Conspiração Divina - Versão I
22 Entendendo.
Notas iniciais
Peguei o celular, ainda com as mãos trêmulas e suadas, e digitei.
Pode vir me buscar? Enviei para Sophie, me afastando da casa e seguindo, por entre a neblina, para a estrada. Estava difícil enxergar, mas pude notar a mensagem em resposta, que veio em seguida.
Está no Pico?
Sim. Pode vir?
Chego aí em 10 minutos.
Guardei o telefone no bolso de minha jaqueta e me apressei para sair dali, precisava clarear minhas ideias, precisava fazer isso em um lugar aonde não havia nada, nem ninguém.
A estrada perto do Pico não era muito utilizada, poucos carros se arriscavam a passar por ali, e no por-do-sol, quase cinco horas da tarde, o pequeno movimento se anulava. Era um lugar perfeito para clarear as memórias, apesar de ser um tanto quanto sombrio. Tentei me focar na conversa que tive com Evan, pensei que minhas perguntas sumiriam, mas pelo contrário, elas cresceram ainda mais.
Para mim, anjos e qualquer coisa que tivesse haver com o céu, eram apenas mito. Eu não era a pessoa mais religiosa do mundo, mas acreditava no que via, sabia que aquela não tinha sido mais uma conversa repleta de mentiras, como as anteriores, mas ainda assim não queria acreditar em nada. Era loucura demais.
Um movimento no lado esquerdo a estrada chamou minha atenção, me fazendo congelar e parar de respirar por alguns segundos. Estava longe demais para voltar para a cabana de Evan e longe demais para correr até à cidade. Não era Sophie, ela viria de carro e com toda certeza não era Evan, creio que ele compreendia o fato de eu precisar de um espaço naquele momento.
Apertei minhas mãos dentro do bolso da blusa e me pus a andar o mais depressa que pude, num cenário como aquele minha mente conseguia imaginar milhares de coisas ruins que poderiam acontecer. E uma delas aconteceu.
A voz de Charlote explodiu por entre a neblina atingindo meus ouvidos e fazendo com que meu corpo congelasse novamente. Sua voz era calma, porém pude notar as elevações que fazia quando ela começou a falar.
- Por favor Melanie, estou cansada, poderia andar mais devagar?
- O que quer?
Não me atrevi a me virar, apenas permaneci parada tentando encontrar uma maneira de manter a calma. Pude ouvir seus passos se aproximando e agradeci aos céus ao constatar que ela estava sozinha.
- Vi você saindo da casa de Evan. — Murmurou. — Ouvi o que ele lhe disse.
- Sophie está vendo me buscar. — Rebati, minha voz não se conteve e se tornou chorosa. — Então, o que quer que queira dizer, seja rápida.
- Você não está na posição de exigir nada, Melanie.
Tomei folego e me virei para encará-la, Charlote estava perto. Perto demais.
Não respondi, o que lhe deu tempo para continuar.
- Fico triste por ele não ter me apresentado. — Uma pausa. — Da forma certa.
- E qual seria a forma certa? — Eu estava apavorada, não a conhecia, mas imaginava o que ela seria capaz de fazer sozinha comigo ali, no meio do nada. Porém, mantive minha voz firme, não poderia demostrar que me sentia intimidada.
- Sou um anjo da morte, Melanie. — Ela riu. — E sabe o que eu faço? Arrasto almas como a sua para trás do véu, e as vezes aproveito para acorrentá-las. Em ocasiões especiais.
- Porque esta me contando isso?
- Pensei ter ouvido um "chega de mentiras".
- Não é uma boa resposta.
Me arrependi de ter dito isso, num momento Charlote estava em uma distancia segura de mim e no outro suas mãos alcançaram meu pescoço. Ela não o apertou, quase não pude sentir suas mãos em volta de minha garganta, mas pude sentir seus dedos gélidos e sua voz sombria dominar meus pensamentos.
- Lembra que eu comentei sobre ocasiões especiais? Você é uma delas.
- Vai me matar?
- Sou um anjo da morte, mas tive minhas assas arrancadas há muitos anos. — Murmurou, apertando um pouco mais seus dedos em meu pescoço. — Ouvi boatos, que quando se arrasta uma alma humana para o inferno, você recupera seus atos.
- Ás vezes os boatos são falsos.
Ela assentiu.
- Então vamos ter que pagar para ver, não acha?
Fechei meus olhos, esperando que o ar de meus pulmões acabassem, senti seus dedos apertarem um pouco mais, fazendo minha pele arder. Sabia que iria morrer, iria acabar morta, como Amber. Sabia disso desde o momento em que vi Evan. Só não sabia que seria tão cedo.
Mas, como se algum tipo de mágica acontecesse, sua voz explodiu em minha cabeça, exatamente como ele havia feito com as imagens alguns minutos atrás.
Espere meu sinal e corra em direção a curva, Sophie estará lhe esperando lá.
Evan? Perguntei, completamente surpresa com tudo aquilo. Não consigo vê-lo.
Estou chegando, Anjo. Faça o que lhe disse.
Exatamente um minuto depois, pude ouvir sua voz atrás de nós, abafada tentando ultrapassar o som nervoso que saia de minha garganta. Charlote afrouxou suas mãos, quase deixando minha garganta.
- Deixe-a ir, Charlote.
- Quero minhas assas, Evan! — Gritou, abri meus olhos e pude ver lágrimas rolarem em seu rosto. — Você me traiu, pensei que ficaríamos juntos! Mas você se apaixonou por ela! Uma humana, Evan!
- Você não vai conseguir suas assas de volta, dessa forma, Charlote. Seja o que for que Harry lhe disse, é mentira. Não funciona dessa forma, não é uma alma humana que tem que ser carregada. Olhe para ela! Melanie não é humana e não é uma Neflim.
Neflim?
- Então o que ela é?
- Eu não sei, Charlote. — Apesar de manter a voz baixa, pude ouvir o desespero que ela continha.
Charlote o ignorou, focada demais na ideia de me matar, para pode cogitar qualquer outra.
- Porque ela sempre aparece no meu caminho? Se ela não é uma Neflim, porque renasce tantas vezes?
- Você já tentou arrastá-la para o inferno, Charlote, não se lembra? Suas assas foram arrancadas por isso. Seja o que Melanie for, ela é importante demais para o cara lá de cima.
Charlote largou meu pescoço e eu finalmente pude respirar. Afaguei o lugar com as minhas mãos e encarei Evan. Charlote fazia o mesmo, limpando suas lágrimas enquanto deixava um riso sarcástico escapar por sua garganta.
- Você tem medo de perdê-la, não é? Tem medo de que algo lhe aconteça, não suporta a ideia de passar mais um século sem ela. — Charlote riu, se aproximando de Evan o suficiente para tocar seu rosto com a ponta de seus dedos. — Você é amaldiçoado, querido. Não somos nós ou a guarnição, que mata as garotas que você ama. — Ela deslizou seus dedos pela bochecha dele, sua voz baixa e quase doce, como se ainda, depois de tudo o que aconteceu, ela ainda o amasse. — O que as mata é esse amor obsessivo que você sente pela Melanie. Isso sempre irá matá-las, por que você sempre vai procurar por ela e sempre enganará um de nós. Nos fará matar garotas inocentes, só para ter a chance de ter Melanie novamente. Em outras vidas.
Não conseguia me mexer, queria entender aquilo tudo e a pessoa que eu menos esperava que me daria tantas respostas, estava as entregando de bandeja para mim. Indiretamente, é claro.
Corra para a curva!
Não! Quero ouvir o que ela tem para falar!
Melanie, vá para a curva! Sua voz se tornou assustadora, tentei não deixar que isso me abalasse, mas ele continuou a falar. Prometo lhe contar tudo mais tarde, vá ao encontro de Sophie, vai ficar segura lá.
Estou segura aqui. Rebati. Mas não me sentia segura à poucos metros de Charlote. Quer ouvir. Repeti decidida. Agora!
Charlote não brincou quando disse que a acorrentaria no inferno. Você não é uma Neflim, mas não é normal uma pessoa viver tantas vidas em tão pouco tempo. Seja o que você for, não é humana. Pode ser acorrentada e se ficar aqui, não terei tempo para impedir. Então completou, repetindo o que já havia dito. Saia daqui, por favor.
Tudo bem. Me rendi.
Sai em passos apresados, porém silenciosos, de perto dos dois e quando finalmente estava em uma distancia segura, corri em direção a tal curva. A única que havia em muitos metros.
Estava meio perdida com tudo aquilo, principalmente com o fato de Evan falar em minha cabeça e por eu poder responder. Tudo estava nublado demais em minha mente, nublado demais para que eu pudesse pensar com clareza.
Um momento depois enxerguei o carro de Sophie na beira da estrada, não pude vê-la lá dentro, mas só de saber que ela estava por perto me senti segura e me pus a correr até o mesmo. Suspirando aliviada quando me acomodei no banco e encontrei os olhos acolhedores de minha melhor amiga.
Notas finais
Por hoje é só! Já foram dois hoje hein hahah ;)
Até a próxima!
Beijos ;*
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