Contando histórias
5 Rompendo os ligamentos
Notas iniciais
Resolveu tentar a sorte nos Estados Unidos, pouco antes dos atentados terroristas. Tinha uma tia morando lá, arranjava uns bicos, dava uma de garçom, limpava uns banheiros, ia levando, não devia ser tão difícil. Admitia que estava deslumbrado com a "América" , sinônimo de liberdade, oportunidade, modernidade, beldade e outras ades mais.
Mas antes de pegar no pesado, ia fazer um abuso: torrar suas economias numa estação de esqui. Um fim de semana só,sempre sonhara com isso, aqueles filmes cheios de neve e casacos tão chiques quanto pesados. Devia ser muito, mas muito legal. E depois,, ora, uma semana de garçom devia ser bastante pra recuperar dinheiro. Mais vale um sonho que cem merréis, não era assim que diziam na sua terra?
E a estação de esqui não era pouca porcaria não! O lugar era frequentado por vários cantores e artistas de cinema. Tinha um mural com fotos desse povo todo. E ele ali, com seus 17 anos, empolgadíssimo. No primeiro dia fez umas aulas básicas de esqui e no segundo já estava se achando fera o suficiente pra subir o teleférico e se lançar montanha abaixo.
–Aquele ali não é o Stallone? — apontou um australiano, com quem ele dividia o teleférico. — Aquele de casaco verde, esquiando ao lado da loura.
– Não é que é mesmo? — respondeu num inglês horroroso, digno de filme de artes marciais.
O australiano percebeu sua babação e comentou que não era fã do Stallone. Só tinha pancadaria e vingança nos filmes dele. Mas o Robert de Niro, o Spielberg e outros mais também costumavam esquiar ali.
O queixo caiu. Quem diria ele ali, num paraíso glacial,cercado de Hollywood por todos os lados, longe do velho Brasil, país subdesenvolvido, escaldante, marginal, etcetera e tal. Seus colegas de escola, a uma hora daquela, deviam estar levando trote na faculdade, calouros burros.
De repente,o teleférico soltou um guincho e parou de uma vez, com um tranco. No meio do céu. Apertou os olhos praquela brancura não o cegar. Estava a uma altitude de uns 30 everests, pendurado por um mero cabo. Ao seu lado, o australiano sorria, acostumado.
O tempo não passava, não queria passar, vai ver também tinha ficado dependurado no céu. O australiano ajeitou no blusão o botton de metal: "Eu esquiei no Colorado". E o trem não andava.
A um passo de posteridade, a gôndola deu outro tranco e resolveu andar. Ele soprou aliviado. No final da linha, os dois saltaram e ele olhou pro despenhadeiro. Agora é que vinha o pior, pensou, enquanto o australiano dizia que agora vinha o melhor.
Ele respirou fundo e calculou que tinha duas alternativas>
a) desembestar montanha abaixo, atrás do canguru;b) fixar moradia ali mesmo, no pico, e virar eremita pelo resto de seus dias. A hipótese b pareceu muito mais sensata.
"Eu jamais vou descer esse precipício..." , planejou dizer. Mas e pra lembrar precipício em inglês? Precipice? Pouco provável. Ficou com medo de falar precipúcio, ou outra palavra pouco indicada para o momento. Desfiladeiro, abismo, penhasco, veio tudo quanto é palavra em português, até coisa que não tinha nada a ver: escarpa, restinga, arquipélago, todos os nomes de aula de geografia. Ele precisava começar a pensar em inglês, urgentemente.
Calado, ele se xingava furioso. Pra que aquela estupidez de subir até o fim da linha? Pra inglês ver? Besteira, o outro cara era australiano. E nem amigo ele era, só conhecia o cara há um dia...
O vento deu um tabefe gelado em seu rost-Bobagem, eu vi você treinandoo e o canguru o puxou pelo braço, apontando pra um painel de madeira, comtrês círculos coloridos. Um preto, um azul, um verde: as três opções de pista. As pretas eram quase em queda livre. As azuis eram um pouco meio inclinadas, mas ainda propícias aosuicídio. As verdes eram " ideias para iniciantes", segundo a legenda em inglês, francês, espanhol, alemão e japonês.
–E quem não é nem iniciante ainda? — perguntou.
O australiano mostrou seus dentes saudáveis:
–Bobagem, eu vi você treinando,ontem. Aprendeu rápido, dá pra descer tranquilo. É só ir seguindo as placas verdes. Eu vou pela azul, bye bye.
Cretino! Ateia fogo e depois o abandona no telhado do prédio em chamas? " Inferno na Torre" era melhor do que aquilo ali. Agora ele precisava pensar friamente, raciocinar em Fahrenheits: a pista verde não era tão ruim assim. Talvez ele sobrevivesse a duas ou três curvas...
Depois da quarta já estava começando a gostar da brincadeira.. De vez em quando, a pista se dividia em duas: uma verde, outra azul. Certidão de óbvio: ele pegava a verde e mandava bala. Estava se sentindo radical, adolescente brasileiro superadaptado á aventura ianque.
Mas parem as patativas, o que era aquilo lá na frente? A pista verde se dividia em duas azuis! Pode, isso? Duas pistas descaradamente azuis. De tungstênio. Pensou imediatamente em Mao-Tsé-Tung, velho comunista chinês, e escolheu a da esquerda. Não que isso tenha mudado alguma coisa: a cada milímetro a montanha ficava mais íngreme, os esquis ganhavam velocidade, ele começou a se assustar, começou a entortar, seu corpo foi tombando, foi caindo, o pé ficou.
– Aaaaaaiiii — sua voz ecoou nos eucaliptos, em bom e doído português.
Parecia que o joelho direito tinha rasgado em dois.
– Help! — gritou a toda altura, e começou a rir, porque pareceu cena de filme. Nunca na vida imaginou que ia gritar help, de verdade. Ainda mais naquele cenário de James Bond.
E lá estava ele, estendido no chão, cercado por neve por todos os lados, bem longe do bom e velho Brasil, Carnaval chegando, verão gostoso, país tropical, etcetera e tal. Seus colegas de escola, a uma hora daquela, estavam entrando na faculdade, já eram universitários, e ele ali, perdendo um ano de escola, estirado na montanha, com uma bola da NBA no joelho, presa fácil pro abominável sasquate das neves. Não sabia mais se aquilo era filme de ação, aventura, drama ou terror.
E o joelho inchando e o joelho nem podendo encostar. Até que finalmente surgiu uma moça e perguntou o que tinha acontecido. Respondeu num inglês ridículo, por causa da dor. A moça, que era até bonitinha, deve ter achado que ele estava bêbado, fez uma careta e disse que ia avisar alguém lá embaixo. Alguém um médico ou alguém um guarda?
Vieram dois caras de branco, comum carinho que mais parecia um trenó. Deitaram sua carcaça na lona, cada um pegou uma das cordas e o arrastaram a toda velocidade, achando que estavam numa pista preta. Só estacionaram lá embaixo, com trenó e tudo, dentro da enfermaria.
Tacaram uma bolsa de gelo sobre seu joelho estufado.
– O que houve?
– A pista começou verde e depois se dividiu em duas azuis!
– Impossível — o cara retrucou. — Isso é contra o regulamento.
E com este argumento de autoridade o americano decretou que ele era, ou burro, ou mentiroso, ou daltônico.
Tá bom, ele não ia ficar discutindo, tinha mais coisa pra fazer, como, por exemplo, urrar desesperadamente de dor.
– Você é de que país? — o sujeito perguntou, ao reparar na pele morena e no sotaque.
–Brasil.
–Brasil? — ele abriu um sorriso. — Pelé? Floresta? Tango?
Tentou dobrar a pern, mas a dor deu uma fincada violenta do pé até o cabelo. Desistiu.
–Tango não, samba.
– Eu tenho um vizinho que já foi no Haiti — ele comentou, tentando ser simpático.
– Será que dá pra vocês avisarem minha tia, em Denver?
Um deles foi. O outro olhou com dó pro joelho estropiado.
– Há quanto tempo você está na América?
– Do norte — ele completou.
O outro não entendeu.
– Uma semana — respondeu.
– Verdade? Já fala inglês direitinho.
– É que eu estudo desde os nove.
Ele respirou fundo, orgulhoso.
– É muito importante a gente saber inglês.
Ainda mais pra ele, que era americano...
O médico responsável chegou mordendo um chocolate.
– Tá doendo demais, doutor.
– Pode confiar em mim.
Preferia confiar na mãe, no pai, na Xuxa, em um qualquer um que falasse brasileiro. Ai, que saudade do gelol, do sanador, do melhoram infantil.
Nisso o médico terminou o exame e, em vez de dar o diagnóstico, aumentou o som da TV que estava pendurada na parede.
Um apresentador de TV, muito assustado, dizia que dois aviões tinham arrebentado as torres gêmeas de Nova York, outro tinha atacado o Pentágono, o resto não deu direito pra entender. Tudo parecia cena de filme, mas não era. Um professor engravatado apareceu comentando que era atentado terrorista, sem dúvida, e que os principais suspeitos eram os árabes.
Ele suspirou, nostálgico. Sabe que, numa hora daquela, até que o velho Brasil parecia um porto seguro? Pra fugir do perigo era bem simples. Bastava fechar o vidrono sinal, passar longe das bocas de fumo, trancar bem as portas, ligar os alarmes, tomar cuidado nos caixas eletrônicos, ir ao estádio sem a camisa do time, evitar certas estradas e políticos.
Mas nesse instante reparou que os enfermeiros o olhavam torto:
–Me diga uma coisa, garoto: esse país seu fica na Arábia?
Mas ele nem conseguiu responder, de tanta dor. Tinha rompido os ligamentos.
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