Conto dos Criadores

7 O templo de Shiro - Parte 2


Notas iniciais
Final da parte 1. Derp. Bom, na próxima parte a gente começa a conversar sobre como é na Terra, e acho que vai ser divertido...

Sika pula do ombro de Gael quando ele se senta em sua cadeira, e deita-se em uma almofada que tem em um canto da sala. Todos os templos de Shiro tem um lugar especial para acomodar Sika.

— Mas o que eu realmente queria perguntar, — digo, acomodando-me numa cadeira no canto da sala — é como vocês sabiam que o ataque não era verdadeiro.

A sala de Gael é gigantesca e circular. Começando pela porta, as paredes são revestidas de estantes cheias de livros e instrumentos dos mais variados tipos, desde instrumentos musicais a instrumentos de navegação, e ainda algumas estantes com mapas holográficos de regiões do Universo. Tinha uma escada circular que acompanhava as paredes partindo do meio da sala, e a mesa de Gael ficava entre essas escadas, e algumas estátuas e redomas de vidro contendo exposições mais frágeis decoravam o centro da sala.

— Então, você percebeu. É, acho que não era nenhum segredo também. Antes de espalhar o rumor, Alice veio nos pedir permissão para tal. Ela avisou que não haveria ataque nenhum, mas nos pediu para não contar a ninguém até que você intervisse, ou algum dos seus "inquilinos".

— Entendo... Nesse caso, realmente... Ela fez tudo isso só pra tentar chamar a atenção de Kruizer.

Gael fez total silêncio logo após minha última frase.

— Oh, me perdoe, Cardeal. Esqueço que esse ainda é um assunto delicado para você.

— Não se preocupe, Lauriel. Fui eu que decidi me separar de meu irmão, e vir servir ao Lorde Shiro. Era de se esperar que minha sobrinha também seguisse o caminho de meus rivais.

— Talvez, mas... Ser ela a escolhida da profecia me parece um pouco cruel demais...

— ... Eu prometi que iria deixar ela seguir seu próprio caminho naquela noite.

Com certeza, Gael ainda não tinha superado aquele acontecimento. Sempre achei que o Cardeal nunca mais foi o mesmo após aquela batalha.

— Olha, você sabe que não foi culpa sua. O General Liddell possuía vontade de mesmo porte que você. Não fosse ele, seria você.

— Eu sei, aprendi que não vale a pena remoer o passado. Mas, receio que Alice ainda não tenha me perdoado, nem nunca conseguirá.

Eu fiquei surpreso com essa frase. De todas as pessoas, achei que o Cardeal seria a última a achar isso.

— Gael, você sabe muito bem que a Alice nunca te culpou por nada. Ela mesma disse isso!

— Ela disse, mas, por que outra razão ela deixaria de falar comigo? Ela nunca sequer me procurou após aquele dia...

— Você conhece a Alice, Gael. Ela nunca foi muito de falar. E, com a situação como está, ela não tem motivos para tentar fazer contato com você.

— Como alguém pode não ter motivos para falar com o próprio tio? Família é família, não importa a situação.

— Mesmo sendo líderes de seitas totalmente opostas? Pense bem, Gael, e se algum superior dela descobrisse que ela anda entrando em contato com um cardeal da seita de Shiro?

Gael apertou seus punhos e rangeu os dentes. Ele realmente se sentia culpado por Alice ser assim.

— Mas...

Eu perdi as palavras por alguns instantes. É difícil ver alguém como Gael, um líder político e religioso dessa patente, alguém que você chega a achar que nada pode abalar... Destruído desse jeito.

O som da porta abrindo ecoa pela sala silenciosa, onde o único som que se ouvia era o ronco suave de Sika em sua almofada.

— Cardeal, está na hora da reunião que você havia prometido aos líderes dos outros templos.

— Nunca te ensinaram a bater na p...

— Com sua licença, Cardeal, eu já estava de saída mesmo.

No final da minha frase, Gael pareceu retomar o sentido, e se transformou novamente no Cardeal Gael calmo e gente boa de sempre.

— Claro, claro — disse ele — Sempre que precisar, pode chamar.

Não tinha certeza se essa última frase foi uma pergunta ou uma afirmação, mas eu deixei passar.

— Me lembrarei disso.

E comecei a me direcionar para a saída, enquanto o noviço que abrira a porta entrava para continuar conversando com Gael sobre a tal reunião. Provável que fosse só sobre o ataque, mas eu não queria me envolver muito com nenhuma seita.

Ao sair do templo, não demora muito até Kruizer aparecer do meu lado. Ou um dos vários aspectos deles. Eles tem essa habilidade de existir em vários lugares ao mesmo tempo, como se fosse 'clones'. Eu ainda não dominei essa habilidade...

— E aí, como foi?

— Pergunta pra criança que você vem se escondendo todos esses anos.

— "Criança". Você tem quase a mesma idade dela, sabia?

— Sim, mas na teoria, eu tenho a mesma idade que vocês.

— ... Faz sentido.

— Enfim. Eu to voltando pra Terra. Avisa pro Shiro que eu não com ele pra fazer as besteiras dele tão cedo, nem adianta insistir.

Eu sabia que ele não ia avisar. Eles evitam ao máximo conversar um com o outro quando eu não estou por perto, apesar de conversar bem de boas quando estamos os três...

— Sei. Vai ficar o dia inteiro jogando de novo?

— Não, eu já peguei o rank que eu queria. Agora só semana que vem.

— 'Semana que vem' começa amanhã.

— Eu prometi pra minha irmã que ia levar ela pra comprar um teclado novo pra ela.

— A gente ganha tanto assim dessas seitas?

— Eu vou comprar um dos melhores teclados do mercado. E sim, todos os sacrifícios e oferendas das seitas vem diretamente convertidas pra minha conta bancária. E não é pouco.

— Alguns deles fazem sacrifícios humanos... Como você converte isso?

— Eu sou o Criador. Eu posso fazer esse tipo de coisa...