Conto de Falhas
3 Confusões para não se meter
Notas iniciais
Victor Carter (Vitão)
24 de novembro, terça-feira.
—Cara, você perdeu a festa do ano! Não que sua festa não tenha sido ótima... mas sabe, a festa do Japa com certeza foi a festa do ano, eu peguei cada gata! Acho que peguei a Emily duas vezes, então ela me deu um tapa na cara quando eu perguntei o nome dela pela segunda vez, mas depois eu peguei o número dela com o Japa pra me desculpar, e olha isso! –Charles me mostra uma foto da tal da Emily, não é um nudes, mas duvido muito que Emily gostaria que ele tivesse compartilhando fotos dela com os amigos.
Apenas balanço a cabeça, como se estivesse aprovando Emily, Charles ergue a mão esperando que eu a soque, faço isso com um pouco de reclusa, em seguida ele desaparece pelos corredores do colégio.
—Vitão, você perdeu a festa! A festa! –Patrick chega de surpresa, batendo nas minhas costas, Japa está ao seu lado com pose de superior.
—Fiquei te esperando pra você dar uma de DJ pra mim, mas como não apareceu tive que contratar um cara. Rick alguma-coisa. –Japa me explica, como se realmente se importasse com o fato de eu não ter ido. Não tenho nada contra ele, só uma pequena vontade de socar sua cara toda vez que deixa claro que não precisa de mim como DJ porque tem dinheiro o bastante pra contratar um cara chamado Rick alguma-coisa.
—Eu não consegui sair, mas fiquei sabendo que foi a melhor festa do ano. -digo, mas tenho que me esforçar para não fazer uma careta.
—Sabe como é. –ele diz, e eu solto um sorriso forçado.
—Onde você estava ontem? –dessa vez é Alice quem pergunta, chegando de surpresa atrás de Japa. Não quero responder novamente, então fico feliz quando o sinal toca, finjo que vou ao banheiro para não precisar ir com eles até a sala de aula.
Mas ao invés de ir ao banheiro, vou até meu armário. O abro e solto um suspiro longo e aliviante só por estar sozinho. É realmente legal as pessoas terem sentido minha falta, mas as vezes dá pra sentir que é só...
—Está tudo bem?
Me viro automaticamente ao escutar a voz masculina. Se trata de Raddar, ele está sentado em uma cadeira que fica na porta da secretária, com seu celular em mãos. Sentado ali daquela forma, se o visse de longe, eu diria que ele se meteu em alguma encrenca e está prestes a levar alguns dias de suspensão, mas ele não parece fazer o tipo que se mete nesse tipo de problema no colégio.
—As vezes o colégio é tão... -tento responder sua pergunta, mas não encontro a palavra para descrever meu sentimento agora.
—Sufocante? -ele pergunta acertando em cheio. O colégio pode ser tão sufocante!
—Exatamente.
—Não achei que caras como você também achassem o colégio sufocante. -ele assevera, me aproximo da cadeira de espera onde ele está sentado.
—Caras como eu? -questiono, tentando entender o que aquilo significou.
—Caras que dão muitas festas e conhecem todo mundo. -ele responde, parece meio tímido, como se fosse errado falar comigo. Me sento no banco ao seu lado.
—Isso vindo de uma pessoa que bebeu todas na minha última festa? -retruco com razão.
Meu argumento é tão bom que o faz rir.
—Em minha defesa, aquele foi um péssimo dia. -ele se defende, mas não me convence. Não conheço Raddar o suficiente, mas sou bom em ler pessoas, ele finge bem, mas acho que no fim do dia se encaixa na mesma categoria de "caras como eu".
O celular dele vibra, o que o faz olhar para a tela imediatamente, parece um pouco assustado, como se tivesse esperando uma mensagem.
—Tudo bem? -pergunto, percebendo sua reação preocupante.
—Recebi uma mensagem e não sei como deveria responder. -ele me conta, me fazendo lembrar que ele está passando por algum término recente de relacionamento.
—Sua ex quer voltar com você, não é? -pergunto, me intrometendo. Em seguida Raddar me lança um olhar cheio de significado: ele me olha como se eu fosse o maior idiota que ele já conheceu.
—Desculpa, isso é assunto seu. -me levanto do banco imediatamente, me sentindo como o idiota que ele acha que sou, e provavelmente tem razão sobre isso.
—Não, não é isso! -Raddar se levanta também, agora parece confuso. -Quer dizer, ela quer voltar, mas depois de tudo o que aconteceu não vai ser como costumava ser antes, sabe? -ele desabafa, me olha nos olhos tentando ver se eu o entendo, mas eu nunca estive em um relacionamento que durasse mais que um mês, então não posso dizer que o compreendo.
—Você deveria sair comigo. -sugiro e observo seu olhar ainda mais confuso. -Pra beber! -completo a frase, o que transforma sua expressão em mais tranquila. -Eu e meus amigos vamos ao mesmo bar quase todos os dias. Me empresta seu celular! -eu peço, ele reluta um pouco quanto a isso, confuso, mas acaba me entregando.
—Vou colocar meu número e mandar um oi pra mim, pra eu poder salvar no meu celular. -o aviso, enquanto adiciono meu número em seu celular. -Aí eu te aviso quando nós formos sair.
Ele assente com a cabeça, ainda parece um pouco confuso quando devolvo seu celular depois de ter feito todos os passos. Estou prestes a me virar e ir para a sala de aula, me lembrando que estou atrasado, mas antes que eu possa fazer qualquer outra coisa, ele diz:
—E eu queria te agradecer. -franzo as sobrancelhas. -Pela cerveja. Realmente ajudou bastante!
—Ah! -murmuro, só então lembrando de ter pago uma cerveja pra ele. -Eu acho que você deveria bloquear o número da sua ex e ir pra sala de aula antes que a diretora saia dali. -ergo o olhar para a porta da sala da secretária, Raddar concorda com a cabeça, no instante seguinte seu celular vibra outra vez. -Boa sorte! -digo e me viro.
Para a sala de aula. Alguns minutos atrasado.
(...)
—Cassie Moyes está te olhando como uma leoa no cio em uma selva sem leões. -Charles diz assim que eu sento na mesa junto dele no intervalo, o que me faz perguntar se eu não deveria me levantar e ir sentar em outro lugar. Mas Charlie sempre faz comparações estranhas, então automaticamente dou uma breve olhada para Cassie.
Cassie Moyes é minha vizinha. Não só minha vizinha, como meu primeiro beijo e minha primeira namoradinha na infância, e provavelmente a única garota que conhece toda a minha família, o que só aconteceu por sermos vizinhos.
Para minha surpresa, ela está mesmo olhando pra mim, porém desvia o olhar assim que nossos olhos se encontram.
—Vocês não namoraram por um tempo? -Charles pergunta quando eu me viro de volta pra ele.
—Sim. Quando tínhamos oito anos. -conto a ele, que apenas dá de ombros e diz:
—Ela está te querendo, cara.
—Não nos falamos desde que o namorado dela me ameaçou, não lembra?
Há uns dois anos atrás, o namorado de Cassie bateu na minha porta e disse que eu acabaria internado se flertasse com ela outra vez, dentre outras ofensas. Mesmo que Cassie e eu não flertássemos desde os oito anos, quando decidimos que não daríamos certo como casal. Mas eu não disse nada disso para o homem musculoso na minha porta, que certamente poderia me apagar com um soco.
No dia seguinte, procurei por Cassie para contar o caso, achando que ela daria um pé na bunda do idiota, mas ela simplesmente disse "Derek é um pouco exagerado, ás vezes". Eu respondi que aquilo não era apenas exagero, porém Cassie só riu e disse que era melhor eu ir embora antes que ele chegasse.
—O bombadão? -Charles pergunta novamente, o apelidamos de "bombadão" depois das ameaças que ele me fez e por ele viver na academia. -Eles terminaram há algumas semanas. -ele me conta, porque de alguma forma, Charles sempre sabe de todas as fofocas. -E agora ela com certeza está te querendo, cara! -ele continua, apontando para Cassie com as sobrancelhas.
A encaro outra vez, dessa vez ela não desvia o olhar, apenas me fita até que seja eu quem se vira para Charles novamente. Ele ergue sua mão para fazermos um high-five, faço apenas para não deixá-lo no vácuo.
—Convidei Raddar pra ir ao bar com a gente. -digo, mudando de assunto.
—Quem diabos é Raddar? -Charles pergunta, franzindo as sobrancelhas.
Procuro por Raddar pelo refeitório. Aponto para a mesa ao fundo, onde ele está sentado junto á outras duas pessoas.
—Cara, por mim tudo bem, mas não acho que ele frequente esse tipo de lugar. -Charles diz, me deixando confuso.
—Por que não?
—Ele deve frequentar uns lugares mais gays, sabe. Como aquela boate no centro da cidade, nós poderíamos ir até lá com ele, sempre tive curiosidade pra ver o lado de dentro, mas não sei se eles permitem héteros.
Demoro alguns segundos pra entender o que Charles quer dizer, quando finalmente entendo percebo o motivo pelo qual Raddar me olhou daquela forma quando eu perguntei sobre sua ex-namorada. Olho pra Raddar novamente, eu sou mesmo muito idiota!
(...)
Estava anexando músicas eletrônicas com trilhas sonoras de filmes antigos quando minha mãe bate alto na porta. São quase oito da noite, e só retiro os fones lentamente porque ela diz que "Cassie Moyes está esperando por mim na sala de estar".
Coloco a primeira camiseta que encontro e sigo para a sala. Ela está sentada no sofá. Se vira para me olhar quando escuta meus passos se aproximando.
—Oi, Vi. -ela diz quando me vê. Cassie também é a única pessoa que me chama de "Vi", era meu apelido de quando criança. Ela parece estar sem graça por estar ali, apesar de ter sido a segunda casa dela quando éramos menores, na mesma época em que ela era considerada a garota mais bonita do colégio. A olhando agora, percebo que sua beleza apenas se intensificou.
—Cassie Moyes. -a encaro bem nos olhos. -Quem é vivo sempre aparece! Não conversamos desde que seu namorado idiota me ameaçou. -enfoco, com um sorriso sarcástico.
—É, é sobre isso que eu queria conversar. -ela diz, fico imaginando se ela vai pedir desculpa por ter desaparecido da minha vida quando éramos amigos, mas quando ela prossegue, o que ela diz é:
—Estou com problemas. Problemas graves!
Me sento na ponta do sofá.
—E em que eu poderia ajudar? -pergunto, agora preocupado porque ela está com um olhar assustado.
—Vi, eu preciso que você finja ser meu namorado.
Não preciso nem pensar duas vezes para saber que é o tipo de confusão que eu não quero entrar.
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