Contos Aveludados de Barafunda
4 Sinto muito
Das tuas luzes lúdicas, das quais as prediletas eram as que ficavam apagadas no mortuário de tua vontade sacra de fazer o bem. Queria dizer que sempre andei em uma única direção, porém faria parte da massa hipócrita que nunca assume que já foi leigo. No mais, somos todos leigos e fantoches de qualquer um e de nós mesmos, que desumanidade renasce do humano ser de humanidade. Sempre peguei a via expressa, no lado esquerdo das diretrizes mundiais no que diz respeito aos prazeres de algo fugaz.
Se as palavras lhe ferem o brio, regulo-me ao ser que anda para o abismo de olhos fechados, pois se alguma vez disserem algo que lhe possa agredir o peito ansioso, saiba que a palavra que fere, só fere se a ponta for aguda para quem é atingido, se arredondasse sua vontade de superioridade, talvez lhe seriam redondas almofadas as tantas pancadas que te dão pela vida.
Não me passo por amaciante da vida, essas palavras supracitadas são a maior vocação de um ser que escreve: dar olhos ao cego social, pernas ao aleijado urbano, ouvidos ao surdo leviano, é como um Deus, como antes já me ocorreu mentalmente que o escritor é o deus do seu livro, mesmo que ame o personagem, às vezes faz parte ter de sacrificá-lo para o bem da humanidade que é viva e governada por um outro Deus, um com a letra inicial maiúscula.
Caso não lhe faça sentido algum essas palavras, apenas espere, é como se estivesse digerindo comida, não peça para repetir a dose, pois ainda é cedo demais, a boca é maior que os olhos e esses maiores que o rosto, ainda não assentou a comida e ainda não veio a sensação de satisfação. Se esperar mais alguns minutos a satisfação lhe virá, ou não, pode vir aquela saciedade de estar estourando, quase sem vontade de se levantar, parece que vai colocar tudo para fora. É mais fácil que o segundo ocorra, pois somos seres gulosos. Por isso, peço, afim de não os causarem possíveis e futuras náuseas, que não leiam novamente. É como um remédio que se engole de nariz tapado. Joga tudo pra dentro esperando-se não se sentir o gosto amargo que embrulha o estômago e formiga a espinha.
Não coloco no papel nada que eu não seja, não sou escritora nem poeta, apenas projeto de um desejo, nada sou e nada de riqueza possuo, mas o que tenho compartilho: seria a minha experiência baixa de querer ter manias de escrever, manias de crescer, manias de apenas estar por cima do que hoje é relativizado — até a liberdade é relativa.
Tentar não manchar o branco do papel com as minhas imundices é algo que praticamente torna impossível tornar-me algo, estou apenas experimentando como fazer desta tela de realidade um quadro todo, que seja pincelado a lápis e apagado inúmeras vezes para o crescimento do intelecto que tantos acham que possuem — Não sou um deles, não o possuo e nunca o possuí, é algo que me escapa entre os dedos, quanto mais acho que aprendo, apreendo-me em um circulo maior ainda, e mais coisas estendidas a minha volta pedem para ser incorporadas neste cérebro pequeno. Não posso!
Acalmem-se, coisas inanimadas, eu sou animada e de desânimo estou cheia, tenho de incorporar o útil, e muitas não passarão por este critério.
Sinto muito, mas não somos tão necessários, já que deixaram de incorporar pessoas à rotina, os leitores, os que tentam escrever são insignificantes, pois quase nunca são incorporados, são adquiridos e o que se adquire pode muito bem ser substituído, ou até mesmo não escolhido.
Sinto muito por nós, humanos desumanos.
Sinto muito.
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