Conto 1

1 Capítulo 1


A noite estava quente, o típico calor do verão, mas isso não impediu que sentisse frio, um frio de expectativa congelando todo seu ser. Não se lembrava de ter decidido ir até o lago — era como uma necessidade que clamava para ser suprida — muito menos de que o tal lago era tão opressivamente silencioso àquela hora da noite. Fez uma anotação mental para se lembrar que deveria voltar ali outro dia, quando o medo e o frio em suas veias não estivessem presentes, para apreciar totalmente a beleza mística que exalava de cada gota de água.

Aproximou-se da margem para contemplar o reflexo da lua na superfície do lago e, então, sentiu. Virou-se devagar, ficando diante do provável motivo da sua expectativa: um par de olhos cor de fogo, assim como os seus, analisando e assimilando cada mísero movimento feito. Percebeu que eles foram se aproximando vagarosamente e que seu próprio corpo, instintivamente, começou a se afastar, como se soubesse o perigo que corria.

Continuou se afastando, cada vez mais rápido até sentir algo lhe segurar pelos ombros. Procurou desesperadamente pelos olhos de seu perseguidor e não os encontrou, por isso imaginou que era o dono deles que mantinha seu corpo imobilizado. Gritou por ajuda, mas a voz não saiu.

Sentiu algo em suas costas, na direção do coração, uma dor aguda começou a se manifestar. Olhou para o próprio peito e viu algo perfurando sua roupa e manchando-a de vermelho, gritou mais uma vez, usando toda a força que ainda restava. A dor aumentou e não conseguiu mais resistir, os olhos foram perdendo o brilho e, então, tudo ficou escuro.

Morgana acordou sobressaltada, com a respiração pesada e o coração acelerado. Mais uma vez tivera aquele pesadelo.

Levantou com dificuldade e foi até o banheiro, precisava de um banho frio para apagar o terror que sentia. Quando terminou, voltou ao quarto e notou que o dia já estava amanhecendo. Sem coragem de voltar a dormir, resolveu ocupar a mente até a hora de ir para a aula.

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O celular de Morgana tocou pela quinta vez naquela manhã. Esse era o motivo que a fazia odiar aniversários: receber, o dia todo, ligações de parentes desejando felicidades. Antes de aprender a ignorar as chamadas, passava dias planejando um texto de agradecimento que poderia repetir a todos, como uma gravação.

Sentou-se na cama para ler, mas a mente divagava, teimando em recordar o pesadelo que tanto a atormentou. Três semanas haviam se passado e nesse período seu sono se manteve tranquilo. Tentava evitar pensar nisso, mas, mesmo sem se repetir, aquelas imagens e sensações se mantinham vívidas em sua mente.

Olhou para o relógio e percebeu que seu irmão logo ligaria. Cam e Morgana eram gêmeos e tinham uma forma especial de se falar: em anos ímpares, Morgana ligava para ele, em anos pares o contrário acontecia. Esboçou um leve sorriso ao se lembrar do irmão e sentiu a saudade aumentar.

Mal tinha terminado seu pensamento quando ouviu seu telefone tocar. Correu para atender e ouviu a voz tão desejada de Cam, suave como um sussurro, trazendo à tona memórias de dias felizes e sem preocupações. Conversaram por horas expondo todas as novidades que ambos tinham.

O restante do dia transcorreu de forma comum, com exceção do intervalo, com seus colegas fazendo o máximo para que sentisse os tradicionais “constrangimentos de aniversário”, ritual pelo qual todos passavam quando comemoravam mais um ano de vida.

Estava anoitecendo quando chegou à sua casa. Uma sensação estranha começou a se espalhar pelo seu corpo, uma necessidade de fazer algo, um “algo” que ainda lhe era desconhecido. Ignorando o que sentia, ligou o computador e colocou sua música preferida para tocar -“BEWITCHED” -, deitou-se para ouvir e acabou dormindo.

Acordou assustada e sentou-se na cama, ainda desnorteada pelo sono, tentando se localizar e descobrir as horas. Levantou, buscou o celular e viu que o relógio marcava 23h18. “Perfeito!”, pensou, “Dormi todo esse tempo e agora o sono só volta no meio da madrugada”.

Olhou através da janela e sentiu aquela necessidade já conhecida voltar, bem mais forte, incitando-a a ir até a rua. Trocou de roupa e saiu, procurando qualquer coisa que pudesse explicar o que estava sentindo, o que fazia com que sentisse aquela estranha urgência. Estava se virando para voltar para dentro de casa quando viu a praça do outro lado da rua, mal iluminada com suas luzes amareladas fracas. A curiosidade falou mais alto e, mesmo com sua mente gritando uma negativa, seu corpo se moveu sozinho naquela direção.

A propriedade estava completamente deserta e silenciosa, as poucas luzes que ainda funcionavam não conseguiam iluminar o suficiente para que enxergasse muita coisa e, agora que estava tão perto, percebeu porque o lugar estava vazio. Sinistro. Essa era a palavra que definiria exatamente aquele ambiente.

Continuou andando, tentando se cansar o suficiente para conseguir dormir quando voltasse para casa. Pouco antes de uma fileira de árvores avistou o que imaginou ser um coreto, um pouco acabado pelo tempo, com a tinta descascando e um dos bancos quebrado. Por sorte, aquele era o lugar mais iluminado da praça. Seguiu até ele e se sentou.

Após alguns minutos, resolveu voltar para casa, mas desistiu da ideia quando algo chamou sua atenção. Saiu do coreto, atravessou a fileira de árvores e se deparou com um lago, a alguns metros de distância, totalmente iluminado pela lua.

Lembrou-se, então, do pesadelo. Um arrepio percorreu seu corpo e sentiu uma brisa leve passar por seu pescoço, fazendo-a recuar de assombro. Talvez o sono estivesse lhe pregando uma peça, mas podia jurar que a brisa havia sido, na verdade, um sussurro muito leve. As palavras que ouviu ficaram ressoando em sua mente. “Mate-o, querida. Não permita que ele acabe com a nossa linhagem. Faça aquilo que sua mãe não teve coragem de fazer”.

Morgana não fazia idéia de quem era ele e o que deveria fazer no lugar de sua mãe. Olhou para o lago novamente e viu um vulto, andando de um lado para outro, voltando para onde estava e depois se dirigindo até perto da água. Ficou paralisada quando percebeu o que deveria fazer e o que aquelas palavras queriam dizer.

Começou a andar devagar e silenciosamente até o vulto, repetindo o que ouviu, numa voz baixa, como uma oração. O vulto se virou e a viu, mas Morgana não pareceu perceber, já não controlava o corpo hipnotizado pelas vozes que insistiam em fazê-la cumprir a tarefa que lhe fora destinada.

Avançou sobre o vulto e, num momento de distração dele, o segurou pelos ombros. Levou uma das mãos até o bolso do agasalho e pegou a adaga que lá estava, posicionou-a na direção do coração do vulto e empurrou-a até atravessá-lo. Ouviu-o gritar, um som distante e irreal, e quando o corpo que segurava perdeu a vida, o soltou.

Olhou para baixo, para o monte inerte no chão e ajoelhou-se ao seu lado. Envolveu-o num abraço forte e chorou até que suas lágrimas secassem. “Espero que me perdoe, mas isso era necessário. Eu sempre vou me lembrar de você, Cam.”, sussurrou.

Tudo ficou claro. Sempre soube que seu sangue era especial e, por causa do seu aniversário, seu dom havia se manifestado. O pesadelo era uma previsão do destino de Cam. Fora um erro ter um irmão gêmeo, só um de sua espécie podia existir em cada geração. Ela sabia. Essa é a regra.

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