Contos
15 Clichê (The100- Raven Reyes/Clark Griffin - Yuri)
Notas iniciais
De todos os clichês que Raven já havia vivido e presenciado desde sua queda para a terra se apaixonar por Clarke era o mais assustador e estranho. As vezes ela se sentia como em um filme ou uma serie: Tantas coisas inacreditáveis acontecendo ao mesmo tempo, tantas reviravoltas e principalmente tantas mortes...A maioria das pessoas com as quais já havia tido algum laço agora encontrava-se morta ou gravemente ferida.
A terra podia estar razoavelmente habitável, mas aqueles que estavam ali antes dos 100, ou povo do céu como os haviam chamado, eram hostis e muitos. Não bastasse os selvagens existiam ainda os montanheses que apesar de mais civilizados tinham agido como verdadeiros monstros.
Desde seu primeiro dia na terra tudo o que não só a morena como todos a sua volta fizeram se resumia a lutar e sobreviver. Não tinham descanso, sempre que as coisas pareciam estar bem um novo problema surgia. E com o novo problema novos mortos a serem lamentados.
Raven Reyes não sabia tudo sobre o amor. Se fosse sincera consigo mesma amara apenas Finn por tantos anos que a própria ideia de sentir tais sentimentos por outro ser parecia inadequada, quase errada. Mas ela sentia. Quando e como tal coisa havia começado não conseguia dizer, nunca tivera tanto tempo para analisar seus sentimentos antes, já faziam tantos anos desde que tudo começara e em retrospectiva precisava admitir o quão burra fora ao se tacar de uma nave sem ter certeza se poderia sobreviver por um garoto. O amor lhe fizera fazer loucuras...E agora Finn estava morto.
—Você está bem?
Uma voz conhecida lhe perguntou a despertando de seus pensamentos e mãos firmes mas suaves pousaram em seus ombros lhe chacoalhando de leve
—Ah, sim! Desculpe Clarke, eu estava pensando em como concertar essa coisa e acabei saindo de orbita como sempre!
Mentiu. Havia se distraído tanto em seus pensamentos que sequer notara a aproximação da loira a qual agora lhe direcionava um sorriso doce e amigável. Clarke havia mudado muito desde a primeira vez que seus olhares se cruzaram, mas aquele sorriso conseguira manter-se intacto mesmo depois de todo o sangue derramado sobre suas mãos e todas as dores a ela infligidas.
—É compreensível, afinal se não conseguir concertar isso e replica-lo provavelmente em seis meses estaremos mortos de novo.
—E se eu conseguir voltamos pro céu levando a grande família junto. Que incrível, mais...sei lá quantos anos presos lá nas estrelas enquanto torcemos para a terra voltar a ser habitável novamente um dia pros netos, dos netos, dos netos, dos nossos netos.
Afastou-se de Clarke colocando a chave de fenda que sequer lembrava de ter em mãos sobre a mesa. Em seis meses o mundo iria acabar novamente. E a única salvação era uma nova nave. Fazer aquilo funcionar. Mas nenhum dos outros mecânicos e engenheiros, nem mesmo Raven, parecia conseguir...
—Vai dar tudo certo, Rae. Nós vamos sair dessa, sempre conseguimos nos safar e isso não vai mudar agora...
‘’ Rae’’, aquele maldito apelido que a maior lhe dera algum tempo atrás e desde então usava-o sempre que queria lhe acalmar... e as vezes funcionava. Encarou o mapa da nave novamente tentando achar uma solução. Qualquer mínima resposta do que poderia estar impedindo-a de ligar. Mas nada.
—Não sei se podemos fazer isso, Clarke. Não temos toda a tecnologia necessária, nem todos os trabalhadores habilitados e mesmo que sejamos capazes de relançar essa nave muitos não poderiam ir. Muitos morreriam aqui. Muitos já morreram aqui. Todos os nossos amigos estão enterrados aqui.
—Não pense nisso agora, ok? Apenas...faça isso dar certo e nós acharemos um jeito. Confie em mim.
O abraço que veio a seguir foi uma surpresa agradável. Desde a morte de Lexa a loira havia se tornado mais distante afetivamente de todos, talvez evitando um novo amor com base em toda a dor que já havia sofrido e como ninguém era louco o bastante de arriscar ser espancado por wanheda tornara-se raro vê-la abraçando qualquer outro ser que não fosse sua mãe. Mas ainda assim ali estava ela, Clarke Griffin, a envolvendo em seus fortes braços numa pressão agradável e calorosa e apesar de soar tão clichê Reyes não foi capaz de evitar pensar no quão certo parecia estar tão perto da outra, de como seus corpos pareciam ter um encaixe perfeito e como a sensação de poder descansar sua face contra o ombro de Clarke lhe relaxava.
Deixou os braços frouxos ao redor do pescoço da mesma em silêncio enquanto sentia seu aperto passando por suas costas e um breve carinho nas mesmas. Clarke tinha um cheiro bom, algo como morangos silvestres e talvez madeira.
O abraço durou alguns minutos que mais lhe pareceram horas e quando finalmente sentiu a outra se afastar não foi capaz de evitar o sorriso desnecessariamente grande que brotou em seus lábios.
—Eu preciso ir ver como Bellamy e Octavia estão se saindo na tarefa de convencer Indra e os outros sobre voltarem conosco para o céu, ou ao menos deixar que os mais jovens o façam.
—Vá princesa, faça o que você faz de melhor e lidere o nosso povo pra a sobrevivência... Eu vou tentar fazer essa lata velha voltar a voar.
—Muito bem, mecânica. Eu sei que vai conseguir, você nunca me desaponta. É por isso que eu sempre vou te escolher primeiro.
Um pequeno beijo foi depositado na bochecha de Raven por Clarke que em seguida dirigiu-se para a saída da salinha deixando uma Raven Reyes com a boca ligeiramente aberta, olhos um tanto quanto arregalados, coração acelerado e a garganta seca.
Foi como um Clique. Uma memória a muito tempo ocultada pelos traumas e a falta de tempo.
‘’ Hey, Raven eu escolheria você primeiro’’
Como poderia ter esquecido daquele maldito dia? Os tiros que quase lhe custaram os movimentos de sua perna...ela recostada na parede metálica lutando contra o tempo e contra a dor para ficar acordada pois precisava terminar aquele mecanismo, precisava garantir a segurança de todos com a explosão...Clarke procurando um fio, as verdades sobre o que pensava –ou parte delas- sobre a jovem tão perfeita em tudo e...aquela frase que significara tanto para ambas.
Não tinha certeza se seus sentimentos haviam começado naquela noite. Provavelmente fora antes, mas estava tão ocupada sentindo-se rancorosa por Finn tê-la trocado...tinha tantos conflitos em sua mente que não podia se dar ao luxo de pensar no que aquela frase significava realmente. E além do mais a luta nunca parava.
Começara apenas como um problema com os selvagens indo diretamente a luta contra os montanheses – onde novamente muitas vidas haviam se perdido– e em seguida Clarke decidindo desaparecer e se isolar, virando uma espécie de símbolo de poder a ser caçado por todos que quisessem sua força –o ‘’ apelido’’ wanheda e tudo o que trouxera consigo jamais seria esquecido– e depois Alie e a cidade da Luz. Agora o iminente fim do mundo –de novo- o qual eles não podiam deter, mas havia uma forma de sobreviver.
Ainda assim aquela noite sempre estivera guardada em um cantinho especial de sua mente. Lembrava-se da sensação do coração acelerando ainda mais...do sorriso brotando instantaneamente em seus lábios...de como teve de lutar contra o desejo de dizer que também a escolheria primeiro...do risinho baixo de Clarke ao ouvir sua resposta ‘’ É claro que escolheria, eu sou incrível’’. Simplesmente de tudo.
Mordeu o lábio inferior dando um aceno negativo para o nada.
—Não temos tempo pra isso agora, Raven! –repreendeu a si mesma tentando não rir – o mundo está em perigo. Talvez quando tudo isso acabar você diga a ela como se sente. Talvez.
Se Clarke a correspondia ou teriam tempo algum dia para descobrir tal coisa ela não sabia dizer mas ao menos por agora o luxo de pensar em tais coisas não podia ser seu, muitos viviam romances em meio ao caos que tudo havia se tornado...mas depois das coisas vivenciadas por Griffin e Reyes ambas conheciam os perigos de tal ato em meio a constante guerra contra o tempo e contra tantos outros inimigos...O clichê podia esperar. Afinal Clarke sempre a escolheria primeiro, e Raven faria o mesmo por ela. Enquanto estivessem perto e bem isso podia esperar. Por agora o termo melhores amigas parecia cair como uma luva sobre elas e isso bastava par que a morena estivesse feliz ou o mais próximo possível disso.
Voltou os olhos para o mapa, vez ou outra um suspiro bobo deixava seus lábios quando distraidamente sua mente decidia vagar para a loira.
Elas eram um clichê e algum dia Raven desejava que pudessem vivencia-lo plenamente juntas, sem mais guerras, sem mais lutas, sem mais a constante ameaça de morte... A mecânica e a princesa poderiam ter um final feliz, quem sabe.
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