Constância
1 Capítulo único
O caminho de volta para casa com certeza seria conturbado. O céu estava desabando em água e nenhum ônibus passaria por ali, até mesmo o taxista se recusou a ir buscá-lo. Era nessas horas que lembrava das palavras do pai quando ele vivia insistindo para que ele tirasse uma carteira de habilitação. Parou na porta da maior loja de brinquedos do pequeno centro comercial da cidade na esperança de se molhar menos até que a chuva diminuísse.
Enquanto contemplava o pouco que conseguia ver do céu nem percebeu um carro se aproximando e espalhando água por todo canto, inclusive nele.
Tentou ao máximo controlar o nervosismo e respirou fundo por três vezes. O carro vinho voltou devagar e parou a sua frente.
— Me desculpe. — Uma voz feminina se sobressaiu ao ruído da chuva. — Realmente não era minha intenção te acertar... Álvaro?
Ao ouvir seu nome, o rapaz que passava freneticamente as mãos nas mangas da blusa na vã tentativa de retirar um pouco da água encarou o carro e tentou reconhecê-lo, já que julgou impossível ver algo através da imensidão de água que despencava do céu, porém chegou a conclusão de que aquele carro era desconhecido.
— Te conheço? — Espremeu os olhos para tentar ver algo.
— Se você for o Álvaro filho da tia Akemi, sim. — A garota sorriu de dentro do veículo. — É você não é? É impossível não te reconhecer, você está a cara do tio Mauro. Entra aí. — Completou enquanto se curvava para destrancar a porta do passageiro.
Mesmo desconfiado Álvaro resolveu aceitar a carona. Andou rápido até o carro e não exitou ao entrar no veículo.
— Olha, se você estiver com a intenção de me sequestrar, fique sabendo que a minha família não tem dinheiro... — Brincou enquanto colocava o cinto de segurança.
— E continua besta como sempre.
— Dora? — Só então Álvaro reparou na mulher a seu lado. — Dora da tia Carmen?
— Demorou para me reconhecer heim Fofão. — Dora sorriu enquanto dava partida. — Nem mudei tanto assim.
— Nem vem com essa de Fofão que aquelas bochechas não existem mais. — Álvaro sorriu abertamente para a amiga que não via a bastante tempo.
— Percebi. O tempo te fez bem. — Zombou. — Se não tivesse visto uma foto do tio Mauro ontem não teria te reconhecido.
— Quer dizer que voltou a mais tempo e nem se dignou a me ver.
— Se você parasse em casa... Fui lá ontem e você não estava.
— Que me esperasse.- Brincou. — Três ou quatro anos desde que você não vem aqui?
— Quatro e meio.
— O tempo voa mesmo. — Ponderou. — Férias?
— Ainda não sei. A princípio sim, mas também estou pensando em ficar.
Neste momento o carro balançou fortemente e parou de avançar.
— Acho que atolamos. — Lamentou Dora enquanto tentava dar partida em vão.
— Você só acha? — Zombou novamente. — Roda dura. — Sorriu de canto. — Vou descer para olhar.
— Tá doido? Vai atolar junto com o carro.
— Prefere esperar a água subir e nadar até em casa?
— A água ainda sobe neste trecho? O que está esperando? Vai lá empurrar que eu me entendo com esse volante.
O garoto saiu do carro e se encharcou na mesma hora, sujando-se de lama até os joelhos.
— É a roda de trás. — Gritou para que ela conseguisse ouvir. — Vou empurrar e você acelera, só espera... — Mas Dora não esperou e esqueceu o pé no acelerador, o que fez com que toda a lama fosse parar direto em Álvaro.
Ao perceber o que tinha feito levou imediatamente aos mãos a boca e saiu do carro para tentar ajudá-lo.
Álvaro teve sorte de fechar os olhos e boca e virar-se de costas antes de realmente ser atingido, então sua situação não era assim tão lamentável.
— Me desculpa, me desculpa! — Batia freneticamente as mãos no peitoral de Álvaro na tentativa inútil de retirar um pouco da lama.
— Dezenove anos... — Girou os olhos como se ponderasse algo. — Não estamos tão velhos assim. — Abaixou-se lentamente e encheu as mãos de lama, mas quando Dora percebeu já era tarde. — Bem vinda de volta! — E junto com a última palavra, Dora recebeu também uma bela quantidade de lama na blusa que originalmente era branca.
A garota demorou um tempo para assimilar o que Álvaro realmente tinha feito, mas logo entrou na brincadeira e em meio a água que caia lama era arremessada.
A brincadeira durou o suficiente para que ambos não conseguissem mais mover os braços devido aos movimentos repetitivos. Eles se encostaram no que deveria ser a traseira do carro e sorriram exaustos.
— Sabe Dora, a quatro anos quando você foi embora eu chorei muito.
— Você? — Duvidou.
— Não se lembra que levou meu carrinho dez de colecionador? O preto que está ali no carro. — Apontou para a frente do veículo, rindo. — Eu fiquei com muita raiva de você. Eu queria te trazer de volta, te perguntar por que foi embora sem nem se despedir e eu me prometi que não cairia mais por você.
— Cair por mim?
— Nós já brincamos o suficiente por hoje não acha? — E sem esperar por uma resposta deslizou o indicador agora com menos lama graças a chuva e uniu seus lábios aos dela.
Parecia loucura? Sim.
Pareciam apaixonados? Sim.
Inconsequentes? Talvez.
Porém toda aquela água lavou qualquer preocupação que pudessem ter e o que a calmaria traria, só o tempo poderia dizer.
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