabou desmaiando de sono em cima dele assim que se sentou.
— Ai. – Ele o empurrou até deitar a cabeça em seu colo diminuindo um pouco a aproximação. — Pesado.
Soul também estava cansado. Não esperava que metade disso fosse acontecer naquele dia, mas não estava irritado por ter acontecido. Carinhosamente apoiou as mãos sobre os ombros do rapaz deixando o cajado de lado no chão.
— Não aguenta magia. – Sorrindo para si encostou a cabeça na árvore vendo o céu azul por entre as folhas e ouvindo a respiração calma do outro. — São só um bando de músculos.
Rindo sem fazer barulho relaxou se permitindo ter finalmente sua recompensa daquele dia desnecessariamente bagunçado já pensando nas reações que o marido teriam quando eles contassem o que aconteceu.
—Fim. XII
Fale com o autor