Contanto que você me ame
1 Luto
Era difícil estar ali, ao lado dela, mas não de uma forma que eu sempre ficava, conversando e dando risadas, eu estava segurando suas mãos geladas. Lágrimas escorriam em meu rosto. Eu estava ao lado dela, do caixão dela. Era difícil perder uma pessoa que fez parte da nossa vida por longos anos.
Annie era minha amiga desde a adolescência. Nunca nos desgrudamos, desde o dia que nos conhecemos no colégio. Erámos como irmãs.
O funeral dela estava lotado de pessoas, pois ela era uma pessoa muito amável e querida por todos.
Fiquei ali ao lado dela por um bom tempo, todos sabiam da nossa amizade e sabiam o quão importante ela era para mim.
O velório durou algumas horas e logo em seguida teve o sepultamento. Foi dolorido saber que eu não iria mais vê-la, pedir seus conselhos, virar a noite lembrando da nossa adolescência.
Após o sepultamento eu fiquei ali por mais alguns minutos.
...
Mesmo de luto eu precisava ir até o escritório para pegar meu notebook. Eu havia acordado com a Alicia, minha chefe, de que ficaria em casa para espairecer, mas que depois de dois dias eu retornaria para o trabalho.
Ela nem queria que eu pensasse em trabalho, pediu para eu descansar e retornar quando estivesse me sentindo melhor. Mas eu acho que ficar em casa me deixaria pior. Eu precisava manter minha mente ocupada, pois senão, o barulho dentro dela seria mais alto do que qualquer barulho externo.
No uber, tentei ocupar minha mente me distraindo com as redes sociais. Eu morava a cerca de trinta minutos do serviço.
Desci do uber e me dirigi até a torre na qual eu trabalhava. Hoje estava tão movimentada a rua e a calçada. Acredito que seja por conta da rua ao lado que estava interditada por conta do show que terá daqui um mês.
Sabe quando você fica meio avoada e não sabe o que fazer a não ser andar? Era assim que eu estava me sentindo. Perdida, cansada, tentando entender como Annie morreu, tão nova. Tentando processar a informação de que eu não terei mais em minha vida uma pessoa tão importante para mim.
- Presta atenção. – Ouvi alguns gritos, mas eu não consegui raciocinar de onde estavam vindo. – Está ouvindo? – Sons de buzinas, minha cabeça estava latejando com tanto ruído. Mais um barulho de buzina. Até que um carro veio em minha direção e o motorista começou a falar algo, mas eu não consegui ouvir. Tentei focar no que ele disse.
- Desculpa, eu não entendi.
- Você está atrapalhando a entrada do estacionamento. Poderia por gentileza se retirar da frente da cancela? Não posso me atrasar logo no meu primeiro dia como diretor.
- Para começar, eu não tenho culpa se você está atrasado e não dou a mínima para o seu cargo. Seja mais educado da próxima vez e não fique buzinando igual um maluco.
- Se você não ficasse parada igual uma planta na frente da cancela eu não precisaria ficar buzinando.
- Aí, aí. Deus me livre ter um chefe igual você.
- Eu já teria te demitido.
- Eu que teria pedido demissão. – Revirei os olhos. – Enfim, tenha um bom dia. – Eu disse com um sorriso amarelo e continuei andando.
Nem esperei para ouvir o que ele iria falar, para não me estressar.
....
Vou tentar ser o mais breve possível no escritório, quero chegar em casa logo e me desabar. Está tão dolorido ter que suportar tudo isso. E o nó que está na minha garganta evitando que eu chore dói tanto que parece que eu vou me sufocar a qualquer momento.
- Eu sinto muito pela sua perda, Celi. – O abraço da Alicia era tão reconfortante naquele momento. Eu havia acabado de sair do elevador e ela já estava lá me aguardando. Retribui o abraço e tentei ao máximo segurar as lágrimas. – Vamos até a minha sala.
Assenti com a cabeça e a segui até a sua sala sem dizer nada.
- Quer um café ou água? – Ela me perguntou. Seu olhar era gentil e caloroso.
- Não, obrigada.
- Olha Celi, eu não quero que você trabalhe por enquanto. Quero que você descanse e relaxe. Sei como é difícil passar pelo luto e eu te dou todo apoio possível.
- Obrigada Alicia, mas eu prefiro ter algo para fazer. Só preciso de dois dias para organizar os meus pensamentos e retorno. Passei aqui para pegar o notebook para caso eu precise fazer algo de urgente.
- Entendo, mas saiba que eu te darei o tempo que precisar. E se precisar de mim para algo, pode me chamar, podemos conversar, independente do horário.
- Obrigada de verdade.
Fui até a minha mesa. Havia algumas mensagens solidárias de alguns colegas de trabalho. Fui recebida com abraços. Conversei com algumas pessoas, sem chorar dessa vez, peguei o notebook e fui para casa.
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