Contemplar
2 {2} C a m i n h o
Notas iniciais
Fiquei surpresa quando você me falou que queria sair de noite para olharmos as estrelas. Você sempre se culpou muito.
Queria que pudesse confiar em si mesmo como eu confiava, mas não poderia impor qualquer ideal: quando você mais precisou de alguém para lhe oferecer qualquer palavra ou gesto não apareceu ninguém. Eu nem sonhava que você poderia estar chorando no momento em que eu estaria sorrindo, nem teria pensado que isso chegaria a me incomodar quando eu viesse a saber.
Se eu estivesse lá, provavelmente eu teria te tocado Clair de Lune, sempre me acalmava quando eu me lembrava de seu som, cada nota repercutindo e embalando os sentimentos como se afundassem de forma pacata em águas profundas.
Em minha imaginação chegavam essas melodias melancólicas, gota a gota, como uma chuva imprevista, me acusando de coisas que eu deixe de fazer. Contudo, naquele momento estávamos lado a lado, em uma noite que poderia nos esconder de tudo e de todos, e isso era o bastante para que as palavras contrárias de qualquer um perdessem a sua energia.
Mesmo as suas próprias, mesmo as minhas... não adiantava se preocupar com o que já aconteceu, eu bem sabia. A música de pessimismos insistia em se manter presente, entretanto, as vozes com suas faltas ainda poderiam se ajudar.
A falta de credibilidade em nós mesmos e a vida não tornavam isso uma mentira.
Dessa forma, estávamos de mãos dadas ao ar livre. Em algum momento devo ter melodiado uma sinfonia que eu vinha treinando para um concerto futuro. Você tinha aquele sorriso pequeno no rosto.
...
Você se negava poder olhar para o céu mais uma vez e reclamar algumas das estrelas que ali haviam.
Só veio comigo quando a noite chegou e isso porque ela nos tornava anônimos, sua ligação comigo era silenciada. Mas eu não achei nem um pouco ruim... pelo menos, sua felicidade transparecia em sua expressão relaxada e era o que mais me importava, francamente.
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