Conspiração
45 Chama Vital
Notas iniciais
Magnolia — 6 de julho de X792
A vantagem de uma viagem aérea é poder adotar o caminho mais curto até o seu destino, em um percurso que respeita apenas a curva da terra.
A desvantagem é que, num contexto de guerra, se o deslocamento for de conhecimento inimigo, a trajetória pode ser facilmente calculada e interceptada.
Natsu se deu conta de tal fato quando superou as montanhas que ladeavam Magnólia, mas percebeu seu caminho na entrada da cidade bloqueado por uma monstruosidade de gelo.
O dragon slayer impulsionou-se para cima e agitou as asas para que pudesse pairar sem sair do local, enquanto avaliava o inimigo.
Num esforço de memória, estimou que a criatura tivesse ao menos o dobro da altura e da largura de Deliora.
E além de ganhar em tamanho, também o superava em feiúra.
O monstro ostentava quatro chifres, revestidos de inúmeros espinhos de gelo que se projetavam em todas as direções. O gelo em seu corpo simulava uma couraça que o cobria do pescoço aos pés, também revestida com inúmeras superfícies pontiagudas. Os dedos das mãos e dos pés se alongavam em garras afiadas e mortais e o rosto mais parecia uma máscara impiedosa, de olhos rígidos como dois gigantescos diamantes, e uma boca arreganhada estática, cujos dentes consistiam em estalagmites e estalactites enormes que prometiam perfurar com facilidade qualquer corpo infeliz que caísse entre eles.
Com suas habilidades atuais, Natsu sabia que poderia desviar e se afastar facilmente da criatura, porém, duvidava que ela permitiria uma retirada pacífica.
Como se lesse seus pensamentos, o monstro de gelo lançou o braço direito para longe do tronco num movimento de arco, que despedaçou todas as construções que estavam na trajetória, como se picasse papel.
Levou menos de um segundo para que Natsu percebesse a ausência de vítimas e respirasse aliviado pelo fato daquele setor da cidade ter sido desocupado. As coisas seriam muito mais complicadas se ele tivesse que se preocupar com as pessoas enquanto derrubava aquela coisa.
Pois não havia a opção de não lutar. Mesmo que sua prioridade fosse chegar até Lucy e sua filha que estava a caminho de nascer, enquanto aquele monstro vivesse, Magnólia não teria um lugar seguro para que as duas pudessem enfrentar o momento em segurança.
Esse foi o recado que a criatura passou com o seu primeiro golpe. Se fosse ignorado, poderia facilmente destruir todas as casas do resto da cidade com a mesma facilidade que um humano derrubaria um castelo de cartas.
O pensamento fez com que o mago do fogo se recordasse da urgência da situação e começasse a avançar.
…
— Que droga é essa? — Gajeel perguntou, enquanto encarava a enorme redoma congelada, que em algum momento da ausência deles havia crescido no parque de Magnólia. — Nós já temos outra porcaria gigante de gelo para nos preocupar — acrescentou, apontando para a silhueta do monstro que era visível mesmo dali, embora parecesse estar lutando na entrada montanhosa
da cidade.
Após garantirem que Jet e Droy estavam seguros no hospital mais próximo da Floresta Waas, guardados por uma equipe de magos disponibilizada pela Blue Pegasus, o dragon slayer do ferro e Levy voltaram às pressas para Magnólia. Normalmente, eles mesmos teriam feito a guarda, mas sabiam que os dois membros masculinos da Shadow Gear não estavam na lista de alvos da Signum Sectionis e que haviam se machucado apenas para proteger Levy, o que tornava o afastamento da maga solid script mais adequado para que permanecessem protegidos.
Para alívio do mago do ferro, o corpo da maga menor foi retornando ao normal e perdendo a translucidez conforme a viagem avançava, mas quando chegaram, descobriram novos problemas ao encontrar a cidade debaixo de neve e gelo, com inúmeros focos de batalha entre magos inimigos e membros e aliados da Fairy Tail. Eles mesmos tinham enfrentado uma cota de oponentes, batalhas que acabaram arrastando-os para longe da sede da guilda e permitido que vislumbrassem o momento em que o gigante de gelo literalmente cresceu do nada.
Não demorou muito para que ocasionais lampejos flamejantes indicassem que havia alguém lutando com a criatura, e as informações captadas pelo faro e pela audição extremamente aguçados do dragon slayer do ferro confirmaram quem era.
Apesar de já haver um oponente, dado o porte do inimigo, Gajeel decidiu fazer uma aproximação tática, torcendo para encontrar um lugar seguro para deixar Levy no caminho, quando se depararam com a estranha bolha gigante de gelo no parque.
Parecia algo extravagante e sem importância, mas a quantidade de magia que a estrutura irradiava fez com que eles parassem ali.
— É como um globo de neve em tamanho real — Levy, finalmente recuperada da magia de ocultação e visível para todos, observou. — Na verdade…
Dada a fala reticente, a garota viu no semblante do dragon slayer do ferro, os piercings de pinos que estavam enfileirados no lugar da sobrancelha direita, arquearem-se, de maneira questionadora.
No entanto, Levy apenas meneou a cabeça, como se fosse algo sem relevância, para afastar a atenção do mago do ferro. Mesmo que parecesse bobo e sem importância, com toda a exposição que Natsu e Lucy vinham tendo ultimamente com a gravidez e a falsa acusação, a maga de cabelos azuis preocupava-se em tratar com discrição todos os aspectos da intimidade do casal que tinha conhecimento em razão da sua amizade com a maga estelar.
O fato de a enorme redoma se parecer exatamente com o pequeno globo encantado com que Natsu presenteou Lucy no hanami, que simulava uma cerejeira arco-íris, poderia ficar em oculto, por enquanto.
Mas a semelhança era perturbadora.
Uma fina camada de gelo formou o domo ao redor da maior cerejeira da cidade — a mesma que Natsu havia desenterrado alguns anos antes e colocado em um barco, para que uma Lucy adoentada e impossibilitada de participar do festival pudesse apreciar seu desabrochar multicor da janela de seu apartamento. Gelo resplandecente de múltiplas cores também cobria a árvore, o que simulava sua peculiaridade de brilhar como o arco-íris no primeiro dia da floração. Por fim, flocos de neve e cristais de gelo rodopiavam dentro da redoma, em uma flutuação certamente mística.
— Eu não consigo ver o objetivo dessa coisa, mas é inegável a quantidade de magia que está sendo liberada a partir deste ponto — Gajeel observou.
— Veja — Levy indicou um ponto através do vidro. — Tem uma pessoa ali.
Gajeel apertou os olhos rubros e, de fato, conseguiu identificar um corpo que parecia de uma velha franzina, encolhido entre as raízes, protegido apenas por uma capa negra.
— Deve ser a responsável. Provavelmente uma inimiga — o dragon slayer declarou, imediatamente convertendo sua mão esquerda em uma enorme espada de ferro, com o intento de quebrar a redoma.
— Espere — a maga baixinha agarrou o braço do outro, antes que ele se precipitasse.
— O que foi? — indagou, confuso.
Mas Levy não tinha uma explicação lógica para fornecer naquele momento. Apenas um pressentimento terrível em relação à ideia de ver algo tão parecido com o presente precioso que Natsu dera para Lucy despedaçar-se na sua frente.
— Temos que quebrá-lo — uma terceira voz se manifestou, confrontando a hesitação da maga de cabelos azulados.
Tanto ela quanto o dragon slayer do ferro se voltaram para trás e se depararam com Mystogan, caminhando em direção a eles, a máscara verde e o gorro negro deixando à vista apenas os olhos cor de oliva, sempre analíticos.
— Essa redoma é o núcleo da desordem climática que recaiu sobre Magnólia e deixou os magos da Fairy Tail em desvantagem tática, apesar de lutarem em casa — explicou. — Quebrá-la equilibrará as coisas. Além disso, tenho perguntas a fazer àquela senhora ali — concluiu.
— Você a conhece? — Levy questionou.
— Parece ser a velha maga que atacou Lucy e o bebê em Datra.
— A profetisa — a maga de cabelos azuis compreendeu, inteirada da história, que a arrepiava todas as vezes que pensava a respeito.
Era perturbador saber que o bebê de Natsu e Lucy foi atacado apenas por existir, antes mesmo que os pais soubessem sobre ele.
Mas o fato de ela própria ter sido recentemente vítima dos atentados da Signum Sectionis, não deixava dúvidas de que a seita agia de modo implacável para eliminar qualquer mago que acreditassem estar ligado ao demônio E.N.D.
Então toda vantagem que pudessem ter era essencial.
Por isso, ela apenas suspirou, resignada, protegendo-se num escudo de ferro que Gajeel preparou, enquanto a redoma se estilhaçava simplesmente por Mystogan espalmar a mão direita nela. Os truques do homem eram assustadores, especialmente porque ninguém sabia ao certo como funcionavam, mas não era hora de pensar sobre isso.
Imediatamente após a quebra do gelo, os três se colocaram em posição de alerta para uma possível batalha, porém a velha, apoiada no toco da árvore, não fez mais do que cair de lado.
Cautelosamente e sob os atentos olhos vermelhos de Gajeel, Levy se aproximou.
— A senhora está bem? — indagou, ao notar que os olhos embaçados da velha estavam abertos.
A mulher voltou o rosto em direção à maga de cabelos azuis e abriu um sorriso sinistro.
— O prenúncio… — murmurou com dificuldade, em sua voz arranhada. — Nós tentamos expurgar o mal da terra, mas vocês interferiram, e o mundo inteiro definhará por isso. O quebrar da redoma da cerejeira indicará a ascensão do fim.
— Isso… é uma profecia? — Gajeel parecia alerta. — Mas nós acabamos de quebrar a porcaria da redoma! — exclamou alarmado, observando que, em contraste, a velha fechara os olhos, parecendo esgotada. — Isso quer dizer que o fim do mundo começa agora?
— Não acho que ela estivesse falando desta redoma — Levy respondeu, atarantada.
— Tem outra? — Gajeel esganiçou.
— Tem, a original. Uma miniatura que Natsu deu de presente à Lucy. Preciso ir ao apartamento dela e conferir — decidiu.
— Lucy não está lá. Ela está na sede da guilda — contou Mystogan. — Em trabalho de parto — acrescentou, meio sem jeito.
Ele mesmo havia avisado Meldy, mais cedo, sobre uma tarefa importante que ela precisaria realizar a pedido de Makarov. Mais tarde, a maga de cabelos rosas o atualizou, por telepatia, sobre o que havia feito e sobre a situação de Lucy.
E Mystogan continuou em sua missão de identificar a fonte das anomalias climáticas do local, julgando que isso ajudaria a derrubar os inimigos de vez e contribuiria para a segurança da maga estelar.
Claro, o serviço foi atrasado com a quantidade de oponentes que ele teve que bater pelo caminho, até que ele finalmente chegou à grande fonte de magia que rastreava, onde encontrou Gajeel e Levy. Isso, pouco depois de ver um gigante de gelo crescer na entrada da cidade, o que o fez vacilar em suas intenções por um tempo.
Porém, aparentemente, Natsu já cuidava daquele.
— Aquele idiota… — Gajeel murmurou, voltando os olhos para o gigante que se movia ao longe, enquanto desviava de colunas de labaredas. — Ele não tem tempo para ficar brincando.
— Talvez possamos ajudar — Mystogan ponderou. — Com sorte, ele chega a tempo do nascimento da filha.
— Você tem certeza de que a Lu-chan está em trabalho de parto? — Levy indagou, preocupada. — Ainda não é hora da criança nascer.
— Foi o que eu soube — Mystogan respondeu, simplesmente.
Levy engoliu em seco.
— Ok, eu realmente preciso ir ao apartamento da Lucy — avisou, decidida.
— Acho que estamos com uma situação mais urgente aqui — Gajeel lembrou, encarando o monstro de gelo ao longe.
— Mais do que o fim do mundo? — contestou a maga de cabelos azulados. — Não é estranho essa profecia ter acontecido justo hoje, com o bebê que uma seita inteira queria matar a caminho? — refletiu.
— Para ser justo, eles estão fazendo profecias malucas com esse bebê desde que o Salamander e a loirinha o encomendaram, então meio que não tem nada de novo aqui — Gajeel lembrou.
— Bem, se a profetisa previu um evento que pode devastar o mundo, e se esse evento estiver ligado às ocorrências desta noite, qualquer informação pode ser valiosa — Mystogan refletiu.
Gajeel suspirou, impaciente.
— Ok, mas um fim de mundo por vez. Ainda precisamos ajudar o Natsu a acabar com aquela coisa — recordou.
— Vocês podem fazer isso enquanto eu vou ao apartamento da Lucy — a maga de cabelos azuis propôs.
— E deixar você sozinha depois do que esses malucos de seita tentaram fazer? Não mesmo — o dragon slayer do ferro foi taxativo ao negar.
— Eu posso acompanhar a Levy, enquanto você ajuda o Natsu — Mystogan sugeriu, ao ver que os outros dois magos haviam se inclinado um em direção ao outro, um indício claro de uma discussão que poderia atrasá-los.
Talvez tivesse sido sorte o fato de o resmungo da velha ter atraído novamente a atenção deles:
— Meus preciosos meninos. Nós f-falhamos — lamuriou-se, pronunciando as palavras com dificuldade. — Mas estaremos j-juntos logo — emendou, como se consolasse alguém, antes de fechar os olhos enrugados definitivamente.
…
Natsu contornou o gigante em velocidade impressionante para atingir as costas do monstro com um soco flamejante, a fim de testar o tempo de reação e a resistência. Pedaços de gelo despencaram, como se desprendessem de um iceberg, porém, ao avaliar o dano, o mago do fogo percebeu que não passava de uma camada extremamente superficial, que rapidamente se regenerou.
Estalando a língua, fez um voo rasante entre os chifres da criatura e, numa acrobacia, atingiu-a com um chute na testa, antes de seguir voando em direção às montanhas, desviando das enormes mãos congeladas que agora tentavam alcançá-lo. Foi por um triz que o mago do fogo draconizado conseguiu evitar as lâminas mortais em que consistiam as garras da criatura, que o seguiu pelo vale.
O dragon slayer sentiu um misto de frustração e satisfação, pois novamente os danos causados na cabeça do monstro se regeneravam, mas ao menos ele conseguiu atraí-lo para fora da cidade, embora a criatura tenha parado antes de adentrar o vale profundamente, para não ficar em desvantagem em seus movimentos.
Dada a distância segura da zona urbana, Natsu lançou um rugido de fogo que, de maneira incrível, cobriu a criatura dos pés à cabeça. O dragon slayer piscou os olhos ferinos, surpreso, pois ainda estava se acostumando com a potência de seus golpes naquela forma.
No entanto, o monstro permaneceu de pé, embora o gelo que o recobrisse estivesse disforme e escorrendo, lembrando o aspecto cômico de um enorme sorvete derretido.
A criatura sacudiu-se como um cachorro, fazendo com que água e cristais de gelo se projetassem para todos os lados, obrigando Natsu a proteger a fronte com as asas, o que bloqueou sua visão. O monstro aproveitou a deixa e socou o dragon slayer, que desviou por pouco, milésimos de segundos após sua visão ser desbloqueada.
Com desgosto, o mago do fogo percebeu que o demônio de gelo já havia se regenerado por inteiro.
Furioso, rangeu os dentes. Ele não tinha tempo para isso.
…
Lucy gritou enquanto lutava contra mais uma contração.
Porlyusica resistiu à vontade de gritar junto com ela. Ou melhor, de gritar com ela.
Sabia que não era exatamente um exemplo de gentileza e que berros eram basicamente sua maneira de comunicação, mas deixar a maga estelar ainda mais nervosa não faria o trabalho de convencê-la.
Lucy estava cansada, apavorada, com o psicológico em frangalhos, e os hormônios do puerpério não ajudavam.
O fato de uma cirurgia de emergência não ser uma opção por falta de lugar adequado continuava martelando em sua cabeça, e a ausência de Wendy e Chelia pesava mais que nunca, tornando muito real a impossibilidade de mitigar os danos caso algo desse errado.
Tudo o que podia fazer era continuar tentando persuadir a loira, assim como seus espíritos vinham fazendo.
— Lucy, está na hora — avisou, notando que outra contração se iniciava. — O estado expulsivo está ativo — continuou, assim que a contração passou. — Não dá mais para garantir a segurança do seu bebê se você não cooperar.
— O Natsu… — choramingou a loira. — Eu preciso esperar o Natsu chegar.
— Não há tempo — a velha foi incisiva.
— ELE VAI CHEGAR! — berrou, a última sílaba se alongando em um gemido de dor.
— Ok, mas você precisa fazer isso enquanto espera.
— Não.
— Por favor, menina, seja razoável.
— Eu disse NÃO — cortou, agitando com força o rosto encharcado de suor de um lado para o outro para enfatizar sua negativa.
Porlyusica cobriu o rosto com ambas as mãos enrugadas, em exasperação. Depois que essa provação passasse, ela esperava não ter que ver outros humanos pelo resto de sua vida.
— Hime… — Virgo tentou argumentar, mas foi cortada por outro grito da loira.
— Lucy, você precisa cooperar — Loki, que havia retornado após acompanhar Macao para um lugar seguro, afirmou, seu timbre um misto de gentileza e aflição.
— Por favor, parem — pediu a maga estelar, num fiapo de voz.
Os espíritos e a velha curandeira se entreolharam, a derrota marcando a expressão de cada um deles.
— Você continua mesmo sendo uma pirralha mimada e problemática — uma voz grave conhecida se fez presente para repreendê-la.
Lucy piscou os olhos castanhos, desorientados pela dor, até que conseguissem focalizar a figura da sereia que flutuava ao lado de seu leito.
— Aquarius — murmurou baixinho, reconhecendo a presença do seu espírito mais antigo.
De sua primeira amiga.
— Mas como…
— Sua bolsa rompeu e molhou por toda a parte. Eu poderia te matar por ter sujado a minha chave, mas já que isso é mais culpa da pirralha do Natsu do que sua, vou deixar passar — explicou, em tom mais ameno.
Lucy conseguiu até mesmo soltar uma risada fraca.
— E então? A menina quer sair. Você vai ajudar ou vai continuar agindo como a idiota inútil que eu sempre disse que era? — instigou.
— Ei! — Porlyusica protestou, devido às palavras rudes, embora ela mesma estivesse com vontade de sacudir Heartfilia.
No entanto, conteve novas repreensões quando Loki ergueu uma das mãos, sinalizando que aguardasse.
Mesmo que apelar para a lógica nas últimas horas não tivesse funcionado muito, já que os hormônios e o psicológico de Lucy a impediam de agir racionalmente, de alguma maneira, as palavras de Aquarius pareciam alcançá-la.
— Eu… Não posso. — Lucy choramingou. — O Conselho Mágico está lá fora. Ela não pode ficar sozinha quando me levarem. Ela precisa do pai — discursou, esfregando a barriga ansiosamente, caindo em prantos em seguida.
— Ei! — Aquarius chamou, com uma gentileza que lhe era extremamente estranha. — Não foi você que fez um escudo impenetrável para que pudesse trazer sua filha ao mundo em segurança? — lembrou. — Um dos três feitiços sagrados da Fairy Tail, e durante o trabalho de parto, nada menos — elogiou.
Lucy sorriu, tocada com o elogio. Vindo de Aquarius, isso era grande coisa.
— Você correu, se escondeu, implorou pela vida da sua filha e quebrou a lei para usar magia, tudo para que ela pudesse nascer. Vai mesmo colocar tudo a perder agora? — incentivou, com uma delicadeza surpreendente.
— Não sei se consigo fazer isso sozinha — admitiu.
A sereia suspirou, contrariada.
— Sabe, no passado eu tive outra contratante, que recebeu a missão de concluir um feitiço — começou a narrar.
— Aquarius — Loki chamou, em tom de advertência.
— Cala a boca, Leo! — esbravejou a sereia.
Ela sabia muito bem que, em regra, era proibido falar sobre contratos anteriores no mundo espiritual, mas sabia que poderia fazer daquela situação uma exceção.
— Como eu dizia, ela tinha a missão de concluir um feitiço. Uma missão que foi passada por muitas gerações, de mãe para filha, mas ela precisava das doze chaves para isso. Por circunstâncias alheias à sua vontade, uma das chaves se perdeu, apesar de sua determinação em completar a magia. E sabe o que ela fez? — indagou.
A sereia não tinha certeza se a loira estava acompanhando, pois naquele momento outra contração a atingiu, impelindo-a a jogar o corpo para frente.
No entanto, após a onda de dor, em meio a ofegos, Lucy perguntou:
— O que ela fez?
— Ela usou a própria força vital para preencher a lacuna mágica deixada pela chave faltante, e completou o feitiço, o que, infelizmente, custou caro. A própria vida, eventualmente — revelou. — E sabe por quê?
A maga estelar continuava encarando-a, com interesse.
— Para que o fardo e os riscos da missão não fossem transferidos para a filha que ela tinha. Ela estava decidida a completar a missão, para que a filha não ficasse presa a nada, e pudesse escolher o próprio destino — contou.
A loira assumiu uma expressão agridoce.
— Isso é lindo, mas triste. No fim, a filha ficou sem sua mãe — comentou, involuntariamente traçando um paralelo com a própria situação. — Ela ao menos foi livre?
— Sim, foi. Ela estabeleceu que ninguém nunca decidiria sua vida por ela, saiu, e se aventurou, com todas as decisões estúpidas que alguém pode tomar — relatou. — Particularmente, na época eu achei uma atitude bem idiota, sabe? Da mãe, no caso. Porque no fim, ela não pôde ficar por perto do que mais amava e deixou a filha sozinha. Mas não posso negar que isso me ensinou que mães são ferozmente corajosas, não importa o quão ruim a situação pareça.
— A filha não ficou sozinha. Ela não tinha vocês? — perguntou Lucy.
Aquarius sorriu com conhecimento de causa.
— Bem, se você pensa assim, por que acha que a sua filha estará sozinha? Nós não estamos aqui? — questionou.
Naquele momento, Lucy piscou para ter certeza de que não estava sonhando.
Novamente, podia vislumbrar todos os seus espíritos ali, com ela, na enfermaria. Tanto os de ouro quanto os de prata apareceram por conta própria, apenas para apoiá-la. E embora suas silhuetas fossem um tanto transparentes pelo esforço de se manterem naquele plano, suas palavras de encorajamento eram perfeitamente discerníveis.
Emocionada, a loura soluçou.
— E seus amigos da Fairy Tail? Não estão aqui dentro para protegê-la, e lá fora, lutando por você? Não foi para construir laços assim que você deixou a mansão Heartfilia? — questionou a sereia. — Não foi com esse mesmo afinco que eles lutaram por você, contra a Phantom Lord, quando mal te conheciam? O que te faz pensar que, se algo ruim acontecer, sua filha estará sozinha? — acrescentou, severamente.
— Não estará — afirmou Lucy, com convicção.
— E você também ainda está aqui — lembrou Aquarius, com irritação. — Minha outra contratante escolheu morrer pela filha, mas eu acho que você pode escolher tentar sobreviver pela sua — argumentou. — Isto é, se parar de ser uma completa idiota e começar a ajudá-la a nascer — concluiu, praticamente rosnando em irritação.
Lucy secou os olhos, colocando-se em uma posição mais sentada, embora o esforço tenha sido atrasado por outra contração dolorosa.
— Certo — concordou, assim que a dor aliviou. — Vamos fazer isso.
— Graças a Mavis! — Porlyusica exclamou, aliviada.
— Você vai me contar a história completa algum dia? — Lucy perguntou, encarando Aquarius, enquanto a velha curandeira a preparava.
— Vou, quando você precisar dela para encorajar sua própria filha. Tenho certeza de que seus genes idiotas combinados com os do Natsu são uma receita ainda pior para a estupidez — alegou.
Apesar dos insultos, Lucy riu, confortada pela constante que era a rispidez de Aquarius.
— Então presumo que preciso sobreviver até lá.
— Você entendeu.
A loira apenas acenou em reconhecimento, embora sua expressão fosse insegura.
Mas quando Porlyusica terminou de lhe dar as instruções, seus olhos queimavam de determinação.
Ela ainda teve um último vislumbre de todos os seus espíritos, antes que a maior parte deles desaparecesse, quando ela começou a empurrar.
Mas Aquarius ainda permaneceu ali.
— Você vai ficar bem — murmurou a sereia, enquanto a amparava por trás.
…
Natsu não deveria estar surpreso, já que todos os inimigos da Signum Sectionis que havia enfrentado no dia pareciam preparados para lidar com o elemento fogo.
Obviamente, não seria diferente com qualquer truque que tivessem na manga.
Tal convicção apenas se consolidou no momento em que se deu conta de que inúmeros espinhos de gelo cresceram no corpo da criatura, que rugiu segundos antes que todas as estacas pontiagudas fossem lançadas para todos os lados.
Aparentemente, sacudir o próprio corpo para livrar-se do gelo derretido com o fogo do dragon slayer havia dado uma ideia ao monstro.
Uma ideia que obrigou Natsu a voar para longe, desviando dos inúmeros espinhos e colocando uma distância ainda maior entre ele e o objetivo de alcançar sua companheira e filha.
Ele voou para trás, ganhando altura, enquanto a criatura rugia e se preparava para lançar uma nova saraivada. Era sempre a mesma coisa. O monstro se regenerava, atacava, Natsu desviava, causava danos superficiais, e o ciclo recomeçava.
O mago do fogo rangeu os dentes, frustrado. Ele havia caído numa espécie de looping, e o monstro não deixava margem para que ele desviasse do ciclo. O que quer que tivesse que fazer para vencer teria que ocorrer dentro daquelas ações repetitivas.
"Mas como esperar chegar a um destino diferente pegando sempre o mesmo caminho?", refletia enquanto as asas escamosas se agitavam no ar frio.
Um tapa certeiro desferido pela mão gelada da criatura, após um desvio mal calculado, fez com que sua mente ficasse em branco por um instante, enquanto ele era lançado contra as montanhas, atravessando picos de pedra na trajetória, que simplesmente explodiram e deixaram de existir com a força do golpe.
Afinal, aquilo não era estranho. Sendo lançado naquela velocidade, Natsu era praticamente um projétil humano flamejante.
Projétil humano.
A mente atordoada de Natsu refletia que isso poderia funcionar.
Tentando se recuperar para desviar de uma sequência de golpes físicos perpetrados pelo gigante, Natsu observou novamente o oponente — a couraça espessa, os espinhos, o peito maciço que se erguia e abaixava como se respirasse. A regeneração era rápida, mas não instantânea. Havia um intervalo. Um momento entre o dano e a recuperação, mas para que ele o atingisse no momento certo, precisava de velocidade.
E para alcançar essa velocidade, precisaria de distância.
Ainda desviando dos golpes, suspirou, frustrado. Para que funcionasse, ele precisaria desferir um golpe poderoso o suficiente para ensejar a regeneração do monstro antes de tentar perfurá-lo, mas o tempo que levaria para atingir a distância para alcançar velocidade necessária para a perfuração, faria com que o intervalo em que poderia atingi-lo desaparecesse. "Se eu ao menos tivesse um impulso externo", lamentou, após ser atingido novamente num segundo erro de cálculo.
Porém, dessa vez, suas costas, apesar das escamas que a protegiam aqui e ali, não foram feridas por pedras pontiagudas.
Em vez disso, Natsu sentiu estacionar em algo macio.
Mais estranho ainda, a sensação contra a sua pele draconizada era etérea.
Ele abriu os olhos ferinos, não se surpreendendo ao vislumbrar a figura gigantesca — tão grande quanto o monstro que enfrentava antes — que o tinha nas mãos. Os olhos profundos e vazios, como fendas escarlates. O elmo de estrelas combinado com a armadura brilhante. A pele azulada e cintilante, como o céu noturno e, o mais marcante, os bigodes enormes que facilmente alcançavam o torso.
Por alguma razão, Natsu estava na mão do Rei dos Espíritos, que, ao perceber o reconhecimento nos olhos dracônicos, abriu seu largo sorriso característico antes de dizer:
— Minha velha amiga o espera.
O mago do fogo ergueu-se com dificuldade para ficar de pé sobre a palma da mão do gigante.
— Eu estou fazendo tudo que posso — respondeu, simplesmente.
O gigante gentil pareceu avaliá-lo, com paciência quase reverente.
— Ela sabe. Mas ainda precisa de você — declarou, a voz estrondosa ecoando pela cidade. — Espero que não se importe com uma ajudinha, embora, nessa forma de invocação, eu não possa permanecer muito tempo — avisou.
Não era uma ocorrência inédita. Lucy já havia conseguido atraí-lo para aquele mundo antes, em outra ocasião, em que todos os seus espíritos encontraram o caminho até ela. Isso deixava uma brecha entre o mundo espiritual e o mundo terreno grande o suficiente para que ele pudesse passar.
Infelizmente, não forte o bastante para que pudesse permanecer.
Para que isso acontecesse, o preço seria muito mais alto, e o sacrifício, cruel.
E Lucy não estava em condições de fazer isso agora.
Então, o pouco tempo e energia que tinha teriam que servir.
Natsu preparou-se, voltando os olhos para o outro gigante, que ainda ameaçava a segurança de sua família.
Normalmente, ele recusava qualquer tipo de ajuda que não viesse de Happy. Considerava intervenções em luta uma afronta, uma provocação. Um desafio à sua força, mesmo que ele próprio fizesse isso o tempo todo, especialmente para proteger sua família.
E bem, ali estava ele novamente, precisando protegê-los.
Agora era a sua vez de aceitar toda a ajuda que pudesse, para mantê-los a salvo.
Já não havia orgulho nele, apenas a mais pura necessidade de proteção.
— Quão rápido você consegue me lançar, bigodão? — provocou, preparando-se para mais um ataque que reiniciaria o ciclo de regeneração.
O Rei dos Espíritos emanou sua risada característica.
— Bem, se a gestão do mundo espiritual não ocupasse tanto tempo, eu poderia muito bem ser um jogador de beisebol fabuloso — gabou-se.
— Lucy vai adorar saber disso — comentou o mago do fogo, antes de respirar fundo e emitir outro rugido de fogo, que cobriu a criatura completamente.
Antes que a coluna de fogo decorrente se dissipasse, ele já havia sido puxado bruscamente para trás pela mão enorme do Rei dos Espíritos e lançado novamente para frente.
Ele não precisava de muitos golpes.
Precisava de um.
Um só, que perfurasse a couraça congelada e atingisse o âmago da criatura.
Não sabia o que encontraria lá dentro. Talvez o coração do monstro. Talvez a fonte da magia que o mantinha vivo. Talvez nada. Mas não havia tempo para ter certeza.
Ele já havia apostado tudo no ataque suicida.
Natsu não conseguia respirar enquanto cortava o espaço com violência. O ar gelado queimou seus pulmões, mas o fogo em seu peito queimava mais.
Ele concentrou todo o poder que tinha. Não nas mãos. Não na boca. No corpo inteiro. As chamas o envolveram como uma armadura viva, mais intensas do que antes, mais quentes, quase insuportáveis até para ele.
As asas estavam encolhidas para diminuir a resistência.
Não era um voo. Era um disparo. Um projétil humano, flamejante e mortal, cortando o céu noturno como uma estrela cadente.
O monstro rugiu e lançou outra saraivada de espinhos — dezenas, centenas de estacas de gelo que preencheram o céu à sua frente.
Não havia como desviar.
Os espinhos rasgaram suas asas, seus braços, suas costas. O gelo queimava como fogo contra sua pele em chamas, e ele sentiu cada corte, cada perfuração, enquanto ganhava velocidade.
Sem se importar com o que quer que acontecesse com o seu corpo naquele momento.
Preocupando-se apenas em encontrar Lucy e seu bebê depois de chegar ao outro lado do que quer que atravessasse.
Ele viu o peito do monstro se aproximando — a enorme e rígida massa de gelo.
Seus olhos se fecharam em preparação ao impacto.
As chamas se concentraram mais intensas em sua cabeça, tão densas e contrastantes com o ambiente enevoado.
O rugido saiu de sua garganta junto com o fogo, e então ele colidiu.
O impacto foi ensurdecedor.
O gelo se partiu como vidro.
Natsu atravessou o peito do monstro como uma bala, abrindo um buraco fumegante na couraça, estilhaços voando para todos os lados.
O monstro rugiu novamente — um som diferente agora, não de fúria, mas de dor. De agonia. O gelo ao redor do buraco aberto pelo golpe começou a rachar, as fissuras se espalhando como teias de aranha.
A criatura tentou se regenerar, mas não conseguiu.
As rachaduras se aprofundaram, o gelo escureceu, e o gigante começou a desmoronar. Primeiro os braços, que se desprenderam do tronco com um estrondo seco. Depois as pernas, que cederam sob o peso do próprio corpo. Por fim, o enorme tórax se partiu ao meio, e a criatura despencou sobre si mesma, reduzindo-se a um monte de gelo inerte.
O dragon slayer sentiu a resistência do gelo cedendo centímetro por centímetro, antes que ele próprio despencasse.
Novamente, em um lugar macio.
De alguma forma, o Rei dos Espíritos o havia amparado novamente, e sorriu para ele antes de colocá-lo no chão e desaparecer em uma nuvem de estrelas.
Nuvem essa semelhante àquela que surgia sempre que ocorria a destruição de um corpo mágico.
Natsu observou, ao seu redor, os pedaços que constituíam uma montanha de gelo, outrora parte do monstro que enfrentara, se dissolverem em milhões de pontos mágicos que flutuaram em direção ao céu, deixando para trás apenas um corpo frágil e debilitado, onde antes se encontrava o centro dos destroços.
Um jovem que havia sido loiro, com um corte de cabelo esquisito.
O rapaz estava encolhido, o corpo humano novamente, mas translúcido como vidro, as runas de gelo que antes cobriam sua testa agora queimadas na pele, como se tivessem sido produzidas por ferro em brasa. Sua pele era pálida, quase azulada, e seus olhos verdes estavam abertos, mas vazios — fixos em algum ponto distante do céu noturno.
Natsu caminhou até ele pesadamente, as pernas trêmulas, o corpo coberto de cortes e queimaduras de gelo. Sangue escorria de sua testa, misturando-se ao suor. As asas estavam rasgadas em vários pontos, e sua respiração era ofegante, irregular.
No entanto, ele não sentia a dor.
Sentia apenas a raiva de quem havia ameaçado sua companheira e filha, e a certeza de que não teria outra oportunidade de fazer isso novamente.
Cada passo pesado deixava marcas de pegadas queimadas no chão congelado. Sua mão direita ainda ardia em chamas, a garra se alongando ainda mais.
Em algum ponto, Niall conseguiu perceber sua aproximação, mas mal reagiu.
Ele já havia aceitado o seu fim no momento em que escreveu a maldição sobre a própria pele. Porém, ainda era frustrante saber que morreria sem ao menos contribuir para o cumprimento da missão do seu povo.
Aquilo era estranho, na verdade.
Sempre aprendera que um dos efeitos da maldição de se tornar o demônio de gelo, era ter suas memórias e sentimentos congelados.
Mas ali estava ele, lamentando seu fracasso e o de seus companheiros.
Bem, ele supôs que não havia muitas pessoas que haviam executado o feitiço antes, ao ponto dos efeitos serem estudados com precisão.
Não que isso importasse agora, enquanto fitava os céus, os lábios se movendo sem que se desse conta realmente, enquanto aguardava o fim inevitável.
O som produzido era praticamente inaudível para ouvidos comuns.
Mas não para a audição de um dragon slayer.
— Bem… tanto faz — declarou com dificuldade. — Com o caminho que escolheram… V-você… vai acabar chegando ao m-mesmo lugar que eu, de q-qualquer maneira — completou, abrindo um sorriso leve, mas perverso.
Natsu se agachou sobre ele.
— Vovó… — notando as garras flamejantes se aproximando de seu pescoço, o rapaz murmurou. — Desculpa… Não consegui… voltar… — declarou, fechando os olhos quando estava prestes a ser perfurado.
Natsu impulsionou as garras para baixo.
— Hoje não, Salamander.
Os olhos ferinos de Natsu se desviaram do pescoço da sua presa para se fixarem na mão recoberta de escamas de aço que segurava seu pulso.
Em seguida, voltaram-se para o rosto de Gajeel, que, inclinado próximo a ele e completamente recoberto por sua armadura negra, o encarava com seriedade.
— Você não vai querer se lembrar desta data como o dia em que também matou alguém — discursou Gajeel, com gentileza, a fim de dissuadi-lo de seu intento homicida.
O dragon slayer do fogo hesitou.
As chamas em suas garras vacilaram.
Ele olhou para o jovem caído, derrotado, os olhos perdidos murmurando desculpas para uma avó que não estava ali. Não era mais uma ameaça. Era apenas um garoto quebrado, doutrinado a vida inteira para acreditar que matar era o único caminho.
Natsu desviou o olhar.
As chamas se apagaram.
— Eu preciso ir — disse, a voz áspera, enquanto baixava a mão.
Gajeel assentiu, soltando o pulso do outro.
— Tira logo essa sua bunda flamejante daqui. A loirinha está te esperando.
Natsu não respondeu. Abriu as asas rasgadas, sentiu a dor latejar em cada membrana ferida, e se lançou ao céu.
O vento gélido atingiu seu rosto, mas ele não desviou.
A guilda estava ali, ao longe, protegida por uma estranha redoma dourada, brilhando como uma estrela caída no meio da cidade destruída.
E Lucy estava lá dentro.
Então era lá que ele precisava estar.
…
Lucy agarrou os lençóis com força, os nós dos dedos brancos. O suor escorria de sua testa e os fios dourados de seus cabelos grudadavam na pele. Os olhos castanhos estavam vidrados — não de dor, mas de foco. Do foco desesperado de quem já não pode recuar.
— Descanse antes da próxima — Porlyusica orientou, enquanto examinava a parturiente, as mãos enrugadas mas firmes.
— Eu não posso continuar com isso — soluçou, embora o corpo já se preparasse para a contração seguinte.
— Pode — cortou Porlyusica. — Seu corpo sabe o que fazer e está fazendo bem — encorajou a curandeira.
A loira estava um tanto cética, mas quando a nova contração veio, não era como se ela conseguisse fazer outra coisa além de ceder à vontade irresistível de empurrar e gritar.
Aquarius apertou as mãos nos ombros da maga, que vinha segurando desde que o trabalho expulsivo começara, murmurando palavras de encorajamento, que muito bem poderiam ser xingamentos sussurrados. Lucy não saberia dizer, a mente enevoada por toda dor, mas ao menos a voz familiar a mantinha ancorada na realidade ao seu redor.
Virgo estava aos pés do leito, segurando uma bacia com água morna e panos limpos, e Áries se encontrava de prontidão do outro lado.
Loki, por respeito, havia se retirado do quarto, mas se mantinha em guarda do outro lado da porta, apenas por segurança, porque todos sabiam que, com a Fairy Sphere, era altamente improvável qualquer ação inimiga.
Lucy havia feito um excelente trabalho defensivo.
Agora ela só precisava superar aquele momento.
— Eu vejo a cabeça. Ela coroou — avisou a velha, satisfeita com o progresso.
— Bem, acho que a menos que você consiga ver o corpo inteiro, meu problema não estará resolvido — a maga estelar retrucou, entredentes.
— Pirralha malcriada — a curandeira resmungou, embora sorrisse um pouco. — Vamos lá, a próxima está vindo.
— Mavis, não! — Lucy reclamou mas, logo em seguida, já estava empurrando, o grito preenchendo o ambiente de forma ensurdecedora.
Tão alto e potente que abafou quase que completamente o barulho de madeira partindo e vidro se estilhaçando quando Natsu, num erro de cálculo, quebrou a janela ao simplesmente irromper enfermaria adentro.
— Por que você não usa a droga da porta? — ao fim da contração, a loira ainda teve forças para gritar, e ao notar que, não, seus olhos não estavam enganados e Natsu estava de fato ali — embora em uma versão muito menos humana e muito mais dragão.
— Atalho — redarguiu ele, ao tentar se aproximar de forma desesperada.
— Você não está no melhor estado para permanecer em uma sala de parto, sabia? — indagou Porlyusica, insegura com tantos ferimentos.
Em resposta, Natsu abriu suas asas (asas!) e voou para trás, antes de se tornar uma mancha incandescente que aqueceu todo o local.
— Você quer nos matar? — a velha reclamou.
— Esterilização instantânea — retrucou, em resposta.
— Deixa ele ficar — Lucy exigiu, entredentes, sentindo o início da próxima contração.
— Vou deixar isso com você, agora — Aquarius anunciou, antes de nadar no ar em direção ao próximo leito.
Natsu assentiu, agradecido, assumindo o lugar dela para sentar atrás de Lucy, as pernas a contornando, as mãos em garras segurando as dela de forma cuidadosa.
A maga estelar apertou a pele escamada e gritou, enquanto empurrava.
Porlyusica então decidiu que não precisava se preocupar com a aparência do dragon slayer, ou com o estado lamentável dele agora, desde que isso contribuísse com o progresso de Lucy.
Afinal, tudo que poderia ter dado errado, até então, já havia dado. Ela só deveria agradecer a sorte de o pai da criança ter chegado a tempo, o que tornara Lucy evidentemente mais tranquila.
— A cabeça está vindo — avisou, o que pareceu conceder ânimo adicional à maga estelar, que, ao terminar de empurrar, desabou contra o peito de Natsu.
— Eu não posso mais — reclamou, o rosto encharcado de suor e lágrimas.
— Pode sim — Natsu incentivou. — Tudo o que você fez, sonhou e planejou nos últimos meses foi para este momento — lembrou. — Não é perfeito como você desejava, nós não resolvemos tudo o que precisávamos e tem mais fogo e explosões do que qualquer um consideraria saudável, mas mostra que essa pirralha definitivamente é membro da Fairy Tail — brincou.
Lucy quase riu. Quase.
— Não chame a nossa filha de pirralha — ralhou, percebendo que o corpo se preparava para uma nova contração.
— Então que tal você empurrar mais um pouco para que ela saia logo e possa finalmente chamá-la pelo nome que escolhemos? — incentivou.
— Só mais uma, Lucy — Porlyusica encorajou.
— Você consegue, hime — Virgo declarou, enquanto Áries se desculpava.
— Anda logo, sua idiota — Aquarius completou, porém em tom afável que combinava com seu olhar estranhamente suave.
— Natsu — Lucy chamou, lutando para manter o fôlego. — Não importa como tudo tenha acontecido. Eu nunca me arrependi dela — expressou, novas lágrimas rolando por seu rosto. — Obrigada por não me deixar fazer isso sozinha.
— Enquanto eu viver, Lucy — começou ele com convicção —, você e nossa filha nunca estarão sozinhas.
A loira apenas assentiu, sinalizando que havia assimilado as palavras, antes de começar a gritar novamente, depositando cada grama de sua determinação no próximo empurrão.
Quando acabou, Lucy se jogou novamente contra o peito de Natsu, e, embora estivesse completamente esgotada, seus olhos castanhos, enevoados pelo cansaço, se moviam de um lado para o outro, tentando processar a cena à sua frente.
Depois de se mexer freneticamente, realizando uma série de procedimentos, Porlyusica ergueu, com a expressão preocupada, algo pequeno, muito pequeno.
Sua filha?
Deveria estar tão silenciosa assim?
— Natsu… — murmurou, a preocupação devolvendo o ânimo para seu corpo.
O dragon slayer, que também vinha mantendo os olhos ainda ferinos fixos na cena, olhou para ela com preocupação antes de acenar para que Virgo e Áries assumissem seu lugar.
— O que está acontecendo? — amparada pelos espíritos, perguntou a loira, desesperada, vendo que Porlyusica havia se afastado para outro leito e, de costas para eles, fazia movimentos frenéticos.
Natsu não demorou a alcançá-la.
— Me entregue ela — determinou.
A velha o encarou como se ele estivesse completamente louco.
— Me dê! — Natsu repetiu, quase desesperado.
— Garoto, eu preciso…
O que quer que ela pretendia dizer morreu em seus lábios no instante em que ela contemplou o misto de desespero e determinação contido nas íris amareladas do mago do fogo.
Sentindo que poderia estar fazendo uma aposta arriscada, a mulher pegou o pequeno corpo e colocou cuidadosamente nos braços ainda escamosos do dragon slayer, que se viu completamente hipnotizado, por um instante, com o que tinha em mãos.
O rosto redondinho, um tanto amassado.
A penugem rosada no topo da cabeça.
As bochechas gordinhas.
A boca em formato de coração.
Era a coisa mais linda que havia visto na vida.
Ele queria tanto que as pálpebras de cílios longos se abrissem para que ele pudesse contemplar os olhos e descobrir que cor teriam, mas eles estavam fechados para a vida, tanto quanto o pequeno corpinho permanecia imóvel, indiferente ao fato de ter chegado a aquele mundo.
Seu peito apertou como nunca antes, os sentimentos completamente esmagados.
— Como ela está? — Lucy perguntou, desesperada.
Natsu não respondeu. Em vez disso, se abaixou para farejar a criança, gentilmente.
Todos os presentes observaram, com os fôlegos suspensos, o momento em que os traços dracônicos começaram a recuar, trazendo de volta a versão de Natsu com as características físicas que todos conheciam, embora as lesões ainda permanecessem.
Mas o que alarmou a velha curandeira e os espíritos celestiais foi a maneira como o dragon slayer se permitiu incendiar, o corpo inteiro sendo envolvido por chamas intensas, porém estranhamente gentis, que também alcançaram o bebê em seus braços.
— Você perdeu o juízo! — a velha esganiçou, enquanto os espíritos gritavam.
Lucy, porém, embora atônita, continuava encarando o dragon slayer com confiança.
Era a filha deles que ele tinha nos braços.
Natsu, por sua vez, mal assimilava os sons ao seu redor.
Tudo que ele conseguia escutar e sentir eram batidas intensas, um pulsar que reverberava por todo o seu corpo e parecia fazer aumentar a sensação de superaquecimento.
Porém, conforme as batidas suavizavam, sua audição sensível captou algo mais.
Uma batida mais suave.
E então, uma inspiração muito leve.
E, finalmente, um resmungo indignado.
Que foi logo acompanhado por um choro agudo, irritado e barulhento.
Um largo sorriso praticamente rachou o rosto do dragon slayer ao meio, deixando visíveis todos os seus dentes e presas.
Os olhos, novamente negros como obsidianas, voltaram-se para Lucy, exultantes.
— Ela está aqui, Lucy! — exclamou, emocionado. — Nasha está aqui. Pequena, gosmenta e barulhenta.
A maga estelar soluçou, novas lágrimas escorrendo por suas bochechas, num misto de choro e riso, enquanto estendia os braços em direção ao mago do fogo, ansiosa para ter o bebê em seus braços.
Natsu não se demorou em atendê-la, e logo ele estava estendendo a criança que se remexia impaciente sobre o colo da mãe.
Foi tudo o que ele conseguiu fazer antes que tudo escurecesse estranhamente, suas últimas lembranças daquele momento sendo o choro da filha e os gritos de Lucy, cada vez mais distantes.
…
Levy adentrou o apartamento com passos rápidos, enquanto Mystogan a esperava junto à porta, respeitosamente.
Ela chegou a acreditar que teria dificuldade de acessar o local, mas o ataque de uma seita assassina, seguido de uma nevasca sobrenatural e do surgimento de um gigante grotesco, foi o suficiente para afugentar os outros moradores da casa, então eles entraram no prédio com relativa facilidade.
O difícil foi chegar até ali, com soldados inimigos remanescentes os interceptando quase a cada esquina, mas Mystogan também lidou com eles com competência impressionante.
Levy suspirou, se permitindo um breve instante de alívio, antes de passar os olhos atentos sobre todo o local a fim de encontrar o que procurava.
O lacrima decorativo estava sobre a escrivaninha.
A maga caminhou até lá, ficando mais aliviada a cada passo, visto que a estrutura da pequena redoma de vidro pareceria estar intacta.
Ainda assim, por segurança, decidiu sacudir a pequena esfera vítrea a fim de conferir se permanecia funcional, encantando-se com o arco-íris de cores projetadas em todas as direções, assim como ocorrera na primeira vez que Lucy lhe mostrara o presente.
Natsu podia aparentar ser um idiota na maior parte do tempo, mas definitivamente sabia conquistar com gestos.
As luzes dançantes, porém, chamaram a atenção de Levy para outro objeto que estava sobre a mesa, o qual ela pegou, apreensiva.
— O que foi? — Mystogan questionou, alarmado.
— Nada — apressou-se em responder, embora seus olhos começassem a vasculhar o local novamente de forma frenética. — É só que… — continuou, até que as íris esverdeadas estacionaram sobre o que buscavam. — Já passou da meia-noite — comentou, fitando o relógio de ponteiros pregado na parede oposta, que evidenciava que estavam no novo dia há pelo menos vinte minutos.
Por baixo da máscara, Mystogan franziu o cenho.
— E isso é um problema?
A menina deu de ombros, insegura, embora tenha estendido para ele o outro objeto que lhe chamara a atenção na mesa.
O mago pegou o pequeno bloco, notando que se tratava de um calendário, e compreendeu a aflição da outra tão logo fixou os olhos na data atual.
7 de julho de X792.
07/07.
Qualquer um que conhecesse, mesmo que minimamente, a história dos dragon slayers e a trajetória da Fairy Tail sabia o quão problemáticos aqueles números poderiam ser.
Dentro do apartamento, os dois magos se entreolharam, compartilhando do mesmo pensamento.
Fora, os últimos focos de batalha cessavam.
Niall dava seu derradeiro suspiro diante de Gajeel.
A neve finalmente derretia.
E a filha de Natsu e Lucy vivia seus primeiros momentos de vida.
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