Conto I - Unforgettable Wars
43 Conhecendo o Submundo: Antes de Partir!
Notas iniciais

Kirsi acordou sem saber onde estava. Sua cabeça doía como nunca e ela se sentia nauseada. Levantou-se de sobressalto, sentando-se e olhando ao redor para se localizar. Não viu nada além de borrões. Sua visão estava ofuscada e sua respiração pesada, de modo que parecia que seus pulmões eram feitos de chumbo. Tentou ficar imóvel durante alguns instantes para ajudar a se recompor. Por algum motivo ela estava inquieta, como se temesse alguma coisa.
Quando enfim conseguiu levantar, surpreendeu-se. Ainda trajava sua armadura e encontrava-se no topo de uma íngreme colina. As poucas árvores que podia avistar estavam secas e retorcidas. O ar cheirava a enxofre e a atmosfera era escura, com um tom vermelho-sangue. Vez ou outra vapor quente saía do solo abaixo da montanha, erguendo-se na direção do céu negro e rubro, coberto de nuvens cinzentas, quase pretas, que impossibilitavam a passagem do sol – se é que havia um.
Decidiu descer até a planície. O calor aumentava gradativamente e ela suava cada vez mais, mas mesmo assim foi cuidadosa para não se machucar ou pisar em falso. Acabou escorregando vez ou outra e se ralando um pouco, mas nada que a incomodasse.
Estreitou os olhos durante a descida, tentando se recordar de como viera parar ali. Suas memórias estavam confusas, mas aos poucos iam retornando. Arqueou as sobrancelhas quando compreendeu onde tinha ido parar...
É, ela era mesmo louca.
Seu coração estava ainda mais pesado que seus pulmões. Quando seus pés tocaram o chão, ela ouviu gritos abafados vindo ao longe. Não eram dois ou três, mas centenas – ou milhares – , todos ao mesmo tempo. Assustou-se e fechou os olhos, atônita, tentando afastá-los de sua mente. Mesmo baixos, eram terríveis, e traziam sentimentos ruins.
Alguns quilômetros a sua frente, uma estrutura que ela não pode identificar se erguia. Uma densa névoa cinza cobria o local, tornando-o, no mínimo, misterioso – e igualmente perigoso. Não era possível distinguir o que se escondia ali, mas parecia ser algo realmente grande.
Não entendeu para onde deveria ir. Estava em um estado tão perturbado que andava sem rumo, visando não ir na direção dos gritos, que embora já tivessem cessado, ainda rondavam sua mente. Ela ia demorar a esquecê-los, com certeza.
De repente, alguém chamou por seu nome.
— Kirsi? Pode me ouvir?
— Meiying! Você recebeu minha carta! – disse, aliviada.
— Claro. Athos jamais deixaria você na mão.
Ela o agradeceu mentalmente. Graças aos deuses, Athos cumprira seu pedido. Agora só restava saber se a amazona de Dragão havia entendido o recado.
— Sabe onde está?
— Sei... – ela notou a entonação diferenciada e suspirou. – Você já chegou?
— Já sim. Niyati de Virgem está com meu corpo lá em cima, cuidado para que nada dê errado.
— Hum... Não consigo me localizar aqui nesse... hã... lugar... Para onde devo ir?
— Não precisa ir a lugar algum. Eu irei até você... Mas antes, tenho uma notícia para te dar.
— Fique à vontade. – disse, tentado esconder o receio de que seus amigos estivessem em perigo novamente.
— Sui vai nos ajudar aqui embaixo.
— Então ela também...? – ela fez uma pausa. – Oh, Zeus...
— Não se preocupe, foi escolha dela. Ela terminou o Elo Carmesin com Calisto de Peixes.
— Entendi... E como estão as coisas no Santuário?
— Nos dividimos em três grupos, como você disse. Todos estão bem, mas acho que seus combates já se iniciaram... Atena está com os cavaleiros de Ouro e Efilnaem nas doze casas e a população foi evacuada pelos Santos de Prata... – ela fez uma pausa, pensando se estava deixando passar algo – Ah, e sua amiga Anabelle está aqui também. Ela nos ajudou muito até agora... Vocês são bem parecidas, admito. – riu.
— O-obrigada. Fico feliz que todos estejam bem... Desculpe dar trabalho a vocês.
— Trabalho? Ah, não. Você nos ajudou muitas vezes durante todos esse anos, Kirsi. Agora é nossa vez de retribuir o favor.
— Meiying... – sussurrou.
— Cheguei.
Kirsi virou-se e a viu parada atrás de si. Soltou todo o ar de seus pulmões com um único suspiro e a abraçou, sentindo-se um pouco melhor por saber que não estava sozinha – o silêncio a perturbava um pouco, principalmente quando se via sem ninguém ao seu lado.
— É tão bom te ver...
— Digo o mesmo... Onde está Sui?
— Já deve estar chegando... Ela estava um pouco mais afastada, mas consegui me comunicar normalmente.
— Tudo bem. Vamos esperar então.
Os gritos ecoaram de novo. Kirsi protegeu os ouvidos, tentando restringi-los, e Meiying se assustou.
— Ei, você tá bem? O que foi?
— Vai dizer que você não ouviu isso?
— Isso o quê?
— Deixa pra lá... Devo estar ouvindo coisas.
— Logo mais irá passar, não se preocupe. – ela respondeu, colocando a mão em um dos ombros da amiga e sorrindo.
Kirsi olhou para o cabelo preto de Meiying e viu sua tiara com um uma flor de nenúfar. Lembrou-se de que certa vez ela dissera que era um presente de sua avó, que cuidou dela durante toda a sua vida, pois os pais a haviam abandonado. Todas as manhãs ela a colocava para se lembrar dela e de como era uma pessoa bondosa e gentil, e isso remoia velhos sentimentos dentro da amazona de Lobo. Ela tinha sorte por ter conhecido seus pais e vivido bons momentos com eles, mas agora todas essas lembranças pareciam distantes demais.
Meiying não estava gostando nada daquilo. Fazia mais de quinze minutos que ela havia encontrado Kirsi e nada de Sui aparecer.
Além do mais, uma energia estranha as rodeava, como se algo as observasse. Ela ia aumentado cada vez mais e trazendo um imenso desconforto, sentido até por sua barriga, que começou a se revirar e lhe dar náuseas.
— Esse lugar não me faz bem. – comentou.
— Também não estou nada confortável.
Subitamente, alguém se materializou atrás de ambas – alguém poderosíssimo.
— Olá! – ele cumprimentou, assustando as duas, que deram um pulo e se viraram no mesmo instante.
Um homem com cabelos cinzentos medianos e levemente ondulados, cintilantes íris vermelhas e covinhas no rosto apareceu. A pluma da mesma cor dos olhos posicionada à direita, a armadura prateada e dourada e o poder incrível tornaram fácil o reconhecimento do ofídio de Hermes.
— Ah, desculpem-me pela entrada dramática... Acho que assustei vocês.
— Acha? – Kirsi ironizou.
Ele riu inocentemente.
— Meu nome é Hector de Od, encarregado do Submundo. – ele fez uma reverência em sinal de respeito, levando uma das mãos ao coração e afastando a outra para trás. – Sou a serpente da direita, que representa a vida livremente dirigida.
— Eu sou Meiying de Dragão e essa é Kirsi de Lobo.
— Er... Hum... É um prazer conhece-lo, Hector.
— O prazer é todo meu.
— Desculpe perguntar mas... – disse Kirsi. – Como apareceu do nada daquela forma?
— Esse é meu poder. Eu posso me dissolver nas sombras e reaparecer em outro lugar.
— Ah, sim, Anabelle me disse algo sobre isso certa vez...
— Ih, é mesmo, você é amiga de Anabelle desde criança... Puxa, isso é uma honra para uma mortal!
— É?
— Claro! Não são todos que podem enxergá-la. Ela só se deixa ser vista por aqueles que estima... Seus amigos certamente a viram, mas isso é porque tem ligação com um ser divino, no caso, Atena, e com você. Se ela estivesse no centro de uma cidade, por exemplo, ninguém a notaria. Ela pode controlar quem a vê.
— Eu... não sabia disso.
— Sabia sim, só não tinha ligado os fatos.
— Não compreendo...
— Não apressemos as coisas... – sorriu. – Comecemos a luta!
— Desculpe me intrometer, Hector, – disse Meiying –, mas tem mais uma pessoa que estamos esperando.
— Sui, a amazona de Andrômeda?
— Ela mesma.
— Ah, não tem problema. – disse, apontando para trás de si. – Ela está logo ali.
As duas olharam por trás do Basilisco e viram uma garota loira correndo em sua direção, acenando com a mão erguida e vestindo uma armadura rosa.
— Isso dá medo, sabia? – comentou Meiying, virando-se para Hector.
— Nhah, você se acostuma com o tempo. – ele sorriu.
Sui se aproximou, apoiou as mãos nos joelhos, cansada por conta da corrida, e pediu desculpas por ter se atrasado.
— Esse... Esse é o Basilisco? – perguntou, ofegante.
— Sim. Me chamo Hector, muito prazer.
Andrômeda cumprimentou-o, assim como as amigas, e deu alguns detalhes sobre o que aconteceu na décima segunda casa.
— … ai eu acordei aqui... Mas não entendo como estamos conscientes e com nossas memórias se não estamos mais... – ela se fez uma pausa. – Er... você sabe...
— Eu sei. – disse Hector. – É simples: quando você chega ao Submundo, tem alguns minutos “livres”, digamos assim... Ao decorrer deles, sua memória vai falhando e você fica cada vez mais fraco e pálido, desaparecendo por fim quando o tempo se esgota... Ah, e durante esse processo você começa a sentir dor e suar frio também.
— E depois? – Sui engoliu seco, receosa.
— Depois, sua alma é direcionada até a entrada do Meikai... Estamos num ponto afastado, mas vê aquela névoa ali adiante? – ele apontou para o local que Kirsi vira de cima da colina. – Inconscientemente você caminha para lá e é julgado, caindo em uma das prisões e sofrendo pela eternidade, ou destinado aos Elíseos e “vive” um bom pós-vida... Depois disso, bem, eu não tenho permissão para dizer o que acontece.
— Isso é...
— Horrível! – Meiying completou o pensamento de Sui.
— Pois é, infelizmente é o que acontece. As coisas por aqui não são nada bonitas...
— Percebe-se... – murmurou Kirsi.
— Enfim... – ele estralou o pescoço. – Vamos começar?
Elas pegaram distância, se concentraram e deram um último suspiro antes do confronto.
Meiying atacou usando seu golpe usual, o Dragão Voador (1) que consistia numa versão menos potente do Cólera do Dragão (2). A única diferença além do grau de concentração de cosmo era que, nesta variação, seu ponto fraco não ficava exposto.
Já Kirsi preferiu optar pelas Garras do Anoitecer (3), que também era um golpe compacto, que se acertasse o alvo com certeza causaria um grande estrago por conta dos afiados prismas desferidos quando ela cruzava os braços na direção do chão, como se rasgasse o ar.
Sui, por outro lado, utilizou um ataque que embora simples, era muito efetivo, sendo um dos seus principais. Com a Corrente de Andrômeda (4), sua corrente triangular se encarregava de atacar o inimigo.
Ambos os três ataques pareceram ter acertado o alvo, mas Hector dissolveu-se nas sombras, reaparecendo atrás das garotas, que ficaram confusas.
— Muito devagar. – disse ele.
— O quê?! – Meiying protestou. – Eu nem mesmo senti sua energia mudando de posição!
— Camuflagem, cara amazona. Camuflagem.
Kirsi pensava consigo mesma. Aquele cara obviamente tinha muitas cartas na manga, mas devia haver algum jeito de prever onde ele ia reaparecer. Se ela ao menos tivesse uma ideia...
— O-onde estamos? – Sui perguntou repentinamente, desnorteada.
— Como assim? – Meiying questionou. – Estamos no Submundo!
— Hã?! O que estamos fazendo aqui? Nós morremos?
Hector soltou um suspiro pesaroso e olhou para Kirsi, que sentiu um arrepio na espinha.
— Começou.
— Ela já está perdendo a memória? Mas como pode ser? Ela veio pra cá depois de mim!
— Creio que aconteça mais rápido com algumas pessoas.
— E agora? A gente pode ajudar?
— Infelizmente não. Uma vez que começa, não há como evitar.
— Certo. Meiying, vamos terminar a luta antes que Sui desapareça!
— Sim! Cólera do Dragão!
— Uivo Mortal! (5)
— Onda Relâmpago! (6)
Mais uma vez, nenhum deles o atingiu. A corrente de Andrômeda percorreu o território em zigue-zague, tentando acertá-lo nas costas, mas ele tornou a desaparecer, fazendo-a se chocar com os prismas do potente soco de Kirsi. O ataque da amazona de Dragão, por fim, passou reto, tornando-se ineficaz... Porém, a amazona de Lobo compreendeu que provavelmente havia uma forma de saber onde Hector surgiria na próxima vez. Ela faria uma última confirmação e depois disso teria sua resposta.
— O tempo de vocês está se esgotando... – ele lembrou. – Depois do próximo ataque, será a minha vez.
— Eu passo. – disse a amazona de Lobo, concentrando-se em observar minuciosamente os movimentos do adversário.
— Tudo bem, eu vou então... Cólera do Dragão!!
O cosmo de Meiying estava se intensificando cada vez mais, porém era difícil até mesmo para ela ter controle sobre o mesmo no Meikai. Concentrou-se o máximo que pode, mesmo sabendo que as chances de sucesso eram mínimas.
Kirsi fechou os olhos, tentando entender a situação e captar as sensações que o lugar lhe proporcionava. Sentiu um leve tremor na terra deslocando-se poucos metros para trás dela e imediatamente se virou.
A primeira coisa que viu foi Hector, parado atrás de si.
— O turno de vocês acabou!
Ele estendeu suas mãos para frente e uma energia negra e arroxeada começou a surgir em cada uma, adquirindo a forma de um círculo. Ele sorriu e os atirou na direção das duas.
Meiying levantou as sobrancelhas, surpresa. Nunca havia lutado com um inimigo que fosse capaz de manipular esse elemento antes. Pulou na frente de Kirsi e usou seu escudo para defender-se.
— Kirsi, cuidado! Isso é caos! – advertiu em meio ao impacto.
— Caos?
— Sim, e é muito perigoso! Absorve parte da sua energia vital!
Hector se dissolvia e se reconstituía em vários pontos aleatórios. Criava os “discos” de caos consecutivamente, de modo que depois que um fosse atirado, outro surgia no lugar, fazendo com que o ataque fosse imprevisível, rápido e eficiente.
— Não podemos deixar que isso encoste em Sui, ela já está debilitada! Precisamos de um bom plano se quisermos vencer...
— Acho que eu já sei o que fazer! – Kirsi encostou seus ombros nos dela, ficando virada para a direção oposta na tentativa de encontrar Hector. – Lembra de quando éramos crianças e tivemos que treinar contra Santos que conseguiam esconder o cosmo?
— Acho que já entendi onde você quer chegar.
— Então me acompanhe.
As botas das duas armaduras saíram, deixando os pés das amazonas desprotegidos e descalços.
— Ótimo. Espero que isso dê certo.
— O chão daqui é quente... – disse Kirsi, balançando-se nos calcanhares e sentindo o solo com todos os dedos. – ...mas é suportável. Vamos nessa, precisamos contra-atacar!
A amazona de Lobo fechou os olhos para aguçar seus sentidos. Agora, com os pés descalços, ela podia sentir as vibrações que a terra passava e prever para onde Hector estava se movendo.
E então, como o esperado, conseguiram detectar os movimentos do ofídio e atacar antes que ele voltasse.
— Cólera do Dragão!
— Uivo Mortal!
O plano foi um sucesso. O Basilisco caiu no chão no mesmo instante em que se erguia, sem entender.
— Uau. Parabéns... – disse, sentando-se. – O impacto não foi lá muito forte, mas conseguiram me fazer perder o equilíbrio... Infelizmente, ainda não me derrotaram. Voltarei com tudo dessa vez!
Andrômeda arquejou, apertando a barriga contra o corpo e caindo de joelhos no chão.
— Sui, você está bem? – Kirsi perguntou.
— Quem... quem é Sui?... E quem são vocês? O que fizeram comigo?!
— Está piorando... – concluiu Meiying. – Temos que nos apressar!
— Ela está pálida... – disse a outra, colocando a mão em sua testa. – E quente também... Droga, isso é mau. Muito mau!
***
O corpo de Sui pesava cada vez mais e ela não compreendia mais nada. Por quê vestia algo tão pesado? Sua visão estava turva e ela não conseguia se levantar. Suava frio e tinha pensamentos horríveis. Subitamente, seus ombros se tornaram mais leves. Aquele peso havia sido retirado.
***
A armadura de Andrômeda deixou Sui, que não conseguia mais suportá-la, e voltou ao seu estado original. Isso era um sinal de que ela provavelmente não conseguia mais usar o cosmo.
O Basilisco voltou a preparar seu golpe, ainda mais poderoso do que antes. Kirsi estava ajoelhada, olhando para a amiga estirada no chão. Ambas estavam um pouco afastada da amazona de Dragão, que imediatamente retirou seu escudo e atirou na direção delas:
— Não deixe que o caos toque nela! Se proteja!
Ela agarrou o escudo instintivamente, mas ao fitar o sorriso que Hector abriu, gritou:
— Meiying, não! O foco não é a Sui, é você!
Mas já era tarde demais. Meiying foi empurrada para trás, caindo de costas.
Meiying sentiu o efeito na mesma hora. Não machucava a pele, mas gerava calafrios e medo. O caos drena a energia vital da vítima, que diminui rapidamente. Ele confunde a mente e a atordoa, deixando o corpo incapaz de responder aos estímulos do cérebro temporariamente.
Agora Kirsi estava sozinha. Meiying podia ouvir o barulho dela atacando e defendendo a si e Sui, usando o escudo que ela emprestara. O chão tremia com seus vacilos e esquivas. Ela conseguia se desviar mesmo tendo que proteger Sui, e os arquejos e as hesitações que a mesma faziam eram claramente perceptíveis. Ela ouvia seu nome sendo chamado, mas isso não fazia diferença agora. Ela não podia fazer nada para ajudar, apenas esperar a morte chegar, lenta e dolorosamente.
A voz suave e sábia de sua mestra, Lien de Libra, ecoou em sua cabeça:
— Meiying, não desista. Andrômeda está debilitada e Lobo lutando sozinha... Não deixe as coisas como estão, eu sei que você pode ir além... Lute. Lute com todas as suas forças e proteja quem é importante pra você.
Ela estava certa. Desistir não era uma opção. Levantou-se e com os punhos cerrados ergueu a cabeça. Abriu seus olhos, que ao invés de estarem com a cor esbranquiçada de sempre, se iluminaram com um brilho dourado. Encarou Hector com uma expressão determinada e partiu para cima dele, seguindo o formato da constelação de Dragão com seus braços e atacando em seguida:
— Cólera dos Cem Dragões! (7)
O ataque foi certeiro, atingindo uma grande área e causando destruição, arrancando fora algumas rochas e levantando poeira. Kirsi quase foi atingida, mas conseguiu salvar-se.
Hector foi jogado para o alto, caindo de cabeça com o impacto. Meiying havia acabado de despertar o Sétimo Sentido.
Kirsi ficou surpresa. O poder da amazona de Dragão era realmente incrível, e muito maior do que ela vira na luta contra Yerik.
— Essa foi boa! – disse Hector, ainda estirado no chão, erguendo o braço para cima, com um sinal de positivo na mão.
Kirsi reprimiu um riso, o que a surpreendeu. Mesmo com muita a dor, repleta de hematomas e cortes dos ataques de Hector, o suor lhe escorrendo pelo rosto e o braço mais que dolorido por carregar o peso do escudo da amiga, ela ainda conseguia sorrir – e em pleno inferno.
É, ela definitivamente não era normal.
A amazona de Lobo devolveu o escudo para Meiying e ela o empunhou novamente.
— Obrigada pela ajuda.
— Não foi nada... Como ela está?
Kirsi suspirou.
— Nada bem.
— Vai dar tudo certo, não se preocupe.
— Certo... Hum, e então, o que devemos fazer com o surfista prateado ali?
— Vamos dar a ele o que veio buscar.
— Sim!
Os ataques de ambas foram na direção do Basilisco, que se levantava naquele exato momento. Ele se surpreendeu e tentou evitá-los, mas foi atingido de raspão.
— Uau, como vocês ficaram tão fortes em tão pouco tempo?
— Tem certeza de que não foi você que ficou mais fraco? – Kirsi provocou.
— Tenho minhas dúvidas, mas sei como descobrir.
Hector colocou as mãos nas costas e empurrou seu corpo para frente, provavelmente se alongando. Seus olhos pareciam cansados, e de certa forma suas olheiras estavam mais expostas. Ele parecia um surfista – julgando por seu cabelo comprido e seu olhar que ao invés de ser amedrontador, era mais como “E aí, brô, tudo em cima?” – mas isso refletia sua personalidade bondosa e gentil. No entanto, ele era poderoso para alguém que aparentava calmaria. Todo cuidado era pouco.
— Como? – Meiying perguntou.
— Aumentando o poder!
Ambas engoliram seco.
— Mas não se preocupem, chega de caos... Ataques elementais me restringem muito. Agora eu irei atacar como vocês. – continuou, entrando em postura ofensiva e cerrando os punhos, como um lutador, e disferindo alguns jabs (8) aleatórios, fazendo um shadowboxing (9) para se aquecer.
Conforme Hector se movia, uma aura vermelha aparecia ao redor de si, aumentando gradativamente. As amazonas recuaram um passo, assustadas com a intensidade de cosmo concentrada ali.
Ao desviar os olhos de seu alvo imaginário, percebeu a surpresa das duas e se interrompeu. A aura que circundava seu corpo desapareceu instantaneamente.
— Ah, me desculpem... – disse, colocando uma mão atrás da cabeça e sorrindo. – Acho que eu me empolguei um pouco.
Elas se entreolharam, estupefatas. Ele era infinitamente mais forte do que elas pensaram inicialmente. Se ele realmente era um Basilisco, nem queriam descobrir como era o poder de um deus.
— Vocês... estão bem?
— Ah, sim, foi mal... Só estávamos distraídas.
— Sim, é isso mesmo... Eu só... não sabia que você gostava de boxe.
— Eu gosto sim, e muito... É um esporte elegante, de certa forma.
Os três foram interrompidos por Sui, que deu um grito agonizante. Inúmeras gotas de suor escorriam de seu corpo, que estava quase tão branco quanto uma folha de papel. Suas veias e artérias estavam mais visíveis do que nunca.
Kirsi cerrou os punhos, erguendo-os na altura dos olhos, imitando Hector. Meiying sentiu que a postura e o cosmo da amiga haviam mudado muito rapidamente e questionou:
— O que você está fazendo?
— Entrando no jogo dele. A partir de agora é tudo ou nada. – respondeu, séria.
— Entendi. Se importa se eu tentar uma abordagem diferente?
— Nem um pouco.
O ofídio ficou admirado por um instante.
— Ah, você também gosta de boxe?
— Fiz uma aulinha ou duas. Nada demais.
— Interessante... Então, vamos em frente!
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