Contando histórias

1 Á espera do amor


Notas iniciais
Contando a primeira história

Aproximava-se da porteira do cinema.

- Ela chegou?

- Quem?

- Minha namorada.

-Como vou saber quem é?

-Verdade, você não a conhece.E devem entrar aqui centenas de pessoas.

- Por dia? Milhares,principalmente num filme como esse! Não sei o que viram nele.

-História de amor. Todo mundo gosta.

- Amor! Como se alguém ainda acreditasse no amor.

- Eu acredito. Por isso estou aqui,á espera de minha namorada.

- Há meses você vem todos os dias. Meses!

Ficou por ali,sempre com o rabo do olho na entrada do cinema. Terminou a primeira sessão, nada. A segunda, tudo igual. Antes da terceira — porque eram sessões corridas, normais,sempre que havia um filme de sucesso — houve uma troca de porteiros. Chegou o sujeito carrancudoque sempre desconfiava dele e, um dia,tinha chegado a chamar o segurança para expulsa-lo. Tudo tinha se resolvido. O porteiro acenou:

- Continua á espera?

- Sempre!

- Não entendo, juro que não entendo.

- Porque nunca amou.

- Quem disse?

-Veja a sua cara! Amarrada, amargurada, tem o olhar triste e fundo. Cadê a alegria de quem ama?

- Gosto muito.

- Gostar não é amar.

- Achei que era a mesma coisa.

- Amar é tudo.

- E gostar?

- Gostar é gostar. Amar é amar.Gostar que dizer trinta por cento do sentimento. Amar é cem por cento.

- Você é estranho. Não te entendo. Diz coisas complicadas.

- Amar é simples.

- Fico te olhando, você vem todos os dias, á espera dessa namorada que nunca aparece;

- Vai aparecer.

- Por que não liga pra ela?

- Não tenho o número!

- Namora e não tem o número?

- Não namoro ainda. Vou namorar.

- O quê?

- Vou namorar. O dia em que ela chegar e entrar por essa porta, vou saber o que é ela.

- Como? Como é que sabe?

- Sabendo. É olhar e sentir. O coração acelera, a gente começa a suar, o estômago sobe para a garganta, a respiração fica ofegante, as pernas ficam bambas, as unhas tremem.

- As unhas tremem?

- É a melhor coisa. Tão bom viver assim... Você se sente desaparecer.

- Desaparecer?

- Some. E quando percebe, você é o outro. Está naquele que ama. Inteiro dentro,uma coisa só. Daquele momento em diante, dois viram um.

- Sei,sei...

Nesse momento, ele se afastou para deixar entrar uma jovem morena, de olhos miúdos e um riso que esparramava pelo rosto. Ele começou a suar.

Os dois se olharam e ele percebeu que após meses e meses tinha acontecido. O coração acelerou.

A espera tinha terminado. As unhas tremeram.

Ela continuou olhando e também sentiu. O estômago subiu á garganta. E o porteiro ficou assombrado, quando em lugar de duas pessoas, viu entrar apenas uma no cinema.

Onde estava a outra? Quem entrou piscou maliciosamente para ele.

"Entendeu?" — perguntou.

O porteiro fez que sim... Era o amor.

Notas finais
Obrigado