O jovem entrou na sala, todo sério, com cara fechada, parecendo que estava de mau humor, até que começou a contar a sua história:

— Bem, eu não sei quando exatamente me falaram dos meus poderes, mas sei que eu era bem pequeno, acho que com 6 anos. Eu tava na sala vendo tv com a minha mãe, minha irmã e a minha avó, quando ouvi a voz da minha mãe dizendo que queria fumar. Na mesma hora eu disse pra minha mãe que ela não podia porque fazia mal e ela me olhou como uma cara de desentendida me perguntando do que eu tava falando. Eu disse que ouvi ela falar que queria fumar e ela disse que não falou nada. Eu insisti e ela ainda dizendo que eu estava ouvindo coisas, e com isso me calei e voltei a prestar atenção na tv. Depois eu ouvi a minha avó perguntando se minha mãe queria mesmo fumar, se ela estava fumando escondido e aí eu respondi que não sabia. Novamente eu fui questionado, mas agora pela minha irmã e minha mãe. Eu disse que tinha ouvido minha avó perguntar sobre o lance de fumo da minha mãe e minha avó negou que tinha dito algo e aquilo de antes se repetiu até que também tudo voltou a como estava antes: todos quietos na sala vendo televisão. De repente, eu ouvi minha mãe me chamando, e quando olhei pra ela, vi que ela me encarava e depois, com a boca fechada, ela me perguntou se eu estava conseguindo ouvir ela bem. Eu balancei a cabeça que sim e ela então abaixou a cabeça, com os olhos fechados, não falando mais nada. Depois ela se levantou, e aí sim disse mexendo a boca de que queria conversar comigo na cozinha. Quando a gente chegou lá, ela me lembrou que meu pai não queria nada com ela e que por isso não quis assumir o filho, mas além disso ela também contou que meu pai era um Diferente e que pelo visto eu era um também. Na hora não entendi nada, e por isso, ela me contou esses lances dos Diferentes e tal. Ela me disse que eu estava lendo ou ouvindo os pensamentos da gente lá em casa, e que por causa disso, eu teria que mudar de escola e ir estudar numa outra e que isso seria um saco de fazer. Mesmo assim, ela levantou, falou pra eu voltar a ver tv na sala e que ela resolveria isso. Eu voltei pra sala e sem que minha avó percebesse, contei tudo pra minha irmã e aí de noite a gente ficou no nosso quarto com ela me ajudando a treinar esse poder. Depois de algum tempo, minha mãe veio no nosso quarto e disse que pediria pra minha avó me levar até um local onde um ônibus me levaria pra essa escola nova. Eu falei “tá bom” e minha mãe saiu do quarto, e aí eu e minha irmã voltamos a brincar de eu ler o pensamento dela e também conversamos mais sobre isso tudo.