Notas iniciais
Oi, povinho! Tudo bem?

O Pride Month foi um dos desafios mais complicados que já participei em toda a minha vida! Tive várias pequenas complicações durante o processo de criação dessa fic (e confesso que ela não terminou exatamente como eu havia planejado), mas sei que fiz o melhor que pude e espero que isso seja o suficiente para entreter vocês por alguns minutos.

Apesar de todos os problemas que tive durante o mês, entrar no grupo do WhatsApp do Pride e ver o povo empolgado com tudo o que tava acontecendo, sempre me serviu como um alívio, então quero realmente agradecer a todo mundo de lá, vocês são muito especiais para mim e, mesmo que eu não tenha criado uma amizade profunda com todos, tenho um lugarzinho no coração para cada um.

Quero agradecer também ao meu namorado e à minha amiga, Laura, que provavelmente não vão ler isso, mesmo sabendo que eu vou mandar o link para eles. Obrigada por terem aguentado minhas crises de choro por achar que não iria conseguir escrever algo a altura das outras fics! Vocês são essenciais para eu manter minha sanidade.

Bom, não vou mais enrolar, vocês estão livres para começar a leitura agora! Espero que gostem!

Devia ser a quarta vez que Albus relia o mesmo parágrafo sem conseguir realmente digerir as palavras complexas do livro de astronomia. Suspirou, frustrado, e empurrou o grosso calhamaço para o centro da mesa, recebendo um olhar julgador da prima.

— Se continuar agindo assim — Rose ralhou — não vai aprender nada mesmo.

O garoto revirou os olhos e, com um sorriso torto, murmurou: — Eu ainda tenho dois meses.

— Errado, Al, você só tem dois meses.

— Obrigado pelo apoio — resmungou de volta, alcançando novamente o livro e o puxando para si com brutalidade.

— Você sabe que estou certa — a menina deu de ombros, juntando os fios grossos em um rabo de cavalo mal feito.

Albus não disse mais nada. Correu os olhos novamente pelo mesmo parágrafo, porém as particularidades sobre cada constelação e as anotações de Rose nas laterais sobre como calcular a distância entre os astros baseando-se na intensidade de seu brilho o deixavam ainda mais confuso. Como diabos esperavam que ele decorasse todas aquelas fórmulas?

— Você precisa me salvar, Rose.

— Errado de novo, Al — ela abriu um sorriso maldoso. —, eu preciso me salvar, não é como se eu não tivesse meus próprios problemas. Você não tem aula agora?

— Porra — Albus reclamou alto o suficiente para arrancar uma bronca da velha Madame Pince — Desculpe, desculpe.

Juntou suas coisas, derrubando parte de seus livros, fazendo os baques ecoarem pela biblioteca, junto da risada de Rose. O menino disparou pelos corredores apinhados de estudantes, enroscando a mochila na densa massa de corpos vez ou outra, até a torre sul. Uma sorte Flitwick perder tanto tempo conversando com os alunos que se sentavam próximos à lousa, assim sequer viu quando o Potter entrou na sala, três minutos após o sinal. Sentou-se ao lado Karl Jenkins, um menino muito sardento da Lufa-Lufa e, de longe, cumprimentou Juliette Smith com um aceno de cabeça.

Albus Potter era um ótimo aluno em feitiços, sempre ganhava muitos pontos para a Sonserina pela execução de seus movimentos “dignos de um maestro”, como Flitwick havia elogiado certa vez. Naquela aula não foi diferente, após realizar com sucesso um feitiço silenciador, foi ajudar alguns colegas com maior dificuldade. Estava tão entretido com as instruções que dava a Jenkins que quase não ouviu o sinal soar, apenas jogou sua mochila sobre os ombros e saiu da sala, com Juliette Smith em seu encalço, que tagarelava sobre seu possível encontro com o goleiro do time da Grifinória.

No almoço, Albus se serviu de uma grande porção de batatas, ignorando a amiga que criticava o seu estilo de vida vegano. Após isso, Albus desceu para as masmorras, acompanhado de Rose, para a aula de poções.

— O que há entre você e o Malfoy? — a ruiva disparou quando se afastaram o suficiente dos outros alunos.

Albus franziu as sobrancelhas de tal forma que as transformou em uma única massa negra de pelos.

— Do que está falando?

— Ele ficou te encarando o almoço inteiro — ela riu, maliciosamente. — Vocês estão se pegando?

— Você está alucinando, Rose — o menino retrucou rispidamente.

— Sério, você não percebeu que ele ficou te encarando?

— Eu nem olho para a mesa da Lufa-Lufa, óbvio que não notei.

— Você é muito avoado, Al. Não percebeu nem quando ele te seguiu para fora do salão principal?

— De que merda você está falando? — Albus questionou, irritado com a insistência de Rose. Por que diabos aquela menina era tão Granger?

— Estou falando sério — ela cortou, seu tom de voz reafirmava as palavras. — Eu te encontrei no corredor e ele deu meia volta na hora, achei mega esquisito!

— Será que ele quer falar comigo?

— Ou te assassinar — ela riu de forma sombria, sem encarar o primo.

Albus se esforçou muito pelas próximas duas horas para prestar atenção na revisão da poção para curar furúnculos, porém apenas conseguia se questionar o porquê de Scorpius Malfoy o ter seguido após o almoço. Sequer havia um motivo para conversarem, afinal haviam se falado apenas três vezes ao longo daqueles cinco anos.

— Talvez ele queira ajuda com um feitiço — Albus sugeriu em um sussurro para Rose no meio da aula.

Sem desviar os olhos da lousa repleta de explicações do professor, ela murmurou: — Acho difícil, ele é muito inteligente.

Albus sabia que era. Scorpius tirava sempre ótimas notas, competindo lado a lado com as de Rose, e certamente era um dos alunos mais notáveis da Lufa-Lufa por sua inteligência, apesar de nunca responder às dúvidas dos professores. De certa forma, Albus o entendia: quando seu pai tem um histórico tão conhecido, a fama se torna hereditária e, assim, é impossível escapar vez ou outra de comentários maldosos sobre sua família. Albus sentira isso em sua própria pele ao longo de seus dois primeiros anos, mas a entrada de sua irmã caçula direcionou o bullying para uma nova vítima.

Mais tarde, no jantar, Albus percebeu os grandes olhos cinzentos do menino sobre si. O incômodo que aquele olhar persistente lhe causava era enorme, fazendo-o se remexer por diversas vezes.

Terminou de engolir a enorme batata que havia pegado — não conteve um revirar de olhos ao ouvir Juliette dizer que ele iria ficar desnutrido comendo apenas batatas — e rumou para fora do salão principal. Olhou para trás, desejando que Rose estivesse errada, mas viu Scorpius Malfoy encarando-o fixamente e o seguindo com passadas largas. Virou o rosto, sentindo a nuca arder e diminuiu seu próprio ritmo, torcendo para que o lufano não quisesse de fato assassiná-lo. Antes que Malfoy o alcançasse, porém, quem o alcançou foi Adrian McGaren.

— Ei, Potter! — McGaren sorria de orelha a orelha quando deu uma palmada amigável na omoplata de Albus.

— Oi, Adrian. — Albus murmurou, olhando por cima do ombro novamente. Scorpius Malfoy já havia sumido.

— Eu queria lhe pedir um favor. — falou enquanto coçava o queixo barbudo.

— Pode dizer — Albus incentivou com um gesto apressado.

Adrian abriu um sorriso sem graça antes de disparar: — Será que tem como você me ajudar sobre a Rose?

— A Rose? — Albus franziu o cenho.

— É, ela é sua prima, certo? Oh, vocês estão juntos?

— O quê? — Albus exclamou exibindo uma careta como a de uma criança de quatro anos que havia sido provocada na creche. — Não! Claro que não. Ela é minha prima! — reforçou, completamente incrédulo.

— Bom, sei lá! Em algumas famílias isso é normal — Adrian deu de ombros, ignorando o choque do colega —, de qualquer forma, eu estava pensando em chamá-la para sair e queria umas dicas.

— Dicas?

— É, dicas — Albus conseguiu detectar o sarcasmo presente naquela afirmação. — O que ela gosta, o que ela faz, o que ela “curte” — Adrian fez aspas no ar com ambas as mãos. O rosto de Albus novamente se contorceu em uma careta. Aquele cara estava realmente falando sobre sua prima daquela forma?

— Olha — Albus agitou os cabelos nervosamente —, ela provavelmente não vai aceitar sair com ninguém até o final dos NOMs, sabe? Ela está bem atarefada com isso tudo.

— Ah, bom — Adrian parecia mais confuso do que deveria devido à situação. — O que devo fazer sobre isso então?

— Como vou saber? Apenas não a trate como um objeto e talvez ela lhe dê uma chance — Albus deu uma palmadinha amigável no ombro do garoto, que era consideravelmente mais alto que ele, tornando a cena um tanto ridícula.

— Não a tratar como um objeto. Certo. — McGaren parecia estar fazendo anotações mentais sobre o assunto. — Ah, esse lance todo de feminismo e tal, não é?

Albus mordeu o lábio inferior enquanto se questionava se deveria sair correndo dali ou se devia apenas concordar e se livrar daquela enorme bomba de bosta que parecia prestes a explodir em suas mãos. Por fim, decidiu-se sobre a segunda alternativa. Apenas assentiu e respondeu: — É, por aí... Bom, Adrian, se me dá licença — afastou-se duas largas passadas. —, eu preciso ir agora, tenho que estudar.

Sem esperar uma resposta, Albus deu as costas e disparou em direção às masmorras. A iluminação esverdeada o acolheu bem. Respirou profundamente o ar úmido e sorriu, se sentia em casa.

Juliette já o esperava em uma das luxuosas mesas dispostas depois dos ricos sofás negros. Os diversos livros espalhados pela superfície deixavam claro o foco da menina naquele momento. Albus sentou-se de frente a amiga e curvou-se sobre a mochila, tirando de dentro dela meia dúzia de pergaminhos sobre diversos temas, uma carta celeste incompleta, dois cadernos rasgados e os livros de adivinhação, poções, feitiços e nenhum outro além desses.

— Merda.

— Fica quieto, Al — Juliette murmurou sem erguer os olhos do livro.

— Acho que perdi meu livro de astronomia.

— E eu com isso?

Albus bufou revirando os olhos: — Obrigado, Lette!

— Por nada.

Nervosamente, Albus revirou a mochila mais três vezes, como se procurasse um fundo falso ou algo do tipo, mas, por fim, aceitou que havia perdido o livro. Com um suspiro derrotado, descansou a cabeça sobre o braço e fechou os olhos. Há quanto tempo não dormia direito?

— Não babe nos meus pergaminhos.

— Não vou — o menino resmungou de volta.

— Vai atrás do seu livro. — Juliette disse de forma autoritária. Albus fez uma careta e ergueu os olhos para a amiga. Smith lhe encarava de forma dura com aquele par enorme de olhos castanhos, intimidando-o.

— Estou indo. — esfregou os olhos para apagar os resquícios das noites mal dormidas e colocou-se de pé.

— Não se atrase para o jantar.

Com passadas velozes, Albus saiu das masmorras e subiu as escadarias em direção à biblioteca. Assim que percorreu os olhos pelo espaço, rapidamente notou a cabeça loira e reluzente de Scorpius Malfoy. Deveria falar com ele, pensou, perguntar se precisava de alguma coisa e descobrir se estava de fato sendo seguido, mas, antes disso, virou-se para o balcão de Madame Pince, que o encarou severamente.

— Senhora — Albus se aproximou timidamente do balcão. A voz não passava de um sussurro, mas o silêncio denso da biblioteca fazia com que suas palavras fossem amplamente reproduzidas pelas estantes. —, por acaso encontrou meu livro de astronomia aqui hoje?

— Não que seja minha obrigação lhe responder, Potter — ela respondeu enquanto o analisava friamente por completo. Os olhos duros percorreram desde os sapatos sujos de lama até a gravata embolada sob o pomo-de-adão, que desceu e subiu nervosamente quando Albus engoliu em seco —, mas não, não encontrei nada seu.

— Certo. Obrigado, madame.

Deu-lhe então as costas e virou-se para a mesa em que Scorpius Malfoy estava. Ou melhor, estivera. Com a proeza de um desilusionista, o garoto havia sumido, levando junto todas as suas coisas que antes cobriam pelo menos metade da superfície da mesa. Albus franziu o cenho com força enquanto questionava sua própria sanidade.

— Que porra…?

— Shiu!

— Desculpe, madame. — sussurrou enquanto rumava para fora da biblioteca. — Repense seus passos, Albus. Depois da biblioteca fui para a aula de feitiços, Filch já deve tê-la limpado, mas falar com ele é loucura, eu devia pedir para Rose perguntar para ele sobre meu livro durante a monitoria, é, é, sim, é isso mesmo que vou fazer, ela certamente vai se zangar comigo, mas ela certamente é melhor que Filch…

Satisfeito com seu monólogo, ele concluiu que iria falar com a prima durante o jantar sobre isso. Rose de fato lhe jogou umas verdades na cara, dizendo-lhe que não estaria lá para sempre para corrigir suas merdas, mas aceitou procurar o livro perdido na sala do zelador. No dia seguinte, porém, a ruiva chegou no café da manhã com as mãos vazias. Ela cruzou o salão principal com o queixo erguido e guinchou para o primo: — Saiba que levei uma baita bronca por sua causa e tudo isso para nada! Seu livro não estava lá!

— O quê? Como assim? Onde essa merda tá?

Rose fez uma careta e retrucou: — Realmente espera que eu saiba?

— Claramente foi uma pergunta retórica, Weasley. — Juliette devolveu maliciosamente. Rose a encarou de volta e o ar pareceu ficar sólido por alguns instantes, mas, por fim, a grifinória quebrou o silêncio.

— Deveria falar com seu irmão. Talvez ele possa te emprestar o dele. — a ruiva então deu as costas e cruzou novamente o salão, balançando os quadris de forma estranha.

— Não sei como a suporta, ela é muito chata. — Juliette resmungou.

— Vocês duas são idênticas. — Albus respondeu indiferente, os pensamentos longe. A amiga soltou meia dúzia de palavras indignadas, para as quais ele não deu atenção, apenas conseguia imaginar no belo “trasgo” que iria receber no seu teste de astronomia.

•

— James.

— Albus! O bom irmão à casa torna! — riu excessivamente, fazendo com que seu enorme grupo de amigos risse junto. — Se cansou do covil de cobras?

— Eu preciso do seu livro de astronomia emprestado.

James riu novamente, jogando os cabelos espetados para trás e se apoiando contra a parede. O irmão mais velho parecia um perfeito bully, mas, no fundo, apenas tentava se equivaler ao James Potter original.

— Você realmente acha que eu guardo meus livros dos anos anteriores?

— Sinceramente, não — Albus suspirou pesadamente. — Isso foi ideia do Rose, mas eu já imaginava que você não poderia me ajudar com isso.

— Bom, sinto muito acabar com o conto de fadas dela, mas só mantenho os livros que me são realmente úteis.

— De qualquer forma, obrigado.

Albus estava prestes a se afastar, quando James o interrompeu, dizendo as palavras que passariam as próximas semanas em sua cabeça: — Ei, acho que o Malfoy quer falar com você.

Albus virou o pescoço tão rápido que suas vértebras estalaram. O menino, na outra ponta do corredor, arregalou os olhos e virou-se imediatamente.

— Ei, espera! — Albus disparou pelo corredor, ignorando as risadas e piadas maldosas feitas pelo grupo de amigos de seu irmão. Ao virar o corredor, porém, encarou o espaço vazio. — Merda!

Como diabos aquele menino podia ser tão rápido?

Albus suspirou e apoiou as mãos nos joelhos. Deveria ter aceitado a sugestões de sua mãe sobre praticar exercícios físicos junto da família, mas estava muito preocupado pensando sobre a efemeridade da vida ou qualquer merda que o valha.

Nos dias que se seguiram, Albus avistou Malfoy em diversas situações diferentes, mas os desfechos desses desencontros eram sempre semelhantes: Scorpius Malfoy era escorregadio como uma cobra, o que era bastante irônico, uma vez que o menino era da Lufa-Lufa, ele parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo e, em seguida, desaparecia como se pudesse desmaterializar-se.

Perseguiu e foi perseguido por praticamente todos os corredores de Hogwarts. Sem que percebesse, havia sido inserido em um dramático jogo de gato e rato, no qual os papéis se invertiam vez ou outra. Estava tão habituado a procurar o garoto com os olhos quando deixava uma sala de aula que até mesmo se sentia decepcionado quando não o encontrava.

Foi apenas no final de maio, faltando poucas semanas para o início dos testes, que Albus conseguiu encurralar o Malfoy em um corredor que não dava para lugar algum, próximo das cozinhas de Hogwarts.

— Ei, Malfoy!

Albus percebeu a indignação atingir o rosto do loiro, parecia muito frustrado por ter sido finalmente encontrado.

— Potter.

— Qual é o seu problema, Malfoy? — Albus disparou, incomodado com a expressão de decepção do colega. — Está me seguindo há semanas, todos repararam! O que você quer comigo, merda?

Scorpius enfiou a mão dentro de um dos vários bolsos existentes em sua grossa capa negra. Albus automaticamente sacou a sua varinha e a apontou para o outro, que apenas riu e balançou os cabelos platinados. Ele, então, afastou a mão da capa e revelou um grosso livro de capa surrada. Constelações e suas peculiaridades era o título.

— Ei, isso é meu!

— Claro que é — Scorpius falou, inexpressivo, enquanto estendia o calhamaço. — Você o esqueceu na classe de feitiços.

— Filch não o encontrou porque estava com você — Albus concluiu baixinho com seus botões.

— Desculpe?

— Obrigado — Albus cortou, tomando para si o livro. — Não faz ideia do quão louco eu estava atrás disso.

— Na verdade — Malfoy riu. Sua risada era estranha, quase como se ele a empurrasse para fora, como se sua genética não lhe permitisse um momento de descontração —, eu sei sim. Eu te observei bastante nessas últimas semanas.

Albus uniu as sobrancelhas e disparou: — Tem ideia do quão assustador isso soa?

— Imagino que sim — Malfoy deu de ombros. — Confesso que decorei todos os seus horários para saber onde seria mais fácil te encontrar.

— Isso certamente explica algumas coisas — Albus murmurou. — Mas você me encontrou várias vezes, por que nunca veio falar comigo?

— Eu não sei, vergonha, eu acho — admitiu ele, encarando os próprios pés. — No começo eu só queria uma oportunidade para te entregar o livro enquanto você estivesse sozinho, mas depois foi ficando cada vez mais difícil até mesmo olhar para você! Parecia que você tinha medo de mim...

— Claro! Você me perseguia! — Albus riu de forma contida, sem realmente achar graça. Scorpius também não pareceu gostar do comentário. — De qualquer forma, obrigado por me devolver o livro, uma pena que agora não vai ser mais tão útil.

— Como assim?

— Tenho poucas semanas para aprender todo o conteúdo, então…

Scorpius o interrompeu: — Mas e todas aquelas anotações nos cantos das páginas? Você parece saber muito bem a matéria.

— São da Rose, ela tentou me explicar algumas coisas, mas eu sou muito burro para astronomia.

— Não acho que seja — Scorpius retrucou, os olhos cinzentos pareciam reluzir sob a luz dos archotes pregados nas paredes de pedra. — Eu posso te ensinar.

— Você? — Albus arqueou uma sobrancelha. O tom de voz incrédulo fez o loiro desviar o olhar rapidamente. — Não, não quis dizer que duvido de você, é só que não entendo o porquê de você querer me ajud...

— Eu sou bom em astronomia — ele emendou. — E é meio que minha culpa você não ter tido tempo para estudar, então eu deveria pelo menos te ajudar com isso, certo?

Albus não precisou nem mesmo de meio segundo para concordar, afinal, Scorpius realmente tinha uma parcela de culpa. Marcaram então encontros na biblioteca todos os dias após às três da tarde, exceto às quintas, que era quando Scorpius tinha reunião de monitores.

Foi necessário alguns poucos minutos de explicação para Albus concluir: Scorpius Malfoy era um professor muito melhor que sua prima. Ao final da primeira semana, eles deixaram os sobrenomes de lado e passaram a se chamar apenas de “Albus” e “Scorpius”. Duas semanas depois, eram “Al” e “Scorp”.

— Você tem nome de estrela — Albus disse baixinho certo dia. Ele não falou baixo por estar na biblioteca, mas sim porque a informação se tratava quase que de um segredo.

— Constelação, na verdade — Scorpius corrigiu gentilmente. Ele alcançou o lápis com seus longos e elegantes dedos e traçou um círculo quase imperceptível sobre um grupo de estrelas —, hemisfério sul, entre Libra e Sagitário.

— É um nome bonito.

— Você acha? Eu não gosto muito, mas é tradição familiar, então não tive como fugir. — ele deu de ombros, um leve sorriso aliviava a expressão, que era constantemente tensa.

— Vai continuar a tradição? Digo, com seus filhos.

Albus não era burro, já havia notado seus próprios sentimentos com relação ao loiro. Além disso, havia reparado também meia dúzia de olhares trocados e um ou dois toques que pareceram demorados demais. Albus poderia afirmar com quase certeza de que o sentimento era correspondido, mas entre ele e Scorpius havia uma grossa parede de gelo que precisava ser quebrada. Perguntas pessoais talvez ajudasse nisso.

— Não penso em ter filhos. Vamos focar nisso, okay, Al?

Não estava okay, mas Albus apenas concordou.

Como todo bom sonserino, Albus não desistiria facilmente de seu objetivo. Apesar disso, entendia que era necessário focar nas explicações de Scorpius, não em seu lábios pálidos e a forma intrigante que eles assumiam durante um sorriso, não em suas maçãs do rosto altas e bem desenhadas, não em suas mãos elegantes e ágeis.

Pelas próximas semanas, Albus aprendeu tudo e mais um pouco sobre astronomia. Sabia nomear as constelações apenas ao olhar seu formato, sabia desenhar com perfeição uma réplica da abóbada celeste para cada estação do ano e sabia também usar um sextante.

— Sinceramente, não sei o que seria de mim sem você — Albus confidenciou no dia anterior ao exame. Faltavam alguns poucos minutos para o toque de recolher, haviam acabado de deixar a biblioteca. Scorpius carregava nos braços uma dezena de livros, enquanto Albus tinha a mochila sobre apenas um dos ombros. Caminhavam, lado a lado, como velhos conhecidos. O corredor estava vazio e, apesar da proximidade do verão, gélido.

Scorpius balançou a cabeça, um sorriso leve brincava em seus lábios: — Eu só te dei uma ajudinha, você que merece os créditos por ter se esforçado tanto.

— Você fez toda a diferença, Scorp. Obrigado por tudo.

— Não precisa agradecer.

As pontas dos dedos de Albus formigaram de expectativa. Albus não era corajoso, nunca foi, mas também nunca achou que a coragem fosse necessária quando existe determinação e, naquele momento, ele estava particularmente muito determinado.

— Mas eu quero.

Seus calcanhares cravaram no chão, seu coração parecia bater forte contra os tímpanos. Ele entrelaçou seus dedos sobre os de Scorpius, que apertou os livros ainda mais ao sentir o contato inesperado.

Albus não soube dizer se sua mão estava muito fria ou se a de Malfoy estava muito quente, mas o choque térmico que aquele contato causava era um fenômeno à parte.

O corpo de Scorpius se aproximou sem qualquer rejeição quando Albus acariciou com delicadeza as costas de sua mão. O toque era frouxo, ele poderia sair quando quisesse. Mas não saiu. Se encararam por alguns instantes e Albus teve certeza de que aquele par de olhos cinzentos eram mais belos que qualquer estrela existente.

Era palpável a ansiedade de Scorpius para o que poderia acontecer em seguida. Albus estava tão ansioso quanto.

A princípio foi apenas um toque macio de lábios, como um carinho suave. Depois houve a respiração de Scorpius contra o rosto de Albus, uma lufada de ar quente. Em seguida houve o gosto: uma mistura de ervilhas, suco de abóbora e pudim de framboesa, Scorpius definitivamente havia jantado naquela noite. Albus se questionou sobre qual seria o seu gosto naquele momento, mas a dúvida se esvaiu quando as línguas se tocaram.

Scorpius era todo quente, de uma forma que Albus nunca imaginou que um Malfoy seria capaz.

Quando o beijo acabou não houve qualquer troca de palavras, apenas sorrisos contidos e bochechas coradas. Albus acompanhou Scorpius até o corredor das cozinhas, onde sabia que se localizava o salão comunal da Lufa-Lufa. Foi inevitável sorrir novamente quando Scorpius o encarou com aquele enorme par de olhos faiscantes.

— Você tem olhos de estrela — escapuliu de seus lábios com mais facilidade do que gostaria de admitir.

Scorpius franziu o cenho, mas sorriu abertamente em seguida.

— É só uma das minhas peculiaridades.

Albus sorriu: — Sim, de fato é. Bom, preciso ir agora...

— Certo — Scorpius sorriu sem graça, apertando os livros contra a barriga. — Boa noite então.

— Boa noite.

— Boa prova amanhã.

Albus sorriu largamente. Havia repassado aquele diálogo em sua cabeça por inúmeras vezes.

— Vai ser ótima graças a você.

Albus terminou seu caminho até as masmorras sem desmanchar o sorriso. Aqueles que o viram pelo caminho talvez o tenham achado maluco por sorrir para o nada, mas ele sabia que estava sorrindo para as estrelas.

Notas finais
Comentários são sempre bem-vindos!

Se encontrarem algum erro ao longo do texto, por favor, me comunique para que eu possa resolver o mais logo possível.

Obrigada por terem lido ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!