Foi numa tarde de verão que o seu pai com o violão em mãos disse a sua filha, Carolina:

"Eu vou deixar todos os meus discos para você, porque você gosta de música tanto quanto eu."

Na televisão tocava o clipe de "A Day in the Life" pelo aplicativo do YouTube, e Carolina parou de ver para encarar o olhar de seu pai.

Sentada no sofá que fedia a mijo de gato, respondeu para ele "Mas Camila e Deborah também gostam de música."

"Mas você é a que mais vejo eu, você sabe de tudo!"

A coleção de discos de seu pai realmente era muito boa e era algo que as três filhas estavam de olho, principalmente a mais velha, Camila.

Deborah achava que quando seus pais morressem, eles deixariam de herança apenas as dívidas (muito expansivas por sinal), mas Carolina se lembrava dos discos... Havia muito valor não só por serem raros, mas havia valor emocional em cada um deles. Ela pensava que os discos seriam uma bela herança numa família que amava música, discutiam, tocavam e respiravam arpégios, cordas e afinações.

Pelo menos Carolina passava horas ouvindo músicas, de todas as décadas, de todos os gêneros, comerciais ou experimentais. Ela achava que ficaria surda antes mesmo de seu pai morrer, porque na maior parte do tempo ouvia nos fones como se fosse um segredo. Como se fosse só um momento dela.

Algumas duravam cerca de 20 minutos e não havia voz, eram apenas os instrumentos. Tinha aquelas também bizarras que pareciam ser feitas para um claustrofóbico dançar num elevador. Como vendiam? Ela se perguntava, mas entendia que no mundo há tipos de pessoas que nenhuma mídia retrata. No mundo havia outro doido como ela, um claustrofóbico de camisa e cabelos suados.

As sobre amor eram bem-vindas também, embora nunca tivesse amado alguém. Mas Carolina tinha amor pelas coisas e ela sentia que pegou muito isso de seu pai, de repente ele tinha razão por ter dito aquilo. Imaginar que seu pai colecionou cada disco e os teve por tanto tempo era uma coisa que ela se sentia exatamente como ele.

Os discos eram importantes.

Agora o fitava no caixão, Camila tomou vários discos antes mesmo dele morrer. Pegou apenas os que gostava mais, felizmente, seu gosto musical era uma merda e só levou os ruins.

Os claustrofóbicos ficaram pra trás.

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