Contando Estrelas
1 Counting Stars
Notas iniciais
Alyssaz era apenas uma garota e estava em chamas. Ela tinha quinze anos e já não aguentava todo o inferno que a permeava, mesmo que não fosse de forma literal. Ela se apaixonou por um garoto que conheceu pela internet. Ele também era apaixonado por ela. Ele foi a única paixão verdadeira que ela teve em toda a sua vida, apesar de ela nem saber como eram as feições dele. Ela nunca trocou fotos com ele. Mas ela sabia que ele era lindo por dentro e era só isso que ela precisava saber. Porém, eles brigaram um dia. E ela nunca mais se conectou para conversar com ele. Depois ela se sentiu arrependida por ter abandonado o garoto. E esse arrependimento nunca a largou. Nunca.
Além disso, ela tinha que aguentar o inferno escolar. As pessoas zombavam dela por causa do seu nome meio que exótico e do fato de que ela era magrela e não era lá um exemplo de beleza. Amigos? Ela não tinha amigos. Ela tinha colegas. Apenas colegas. E nada além disso. Formar uma amizade sólida com alguém naquele show de horrores que chamavam de escola era algo simplesmente impossível. E para piorar tudo, as suas notas em física, matemática e química eram péssimas. Ela podia cair na recuperação. Ela nunca teve uma recuperação em toda a sua vida escolar. Se ela tivesse daquela vez, com certeza receberia uma enorme bronca dos pais.
E falando em pais... Ela não tinha um bom relacionamento com eles... A mãe era carinhosa e gostava dela, mas tinha um lado autoritário que Alyssaz temia. Desde pequena, a garota apanhava vez ou outra da mãe. As surras não aconteciam sempre. Eram até raras e nem eram violentas demais, mas para Alyssaz, eram terríveis. Porém, a adolescente sabia que a sua mãe a amava. A mãe nunca deixou de demonstrar que gostava dela. Mas a mulher parecia ter duas faces. Às vezes ela era aquela mãe que Alyssaz conhecia e amava, porém de repente ela se tornava uma pessoa autoritária e até meio descontrolada, deixando a filha com medo. Com medo da própria mãe.
Já o pai era um cara muito bondoso, mas também muito desligado. Ele gostava da Alyssaz, mas sempre quando ela precisava lhe contar um problema, o pai fingia não escutar e continuava olhando para a tela do computador, totalmente indiferente a qualquer coisa que ela lhe dissesse. Ele era surdo, cego e mudo para ela. Ele não saía pra beber, nem gostava de farra. Ele sempre ficava em casa. Mas a sua presença era apenas física, porque a sua mente parecia estar em outro lugar. Ele simplesmente não se importava com nada ao seu redor. Nada mesmo.
E o seu irmão mais novo? Um mimado que se achava o centro do universo e pensava deter todo o poder dentro de casa só porque era o “caçulinha”. E o pior era que ele estava certo. Sempre quando a Alyssaz brigava com o irmão, os pais davam a razão para ele, afinal “ele era o mais novo”. Tudo bem, a garota também não era nenhuma santa. Às vezes ela que era a culpada pelas brigas. Mas algumas vezes era o irmão que aprontava e era ela que recebia todas as broncas e sermões. Por quê? Porque, não custa repetir, “ele era o mais novo”.
Contudo, a vida de Alyssaz não era apenas cheia de tristezas. Ela tinha uma companhia:
A ARTE
Sim, a arte.
Ela gostava muito de várias artes, entre elas a música, a literatura e o desenho. Ela adorava cantar (embora cantasse muito mal), escrever (isso ela fazia com maestria) e desenhar (isso ela também sabia fazer, mas não era nenhuma artista de primeira, apenas recebia um ou outro elogio de vez em quando).
Agora vamos aprofundar um pouco na arte preferida dela, que era... Escrever (afinal escrever é uma arte, convenhamos):
Escrever era a sua maior paixão e fazia com que ela se esquecesse de todos os seus problemas. Ela escrevia qualquer tipo de coisa que viesse à sua mente criativa, fossem poesias, roteiros ou prosas. Ela amava escrever e fazia isso sozinha, sem que ninguém pudesse interrompê-la. Escrever para ela era como um retiro espiritual de todos os seus problemas. Se alguns cantores descontavam as suas frustrações na música, ela descontava as suas na escrita. E às vezes chorava enquanto escrevia. Chorava copiosamente. Insanidade? Talvez... Talvez...
Um dia ela simplesmente cansou da sua vida. Ela não aguentava mais todo o inferno que a perseguia todos os dias em sua mente tão estranha e tão perdida. A tristeza já havia acometido todo o seu coração. Ela havia perdido a razão de viver num mundo como aquele. Num mundo ao qual ela não pertencia, mesmo que tentasse. Então Alyssaz infelizmente resolveu tomar a medida mais drástica que poderia tomar: O suicídio. Porém, ela não queria suicidar de qualquer jeito. Ela queria suicidar de um modo artístico. O mais artístico possível.
Os seus pais viajaram com o seu irmão no fim de semana. Ela estava sozinha em casa. Estava na hora.
Ela ligou o seu som e colocou no último volume a música “Counting Stars”, a sua preferida do OneRepublic.
Ela rabiscou com caneta hidrográfica preta a parede do seu quarto. Os seus rabiscos não tinham muito sentido. Eram palavras soltas e desenhos distorcidos, apenas. Tudo totalmente desconexo. Havia uma garota com lágrimas em seu rosto desenhada na parede. Corujas, águias, tigres. Um calabouço. Fetos pendurados em árvores. Palavras soltas como: Mágoa, angústia, mentira, amor, perigo, sufocamento, lágrimas, sangue, queimar, perdida, solitária, dinheiro, lições, vida, morte e em destaque as palavras “contando estrelas”. Nada que um ser humano pudesse compreender em toda a sua totalidade. Apenas ela podia entender. Apenas ela.
Ela pegou um papel e escreveu nele. A sua carta de suicídio. Ela podia escrever uma carta enorme. Mas não queria, então apenas escreveu:
“Eu não sou desse mundo, eu não sou do tipo que conta dinheiro, eu quero contar estrelas”.
Ela chorava amargamente, as lágrimas simplesmente não paravam de sair. Enquanto isso, ela se maquiava de um jeito bizarro. Pintava o rosto todo de branco, as bochechas de vermelho, a boca e os olhos pretos. A maquiagem já se encontrava borrada de tanto que ela chorava:
_Eu poderia mentir... Eu poderia mentir que estou bem... Mas eu não estou bem...
E a música apenas repetia e repetia. Ela colocou no modo “replay”. A música repetiria quantas vezes ela quisesse.
Ela começou a dançar ao ritmo da música de um jeito desajeitado, vestida com top vermelho, meia calça branca, saia preta e botas vermelhas. Um visual completamente insano. Ela, então, quebrou todos os enfeites do seu quarto, rebentou as bijuterias que estavam na sua gaveta e gritou, gritou de ódio, gritou de tristeza, gritou porque se detestava e queria morrer. Os seus cabelos negros e longos caiam nos seus olhos enquanto ela gritava. Ela pegou o pouco de dinheiro que tinha guardado em outra gaveta. Duas notas de cinco reais. O que ela podia fazer com aquele dinheiro?
_Dez reais... – disse ela, enquanto já estava ofegante de tanto chorar – Nem se eu tivesse um milhão de reais... Nem um milhão de reais poderiam tirar essa minha tristeza do peito...
Ela apenas apagou a luz do seu quarto, deixando-o completamente escuro, enquanto acendia uma vela. A luz no fim do túnel que ela precisava nunca veio. Mas ao menos ela tinha a luz da vela. Para queimar. Para queimar o dinheiro.
Ela queimou as duas notas de cinco reais, nem se importando com o que havia acabado de fazer.
_As pessoas só pensam no dinheiro... Pois eu pego o dinheiro e vejo-o queimar!
Ela rebentou as cortinas vinho do seu quarto.
_As minhas cortinas são lindas... Mas a felicidade não está nelas... Onde está a minha felicidade? Onde...
Ela soprou a vela e a apagou. Agora o quarto estava escuro mesmo, sem qualquer iluminação.
_Tão escuro... Tão escuro quanto a minha alma... Escuro...
Os seus olhos castanho esverdeados choravam cada vez mais e mais.
Acendendo a luz do quarto novamente, viu que a luz do ambiente estava acesa. Contudo a luz do seu coração continuava apagada.
_Eu tenho só quinze anos... Mas eu pareço uma velha... Eu sou uma velha por dentro... Velha, mas eu não sou tão velha. Jovem, mas eu não sou tão ousada. E eu não acredito, eu não acredito que o mundo esteja vendido, vendido para o mal! Eu acredito que haja uma salvação para a humanidade! Mas para mim não há! E não me culpem pelo que eu sou, eu apenas estou fazendo o que me mandaram!
Ela desabou sobre o chão, como se tivesse sido empurrada, ficou de joelhos e disse:
_Eu queria saber voar para fugir de tudo, fugir do mundo... Tudo o que me derruba só me faz querer voar...
Ela pensou no cara que ela amava. Aquele cara que ela conheceu na internet. Ela o amava copiosamente. E ela sabia que ele também a amava da mesma forma.
_Ultimamente eu tenho perdido o sono sonhando com as coisas que poderíamos ter sido... Eu sinto o amor... Eu sinto o amor queimar... Queimar comigo e com você...
Ela, então, pegou a arma que estava em cima da cama. Sim, ela tinha uma arma. Onde ela a tinha conseguido? Ninguém sabia. Só ela. Ela olhou para a arma e sorriu, enquanto dizia:
_Eu sinto algo... Eu sinto algo tão bom quando faço a coisa errada... E eu me sinto tão errada quando faço a coisa certa... Insanidade... Ah, sim... Essa é a minha doce insanidade...
Ela aumentou o volume da música, enquanto gritava, gritava intensamente por tudo o que acreditava, por tudo o que amava:
_Eu contarei estrelas, eu contarei estrelas!
Apontando a arma para o ouvido, lembrou-se da sua mãe e do monte de sermões e broncas que ela lhe dava, alegando que ela deveria aprender a lição:
_Pois eu afundo no rio todas as lições aprendidas!
Ela se lembrou do seu pai e da sua indiferença aos seus sórdidos sentimentos:
_Pai, pare de contar dólares. Conte estrelas.
A música estava tocando pela décima primeira vez e estava no finalzinho. Alyssaz apenas apertou lentamente o gatilho da sua arma, enquanto pronunciava as suas últimas palavras:
_Tudo o que me mata só me faz sentir viva...
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