Notas iniciais
Boa noite! Eis o capítulo 53, e assim encerramos o arco de Apolo! Como sempre, esse e os próximos capítulos serão um pouco mais longos, mas fluirão normalmente, mesmo com bases mais narrativas... Enfim, aqui temos o final do combate entre Linus e Édipo, e uma conversa literalmente divina, onde todas as cartas são jogadas na mesa, e nenhum dos lados hesita em se defender. Acompanhem! Boa leitura! ♥

Édipo encarou Linus – que estava estirada no chão, com sangue por todo o seu corpo – com desprezo. Apolo havia acabado de deixar o local, enfurecido, dizendo que estava indo falar diretamente com Atena. Aquela bronca fora desnecessária, mas só ocorrera por causa daquela garota.

O Anjo olhou para as penas de suas asas e viu que havia mais vermelho do que branco, e mais branco do que preto. Aquilo era um bom sinal, mas ainda não o satisfazia. Irritado, lançou um olhar fuzilante para a amazona, fitando seus olhos amarelados.

— Eu tenho pena de você. – disse. – Se acha que venceu, está muito enganada. Você não vai durar muito, e sabe disso. Você é um fracasso. Não deveria nem ter se tornado uma guerreira.

A garganta da menina estava travada e ela sentia o sangue se acumulando em sua boca, mas mesmo assim sorriu levemente, trêmula.

Édipo colocou as mãos na barriga e viu sangue saindo de seu próprio abdomem. Sorriu sadicamente e se virou para ela mais uma vez:

— Você foi bem esperta em romper o meu baço e me causar cianose, mas isso não irá me matar, já que eu sou imortal. Mesmo assim, incomoda e dói um pouquinho... – ele fez uma pausa, pegando seu cetro e abrindo um compartimento secreto. – E veja só o que eu tenho: um remédio feito por meu senhor, o deus da medicina. É capaz de curar qualquer coisa no mundo, até mesmo as doenças desconhecidas pelo homem!

Édipo foi até a amazona e colocou o pé sobre sua cabeça, fazendo um pouco de pressão. Linus apertou os olhos, com dor, e ele riu, sacudindo o frasco.

— Você o quer, não é? Sabe que isso pode salvar sua vida.

Ele aplicou mais força e sutilmente soltou o remédio, que caiu no chão bem ao lado do rosto da amazona, quebrando-se em mil pedacinhos e deixando o líquido verde escuro escorrer, sendo absorvido pelo solo.

— Opa! Foi mal, escorregou da minha mão! Hahahahaha! – ele gargalhou.

O Anjo deu as costas e começou a andar, mas parou ao ouvir um barulho mínimo. Olhou para trás e a viu derramar algumas lágrimas.

— Patético. – disse, alçando voo e voltando para o Santuário de Apolo, nos céus.

A amazona virou-se para o céu já estrelado e começou a derramar mais lágrimas, com dor e confusa. Era muita informação pra ela tentar processar, e ela sentia que não conseguia mais se mover. Ao olhar para cima, ao longe, viu uma estrela brilhando. A figura de um garoto, de aproximadamente dezenove anos, apareceu ali, olhando para ela e sorrindo. Seus cabelos espetados e castanhos combinavam com os olhos cor-de-mel, idênticos aos dela. Sua expressão era suave e acolhedora, como aquela que as mães têm. Por algum motivo, Linus se sentiu aliviada por ver aquele rapaz. Ele parecia familiar, mas ela não se lembrava dele. Quem seria?

O viu estender a mão, como se estivesse chamando por ela, e involuntariamente seu braço se ergueu, correspondendo ao pedido. Antes que conseguisse alcançá-lo, alguém chamou por seu nome, trazendo-a de volta para a realidade:

— Linus!!

Ela reconheceu a voz na mesma hora. Era Ulysses.

O cavaleiro foi até ela e se ajoelhou na enorme poça de sangue que se estendia ao seu redor, colocando uma das mãos atrás de sua cabeça para que ela respirasse melhor.

— O que aconteceu com você?

Eu fui massacrada. pensou enquanto virava sua cara para o outro lado para não ter um contato visual com o Santo. Ela fora humilhada e se sentia envergonhada por tudo aquilo. Não conseguiria falar nem se quisesse.

— Linus, me diga, onde está o Anjo que fez isso com você?

Ela derramou mais uma lágrima.

Ele já se foi. Assim como minhas esperanças... disse em seu pensamento.

— P-por favor, Linus! Fale comigo!

Sem resposta.

— Linus, o Athos acabou de voltar da batalha, e está tão ferido quanto você! – ele disse, chorando. – Por favor, não desista! Vocês tem que voltar para casa com a gente, para que daqui algum tempo reencontremos os nossos amigos! Você, Jhesebel, Athos, Heitor, Yerik, Relinde, Meiying, Aristides, Soranin e eu! Por favor, Linus, não nos deixe sozinhos, nós precisamos de você!

Lince franziu o cenho, percebendo o quão egoísta estava sendo. Sem saber de onde estava tirando forças, levantou a parte superior do corpo e abraçou Ulysses o mais forte que pode, sem se importar em como aquilo doía. Devia ter quebrado muitos ossos depois da última queda.

Ele correspondeu o abraço, sem entender muito bem.

— O-obrigada. – a voz da garota saiu rouca e chorosa.

— Não se mova. – ele disse. – Eu irei procurar por ajuda. Deve ter alguém aqui por perto... Apenas fique deitada e não se mexa. Não irei sair daqui, apenas vou me afastar alguns metros, ok?

Ela assentiu e voltou a olhar para cima.

Ulysses andou uns dez metros e começou a olhar ao redor, procurando alguém. Linus olhou para ele e viu que estava desesperado. Será que Athos estava bem?

Desejou que sim.

Uma fina chuva começou a garoar, tirando um pouco do sangue de seu rosto. Abriu a boca, tentando saciar a sede, mas não era o suficiente. Ela só aumentava, assim como a dor. Aquele abraço deveria ter quebrado todas as costelas restantes.

Voltou a pensar naquele garoto que vira antes. Ela tinha uma vaga lembrança dele, mas nada concreto. Talvez já tivessem se visto em algum lugar, quando crianças.

E então, ele apareceu mais uma vez, sorrindo. Em sua mente, uma voz sussurrou:

— Estou orgulhoso do que você se tornou, irmã.

Ela arregalou os olhos com o flash de memórias voltando.

— B-Bianor... – sussurrou.

Bianor estendeu a mão uma vez mais, esperando uma resposta.

Mentalmente, agradeceu a Alceu e Kibou por tomarem conta dela; aos amigos por a ensinarem, entre tantas coisas, a perdoar e nunca desistir; e a Bianor por sempre guiá-la nesse mundo tortuoso. A humilhação que Édipo proferira não era verdade, e ela sabia, assim como Bianor. Claro que queria poder ter ajudado mais, mas cumpriu o seu papel, defendendo Calydio até o fim.

Meu irmão fez o mesmo. pensou. Ele esteve esperando por mim esse tempo todo, e agora eu me juntarei a ele.

Ela pôde ouvir a voz abafada de Ulysses chamando por ajuda, mas seu foco era outro. Ela sabia que precisava ir, e o faria com orgulho. Não era mais aquela garotinha perdida no mundo, que tinha medo até da própria sombra. Não estava mais sozinha, sabia disso.

Aceitou a mão do irmão de imediato, não se desvencilhando de seus braços. Sentiu-o a abraçar e fazer carinho em seus cabelos, como quando era menor, e sorriu. Seu corpo ficou mais leve e ela fechou os olhos, agradecendo Atena por colocar pessoas tão maravilhosas em sua vida.

— Athos! – Jhesebel gritou ao ver que o braço do amigo caíra por cima do peito. – Athos?!

Apenas o silêncio respondeu.

***

— Linus, aguente firme, daqui a pouco aparece alguém! – Ulysses gritou.

O Santo não obteve resposta, então olhou para a amazona, que sorria com os olhos fechados. Começou a correr em sua direção.

***

A amazona colocou a mão no pulso do amigo, procurando por algum sinal de vida, mas não o obteve. Começou a chorar imediatamente.

***

O cavaleiro começou a chacoalhar a amazona de Lince, mas de nada adiantou. Lágrimas começaram a brotar de seus olhos.

— D-droga, Linus!

***

— P-peixe idiota... – Jhesebel sussurrou.

Alguns minutos depois, na sala do Grande Mestre...

— Calydio, você tem uma visita. – falou o Grande Mestre.

— Já não era sem tempo. – disse, saindo de seus aposentos. – Obrigado.

Saindo de trás das cortinas, se viu de cara com um homem alto, com cabelos flamejantes que iam do laranja ao dourado, e olhos azuis como o céu. Vestia uma toga, assim como ele, e em um dos braços segurava uma lira de ouro puro. Sua expressão era séria.

Efilnaem, que estava ao seu lado, se retirou imediatamente, assim como o Grande Mestre, pensando no desconforto que os cavaleiros de Ouro deveriam ter sentido em permitir que ele passasse por suas casas.

Logo estavam sozinhos, se encarando com seriedade.

— Bem-vindo, Apolo. – ele disse. – A que devo sua ilustre visita?

Apolo respirou fundo, adquirindo uma expressão menos severa, mas mantendo a integridade.

— Eu vim conversar sobre os acontecimentos de hoje.

— Hum, é mesmo?

— Sim, e você sabe disso. Não banque o arrogante.

— Me desculpe, mas isso foi algo muito sério. Você quebrou o nosso acordo.

— Posso ao menos me explicar?

— Fique à vontade. Eu realmente gostaria de ouvir essa história.

O deus dos cabelos crepitantes suspirou, e então disse:

— Hoje de manhã eu estava em uma reunião com meus Serafins, conversando sobre a nossa rixa. Em determinado momento, um deles me perguntou se nosso acordo continuaria valendo por muito tempo, e eu disse que isso seria resolvido hoje. – ele fez uma pausa. – Não me referia a tomar atitudes, mas sim a discutir sobre isso na presença de mais alguns Anjos de patente mais baixa, que ainda não haviam retornado de suas missões... Infelizmente, quando eu disse que resolveria isso hoje, um Dominante que passava por ali acabou ouvindo e interpretando da maneira errada. Ele pensou que eu iria atacar o seu Santuário e derrotá-lo de uma vez por todas, acabando assim com a divergência entre nós. – outra pausa. – Obviamente ele estava errado.

— Você tem noção do que esse engano causou, Apolo?

— Sim, eu tenho, e eu peço desculpas, tá legal? – ele aumentou levemente o tom de voz. – Não foi minha intenção acabar com o pacto... Atena, nós estávamos prestes a entrar em guerra quando esse acordo foi proposto por nossos representantes, há sete anos atrás. Se isso não houvesse acontecido, ambos os exércitos seriam dizimados, você sabe.

— Sim, é verdade. Nossos irmãos estavam querendo nos colocar um contra o outro... E até onde eu me lembro, eles conseguiram.

— Exato. E eu sei que você não gosta de mim, assim como eu não gosto de você, mas acha mesmo que eu seria burro a ponto de te atacar sem mais nem menos, usando Anjos de uma patente mediana?

— Realmente, não seria nada esperto da sua parte... Mas você não precisaria de um motivo pra isso. Lembra o que aconteceu da última vez que duas pessoas dos nossos exércitos se encontraram? (1)

— É claro que eu me lembro. O tratado era claro: Anjos não deveriam se aproximar de Santos em hipótese alguma, nem mesmo ter contato... Mas isso acabou acontecendo em determinado momento, e as consequências foram terríveis tanto para o meu Anjo quanto para a sua Santa.

— De fato. Eu soube que ele acabou tirando a própria vida um tempo depois... Sinto muito por isso.

— E a garota morreu há algum tempo atrás, não é mesmo?

— Sim... Mas você sabe que essas mortes não aconteceram especificamente porque eles se encontraram, mas por causa de terceiros, não é?

— Está falando da maldição que aquela mulher jogou na amazona? Sim, eu sei disso, mas o envolvimento dos dois só piorou as coisas.

— Eu realmente lamento por seu subordinado, mas acho que você deveria saber que a maldição só foi quebrada quando ela morreu.

— Entendo... Bem, ele não estava sendo o mesmo também. Mesmo escolhendo a imortalidade, andava estranho... E se eu não me engano, tem outra pessoa em seu exército que possui uma maldição dela... É aquele que nasceu com o meu dom, não é? (2)

— Ele mesmo. Mas segundo algumas pessoas, logo ele também se libertará.

— Compreendo... Enfim, você escolhe se acredita em minha palavra ou não, mas eu lhe disse a verdade... E além do mais, eu já cuidei de Ártemis há muito tempo atrás, assim como você cuidou de Ares. – Apolo fez uma leve interrupção. – A questão é que não foi minha intenção quebrar a nossa trégua, e se você ainda estiver disposto a mantê-la, eu agradeceria.

— Heh. – Calydio riu. – Eu sei como isso fere o seu orgulho... Ter que se rebaixar perante um receptáculo humano... Mas tudo bem, eu aceito suas desculpas... Porém, você sabe que dois dos meus cavaleiros morreram hoje, e isso significa que temos uma dívida pendente.

— Dívida essa que eu irei pagar agora mesmo. Não gosto de dever favores, você sabe disso... Por esse motivo, tenho uma proposta.

— Que tipo de proposta?

— Irei revelar quem será seu oponente na próxima guerra.

Calydio franziu o cenho.

— Não tem como você saber uma coisa dessas, Apolo.

Ele riu.

— Mas é claro que tem. Sou o deus das profecias, lembra?

Sem resposta.

— Aceita ou não?

— Mas é claro. Toda ajuda é bem vinda, e essa seria uma boa forma de você se redimir comigo e com meu exército.

— Pois bem.

Apolo caminhou em sua direção e parou ao lado do garoto, com as mãos para trás. Inclinou-se e sussurrou alguns versos em seu ouvido, com um sorriso travesso no rosto.

Em seguida, afastou-se, voltando para o mesmo lugar de antes.

— I-isso... não faz sentido!

— Profecias não fazem sentido inicialmente, já se esqueceu? Mas todas as informações estão aí, embora o nome em si não esteja... Mas não tem problema, você irá descobrir em breve.

— Tudo bem então. Acredito em você.

— Eu realmente gostaria de te ajudar dessa vez, mas estou com outras preocupações no momento. Meus planos para derrotar aquela mulher de antes ainda estão de pé. Infelizmente, com a morte daquele Anjo, não progredimos muito... Mas eu lhe garanto, irá acontecer! Eu me vingarei por isso.

— Estará me fazendo um favor em acabar com ela. O preço que as maldições dela tiveram foram a gota d'água. Dê um soco naquele rostinho arrogante por mim, tudo bem?

— Nada me faria mais feliz... Agora, se me permite, irei voltar para o lugar de onde vim. Preciso conversar com aqueles Dominantes logo. Desculpe pelo transtorno, Atena.

— Não se preocupe, já estamos quites novamente. A trégua ainda é válida.

— Glória a Zeus. – ironizou.

Ele caminhou lentamente para fora e começou a descer as doze casas, voltando em seguida para o seu próprio Santuário.

— Grande Mestre. Efilnaem. – Calydio chamou.

— Sim, senhor Calydio?

— Pois não?

— Preciso que mandem uma notícia para alguns dos cavaleiros de Bronze que estão fora do Santuário. Irei escrever uma carta e quero que façam seis cópias.

— Tudo bem... Algum motivo em especial? – a garota perguntou.

— Conversarei com vocês na próxima reunião com os cavaleiros de Ouro, não se preocupem. Dêem tempo ao tempo.

— Como quiser, senhor. – disse o Grande Mestre.

Calydio foi para seu quarto e se jogou na cama, exausto. Esperava que Atena lhe iluminasse e desse sabedoria para lidar com esse problema, pois ele não tinha nem ideia do que fazer.

Bem, ao menos restava bastante tempo para pensar.

Ajoelhou-se na beira da cama e começou a rezar, pedindo que as almas de seus guerreiros fossem guardadas e encontrassem a paz um dia.

Notas finais
[Legenda:] (1) Nesse trecho, Atena e Apolo estão falando sobre o Anjo Dmitri e a amazona Kirsi de Lobo, que se encontraram ao acaso, mesmo com a proibição dos deuses. As circunstâncias desse evento e o desenrolar do mesmo serão reveladas mais para frente, assim como a identidade da mulher citada na conversa, da qual ambos os deuses sentem certo rancor. (2) Nesse trecho, Atena e Apolo se referem a Rimo de Cinzel, que assim como Kirsi, também possuía uma marca especial (citada no capítulo 23 durante a profecia de Kirsi). —---- Com as duas novas baixas entre os cavaleiros de Bronze, diversas divergências e convergências acontecerão. O desfecho desse arco dará início a uma série de eventos novos e eletrizantes, onde o clima ficará cada vez mais pesado, e muitos podem acabar ficando pelo caminho. Qual será o futuro do Santuário agora? E dos nossos protagonistas, que andam ligeiramente sumidos? Bem galera, por enquanto é isso. O arco foi bem curtinho, mas o próximo vai render bastante! Não percam o começo deste no próximo capítulo! Alguns personagens antigos voltarão a aparecer, e novos serão apresentados com o decorrer da história, que trará muitas novidades para o universo de Saint Seiya!... Palpites? Dúvidas? Sugestões? Comentem! [Por favor, se você está gostando da história, não esqueça de favoritar, comentar, deixar sua opinião, acompanhar para receber as atualizações sobre a fanfic, e recomendar, para que mais fãs de CDZ encontrem a história. Estou aguardando seu review ;)]
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.