Conto dos Criadores
5 Olha a guerra! É mentira...!
Notas iniciais
Eu tenho que admitir, mesmo não gostando desses fanáticos, esses líderes militares tem bom gosto pra construir quartéis-generais. O que eu me encontro neste momento tem uma parede feita por um material que parece mármore, mas por ser um templo dedicado ao Kruizer, tinha algo misturado na substância que a tornava preta, e com uma aparência meio esfumaçada. As janelas existiam, mas eram mínimas e não passava mais iluminação do que necessário pra enxergar.
Esse líder em questão declarou que vai atacar um templo dedicado ao Shiro, provavelmente só porque ele quer. Talvez tenha alguma outra coisa envolvida, mas... eu não realmente acredito que tenha muito a ver. Diferentemente da Terra, conflitos religiosos no resto do Universo realmente tem a ver com intolerância religiosa. Talvez porque os ídolos dessas seitas vivam brigando...
— General, Lauriel, hospedeiro de Kruizer, acabou de chegar — Um dos soldados que me acompanhava até a sala da General Alice me apresenta ao chegar.
— Mas pode me chamar de Liel. Alice, quanto tempo não nos vemos — digo, dando um passo a frente dos soldados e me curvando à líder, mais por mania do que por respeito.
— Lauriel, é sempre um prazer revê-lo. Não quero ofendê-lo, sua presença é muito importante, mas, onde está o Lorde Kruizer? — Alice responde, sua voz suave como sempre , mas o tom dela deixava claro que era melhor não brincar com ela. Sua aparência, como sempre impecável, sua maquiagem era leve, mas ajudava a marcar as linhas mais bonitas do rosto dela, seus longos cabelos negros caíam até o fim de suas costas, e sua expressão era sempre preocupada. Não posso culpá-la, tendo que cuidar dessa cambada de fanáticos dia após dia.
— Ah, sabe como é o Preto Véio, ele não dá a mínima pra vocês. Ele arranjou uma desculpa pra não vir e foi brigar lá na Arena, como ele sempre faz. Sério por que vocês ainda seguem esse cara...
Alice não parece muito satisfeita com meu comentário. Não por dizer que Kruizer não liga pra eles, eles já sabem disso, mas...
— Senhor Lauriel...
— Liel.
— ... Lauriel. Sabemos que você foi confinado a passar sua eternidade com o Lorde Kruizer, mas, dentro de nossas facilidades, será que você poderia, por favor, tratá-lo com mais respeito?
— Com todo respeito, General, eu não tenho a menor obrigação de tratar Kruizer com respeito, nem ao menos quero fazê-lo...
— Nesse caso, terei de convidá-lo a retirar-se, e, caso recuse, terei que tomar medidas mais drás...
— No entanto — a interrompi de novo — em respeito a você, irei tentar me controlar. Mesmo sendo a líder de algo que eu nem entendo o motivo de existir, eu tenho de respeitá-la pelos seus feitos.
— ... Obrigada. Se entramos em um acordo, gostaria de lhe perguntar: Qual o motivo de sua visita, uma vez que Lorde Kruizer não veio? — Alice levantou-se e começou a andar ao redor do aposento. Ela poderia ficar sentada em sua cadeira, me parece muito confortável inclusive, mas como eu, ela não conseguia ficar parada por muito tempo.
— Olha, eu sei que isso vai ser ridículo, e que é provável que eu não alcance meu objetivo facilmente, mas... Eu vim aqui fazê-la desistir do ataque ao templo do Shiro.
Eu eu sei que isso seria quase impossível, qualquer que fosse a razão, nem mesmo a Alice seria retardada a ponto de anunciar um ataque assim a um dos maiores templos dedicados a seita rival se não tivesse uma boa razão. Porém, para minha surpresa, a resposta dela foi completamente diferente.
A General simplesmente parou e olhou bem pra mim, depois suspirou.
— Tudo bem. Eu já pretendia cancelar o ataque de qualquer maneira, não precisava ter tido todo esse trabalho de vir aqui me impedir.
— Não, pense novamente, não é uma boa ideia, pense em todos os números que vocês irão perder, e... pera.
QUÊ?
— QUÊ?
— Nem eu sou retardada a ponto de anunciar um ataque assim a um dos maiores templos dedicados a seita rival sem uma boa razão, Senhor Lauriel. Deveria saber disso.
Eu me senti meio idiota, mas mesmo assim continuei.
— Mas, achei que tivesse uma boa razão...
— Não acha que se existisse uma, o rumor do ataque acompanharia tal razão?
— ... Faz sentido. Mas então, por que anunciou o ataque mesmo assim?
Ela parece irritada com a pergunta, e não poderia deixar de notar a tristeza na voz dela na próxima frase.
— Você é esperto, Lauriel, eu sei disso. Você já deve saber a razão.
— ... Você queria chamar a atenção de Kruizer.
A General então abaixou a cabeça, e eu sei que não precisaria continuar.
Veja bem, eu conheço bem ela. Nós nos encontramos pela primeira vez quando nós dois ainda eramos crianças, um dia antes do pai dela morrer na batalha que acabou na trégua que vivenciamos hoje. Por ser o terceiro Criador, eu já sabia andar e falar corretamente, ainda mais por possuir as memórias de Shiro e Kruizer também, mas Alice ainda era muito jovem para isso. Eu estava lá pela mesma razão que eu estou aqui hoje: para tentar impedir uma luta sem sentido que acabaria com incontáveis vidas. Mas a resposta do pai de Alice foi diferente.
Naquela batalha, a maioria dos líderes dos dois lados foram assassinados, ou perdidos em combate, sem falar que no mínimo 30% das duas tropas foram completamente dizimadas. Talvez você não seja muito bom com números e isso não pareça muito, mas digamos que 5% do exército de cada lado seja aproximadamente 50 vezes a população da Terra. Considerando ainda que os dois lados tem como objetivo conquistar o Universo para se juntar a sua causa, e eliminar quem resista... A totalidade de suas forças não era o suficiente para tal tarefa, mesmo sem oposição. Isso gerou a trégua, uma vez que os dois lados ficaram sem saber o que fazer. Alice cresceu sabendo do que aconteceu, nunca foi escondido dela. Quando ela decidiu que tinha idade o suficiente, ela assumiu o posto do pai dela como General das forças militares da seita de Kruizer. Ninguém foi contra, todos sabiam que ela seria uma excelente líder. Eu sempre banquei o diplomata, então vira e mexe eu me encontrava com ela em alguma reunião de gente grande.
Mas, o que levaria ela a tomar uma decisão dessas só pra chamar a atenção de Kruizer? Bem, isso é outra história. Talvez ela mesma explique aqui um dia.
— Você nunca vai desencanar disso, né? Mesmo sabendo que Kruizer não dá a mínima pra vocês, que nem naquele dia ele apareceu, nem sequer pra ver o sangue sendo derramando.
— ... Eu tenho minhas razões, Senhor Lauriel, e você não vai me fazer desistir. Se era só isso, peço que por favor, retire-se.
Eu não tenho por que ficar, e preciso visitar o templo de Shiro que ia sofrer o ataque de qualquer jeito. A expressão dela é severa, mesmo sob as condições que ela enfrenta. Só quem a conhece ela consegue enxergar através da pressão imensa que ela sofre, e ver a tristeza que nada no Universo conseguiria abrandar.
— Com sua permissão, General.
E com isso, viro-me e começo a andar pra saída. Os soldados prontamente se oferecem pra me acompanhar, mas — Eu conheço o caminho — eu disse, e os dispensei com um aceno.
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