Conto dos Diferentes
23 Primeiro Espaço - Áries
A primeira parada da longa caminhada, seria num amplo local. Havia diversos objetos e aparelhos de musculação de tons avermelhados, um espaço para correr, quadras para praticar esportes e mais à frente, uma piscina tom azul turquesa. À esquerda, uma estante de livros pequena se destacava dentro de uma sala, juntamente a uma grande bola vermelha e emborrachada sobre o chão acolchoado e um conjunto de mesa e cadeira elegantes, onde um computador residia na escrivaninha.
Ao se aproximar daquele lugar, era possível sentir um calor que emanava de todas as coisas presentes, ou talvez a área em si exalasse o mormaço. A cada passo para dentro do lugar, maior era a temperatura, a ponto de o suor do homem encharcar suas roupas. E para sua surpresa, nada ali parecia ser afetado pelo clima quente. Era como se, por alguma razão, todo o calor daquele ambiente só afetasse o intruso.
De repente, um carneiro surgiu adentrando aquela zona superaquecida. Calmamente ele caminhou em direção ao intruso e a atmosfera presente ali curiosamente não o afetou. O homem, vendo aquele animal entrar com tranquilidade naquele espaço quente, sem sofrer as consequências do clima, começou a pensar que estava alucinando devido ao calor.
Ao ver aquele desconhecido dentro da zona, o ovino deu dois passos para trás, abaixou levemente a cabeça, deixando bem visível seus chifres ósseos enrolados e então correu de encontro ao homem, deixando claro que estava atacando-o.
O homem conseguir se esquivar daquele avanço repentino do animal por sorte, já que seu estado não o permitia agir da melhor forma possível.
O carneiro, percebendo que passou direto, sem atingir seu alvo, se virou e então começou a se transformar em um ser humanoide, de tamanho menor que do homem, mas com uma aparência um pouco animalesca. Ele tinha chifres ósseos na cabeça e eram maiores que em sua forma animal, os cacos de suas patas dianteiras agora formavam suas mãos e a lã em seu corpo se transformou em brasa acesa, além de seu rosto ficar raivoso.
— Quem é você? E como ousa invadir o meu espaço? — perguntou a criatura.
O homem caiu de joelhos, quase sem forças para se manter daquele jeito, com um olho fechado e o outro entreaberto, respondeu com fraqueza na voz:
— Sou… apenas um homem… desafiando o Destino e o Universo… pra ser eu mesmo… na minha própria vida.
Após ouvir aquelas palavras o monstro então se acalmou, mudou de forma novamente, mas agora para algo menos demoníaco, embora mantivesse traços animalescos e humanoides. Ele se aproximou do ser humano, o pegou nos braços e então o arremessou na piscina.
Percebendo imediatamente que estava debaixo d’água e afundando, o homem nadou rapidamente para a superfície onde viu o anfitrião do local sorrindo para ele.
— Mas que merda foi essa? Por que você fez isso? — Os olhos do rapaz estavam um pouco apertados por causa das sobrancelhas baixas e o tom de sua voz era um pouco mais alto que antes.
— Como se sente? Está melhor?
O homem prestou atenção naquelas palavras e se reavaliou. Ele se surpreendeu por não estar mais sentindo aquele calor de antes. Na verdade, ele agora se sentia leve, relaxado e refrescado.
— Quem é você? Que lugar é esse?
— Eu sou Áries e este é o meu espaço. Ele foi criado por mim, pra que eu possa fazer o que quiser aqui e me sentir bem — disse o homem carneiro enquanto abria os braços e virava a cabeça de um lado para o outro, visualizando todo o espaço em que se encontravam.
— Ok, Áries, você pode me ajudar a sair daqui? — perguntou o invasor agora levemente ansioso.
— Claro.
Áries olhou para o rapaz e, com um estalar de dedos, uma escada metálica apareceu em um canto da piscina. A criatura apontou na direção e então o homem nadou até lá.
— Obrigado e me desculpe por invadir o seu local. Eu não sabia que o encontraria. Apenas segui em frente no meu caminho e cheguei até aqui — disse o homem, preocupado com uma possível reação do carneiro como a de mais cedo.
— Confesso que fiquei puto quando te vi aqui, invadindo, mas depois, pela sua resposta, entendi o que estava acontecendo e aí fiquei mais calmo, então tudo bem.
Fora da piscina, o ser humano não sentiu mais calor. Embora seu corpo estivesse molhado e isso prevenisse a alta temperatura, ainda assim ele não sentia mudança alguma no clima do local. Nem o calor de antes e nem frio.
— E como é que antes eu estava sentindo muito calor aqui dentro, mas agora a temperatura parece estar agradável?
— Ah, é porque qualquer ser que não seja daqui vai perceber as coisas de uma maneira diferente de mim, como se tudo aqui não fosse naturalmente dessa forma. Depois que eu te joguei na piscina, permiti que você se sentisse como eu aqui dentro, então tudo pra você passou a ser normal e agradável.
— Ah, tá. Entendi. — Pela cara que fazia, o homem parecia na verdade ainda confuso.
— Pelo que você me disse, eu sou o primeiro dos doze que você passará na sua jornada — disse o carneiro humanoide, pensativo.
— Doze?
— Sim! Existem mais onze espaços com… entidades como eu. Você vai poder parar onde está e aceitar as coisas como são e estão, ou vai continuar o seu caminho passando por todos e indo além.
— Obrigado por me avisar sobre esses outros onze. E eu vou, sim, avançar e ir além — disse o humano, determinado.
Áries abriu um sorriso e animou o humano:
— Então, vai logo e conquiste o que é seu.
— Mas primeiro preciso me secar. Você tem alguma toalha aqui nesse seu espaço?
— Ah, é, verdade. Eu vou voltar pra minha forma de carneiro e quando o fizer você vai poder pegar a minha lã. Coloque ela por cima da sua roupa e aí pronto. Além de ter uma roupa nova você ainda estará completamente seco.
O homem estranhou o que foi dito e não fez questão de esconder sua expressão facial.
A entidade riu da cara do humano e disse a ele:
— Não se preocupe. Tá tudo bem. A lã vai crescer de novo em poucos segundos.
Quando a transformação ocorreu, o homem ficou ainda um pouco relutante, mas percebendo que o animal começava a transparecer irritação, ele agiu de forma cuidadosa, pegou firme um chumaço de lã e o puxou rapidamente. Vendo que nada aconteceu e que o carneiro ficou calmo, ele então, colocou o material sob sua roupa e sentiu um pequeno calor em seu corpo, exatamente na área em que colocou a lã. Após dois segundos o tecido de sua roupa se fundiu com o que foi colocado sob ele, tornando-se um só. O homem colocou a mão sobre aquela região e sentiu-a seca. Ele ficou confiante e repetiu o processo até que de fato estivesse com uma nova e seca roupagem.
Depois disso, o ser humano se despediu da entidade, se virou e seguiu em frente, continuando o seu caminho.
“Será que vou achar mais lugares como esse? Tomara que não” — pensou o caminhante preocupado.
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