Conto de Fadas
1 Capítulo único
Acho que todos já ouviram falar da história da bela princesa presa no ponto mais alto, da torre mais alta. Esperando por seu príncipe...
E lá estava ela, os cabelos compridos e mal cuidados, penteá-los ou ficar horas cuidando das belas ondas não tinham motivo, estava sozinha lá há tanto tempo, sendo consumida lentamente pelo tédio.
Os produtos para o rosto haviam acabado, os finos cremes não passavam de potes vazios e tudo que ela tinha agora eram os telescópios.
Sua prisão, também era usada de depósito daquela que a prendera. E esta pessoa insistia em, a cada dia jogar tralhas e mais tralhas inúteis, menos as lunetas, binóculos e telescópios.
De uma coisa a jovem jamais reclamaria daquele lugar: o excesso de janelas. Havia janelas em todos os cantos e, em cada uma estava um instrumento de observação.
A primeira vista tudo que ela vira era a paisagem, não havia nada, nem ninguém, talvez um animal ou outro passava rapidamente por seu campo de visão, mas mesmo assim ela se mantinha a observar tudo, todos os cantos.
Agradeceu quando uma cadeira de rodinhas foi jogada no quarto. Agora ela podia locomover-se pelo quarto, olhando todos os cantos, todo o mínimo detalhe de paisagem que havia ao redor.
Era sempre algo nova a se ver. Todo dia havia um animal novo à correr pela grama, uma flor nova à brotar. Ervas daninhas tentando ganhar um espaço no gracioso jardim e folhas novas nas grandes árvores.
Era emocionante, excitante, a princesa não conseguia parar de ver. Deslizando de um telescópio a outro, verificando algum ponto em particular com uma luneta, ou tendo uam visão panorâmica com seu binóculo.
E tudo se tornou mais interessante quando um belo jovem apareceu percorrendo as redondezas. Era seu príncipe. E que belo príncipe, tudo que ela sempre sonhou.
O seguia com os olhos nos instrumentos, decorando cada detalhe, cada passo, cada mexida coordenada dos braços, até mesmo o balanço de seus cabelos. Vê-lo, era algo de tirar o fôlego.
Um dia, nesta perseguição silenciosa, ele finalmente veio na direção do castelo. O coração da princesinha quase pulou para fora de seu peito. Ela correu para pegar o binóculo e dependurou-se na janela para vê-lo melhor.
Ele caminha com passos decididos e confiantes. Mostrando o homem corajoso que era. Deu um suspiro encantado, mas tremeu de medo quando ele bateu na porta.
Isso estava tão errado! Ele não devia fazer isso! Devia vir salvá-la, não bater na porta.
A parede tampava sua visão. A princesa largou o binóculo e saiu pela janela, andando pela larga quina onde uma gárgula jazia. Segurou-se na escultura e observou o que acontecia às portas do castelo.
A bruxa, a terrível bruxa que a prendera conversava com ele. E ele sorria, sorria como a garota desejava vê-lo sorrindo para ela. A mulher saiu e fechou a porta, entrelaçando seu braço com o dele.
O príncipe estava com a bruxa.
A princesa esticou os dedos para o parapeito da janela e pegou seu binóculo acompanhando-os em sua caminhada até sair do seu alcance de visão. Ela viru-se para entrar no quarto novamente, para continuar à observá-los, mas pisou em falso.
O pequeno giro que deu para retomar o equilíbrio a pôs de frente para o jardim, com os pés na borda do observatório, o vento balançando seus cabelos longos. O chão parecia tão mais longe do que ela se lembrava. Era um lugar tão alto. Com certeza se pulasse morreria.
Inclinou-se para frente e sentiu um frio na barriga ao constatar a altura e o perigo que enfrentava. O chão estava tão longe...
Inspirou com vontade e expirou lentamente, inclinando-se uma pouco mais para frente e sentindo o frio na barriga retornar.
Seu príncipe não vinha mais a salvar, por que continuar a esperar?
Deu um passo para trás e virou-se de costas para o jardim, encarava a janela de onde saíra. Colocou o binóculo na frente do rosto e observou o interior do quarto. Tudo parecia tão perto e maior do que era, tão diferente. Deu um passo para trás e sentiu a beirada.
Fechou os olhos, mas continuou com os binóculos no rosto, ouviu seu coração bater forte. Seria a primeira princesa que se auto-salvaria, abriu os olhos para dar uma última olhada para sua prisão e deu um passo para trás.
O céu parecia tão próximo...
Notas finais
Deturpar contos de fadas é tão mágico
Não esqueçam das reviews
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