Conto I - Unforgettable Wars
35 A Dor de um Mestre: Saudade!
Notas iniciais

– Lélio? O que aconteceu? – questionou Leão Menor.
Sem resposta. Heitor ouviu apenas um arquejo vindo do Santo, que logo estava de pé novamente.
– Vamos continuar. – as palavras saíram ásperas e secas, sem nenhuma emoção.
– M-mas...
– Vamos continuar. – repetiu.
– Ok... Patada Selvagem!! (1)
O golpe foi interrompido pelo dourado, que avançou ao mesmo tempo, acertando-o com três agulhas de uma vez. Sem nenhum esforço ou emoção, conseguiu interceptá-lo ainda no ar, sem usar a Restrição. (2)
Heitor ficou um pouco pasmo, mal conseguindo pensar. As agulhas doíam muito e ele não tinha para onde correr. Será que já havia recebido todas? Ele iria sobreviver? Veria seus amigos novamente?
Não. Ele não ia desistir. Refletiu um pouco e com uma voz mínima, com quase que um sussurro, perguntou:
– Quantas já foram?
– Catorze. Já foram todas. Você está livre. – disse, virando-se de costas e tremulando sua capa.
– Então falta uma. – ele se levantou. – Vamos, mande a última agulha.
– O quê?
– A constelação de Escorpião tem quinze estrelas, não catorze.
– Estou te fazendo um favor e te poupando de Antares! Você não precisa dela, é um guerreiro nobre, digno de servir Atena! Isso não basta?
– Não, não basta. – disse enquanto cambaleava em sua direção. – Você está tendo pena de mim, e essa é a última coisa que quero que sinta neste momento.
– No que está pensando? Quer receber Antares mesmo sabendo que eu não posso utilizar todo o meu poder, a mando de Atena?! – questionou o dourado, irritado. – O que significa isso?!
– Está é a minha própria justiça.
– Isso não faz sentido!
– Lélio, entenda, eu quero pagar pelos meus pecados.
– Hah! Você nem sabe o que realmente é o pecado! Eu posso até ser piedoso, mas isso não significa que eu não passei por coisas terríveis. Abandonei minha família, matei inocentes, me afastei de pessoas queridas, deixei que crianças carregassem nos ombros um peso que na verdade deveria ser carregado por mim, e agora você diz que é um pecador? – sua voz começou a ficar mais alta. Pela primeira vez o dourado mudava o seu tom brincalhão. – Ora essa, todos nós somos pecadores, mas não cabe a mim julgar quem é mais e quem é menos! Estou aqui para ajudar, mas a vida na Terra não é nem o começo do sofrimento!!
Um súbito silêncio ocorreu. Nenhuma palavra, apenas lágrimas escorrendo pelos olhos do adulto com alma de criança.
– Lélio, o que aconteceu? Por quê está agindo dessa forma desde que Andrômeda passou por aqui? Você não é assim!
– Você não entende, não é? – ele se interrompeu para enxugar algumas lágrimas, mas elas não paravam de cair. – Até agora eu não sabia o que havia acontecido na casa de Gêmeos!
– O quê?! Você está falando de...
– Sim! Estou falando da amazona de Lobo!
– M-mas... Como? Você sabia que ela tinha morrido!
– Não! Eu sabia que uma Santa tinha falecido, mas não qual delas! Quando todos passaram por aqui imaginei que ela seria a próxima a chegar! – soluços desesperados ecoavam pela casa, fazendo com que o momento parecesse ainda mais agonizante para Lélio. – Pelo visto me enganei... Droga, Kirsi, eu nem pude me despedir...
– Como sabe o nome dela? Você a conhecia?!
– Ora essa, mas é claro que eu a conhecia! Quem acha que a trouxe para o Santuário?! Quem acha que a protegeu e treinou durante todos esses anos?!
– Impossível! Ela treinou sozinha, no Alasca!
– Não foi bem isso o que aconteceu, mas não importa. Ela se foi e a culpa é minha... – ele passou as mãos pelo rosto, desesperado. – Meu Deus, o que direi à sua família?
– Opa, opa, calma aí... Além de conhecer e treiná-la, você também conhece sua família?
– Lógico! Fui eu quem pediu a eles que a deixassem vir pra cá comigo!
– Isso... não faz sentido...
– Faz todo o sentido! Eu só estou vivo por causa dela, e no final nem pude protegê-la... Sou um idiota mesmo!
– Me conte o que aconteceu, por favor!
– Não! Não é hora pra isso!
– Por favor, Lélio! – Heitor suplicou por uma resposta. – Me conte o que sabe, eu preciso saber!
– Está certo, mas só porque você merece saber a verdade! – retrucou enquanto tentava se acalmar. – Saiba que eu não vou repetir essa história, e você não deve contá-la pra ninguém, está me ouvindo? Apenas para o seu amigo Cisne, porque assim como você ele também era importante para Kirsi!... Mais ninguém!
– Entendi... Argh... – arquejou ao tentar se levantar. O ferrão estava afetando seus sentidos mais rápido do que antes, mas ele se esforçava para não deixar transparecer – Rápido, por favor...
Lélio se abaixou e pressionou um dos pontos vitais de Heitor, parando a hemorragia na mesma hora.
– Isso vai te manter vivo por alguns minutos e aliviar a dor.
– Minutos? Heh, acho que não será o suficiente...
– O que está insinuando, cavaleiro?
– Nada não, pode começar... Sou todo ouvidos.
– Sei... Bem, não importa... Vejamos, por onde começo?
– Que tal pelo começo? – sugeriu.
Escorpião o encarou, e ele pensou que talvez fosse melhor não ter dito aquilo. O dourado olhou fixamente em seus olhos e enfim disse em tom desafiador:
– Essa foi fraca.
– Eu sei... – admitiu.
– De qualquer maneira... Tudo começou há aproximadamente seis anos, enquanto eu fazia uma missão na Finlândia. Fui designado pelo Grande Mestre para combater alguns inimigos naquela região... Infelizmente eu era um dourado novato, com pouco mais de quinze anos, e me dei mal. Me vi obrigado a fugir deles e procurar abrigo, pois estava muito ferido... No final deu tudo errado... Enquanto caminhava por entre uma floresta, acabei desmaiando de cansaço. Minhas pernas doíam e eu não sentia os braços... Não me lembro do que aconteceu nos minutos seguintes, mas acordei dentro de uma cabana improvisada, com uma garotinha de sete anos ao meu lado. Perguntei o que havia acontecido e ela disse que me encontrou caído na neve, inconsciente, e me reconheceu como um Santo de Atena por causa da minha armadura dourada.
– Faz sentido... – concordou Heitor.
– Pst! Não me interrompa!
– Desculpe...
– Como eu ia dizendo, ela percebeu que alguns “caras maus” estavam chegando e me escondeu. Quando eles chegaram, perguntaram se ela havia visto um homem com traje dourado e ela assentiu, dizendo que ele havia ido para o Norte... Era mentira, óbvio, mas parece que eles acreditaram nela... Enfim, ela cuidou de mim por um tempo e eu questionei como ela sabia sobre os Santos de Atena. A resposta foi que ela já havia ouvido falar deles, como eram corajosos e faziam milagres com as próprias mãos. Conversamos durante algum tempo sobre o que ela achava sobre isso e ela disse que gostaria de ser uma guerreira, mas não tinha a principal característica de uma: o cosmo... Eu dei risada, pois todos os humanos tem um cosmo, apenas não sabem como usá-lo. Me ofereci para ajudá-la a se tornar uma amazona, já que ela salvara minha vida, mas precisava da autorização da família para isso, e segundo ela, eles nunca aceitariam... Me espantei pelo fato de ela ter uma família. A maioria dos cavaleiros perderam tudo o que tinham de alguma forma... Ela só me contou sobre o primo mais tarde... Kirsi me alertou que seria difícil convencer seus pais, pois além de não gostarem da ideia de deixar uma menina de sete anos lutar eles não moravam juntos... Mas eu não desisti. Fui até a casa onde ela morava com a mãe e conversei com a mesma durante algumas horas...
– “Algumas horas”... – repetiu.
– Algum problema?
– Não, nenhum. Super normal. Prossiga...
– Pft, tanto faz... Bem, depois de falar com a mãe eu descobri que os pais eram realmente separados, mas Kirsi não sabia disso. Ela pediu sigilo, que contaria quando fosse a hora certa e eu compreendi... Partimos para a casa do pai, os três juntos, e sentei junto aos pais para conversar enquanto ela aguardava em outro cômodo da casa... Ficamos horas a fio ali, discutindo os prós e os contras, pois eu notei que eles não se sentiam bem sabendo que a filha não moraria mais em com eles, e ainda em outro país... Por sorte, no fim deu tudo certo e eles a autorizaram com a condição que os visitasse sempre que possível e escrevesse cartas com frequência, não deixando de mandar notícias sobre seu progresso... Quando saímos, os pais trocaram algumas palavras com ela e se despediram da melhor forma possível. No mesmo instante ela correu e me abraçou, literalmente pulando no meu colo e rindo muito. Obviamente, eu fiz o mesmo, e comemoramos... Seus pais me disseram para cuidar dela como se fosse minha própria filha, e eu concordei... Dito isso e explicada a situação, pedi que ela aproveitasse a última noite com a família, pois no dia seguinte iríamos para o Santuário logo cedo. Seu pai e sua mãe pediram que eu passasse a noite junto a eles, na mesma casa, mas eu recusei pois é perigoso ter um Santo dourado por perto, ainda mais com inimigos por aí... Mas eles insistiram tanto que eu acabei aceitando... Acabou dando tudo certo, pedi um reforço e os caras que eu estava perseguindo anteriormente se renderam a um amigo meu, que coincidentemente estava na Finlândia também, e se me permite dizer, aquela foi a melhor noite de sono que eu tive em semanas... E foi isso.
– Como assim “e foi isso”? – questionou Heitor, franzindo o cenho. – E o resto?
– Que resto?
– E quanto a ida ao Santuário e o treinamento no Alasca?
– Ah, sim... Viemos até a Grécia para falar com o Grande Mestre e iniciamos o treinamento básico aqui mesmo... Depois de saber o básico e despertar seu cosmo, ele a enviou para o Alasca para conquistar a armadura de Lobo. Perguntei se eu deveria ir com ela mas ele negou. Aquilo era algo que ela precisava fazer sozinha... Não tive escolha, tive de deixá-la ir, mas nunca perdemos contato. Eu ia visitá-la às vezes... Bem, depois de tudo isso, ela se tornou uma amazona e retornou para cá, comunicando ao Papa e a mim. Foi pedido que ela saísse em uma missão e ela o fez... Creio que vocês já se conheciam, certo?
– Sim. Conheci Kirsi durante seus primeiros anos aqui, durante o treinamento de aspirantes.
– Agora que você já sabe de tudo, eu lhe pergunto: está feliz com isso?
– Lélio, eu... Eu não queria...
– Não... Tudo bem... – ele fungou. – É só que... eu não a via há tantos anos...
– Eu sinto muito... – o Santo de Bronze colocou a mão em seu ombro.
– Sente? – ele o encarou, claramente abalado com tudo isso.
– Mas é claro. Você não é o único que está sofrendo com isso.
– Obrigado... Eu acho...
– Não por isso... Mas agora, voltemos ao presente, sim? Estou esperando a sua resposta quanto à Antares...
Lélio começou a pensar a respeito, e cedeu.
– Tudo bem então. Me desculpe por isso... Realmente espero que você sobreviva, Heitor... Agulha Escarlate de Antares!! (3)
Heitor foi atirado outra vez ao chão. A dor pesava sob seus ombros e ele lentamente caminhava na direção da inconsciência e da loucura.
Insuportável. Isso definia bem o momento.
Finalmente se lembrou de já ter ouvido o nome do cavaleiro. De fato, Kirsi já havia comentado sobre ele, acidentalmente, não relacionando-o como mestre, mas sim como um pai dentro do Santuário... Ele não entendera a relação na hora e por isso deixou pra lá, já que sabia que o pai de Kirsi ainda era vivo – e inclusive o conhecia.
Seus sentidos o abandonavam aos poucos, e ele podia ouvir o dourado soluçando pelo que fizera ao longe. Errar era humano, certo? Então porquê isso não o fazia se sentir melhor? Não queria ser responsável por mais tristeza na vida de ninguém. Sempre quisera fazer a diferença e hoje era o dia. Ele só precisava de algo em que pudesse se apoiar, algo que lhe desse forças para continuar. Não queria morrer, e de fato, não ia... O que seus amigos pensariam? O que Kirsi diria a ele se estivesse ali, vendo-o naquela situação?
Certamente daria uma bela bronca e em seguida uma longa risada. Nunca ficava brava com ninguém, mas também sabia melhor do que ninguém como incentivá-lo.
E quanto a Yerik? Provavelmente o encararia com aquele olhar sereno e desafiador, convidando-o a se superar cada vez mais. Ele prometera vê-lo novamente, e não ia voltar atrás. Não havia tempo... Mais do que nunca estava decidido a lutar por eles, afinal, era a sua família quem sempre estivera ali para ele.
Agora havia também Lélio. Alguém um tanto quanto surpreendente, por assim dizer. Ele de fato lembrava muito Kirsi. Tinham a mesma personalidade, a mesma força de vontade, o mesmo olhar profundo e o sorriso era idêntico, sempre sincero e espontâneo.
Pensou naquilo tão profundamente que quando percebeu já estava de pé novamente, pronto para terminar o que havia começado. Sua determinação era tamanha que Lélio o sentiu despertar o Sétimo Sentido. (4)
– O quê?! – ele estava tão surpreso que se levantou com um pulo. – Você despertou o Sétimo Sentido?
Sem resposta.
– Ah... entendi... Você quer terminar a batalha, não é mesmo?
Mais silêncio.
– Tudo bem. Eu aceito sua oferta sem hesitar... – disse, entrando em postura de ataque. – Essa é a nossa justiça para com aqueles que amamos!
Heitor esperou um pouco e atacou ao mesmo tempo que Lélio, caindo junto com o dourado. Ambos ficaram inconscientes no mesmo instante, sem saber se um dia voltariam a acordar.
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