Notas iniciais
V — O que as solteiras são capazes de fazer.
─ Eu preciso de uma bebida. ─ informei, enquanto me levantava do sofá e buscava impulsionar meu corpo para longe dali.
Fui impedida por Johana, que segurou meu braço e olhou-me surpresa.
─ Calma, aí, gatinha. ─ ela pediu ─ Você não pode sair andando aí, como se fosse uma das soltas.
Encarei-a confusa.
─ Soltas?
Mel ergueu seu antebraço e sorriu.
─ As que não possuem namorado, Ali. As solteiras. ─ explicou, tentando parecer gentil, mas senti uma pitada de insegurança em sua voz.
─ E como vocês andavam aqui, sem essas tatuagens? ─ questionei, desvinculando meu braço do aperto gentil da Johana, forçando-me a olhá-las um pouco incomodada.
─ Não andávamos. ─ Tris falou, simplesmente.
─ Então, ficavam por aí, paradas em um canto qualquer?
─ Claro que não! Nós não andávamos, porque nenhuma de nós entrou aqui sem antes ter entrado em um relacionamento com um dos garotos de Ares. ─ Mel foi direta, esclarecendo os fatos.
Então, era isso. Elas só participavam do evento, porque eram as namoradas.
─ Se todas são namoradas de um dos lutadores, como foi que eu consegui entrar aqui? ─ continuei com meu interrogatório, buscando compreender o que raios, afinal, eu havia de diferente para entrar no Day on.
─ Nunca dissemos que todas são namoradas. ─ Johana, de repente, soltou, antes de pegar um copo vermelho na mesa de centro e terminar de beber o que quer que fosse aquilo.
─ Espera... então as outras são... hm... soltas?
─ Seguinte. ─ Tris ergueu-se do sofá e apontou para mim ─ Vou buscar algo pra você beber, porque já estou de saco cheio dessas suas perguntas insuportáveis. Johana, fique de olho nessa pirralha, porque ela é boa em dar um perdido. Mel, vem comigo, porque hoje está superlotado e não vou dar conta de trazer todas as bebidas sozinha.
Elas se dispersaram rápido, seguidas pelos os olhares atentos dos outros rapazes de Ares que observavam os movimentos de ambas enquanto atravessavam a passarela rumo ao outro lado da galeria, onde ficava a longa bancada, com quatro barmans que cuidavam do serviço das bebidas.
─ É melhor se sentar, gatinha. ─ Johana pediu indicando com o queixo o local ao seu lado.
Fiz o que ela pediu, mas prossegui a encarando, esperando por uma resposta a pergunta que havia feito.
Algo no seu olhar, me dizia que eu estava extremamente encrencada, porque antes que ela pudesse dizer qualquer coisa eu senti que havia uma penumbra negra por trás dessa história.
─ Olha... não as leve a mal, ok? ─ pediu, suplicante ─ Não é algo que... tipo, você ou sua irmã precisem, porque, no fim das contas, vocês possuem uma mãe mega rica que pode garantir um teto sob a cabeça das duas.
─ O que são essas soltas, Johana? ─ perguntei, firme. Eu precisava de respostas.
─ Você é inteligente o suficiente para adivinhar, Ali, mas vou te dar uma dica. ─ ela sugestionou, com os olhos, como se apontasse para o lado e eu segui sua solicitação.
Havia uma menina ali, parada, sorrindo, balançando o cabelo, encostada em uma das colunas que sustentavam o teto sob nós. Ela sorria, debochada, enquanto um cara alto, meio abobado, sorria de volta e passava a mão em seu braço, subindo e descendo levemente.
Ela não possuía nenhuma marca em seu antebraço, então foi fácil identifica-la como uma solta.
De início, parecia uma situação inofensiva. Eles estavam meio que flertando um com o outro, buscando falarem coisas ou movimentarem-se de modo a instigar o outro.
Foi então eu vi. Um movimento rápido, mas perceptível.
O cara inseriu algumas notas de dinheiro no decote de sua camisa e sorriu, maroto.
Ela gargalhou e passou a mão pelo decote para remover o dinheiro dali e coloca-lo no bolso. Após isso, deslizou a mão por seu braço, até encaixar a mão na sua e puxá-lo para longe dali, em direção ao que parecia um corredor pouco visível, que os fez desaparecer para alguma parte ainda desconhecida para mim do prédio.
Johana não precisou de palavras para explicar o que ali, para mim, era óbvio.
─ Ela é uma prostituta. ─ sussurrei, apavorada com a ideia.
─ Shhhh. ─ ela olhou em volta, temerosa de que alguém tivesse ouvido o que eu falei ─ Não falamos assim por aqui, Ali. E não é bem assim como você acha, e-elas...
─ Não! Como assim não é como eu não achei? ─ deixei o tom da minha voz se elevar enquanto eu falava ─ Ela acabou de receber aquele dinheiro pra que? Pra ensinar ele a tricotar? Pelo amor de Deus, Johana! Essas meninas estão se prostituindo. Isso... isso... ─ era demais. Sufocante, até.
Levantei-me num salto e fiquei olhando a minha volta, buscando algum tipo de salvação.
Tris tentou me avisar que aquele lugar não era pra mim. Ela tentou me alertar do perigo.
Em que merda minha irmã havia se metido, afinal? Será mesmo que ela sempre fora apenas uma namorada do Don antes de entrar? Deus, era tanta coisa para absorver...
Elas tinham namorados aqui, estavam seguras. Já eu? Bom, eu não possuía um namorado. Eu não possuía nada.
Tudo parecia girar, e eu fui tomada pelas lembranças da boate Zoon, quando aqueles caras me xingaram e agiram com se eu fosse um objeto fácil, maleável. Eles realmente iriam fazer o que quisessem comigo se não fosse... se não fosse pelo Zeny.
─ É melhor você se acalmar, Ali, por favor. Ficar histérica agora porque essas meninas optaram por essa vida, não é uma boa ideia.
Eu não conseguia pensar com coesão. Tudo o que eu pude fazer foi encarar o antebraço de Johana ainda exposto, mostrando o seu trevo e voltar-me para o meu, que estava nu, sem proteção alguma. Eu era uma solta ali. Se, em qualquer momento, qualquer um que está com os Ares deixar-me de lado, eu poderia correr o risco de ser arrastada para um corredor escuro e acabar com uma nota enfiada entre os peitos.
─ Ali? ─ Johana tornou a me chamar, sabe-se lá pela qual vez.
─ Eu preciso... ─ pigarrei, buscando minha voz novamente ─ Eu acho que preciso ir embora.
Comecei a caminhar apressada, em direção a porta de entrada e percebi, pela primeira vez, o quanto ela parecia distante. Muitas pessoas estavam no meu caminho e tudo o que eu consegui fazer fora empurrar alguns corpos amontoados, buscando espaço entre eles para conseguir uma passagem e escapar daquele mundo infernal.
Onde Beatriz estava com a cabeça para se envolver com esse tipo de gente?
Prostitutas? Lutas clandestinas?
Onde eu estava com a maldita cabeça para aceitar vir parar num lugar como esse?
Nem ousei pegar minha bolsa para ver que horas eram, pois tive medo, no mesmo instante, de me distrair e acabar sendo empurrada naquele mesmo momento para algum beco escuro e acabar totalmente destruída.
Cada vez mais sufocante, fui pedindo licença entre as pessoas que buscavam um espaço na galeria, até que acabei esbarrando em uma grande parede à minha frente.
Era impossível não reconhecer uma parede quando não é a primeira vez que você esbarra nela.
Ergui minha cabeça o suficiente para deparar-me com um par de olhos azuis escuro que me olhavam preocupados.
─ Você está bem? ─ a voz de Zeny era rouca e baixa, mas audível, apesar da sonoplastia de fundo que parecia a todo instante querer me engolir ─ Você está chorando?
Toquei meu rosto e senti as lágrimas que escorriam, deixando-me parecer ainda mais uma garotinha medrosa e exposta.
─ Aconteceu alguma coisa? ─ ele insistiu e logo senti suas mãos firmes entorno dos meus braços.
Olhei para Zeny novamente e o imaginei como aquele outro cara que vira a poucos segundos. Entregando-me uma nota de 100 para ter cinco minutos de prazer nos fundos do prédio. A imagem me deu náuseas e eu possivelmente vomitaria se tivesse bebido alguma coisa nos últimos momentos.
─ Me deixa ir, por favor. ─ desvinculei-me de suas mãos e afastei-me, buscando novamente a saída.
Estava a poucos passos da saída, quando senti um puxão pelo meu braço e eu pensei em gritar, porque o medo se apoderou de mim.
─ Hey, espera! ─ era Zeny novamente.
Puxei meu braço de volta, usando toda a força que consegui, naquele momento, e corri para a saída, empurrando a porta o mais forte que fui capaz.
Havia mais um grupo de lutadores entrando, no momento que avancei pelo corredor esverdeado, mas não me abati quando captei seus olhares maliciosos.
Busquei arrumar minha postura e atravessar o espaço sem chamar atenção, assim como eu planejara a noite inteira.
─ Opa, parece que vamos perder uma daquelas soltas mais puritanas hoje, Malcon. ─ um moreno, alto e possivelmente acima do peso comentou quando me viu andar em sua direção.
─ Talvez a noite não esteja totalmente perdida, afinal. ─ o que parecia ser o Malcon, sorriu, travesso e piscou para mim ─ Já vai, docinho?
O jeito como falou comigo, fez percorrer um arrepio por todo o meu corpo. Um arrepio bem ruim.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ouvi o som da porta abrir atrás de mim e os olhos dos lutadores a minha frente se arregalarem.
─ Epa, acho que ela já está com companhia, Jordan. ─ o que eu entendi ser o Malcon informou para o colega ao seu lado e acenou com a cabeça antes de prosseguir ─ E aí, Barnes.
Uma mão firme deslizou por minha cintura e eu senti todo o meu corpo travar com o movimento.
─ Rapazes. ─ a voz de Zeny soou firme, seca, enquanto ele me puxava para mais perto de si e começara a andar em direção a saída ─ Aproveitem a noite. O Day on está a mesma merda de sempre. Imagino que seja o gosto dos merdinhas da Beta.
─ E nunca boa o suficiente para os maricas da Máfia. ─ Malcon parecia ser o líder do grupo, pois era sempre o único a falar ali.
Por um instante, vi um dos punhos dos lutadores fechar de forma bem intensa, a ponto de permitir um pequeno tremor percorrer seu braço, mas se desfez com as palavras de Malcon:
─ Vamos, pessoal. Agora que sabemos que a corja já está de saída, podemos aproveitar nosso dia como realmente merecemos. O grupo formado por quatro integrantes passou por nós, mas o último deles deixou um esbarrão como presente, para o ombro direito de Zeny que pressionou ainda mais sua mão em minha cintura.
A queimação que fluía de seu braço para meu corpo era enlouquecedora e eu sabia, totalmente, que não era uma sensação normal. E, obviamente, não podia ser apenas fruto da minha imaginação, pois logo que me peguei o encarando, ele devolveu-me com um olhar que brilhava algo desconhecido. Antes que eu pudesse me deixar levar pelo momento, as palavras que ouvi há pouco de Johana voltaram a minha mente e recordei-me, por fim, do que eu estava fugindo.
Desvencilhei-me mais uma vez do aperto de Zeny e voltei a caminhar para a saída, da forma mais apressada que conseguia.
Parece que houve uma mudança no posto de segurança, já que não era mais o Mackye que estava ali e sim uma versão mais gorda, baixa e branca do que poderia ser o ator Jason Stan.
─ Acabamos por hoje, docinho? ─ de alguma forma muito macabra, percebi que esse apelido não era sugestivamente doce e sim possuía uma profundidade mais abominável do que eu esperava.
─ É. Acho que sim. ─ sussurrei, puxando eu mesma a maçaneta para fugir dali.
Se eu esperava caminhar sozinha pela noite escura, estava muito enganada, pois logo ouvi um par de pés amassarem os cascalhos do chão logo atrás de mim. Por um instante, temi que fosse algum dos homens que a poucos esbarrara em mim no corredor, mas meu cérebro era cético demais para tanto e logo instruiu-me a pensar em quem realmente era, já que minha nuca ardia com algum tipo de queimação. Era Zeny.
─ Onde pensa que está indo? ─ sua voz não soou longe o bastante e tive medo do perigo de estar sozinha com ele ali fora, principalmente agora que eu sabia sobre as sujeiras da Ordem.
─ Pra casa. Onde eu deveria ter ficado desde cedo. Eu nunca deveria ter aceitado vir pra essa merda de lugar. ─ grunhi em resposta, segurando ainda mais firme a alça da minha bolsa entre meus seios.
Droga. Por que foi mesmo que eu não coloquei o spray de pimenta que minha mãe me deu dentro da bolsa?
─ Tá. E onde fica isso? ─ ouvi-o perguntar.
Diminui meus passos, pois a pergunta me deixou meio encabulada.
Fui diminuindo até parar e tomar um pouco de ar, para arejar meu cérebro.
─ Onde fica o que? ─ resolvi indagar, ainda ouvindo-o se aproximar mais.
Virei meu corpo em sua direção e lancei um olhar firme, exigindo distância entre nós dois.
─ Onde fica sua casa, miss.
E lá estava ele de volta com aquela porcaria de apelido.
Uma parte profunda e suja ficou mais atenta e ridiculamente acalorada com o fato de ele não ter se esquecido de mim. Já outra, ansiava por sair correndo. E nessa briga em meio segundo, uma delas venceu.
─ República Agatha. ─ definitivamente eu não deveria entregar o local onde eu moraria por, pelo menos, os próximos 6 anos, mas, ainda sim, eu o fiz.
─ E onde fica isso? ─ ele pareceu buscar algo no seu bolso, enquanto ainda prosseguia me olhando, firme.
─ Na Rua Dante, perto do ginásio da Eilish. ─ indiquei, enquanto pressionava ainda mais a alça da minha bolsa.
─ Tá, certo. ─ ele puxou algo prateado do bolso de trás da sua calça jeans escura e começou a dar passos em minha direção ─ Estacionei meu carro fora da garagem da Ordem, mas você só vai precisar esperar alguns minutos até eu aparecer aqui com ele.
─ O que? ─ as duas palavras fugiram dos meus lábios enquanto o encarava meio cética.
Ele não pareceu ouvir, pois continuou andando em direção a uma das partes mais escuras do estacionamento e eu tive certeza absoluta de que o que Zeny planejava fazer era me levar de volta para meu quarto.
Eu só não confiava muito na ideia de que ele iria embora depois de simplesmente me deixar lá.
Um minuto e meio se passou e eu ainda estava plantada no mesmo lugar, no meio do caminho, e encarando o espaço que Zeny havia desaparecido.
─ Merda, Olivia! O que você tem nessa maldita cabeça? ─ Tris surgira da saída do prédio e me olhava furiosa.
Johana, Mel, Don e mais dois caras do Ares seguiram-na enquanto ela avançava em minha direção.
─ Você é retardada ou o que? ─ ela grunhia enquanto se aproximava cada vez mais.
─ Espera, Bea! Eu já te expliquei. Ela só ficou assutada.
Johana tentou me defender, mas era tarde demais, ela já havia me alcançado e plantado um forte tapa na minha cara.
Aquilo fez o mundo parar. Quase que literalmente.
Todos que estavam a caminho, frearam no meio do caminho e meu rosto ficou parado na mesma posição que ela deixara com sua agressão por longos segundos.
Minha face direita ardia com o contato de sua mão sob minha pele. Ela nunca havia me batido. Na verdade, eu nunca havia apanhado de ninguém na vida. Uma vida inteira e ninguém me tocara de modo agressivo, mas nos últimos duas, tudo pareceu mudar da água para o vinho.
Encarei minha irmã totalmente desacreditada no que havia acabado de acontecer e vi em seus olhos um brilho apavorado. Tris estava com medo, por mim, mas não justificava sua agressão.
─ Tudo o que você precisava era ficar sentada com esse rabo naquele maldito sofá enquanto eu pegava a merda da sua bebida, Olivia Mayer. Por que com você tem que ser tudo mais complicado? ─ Beatriz gritava em plenos pulmões enquanto me arrastava pelo estacionamento ─ Eu te disse. Eu te disse que aqui não era seu lugar. Te falei para não vir. Você tinha que parar com essa porra de mania de experimentar as coisas e me ouvir uma maldita vez. Quer saber? A culpa foi minha. Quando eu fui pra casa e te reencontrei, e vi que você aceitou a coisa numa boa, imaginei que você estava pronta. Mas não! Você ainda é a mesma bebezinha de sempre. A maldita princesinha Mayer!
O modo como ela falara o meu apelido de infância, me frustrou de uma maneira muito grande. Antigamente, eu era chamada de princesinha Mayer, pois era a mais nova da família. Eu não tinha irmãos ou primos mais novos que eu, então, cabia á mim a função de caçula da família. Nunca reclamara disso, pois sempre houve privilégios com esse posto.
─ Tá tudo bem, Bea. ─ quase cuspi a última palavra ─ Eu só saí para tomar um ar, depois de absorver tudo.
─ Foda-se tudo, Olivia. Eu vou te deixar na república e nunca mais, vou repetir, nunca mais você colocará a porcaria dos seus pés aqui novamente. ─ ela continuou me arrastando, até que paramos em frente ao carro do Don.
─ Mas como os outros voltarão? ─ perguntei enquanto ela liberava o carro, pressionando o botão do alarme e entrava no lado do motorista.
─ Brandon e os outros que se virem para conseguir uma maldita carona. ─ ela ainda berrava, enquanto eu a acompanhava e entrava no carro.
O motor rugiu forte no segundo em que ela ligou o carro e não demorou a dar partida, tirando-nos do estacionamento. Com o farol aceso, ela iluminou todo o trajeto a nossa frente e fui capaz de observar algum homem com uma camisa branca e uma calça jeans aproximando-se de um jipe estacionado do outro lado da estrada que pegaríamos para partir.
Antes que Tris terminasse de tirar o carro do terreno que pertencia a Ordem, pude ver um par de olhos azuis olhar em direção ao carro.
Não sei se ele me viu ali dentro ou reconheceu o carro como o de Don, mas, por um instante, ele freou no meio do caminho e ficou encarando em nossa direção enquanto nos via partir.
─ Viu quem era aquele? Zeny Barnes. Imagina se ele te pega aqui fora e sabe-se lá o que ele faria com você. ─ Beatriz pareceu pressionar um pouco mais o pé no acelerador, pois logo pude sentir meu corpo recostar-se ainda mais no banco de couro do carro.
Mal sabia minha irmã que, na verdade, dentre todas as pessoas ali, naquele local, Zeny fora o único capaz de me proteger de um verdadeiro ataque.
Enquanto ela acelerava estrada a dentro, não pude deixar de permitir que minha mente lançasse de forma incansável todas as coisas absurdas que acabara de descobrir em poucas horas.
Tudo era absurdo demais para parecer verdade. Às vezes, a sensação de que tudo não passava de um pesadelo intenso e que logo eu acordaria na minha cama, ainda em Santiago, rondava minha mente. Na verdade, tudo o que eu queria neste instante era acordar em Santiago, bem antes de ter conhecido mais sobre essa história da Ordem e todas as coisas absurdas que vieram junto dela.
Uma coisa dessas não poderia ser verdade em minha vida, não é mesmo? Porque, até então, eu havia feito tudo certo em minha vida.
Passei dez anos da minha vida, dedicando-me incansavelmente aos estudos, os últimos 5, me preparando para todos os vestibulares, conseguindo diversos cursos extracurriculares na área de saúde, além das aulas extras de biologia, química e física que auxiliaram bastante meu processo de ensino. Eu não namorei muitos idiotas, talvez apenas dois. O que significa que, ao longo da minha vida, eu só tive dois relacionamentos.
Eu não abusava da sorte, bebida alcóolica somente com alguma companhia que pudesse me levar para casa sã e salva ou dinheiro o suficiente para pagar um táxi. Sempre tive as melhores amizades, o que totalmente incluía a Emily em minha vida. Nunca desrespeitei minha família, seguindo a risca praticamente todas as regras que me eram impostas.
Pensar nisso, fez-me perceber que, apesar do meu cuidado, foi só a Tris aparecer nas minhas férias de verão para tudo, finalmente, mudar de órbita. Eu aprendi a mentir, passei a enganar as pessoas, a frequentar locais não adequados, a beber sem a certeza de que chegaria em casa protegida. Passei a enganar minha mãe (com muito mais frequência), a omitir informações importantes sobre a minha vida à Emily, a me comportar de uma forma menos respeitosa e sadia.
Quem eu havia me tornado, afinal?
Deixei que essa pergunta rodasse minha mente por todo o caminho de volta para o Agatha.
Não me permitindo pensar em outra coisa, senão, em uma forma de voltar às minhas origens e me reencontrar. Eu não podia ser a Ali. Eu precisava ser a Liv. A princesinha Mayer. Era isso quem eu era, afinal. Era isso que eu sabia ser.
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