Notas iniciais
Mana, eu tive essa ideia numa aula de redação, e tentei muito deixar de um jeito bom (não consegui encaixar yaoi Kkk). Espero que tenha conseguido pelo menos o suficiente para você não me odiar por te dar um presente ruim xD
Espero que goste, de verdade.
(E se alguém mais ler também, claro ~)

O dia estava apenas começando. O céu estava pálido, o sol parcialmente encoberto pelas nuvens densas, poucas pessoas pelas ruas – como apenas um tempo frio intensificado por ventos e fracos e constantes chuviscos proporcionavam àquela hora da manhã –, caminhada matinal, tendo como única companhia, além do clima do qual tanto gostava, seus próprios pensamentos. Perfeito.

Exceto por um detalhe.

Um único detalhe que tirava de foco todo e qualquer ponto positivo encontrado até, e tinha certeza, a partir daquele momento.

Andrew – ou Andy, como alguns preferiam chamá-lo – caminhava lentamente pelas ruas de pouco movimento, sem nenhum destino específico em mente para ir nem vontade consciente de adiantar a hora de voltar para casa. Estava apenas andando e adiando o máximo que podia este momento, o máximo que sua ansiedade cada vez maior permitia.

Seu sobretudo escuro mostrava, pelas pequenas gotas d’água que teimavam em ficar à amostra ao invés de escorrer pelo tecido e desaparecer de vez, que não fazia pouco tempo que estava vagando. E apesar do cachecol, mantido no lugar por um nó, impedir que o efeito daquele frio dia de inverno atingisse seu pescoço, seu rosto estava totalmente desprotegido. Quando começava a sentir as feições começarem a ficar levemente dormentes, esfregava as mãos enluvadas no local algumas vezes, tentando reverter a situação. Não adiantava muito, na verdade. Mas ele não se importava; gostava do frio. Gostava do silêncio, e de andar um pouco logo depois de acordar, também.

Mas, claro, como dito antes, havia algo que estragava qualquer chance de apreciar o prazer que deveria sentir com a coletânea das coisas que gostava. E esse algo era justamente o fato de ser aquele dia.

4 de Janeiro.

Seu aniversário.

Conforme andava, passou em frente a uma loja fechada, ainda com pequenas lâmpadas festivas cuidadosamente arrumadas pela extensão interior da vitrine, parecendo estranhamente solitárias, apagadas e sem brilho daquela forma. O dono da loja ainda devia estar viajando. Ou carregado demais pela inércia do marasmo pós-festas que tomava conta de muitos por esses dias, para se importar de tirar os enfeites.

Andrew olhou por poucos momentos sua imagem refletida no vidro da vitrine. Estava fazendo 21 anos, e se perguntou se sua aparência chegava a denunciar isso. Concluiu que não.

Claro que não parecia mais um garoto, mas tampouco achava que já podia passar-se por homem. Talvez seus olhos acinzentados, sérios e sem quase nenhum brilho de uma inocência juvenil, e a barba rala – esquecera-se de fazê-la antes de sair – contassem como pontos positivos em tornar sua aparência mais madura; mas em contrapartida, os cabelos curtos e naturalmente arrepiados, e as bochechas ainda com certo volume nítido, corados pelo frio, anulavam tais pontos. Seu físico como um todo não era mais de nenhum moleque, mas algum ponto em sua mente o fazia sentir certa decepção por não estar vendo alguém diferente ali.

Porque naquele momento, ele queria tudo, menos ser ele mesmo.

Não naquele dia.

Porque para ele, fazer 21 anos significava muito mais do que simplesmente ficar um ano mais velho ou conquistar a tão esperada, por muitos, reconhecida maioridade. Para ele, fazer 21 anos era o que ele menos ansiava e mais temia há tempos.

Cinco anos... Era esse o tempo que pensamentos opostos ocupavam sua mente, entre desejar que aquela data nunca chegasse e que ela chegasse o mais rápido possível.

E de maneira tão contraditória quanto seus pensamentos, ao mesmo tempo em que ele queria prolongar aquela “caminhada” até não aguentar mais dar um mísero passo, suas pernas passaram a trabalhar mais rápido, fazendo em questão de poucos minutos, o que restava da distância até sua casa. Talvez a parte do seu cérebro que controlava o ato de andar fosse o mesmo que ficava repetindo de forma baixa e insistente, desde que ele colocara o sobretudo e fechara a porta, que não adiantava de nada adiar, que ele não podia fugir, nunca pôde. E que ele sabia disso.

Aliás... Se olhasse bem lá no fundo, para um pequeno pensamento camuflado pelo bom senso e algumas falsas verdades que dizia a si mesmo, seria possível afirmar com certeza que o que ele queria, era mesmo fugir? Será que ele já não havia aceitado há tempos, que tudo aquilo era inevitável? E que tudo o que ele desejava de verdade, escondido de todos, e até dele mesmo, era que tudo acabasse logo? Será? Aí estava sua contradição.

Alcançou o muro baixo de pedra já meio desgastada pelo tempo, e parou.

Não havia ninguém naquelas ruas também, todos os vizinhos deviam estar dormindo, aquecidos pelas várias camadas de cobertas, e quem sabe, tendo algum sonho bom.

Também não havia ninguém na casa. Andrew se mudou para aquele lugar há alguns meses apenas, e mesmo que antes morasse com alguns parentes – nunca soube direito se eram primos de segundo grau ou tios distantes – após a morte de seus pais, ocorrida muitos anos antes, não tinha qualquer expectativa de que eles o surpreendessem com uma visita. Desde que se mudou, não ouviu uma palavra sequer da parte deles. E também não fazia questão, já que na mesma medida que eles não queriam aceitá-lo, ele também nunca desejou ir viver com eles.

E é por isso que, ao abrir com dedos involuntariamente trêmulos, a caixa do correio, o que ele esperava encontrar lá não era um cartão de “parabéns”, da sua família. Ele sabia o que encontraria, ao enfiar a mão de forma hesitante lá dentro.

E realmente estava lá.

Um pequeno pacote embrulhado em papel pardo, e um envelope branco acompanhando-o.

Pegou os dois e entrou na casa, passando a chave duas vezes na porta atrás de si.

Talvez seja hora de algumas explicações, certo? Pois muito bem então.

No seu aniversário de 16 anos, foi quando Andrew pela primeira vez recebeu aquela... Encomenda. Poderia ser chamado de encomenda algo pelo qual ele nunca pediu? Enfim. Na manhã de seu décimo sexto aniversário, sua “mãe adotiva” pediu que ele fosse pegar a correspondência, assim que ele desceu as escadas bocejando e esfregando os olhos sonolentos. Ela pareceu se arrepender um pouco por não ter dito algo em específico em primeiro lugar, então com um sorriso fraco, se não forçado, desejou feliz aniversário e repetiu o pedido, acrescentando um “por favor” ao final. Não era como se não gostasse realmente do “filho”, ela só preferia que ele estivesse em qualquer outro lugar que não fosse a sua casa. Sem muita vontade ele obedeceu, e qual não foi sua surpresa ao abrir a caixa metálica e encontrar um pacote endereçado a ele?

E qual não foi a surpresa maior quando abriu o pacote e o envelope que o acompanhava?

Fez isso já na mesa do café-da-manhã, após entregar as demais correspondências aos respectivos destinatários e sentar-se em seu lugar. Na caixa havia cerca de 35, talvez 40, pequenas peças de papelão grosso, com algum tipo de gravura incompleta em um dos lados. Peças de um quebra-cabeça.

Intrigado, Andrew deixou aquele conteúdo entranho de lado, e abriu o envelope. Seu “pai”, ao ver a expressão, no começo cética, e em seguida assustada do garoto, pegou o papel de suas mãos e leu também. Sua expressão também não se tornou uma das melhores.

“Caro Andrew,

Antes de qualquer coisa gostaria de parabenizá-lo por esta data. Meus mais sinceros parabéns. Dezesseis anos... Você não sabe, não pode nem imaginar, o quanto eu esperei você atingir esta idade para eu finalmente poder enviar esta pequena "lembrança". E agora finalmente chegou. Mas eu ainda não posso me apresentar a você, infelizmente. Não, não há como evitar, isso só ocorrerá daqui alguns anos, e eu farei de tudo para conseguir controlar minha impaciência e ansiedade até que o momento certo chegue. Vinte e um anos. Quando você alcançar esta idade, poderei enfim falar diretamente com você. Porque quando você fizer vinte e um anos, querido Andrew, você irá morrer.

Até lá o quebra-cabeças estará completo.

Aguardo ansiosamente por este dia.”

Sem nenhum nome, nenhuma assinatura, mais nada.

Em um primeiro momento Andrew não soube bem como reagir. Deveria achar graça? Ficar bravo pela brincadeira? Mas no momento seguinte, uma pequena parte de si lhe disse que não era nenhuma brincadeira, que ele não deveria rir. Que em cinco anos, realmente encontraria alguém em sua porta, ou saindo das sombras, pronto para mata-lo de alguma maneira que sequer imaginava. E foi essa pequena parte, essa baixa voz, que fez Andrew mudar de expressão e chamar a atenção de seu “pai”.

A carta foi levada, juntamente com as pequenas peças do puzzle, para a polícia. Houve muitas exclamações, muitos gritos e exigências de que algo fosse feito. Em troca receberam garantias de que nada aconteceria ao garoto, nem naquele dia, nem anos mais tarde, que fariam de tudo para encontrar o autor daquela brincadeira de mau gosto. Com promessas de que poderiam voltar para casa tranquilos, eles voltaram.

Bom, Andrew não estava tranquilo, mas quem ligava? Nenhum deles. Pelo menos não o suficiente.

Meses se passaram, e as investigações não avançavam. Não conseguiram rastrear o remetente, chegando a apenas um nome falso em uma cidade qualquer do interior, obviamente uma distração. O máximo que conseguiram concluir era que a letra pertencia a um homem, mas isso não era de muita ajuda. As peças do quebra-cabeça não encaixavam, no máximo uma ou duas, mas estavam faltando muitas para ser possível começar a montar. Nenhuma carta, nenhum telefonema, mais nada foi feito da parte do misterioso ser.

E nisso, o assunto acabou sendo deixado de lado. Tanto pelos familiares, quanto pela polícia – que na época estavam atolados de serviço, com a onda de crimes que estava ocorrendo. Até mesmo Andrew acabou esquecendo o caso por um tempo, convencendo a si mesmo, a despeito da pequena voz que não se calava, de que havia sido afinal, apenas uma brincadeira de mau gosto.

Isso durou até janeiro do ano seguinte. Até o aniversário de 17 anos de Andrew.

De manhã, poderia se dizer até mesmo que no mesmo horário, o rapaz foi pegar a correspondência e lá estava. Uma pequena caixa e um envelope. Idêntico ao do ano anterior.

Mais algumas peças, aparentemente e obviamente do mesmo quebra-cabeça, estavam dentro da caixa. As palavras escritas não eram as mesmas, mas em sua essência diziam a mesma coisa: como quem as enviou estava ansioso, que mal esperava os anos passarem, que queria encontrar Andrew mais do que tudo,...

E isso tudo trouxe de volta a sensação de inevitável, de medo, que Andrew havia aprendido a ignorar nos últimos meses. Não entraremos em detalhes de reações e tudo mais, mas podemos dizer que o baque só teve efeito nele. Sua família ficou ligeiramente preocupada, mas nada mais do que ligeiramente; e a polícia... Ah, a polícia. Eles disseram que iriam fazer algo, mas no final das contas, parecia mais que estavam apostando nos dias futuros, como se preferissem esperar pela data prometida para ver no que dava e quem sabe, conseguir pegar o autor daquilo na hora H. Apenas diziam que iriam trabalhar no caso imediatamente, para tranquilizar o rapaz.

Bom, estavam fazendo um péssimo trabalho nisso, a bem da sinceridade. Porque Andrew estava tudo, menos tranquilo. De novo.

Mas resumindo a história, ao chegar da terceira carta, com o terceiro pacote de peças soltas, ele aprendeu a esperar também. Esperar pelo dia tanto anunciado.

E agora cá estava ele.

Com o quinto e último “presente” em mãos. Achava que sua família nem havia se lembrado de que algo deveria acontecer neste dia. Ou talvez tivessem resolvido apenas ignorar mesmo, para poupá-los de problemas e aborrecimentos. Nunca mais tentou recorrer à polícia também.

Abriu primeiro o envelope, e ao contrário das anteriores, não havia mais do que duas palavras na folha branca. “É hoje”. Não era preciso mais nada. Só isso bastava para fazer Andrew estremecer frente ao vento frio inexistente no interior da casa.

Engoliu em seco uma vez antes de, com os dedos de repente rígidos, abrir a pequena caixa e pegar as últimas peças de dentro. Segurando-as forte, com as mãos fechadas em concha, foi até seu quarto, e do fundo de um armário retirou um tabuleiro de madeira, com uma tampa transparente.

Depositou o objeto na cama, com as peças recém-ganhas ao lado, e encarou o quebra-cabeça semi-montado. As laterais estavam completas, e não denunciavam muita coisa, apenas um fundo azul-escuro, com um ou dois pontos brilhantes em cada canto. Faltava apenas o meio a ser montado, e seus dedos hesitavam em fazê-lo. Por tanto tempo perguntou-se o que encontraria quando estivesse tudo completo, mas agora que o momento tinha chegado, a curiosidade foi substituída pelo desejo de jogar aquilo na ponte mais próxima e nunca mais pensar nele.

Claro que não foi isso que ele acabou fazendo.

Peça por peça, foi encaixando. E a cada novo espaço preenchido, seu coração parecia bater mais forte, fazendo tanto barulho à sua percepção, que achava incrível que ele não parasse de repente por não suportar mais tal potência.

Todas estavam no lugar.

E lá no centro, havia uma única imagem solitária em meio ao escuro.

Uma vela.

Uma vela acesa, comprida, fúnebre.

Andrew sentiu certa decepção ao ver aquilo, a despeito do agouro que a vela representava. O que estava esperando? Alguma figura que indicasse quem havia enviado? O local onde esperavam que ele fosse morto? O método? Alguma piada? Não sabia ao certo, mas qualquer que fosse, se decepcionou.

E essa decepção por algo tão pequeno, o distraiu por alguns instantes de seu estado anterior de ansiedade e temor. Distração esta que foi rompida no momento que a campainha soou alta e ressonante no interior silencioso.

Sobressaltou-se com o barulho, mas resolveu ignorá-lo. A última coisa que desejava agora era receber alguém, forçar um sorriso, ou muito menos, mostrar seus reais pensamentos.

Queria ficar sozinho. Nem que isso facilitasse o trabalho de quem quer que fosse.

Não é como se desejasse morrer, ou odiasse a sua vida de alguma forma. Tinha motivos suficientes para isso – se perder os pais aos dez anos de idade, ir morar com pessoas que não o queriam, passar a receber cartas ameaçadoras sem que ninguém desse a importância necessária para isso, não fossem motivos mais do que o suficiente, então não sabia quais seriam –, mas não odiava.

Talvez o mais correto fosse dizer que estava curioso. Com medo, mas curioso. Em saber quem era aquela pessoa, o motivo de ter começado com aquilo, a origem de tamanho “interesse”. Talvez sua necessidade por respostas superasse o medo em si, mesmo nas horas em que este parecesse prestes a sufocá-lo. Não fazia a menor ideia do que faria quando a hora chegasse, mas agora não parecia ser um detalhe assim tão importante. Um pensamento bastante inconsequente, verdade, mas não deixava de ser verdade.

Se ele se sobressaltou com o toque da campainha, acabou por sufocar um grito de susto ao sentir uma mão em seu ombro.

Fez um movimento rápido com o braço, mas seu golpe foi evitado por uma mão forte, grande. Seus olhos cinzentos se arregalaram ao encontrarem um homem ao seu lado. Desconhecido, alto, encorpado, e que sorria divertido para ele. Mechas negras caíam sobre o rosto, e por debaixo da franja as orbes verdes faziam-se notar mais do que tudo.

Por algum motivo que desconhecia, não conseguiu mais se mover. Talvez pela surpresa, talvez pela vozinha em sua cabeça que parecia alertá-lo de que qualquer resistência seria inútil, então era melhor nem tentar, parecendo ter controle sobre seus membros, mantendo-os enrijecidos. Sua voz também parecia sob controle alheio, porque não conseguia produzir som algum, por maior que fosse sua vontade. Se era para gritar ou fazer perguntas, não sabia. Mas não conseguia, então não fazia diferença.

Então assim ficou, com uma perna apoiada no chão e a outra parcialmente dobrada, em uma menção de se erguer, o corpo ligeiramente virado para o lado do estranho, e um braço erguido, seguro e preso pela força do outro.

Até que o homem finalmente falou algo, e sua voz saiu rouca e grave, parecendo ecoar nos ouvidos de Andrew.

— Desculpe-me por entrar assim, mas como você não vinha abrir a porta, acabei tomando a liberdade – e então estendeu a mão livre, tocando de leve, quase gentilmente, na face de Andrew. A pele se arrepiou ante ao toque frio. E um sorriso estranhamente nostálgico tomou conta de seus lábios ao continuar – Ah, como eu queria ter vindo antes... Mas eu não podia. Porque eu prometi, e eu sou um homem de palavra. Prometi aos seus pais que não tentaria fazer nada a você até que você fosse um adulto... – inclinou-se sobre o outro, falando mais baixo, bem próximo ao seu ouvido – Prometi isso para eles poderem morrer tranquilos, sabe? E não menti, como pode ver.

Uma fúria até então desconhecida dentro de si, despertou em Andrew com essas palavras, e ele conseguiu se mover. As palavras raivosas que tentou proferir continuaram presas na garganta, mas se moveu. Ergueu-se com uma força que não julgava que tinha, e tentou derrubar o homem, mas ele era muito mais forte. Foi ele que acabou dolorosamente derrubado no chão.

Suas costas doeram com o baque e suas mãos estavam imobilizadas, mas ignorou e tentou usar suas pernas, e um dessas tentativas conseguiu acertar um chute no estômago do outro. Mas não foi forte o bastante.

E soube no momento que vislumbrou um brilho rápido no alto, que era tarde demais. Não podia fazer nada. Seus membros perderam a força, e percebeu o quão iludido ele foi. Viu quem era a pessoa por trás das cartas, descobriu o que não esperava, soube pelo menos de que época o homem o conhecia. Teve as respostas que desejava, mas nenhuma satisfação de um mistério solucionado veio. Apenas o pavor persistiu.

E agora iria morrer.

Sentiu mais uma vez os dedos gelados em contato com sua pele, pouco antes da lâmina mais fria ainda, mesmo por cima da roupa, fazer pressão em seu peito e deslizar por ele.

Um amontoado de sensações o invadiu de uma vez. Dor. Ardor. Angústia. O sangue quente escorrendo. E antes que pudesse sequer começar a assimilá-las, sentiu outro deslizar firme mais abaixo, na barriga, e tudo se repetiu muitas e muitas vezes.

E em certo momento, viu vagamente, através da vista turvada das lágrimas de dor, os longos dedos do homem bem à sua frente, manchados de vermelho, e sentiu gotas quentes e estranhamente pesadas caírem e escorrerem em seu rosto.

Doía.

Estava com medo.

Estava com raiva.

Estava morrendo...

...

...

...

...

...

...

Andrew abriu os olhos de súbito, assustado. Foram precisos vários segundos até perceber que estivera sonhando... Sua testa estava úmida de suor, mesmo com o frio que a janela aberta deixava entrar, e sua respiração estava pesada, descompassada. Fechou os olhos com força, tentando apagar aquelas cenas, tentando esquecer aquelas sensações, aquela dor... Inútil. Todas elas continuavam ali, frescas demais para serem deixadas de lado.

Levou um momento para lembrar de repente que realmente estava acordando cedo na manhã do dia 4 de Janeiro. Seria aquele sonho um presságio? Uma premonição? Riu nervoso com o próprio pensamento ridículo.

E então mais um momento se passou, momento necessário para ele finalmente se dar conta, como se só agora acordasse de fato do pesadelo, de que não estava sozinho no quarto.

Ergueu o corpo com um salto, e encontrou um par de brilhantes olhos verdes no canto esquerdo do cômodo, sob uma escura franja e acompanhado de um divertido sorriso.

— Bom dia, Andrew.

Notas finais
E então? Algo a comentar?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!