Conto 31
3 3ª Parte - Prato Principal
Notas iniciais
A gargalhada que saía da boca de Hanna encheu toda a sala, ela olhou nos olhos do médico, o olhar cruel, cruel demais para uma jovem.
-Então você quer saber o que fizemos caro Ritzel?
Ritzel levantou a sobrancelha direita esticando as rugas desse lado do rosto.
-Sinta-se a vontade...
Novas risadas encheram a sala, assim que cessaram Hanna começou a falar:
-Essa a historinha de uma jovem menininha, ainda muito nova ela resolveu acreditar que poderia aprender a ter grandes poderes um dia e ela pretendia usar esses poderes para ajudar e proteger a todos aqueles que conhecia e amava. Para isso ela começou a estudar e estudar muitas coisas e descobriu com o tempo que, além de proteger pessoas, ela poderia usar esses poderes para se vingar de quem a machucasse.
Ritzel ouvia com atenção cada palavra, a voz que ele ouvia tinha um grande tom de ironia e sarcasmo, ele estava se sentindo cada vez mais feliz por ter saído de casa para atender Russell.
-Interessante, continue, continue.
-Pois bem, cada dia que passava ela se tornava melhor em suas magias, tudo parecia dar certo para ela, até os sonhos começarem. Sim, sonhos. Sonhos horríveis em que ela sozinha conseguia assassinar centenas de pessoas, por vezes ela estava acordada, começava a discutir com alguém e, quando abria seus olhos, lá estava ela, ferindo de alguma forma a pessoa. Com o passar do tempo isso foi ficando cada vez pior, ela estava se sentindo cada vez mais perdida quando o encontrou. Aquele amigo que prometeu sempre protegê-la, que disse que nada de ruim aconteceria a ela enquanto ele estivesse ali, afinal, provavelmente essa era a missão da vida dele: proteger a jovem e ajudá-la a crescer de uma boa forma.
- E então, o que houve depois?
Hanna ficou em silêncio por um momento, sua cabeça girava, Doutor Ritzel não podia ver, mas ela travava, dentro de si, uma grande luta para voltar ao controle. Ela queria pedir socorro, ela queria que alguém a levasse dali e acabasse com aquele sofrimento. Cada nova investida contra sua mente a fazia desejar até mesmo os cuidados de Ritzel.
Ritzel limitou-se a observar enquanto sua paciente se contorcia em silêncio na cadeira em que estava sentada. Ele sabia que, de alguma forma, ela estava sentindo dor e isso o fazia feliz. Era um grande entretenimento para ele. De repente, a voz de Hanna voltou:
-Sim, onde estávamos?
-No momento em que a jovem da história conheceu alguém.
-Certo. Tudo ia muito bem, ela estava feliz, não sentia raiva das pessoas e parecia estar ajudando muita gente, mesmo que não soubessem que suas vidas estavam dando certo graças a ajuda dela. Até que algo horrível aconteceu. Algo que nunca poderia acontecer com nossa lady. Ela se apaixonou. Ela começou a se afeiçoar demasiadamente aquele que disse que a protegeria. Qualquer coisa que ele quisesse ela faria sem pensar duas vezes. Ela queria passar toda a vida com ele. Queria abraçá-lo, senti-lo, amá-lo e ser dele, inteiramente dele.
-Compreendo.
Doutor Ritzel teve certeza de que viu uma lágrima escorrer no rosto de Hanna, embora ela continuasse com a mesma aparência maléfica e despreocupada de quando começara a falar.
-O erro maior veio em seguida. A pequena, convencida de que poderia fazer com que ele a amasse, resolveu dizer-lhe tudo aquilo que sentia. Ela passou horas decorando e pensando no que falar até criar coragem e ir contar ao seu cavaleiro de armadura prateada. Um amigo, que só ela podia ver, quis alertá-la, disse que ela não fizesse isso, ela iria sofrer se isso acontecesse. Como uma bela jovem rebelde, ela resolveu desobedecê-lo e, quando declarou todo o seu amor por aquele que ela via brilhantemente, este riu da cara dela, disse que tudo aquilo era bobagem, que ela esquecesse, pois isso jamais aconteceria. A jovem desapontou-se, sentiu-se a pior pessoa do mundo, mesmo assim tentou seguir em frente.
-E o que ocorreu depois Hanna?
Um sorriso satisfeito preencheu o rosto de Hanna.
-O outro amigo, o que disse que ela não deveria fazer isso, enfureceu-se pelo que aquele que nossa jovem amava fez a ela. Ele resolveu que se vingaria dessa pessoa, que a faria sofrer da mesma forma que a jovem sofreu. A jovem não queria que isso acontecesse. Ela tentou lutar e até mesmo se afastar de seu amor não correspondido apenas para salvá-lo. Mas um dia, andando por uma rua qualquer, ele a viu passar. O novo protetor da jovem, enfurecido, tomou o controle dela e concordou em subir ao apartamento dele para tomar um pouco de sorvete. Sim, seria uma bela visita.
Ritzel começou a juntar as partes da história confusa que estava ouvindo, ele já podia imaginar o final dela, mesmo assim pediu que Hanna continuasse.
-Dentro do apartamento, a jovem, controlada pelo desejo de vingança, tentou novamente dizer o que sentia, novamente foi desprezada e, tão logo teve uma oportunidade, fez com que seu amigo baixasse a guarda, ela resolveu que queria brincar de esconder-se e ele seria o primeiro a ter que encontra-la. Enquanto o outro contava até cem, o controlador da jovem, pegou um pedaço de fio de um controle de jogo qualquer e ficou em silêncio atrás daquele amigo ingrato. Noventa e oito, noventa e nove, cem. Logo que o infeliz afastou-se da parede, antes mesmo que pudesse virar para a jovem, foi pego pelo vingador que prendeu o fio em seu pescoço puxando com força, não para matá-lo, isso não teria graça, apenas para enfraquecê-lo.
O médico viu Hanna cerrar as mãos, ela parecia, de algum modo, estar tentando ferir o próprio corpo para manter-se no controle.
-E o que aconteceu com o amigo?
-Sem ar, ele foi amarrado pela jovem que mostrava agora uma força sobre-humana. Com fios arrancados de aparelhos eletrônicos ela prendeu as mãos e pés do rapaz, amordaçou-o com uma capa de almofada qualquer e foi até a cozinha procurar algo com o que se divertir. Uma faca de comida oriental. Era perfeita, a lâmina tão afiada que poderia cortar só com o toque. Começou passando a ponta da faca nos braços do jovem. Ele queria gritar, sua expressão de dor agradava sua vingança. Colocou mais força transformando os arranhões em finas trilhas de sangue que pingava sujando o carpete branco e bem cuidado do apartamento. Depois divertiu-se em pintar, com cortes, as iniciais dele e dela por todo o corpo do rapaz. Aquilo estava sendo um ótimo trabalho.
Ritzel estava começando a ter que se esforçar em disfarçar o quanto aquilo o agradava, ele podia imaginar o rosto contorcido do jovem amarrado. Hanna prosseguiu:
-Logo, notando que aquilo poderia prejudica-la, ela resolveu, com um descascador de batatas, descascar a parte das iniciais deixando a carne de seu amigo à mostra. Como aquela brincadeira estava se tornando maçante sem o som que deveria ter, ela ligou o som no volume mais alto que pode e tirou a mordaça de seu brinquedo, agora ele estava livre para gritar, ninguém o escutaria. Ele implorou que ela parasse, disse que tudo ia ficar bem, que ele ficaria com ela, mas já era tarde e aquela falsa promessa a irritou ainda mais. Irritou tanto que ela decidiu que seria melhor não ouvir nada mais daquela boca que só dizia mentiras e arrancou as cordas vocais daquele cara chato, assim ele não diria mais nada. Foi então que ela lembrou-se, os olhos, sim ele tinha belos olhos, tão belos que ficariam lindos em vidros na sua prateleira. Com uma colher, de uma só vez, ela os tirou e guardou numa caixinha próximo ao telefone. Ela poderia olhar aquele verde encantador por muitos e muitos dias. Aquele era o jogo mais legal da vida dela, precisa de um desfecho tão legal quanto. Com a faca de sushi e sua vitima ainda agonizante, tentando de algum modo lutar pela vida perdida, ela desferiu um golpe na barriga do jovem, abrindo-a até poder pegar seu intestino. Ela tinha agora uma grande corda de pouco mais de um metro nas mãos, foi até a porta principal do apartamento e fez um grande coração na entrada com aquilo. Seu fantoche tentava viver mas já não retornaria a esse mundo. A jovem discou o número da vizinha e pediu que chamasse a policia. Nesse momento, ao desligar o telefone, ela recobrou sua consciência, ela viu tudo o que haviam feito. Ela estava confusa, correu e se escondeu no primeiro lugar que encontrou. Ouviu passos pesados virem até ela, transtornada e em choque deixou-se ser arrastada até o carro. E agora o resto o senhor já sabe caro Ritzel.
Ritzel estava impressionado com toda a frieza ao contar o crime. Hanna seria a melhor conquista de sua vida. Ele teria horas e horas de diversão com ela em sua clinica. Que grande bichinho ela seria. Por já ter tudo o que precisava Ritzel levantou-se.
-É uma história fabulosa Hanna, tenho certeza que Russell concordará em te levar para minha clinica assim que ouvir toda minha gravação. Você vai gostar de lá.
Hanna apenas sorriu. Ritzel foi andando em direção a porta, ele estava tão extasiado com tudo que ouvira que não se deu conta da maleta que havia ficado sob a mesa.
-Não tão rápido Doutor.
Fale com o autor