Conspiração Divina - Versão I
25 Vigiados.
Notas iniciais
Meu coração falhou uma batida, o susto estava estampado em meu rosto. Só pude relaxar completamente quando a voz de Evan soou por dentro do capacete, eu mal podia ouvi-lo — por conta do barulho do motor — mas escutei perfeitamente quando ele disse para eu subir na garupa e me entregou o capacete.
Pensei nos motivos reais de me fazer sair correndo dali, não queria falar com Evan tão cedo, ainda estava na etapa em que eu devo absorver o assunto. Mas entre encará-lo e ficar ali, no meio do nada e correndo o risco de ser assaltada, eu não tinha duvidas em escolher a primeira opção.
Peguei o capacete, preste a colocá-lo na minha cabeça, quando parei bruscamente e murmurei.
- Preciso ir para a Rosa Negra.
- Fazer o quê lá? — Um riso ecoou de sua garganta, como se ele estivesse achando tudo o que eu disse engraçado demais. — Não me entenda mal, mas aquele não é o tipo de lugar que você frequenta.
E não era. Essa era a segunda vez que eu escutava isso.
O ignorei, me contentando em dizer apenas o necessário.
- Vou encontrar Sophie. — Ouvi Evan bufar e sabia que viria mais piadinhas ou alguma zoação do tipo, dessa forma me apresei em completar. — Vai me levar até lá?
Podia jurar que ele tinha revirado seu olhos antes de responder. Esse era o tipo de reação que Evan tinha quando eu dizia algo absurdo. E ir até a Rosa Negra, numa noite fria como aquela, era realmente uma coisa absurda.
- Suba.
Agradeci mentalmente ao fato de ele não ter feito mais perguntas, nem algum comentário, era bem mais fácil lidar com aquele contato quando ele permanecia de bico fechado.
Coloquei o capacete e pulei na garupa. Já fazia uma semana que eu não me aventurava em uma moto, visto que a última vez não foi uma coisa sã de se fazer. Apesar do perigo, que eu sabia que era eminente, me sentia segura fazendo qualquer coisa com Evan. Aquela segurança toda me assustava na maioria da vezes, mas ainda assim era algo bom em se sentir durante todo aquele inferno que estava sendo a minha vida.
Daniel não tocou mais no assunto do assassinato de Amber, mas sabia que assim que tivesse chance, acusaria Evan novamente. No fundo eu agradecia mentalmente, as vezes me pegava pensando que aquilo tudo não passava de um sonho ruim, pensava que assim que acordasse daria de cara com Amber me chamando para ir ao shopping. Sem assassinatos, sem dramas. Daria tudo para tê-la por perto e não desistiria de saber o que aconteceu de verdade. Mas naquele momento, já existiam muitas coisas para serem absorvidas, não estava pronta para lidar com alguma revelação que me tiraria o chão. Já era demais saber a história verdade de Evan e Sophie, as duas pessoas que significavam muito para mim, além da minha família. Cogitei a ideia de ficar nervosa e sair por aí infligindo leis e quebrando as regras, mas aquela com certeza não seria uma reação minha, dessa forma me contei a ficar com o chamado "choque". E ainda estava. A confusão era tudo o que dominava a minha mente naquele dia, tentei me convencer de que tudo aquilo era uma brincadeira sem graça, mas no fundo eu sabia que era real.
Me lembrei do motivo que estava me levando para o Rosa Negra, iria indagar Sophie e tentar obter respostas. Mas, bem, ali estava Evan, talvez ele pensasse que me devia respostas e talvez as desse para mim.
Evan parou a moto na esquina da boate, tirando seu capacete e desligando a motocicleta. Fiz o mesmo com o meu e pulei da moto, prendendo meu cabelo em um coque mal feito e tentando ignorar o olhar que eu sabia que queimava em mim. Suspirei, como quem não quisesse nada e falei.
- Você vai entrar?
- Prefiro esperar aqui. — Rebateu, tirando um maço de cigarro seu bolso e ascendendo um em seguida.
O encarei, não esperava por aquela resposta.
- Vai me esperar aqui? — Ele assentiu. — A noite toda? Você não sabe quando tempo vou demorar.
- Não vai demorar muito. — Respondeu, soltando toda a fumaça do cigarro, e sorrindo sacana para mim. — Você, provavelmente, é o tipo de garota que só vem à um lugar desse, quando quer interrogar alguém.
- Você não sabe que tipo de garota eu sou.
- Não. Mas sei que veio aqui perguntar à Sophie sobre o nosso passado.
- Você fala como se já tivessem tido algo. — Eu sabia que aquele não era o momento certo para expressar ciúme, mas bem, talvez não existisse momento certo.
- Talvez.
Ignorei o duplo sentido em sua voz, e varri o ciúme e a raiva que me imundavam para longe.
- Se está tão preocupado com o que eu vim fazer aqui e se acha que vim perguntar coisas para Sophie. Porque você mesmo não me conta?
- Porque você não quer saber.
- Essa é a única resposta que você tem? — Ok, talvez minha voz tenha soado alta e raivosa demais, procurei abaixar o tom e manter a calma, mas essa não era uma tarefa fácil. — Seja mais criativo.
- Eu sou criativo. — Ele riu irônico e então pulou da moto, encostando apenas sua bacia na mesma. — E também sou realista, Melanie. Você já está surtando com o pouco que sabe. Se soubesse a história toda, provavelmente, enlouqueceria.
- Não fale por mim. — Essa foi a minha vez de rebater. Sabia que Evan estava certo, mas meu orgulho era demais para admitir isso. Procurei me manter firme e não me deixar abalar por qualquer coisa que ele dissesse. — Me conte tudo, acho que você deve isso para mim.
Ele suspirou, jogando o cigarro no chão e pisando em cima do mesmo.
- Você está certa. — Se rendeu. — Ligue para Sophie, diga que houve um imprevisto e que você tem coisas para resolver.
- Ela não vai cair nessa.
- Pense em outra coisa então.
Bufei, buscando o celular no bolso da minha calça e discando os números depressa.
- Sophie?
- Ah, oi Mel. Já chegou?
Olhei para Evan, que mantinha seus olhos fixos no outro lado da rua. Sua testa levemente enrugada e suas sobrancelhas juntas. Revirei os olhos.
- Houve um imprevisto. — Murmurei. — Vou voltar para casa, tudo bem?
- Oh, claro. Te ligo de manhã, ok?
Concordei desligando o telefone e o colocando na calça novamente. Encarei Evan, que ainda mantinha seu olhar no outro lado da calçada, aquilo estava começando a me preocupar.
- Tudo bem?
- Temos companhia.
Pude sentir minhas mãos suarem, isso acontecia sempre que eu estava nervosa e aquele era um desses momentos.
- Quem?
- Arcanjos.
- Como na bíblia? — Perguntei me aproximando, tentando olhar do mesmo angulo que o dele. — Não estou vendo nada.
- Pior que na bíblia. — Respondeu se desencostando da moto e me entregando o capacete novamente. — Eles não querem ser vistos.
- Eles vão nos matar? — Indaguei colocando o capacete.
- Pare de pensar que todos vão nos matar. — Evan riu amargo. — Vamos dar o fora daqui.
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