Consolo

1 Consolo


Notas iniciais
Postei no Social Spirit e resolvi postar aqui também, porque não consigo me desapegar do Nyah! Fanfiction...
Resolvi escrever essa oneshot porque tenho sofrido demais com o mangá, mas me atrasei um pouco pra finalizar ela, já que já estamos no capítulo 285 lol. Então ela diverge um pouco da linha original, então considerem-na até o capítulo 282 (283 no máximo).
Boa leitura!

— Ah, não se mova!

Sentiu alguém lhe empurrar, pressionando-o contra uma superfície sólida. Tentou empurrar a pessoa para longe, mas era como se não tivesse força alguma em seus braços, então começou a se remexer, desesperadamente tentando se livrar daquelas mãos.

Mãos.

— Sedativo! Alguém traga um sedativo! -A pessoa berrou, sua voz estridente fazendo com que um zumbido irritante ressoasse nos ouvidos de Shouta. Grunhiu, sua voz soando fraca e cansada. Será que sempre soava assim? – Aizawa-san, você precisa ficar parado, ou não iremos conseguir conter a hemorragia.

Hemorragia?

Sentiu uma ardência em seu braço, uma dor tão pequena que parecia um beliscão. Por que estava sentindo dor? Em seu braço, em seu abdômen, em sua perna.

Sua perna.

Quis se levantar e apalpar o lugar onde sua perna ficava. Tinha que ter certeza de que havia feito aquilo. De que havia conseguido parar o efeito da bala. De que havia conseguido parar Shigaraki. Mas era como se seu corpo não colaborasse, como se insistisse que ele devia ficar grudado contra o chão ou o que quer que fosse que ele estava deitado em cima.

Tentou abrir os olhos, quase gritando ao sentir uma dor aguda se espalhar por toda a região de seus olhos. Era como se alguém estivesse segurando um maçarico contra seus olhos, queimando-o pouco a pouco. Como se alguém tivesse atravessado suas pálpebras com uma faca que fora segurada contra o fogo. Como se alguém estivesse rasgando seus olhos.

Sentiu um soluço se formar em sua garganta, finalmente se lembrando do que havia acontecido. Rock Lock e Manual o segurando. Endeavor e Ryukyu batalhando. Shigaraki avançando, a mão voltada para a frente e uma expressão aterrorizante em seu rosto. A voz de Todoroki, soando distante e assustada. O som das explosões de Bakugou. A voz de Midoriya o chamando, o som de seus soluços se distorcendo até que não conseguia ouvir mais nada. E então mais nada.

Todoroki.

Bakugou.

Midoriya.

Tentou se erguer mais uma vez, desespero se espalhando por todo o seu corpo. Conseguiu erguer metade de seu torso e quase caiu para o lado, sendo amparado por mãos firmes e pressionado contra a superfície novamente. Dessa vez não protestou, sentindo todas as forças deixarem seu corpo. Sentiu seu corpo ficar mais leve, a dor sumindo e os barulhos a sua volta diminuindo cada vez mais.

— Shouta!

Uma voz familiar lhe chamou, mas não teve forças para responder ou tentar reconhecer de quem era aquela voz estridente e desesperada. Não queria. Só queria descansar.

E fez.

.

Abriu seu olho esquerdo, sendo recebido por uma luz forte e branca. Fechou-o rapidamente, grunhindo dolorosamente.

Ótimo, estava no hospital.

Ergueu a mão até seu rosto, apalpando levemente a área onde seu olho direito ficava, deparando-se com curativos. Lentamente, voltou a abrir o olho, piscando algumas vezes para se acostumar com o ambiente. Olhou ao seu redor, tendo que contorcer seu corpo para checar a outra parte do quarto.

Deparou-se com Hizashi atirado em uma poltrona ao lado de sua cama, exaustão clara em seu rosto. Ainda estava com seu uniforme de couro e mexia no celular, digitando algo lentamente, como se estivesse tentando decidir o que deveria escrever. Voltou sua atenção para Shouta quando esse tentou se erguer com dificuldade, postando-se de pé ao lado da cama em um segundo, empurrando o marido levemente contra a cama.

— Shouta! Ei, amor... -Sua voz era suave e baixa, algo incrivelmente fora do normal. Isso incomodou Shouta, que tentou se erguer mais uma vez apenas para ser empurrado mais firmemente- Você precisa ficar deitado, não pode se levantar ainda. Não está em condições.

Tentou falar, sendo interrompido por um acesso de tosse. Hizashi esperou que se acalmasse, pressionando suavemente um copo de água contra seus lábios, ajudando-o a tomar pequenos goles. Após sentir sua respiração se acalmar um pouco, voltou seus olhos- seu olho- para o loiro, que o encarava com um sorriso que não alcançava seus olhos.

— Onde-

— Hospital, em Musutafu.

— Como-

— Todoroki e Manual o levaram até a ajuda após...após...- Hizashi se perdeu em suas palavras, empalidecendo cada vez mais.

Ergueu uma mão e afagou a bochecha do homem, que agarrou e apertou calorosamente sua mão, como se para se certificar que de ainda estava ali. De que ainda estava vivo.

Ao mesmo tempo que se sentia culpado por causa tanta preocupação em cima do marido, sentiu uma sensação de alívio se espalhar por seu corpo. Todoroki estava bem. Todoroki estava vivo. Sentiu seu olho se encher d’água e sentiu Hizashi começar a afagar sua mão, que começara a tremer.

— Shouta-

— Todoroki- Disse, sua voz grave e rouca. Pigarreou, tentando afastar aquela sensação horrível em sua garganta. Voltou o olhar para Hizashi, que se aproximava novamente com a água, mas balançou a cabeça, recusando- Onde...Como...

— Ele está bem, Shouta, não precisa se preocupar.

Respirou fundo, sentindo uma lágrima descer por sua bochecha lentamente. Hizashi levou a mão à sua bochecha, secando a lágrima com seus dedos em um gesto de consolo.

— Bakugou...Midoriya...

A expressão de Hizashi vacilou, e sentiu seu coração dar um salto. Tentou se erguer de novo, sendo detido pelo marido mais uma vez. Seu coração acelerou, e de repente se sentiu sufocado. Tentou se livrar do lençol que o cobria, mas Hizashi tomou ambas suas mãos e aproximou o rosto do dele, uma expressão séria em seu rosto.

— Shouta, acalme-se- Shouta parou, encarando os olhos verdes do homem. Fez o seu melhor para imitar a respiração do marido, que pacientemente esperava Shouta se acalmar. Encostou a cabeça contra o travesseiro, sentindo-se incrivelmente exausto. Era como se um elefante o tivesse usado como trampolim. Hizashi engoliu em seco, e Shouta sentiu as mãos do homem tremerem- Estão todos bem, Shouta.

Não acreditou. Não tinha como acreditar. A face branca de Hizashi, suas mãos e voz tremendo, a expressão culpada e preocupada em seu rosto. A forma como se encolhia, como se Shouta fosse começar a berrar com ela a qualquer segundo.

Vira-o assim apenas uma vez. Vira-o assim anos atrás, quando ainda eram estudantes na UA. Vira-o assim quando apenas os dois continuaram em frente a uma cova recém feita, os dois a encarando com olhos vidrados e vazios.

Queria vomitar.

— Ugh- Gemeu, sentindo seu estômago se embrulhar. Hizashi se ergueu rapidamente, correndo em direção a porta.

— Enfermeira!

Vomitou ao lado da cama, a visão escurecendo logo em seguida.

.

Acordou no meio da madrugada, deparando-se com uma poltrona vazia. Esticou o braço, pegando a nota em cima da cômoda ao lado de sua cama, analisando a nota de Hizashi com cuidado. Depois de anos de relacionamento, era fácil dizer quando “estou indo ao banheiro” na verdade queria dizer outra coisa. Sentiu uma pontada em seu peito e um gosto amargo em sua boca.

Fui visitar a Nemuri. Volto amanhã pela manhã.

— Zashi

Imediatamente, sentiu-se culpado. Em momento nenhum da guerra pensara em Nemuri. Não tinha certeza se fora porque pensara que ela conseguiria sair com vida daquilo ou porque estava ocupado demais tendo que manter seus alunos vivos. Não pensara que ela também sairia ferida. Esperava que pelo menos ela não estivesse tão ferida.

Como ele.

Ergueu-se lentamente, um grunhido de protesto deixando seus lábios. Sentou-se na cama, seu olhar grudado em sua perna. Onde ela costumava ficar. Cerrou os dentes, apertando-os uns contra os outros com raiva. A raiva se transformou em frustração. Que se transformou em aceitação.

Sabia que aquele era o melhor cenário. Sabia que se tivesse perdido sua individualidade naquele momento, tudo teria mudado para o pior. Não poderia conter Shigaraki. Não poderia nunca mais ajudar Uraraka a descer do teto quando ela não conseguisse ou conter Bakugou quando tivesse uma recaída. Não poderia treinar Eri. Não poderia ajudar a garotinha que se empolgava com coisas simples como uma maçã do amor ou uma roupinha de Papai Noel. Não poderia ajudar a menina que finalmente conseguia sorrir e brincar despreocupadamente. Por isso, mesmo que estivesse frustrado por sua perna, não se arrependia do que havia feito.

— Aizawa-san? – Uma enfermeira entrou no quarto, sua voz baixa para não incomodar os pacientes- Como está se sentindo?

— Ótimo- Murmurou, sarcasmo claro em sua voz. A mulher lhe lançou um olhar desconfortável, e Shouta simplesmente fechou os olhos, balançando a cabeça- Estou estável, se é isso que quer saber.

— Está com sede? Com fome? Com frio?

— Estou incomodado.

— Oh, sinto muito- Ela se encolheu, envergonhada- É a minha primeira semana nesse emprego, então eu ainda estou aprendendo a lidar com os pacientes. Sinto muito se eu incomodei. É só que...Eu não esperava que algo como...como...fosse acontecer tão cedo...e...e...

Suspirou, sentindo-se um pouco culpado. Voltou a olhar para a jovem mulher, tentando controlar suas emoções.

— Estou com um pouco de sede.

— Oh! Eu vou buscar um pouco de água agora mesmo.

Ela não tardou a voltar, alcançando um copo de água para Aizawa delicadamente. Deixou o líquido descer por sua garganta enquanto escutava a garota falar em um tom de voz baixo e suave.

— Eu estou surpresa que você já esteja sentado e conversando, Aizawa-san- Ela começou, suas mãos brincando com a prancheta que carregava- Quando você chegou aqui, preciso ser sincera, os médicos não tinham muita esperança. Você estava completamente ensanguentado, e, sinceramente, quem quer que tenha feito isso, não faz um bom trabalho em cauterizar a sua ferida.

Piscou. Não se lembrava de ter tido a perna cauterizada. Não se lembrava de nada depois de seu encontro com Shigaraki, mas sabia quem havia feito o processo. Respirou fundo, levando o copo até a boca novamente.

Teria de conversar com Shouto assim que possível.

— Além disso, o ferimento no seu olho direito foi horrível- Ela se aproximou da máquina conectada ao seu braço por fios, anotando alguma coisa em sua prancheta- Mal conseguimos salvar ele. Quem quer que tenha feito isso deve ter sido alguém muito forte, hein?

A mulher parou, olhando-lhe com uma expressão assustada. Levou uma mão ao rosto, secando as lágrimas que saíam de seu olho esquerdo e escondendo o rosto. Ainda tinha seu olho, ainda tinha sua individualidade. Sentiu uma risada escapar seus lábios, um sorriso trêmulo se formando em seu rosto.

— Sim, muito forte.

Voltou o olhar para a mulher, que lhe lançou um sorrisinho gentil. Colocou o copo entre seus lábios, deixando o líquido entrar em sua boca lentamente, gole por gole.

— Ah, os seus alunos vão ficar felicíssimos em saber que você está melhorando- Sentiu seus ombros endurecerem, seu olho arregalado grudado na mulher- Nós tivemos problemas com o comportamento dos seus alunos, para ser honesta. Eles fizeram uma confusão quando ficaram sabendo de você e dos outros três, foi bem difícil os conter e-

— Outros três? Que outros três? — Perguntou, praticamente gritando. A mulher deu um salto para trás, assustada.

— Eu...Eu não deveria ter dito isso.

— O que aconteceu com eles? – Questionou, sua voz se tornando cada vez mais intimidante- Quem são eles? Pelos céus, não me faça ter que perguntar mais uma vez.

Olhou-a com o mesmo olhar de quando tinha de por sua turma na linha, de quando tinha que os intimidar o suficiente para que ficassem quietos. Se não estivesse tão preocupado com a situação de seus alunos, certamente teria ficado orgulhoso ao ver a mulher se encolher- levara anos para aperfeiçoar aquele olhar.

— Eles...bem...A mais estável com certeza é a Jirou-san. Ela chegou aqui consciente, mas o ferimento que ela sofreu em sua orelha direita foi muito severo- Aizawa sentiu o mundo parar. Era como se pudesse ouvir seus batimentos cardíacos, cada vez mais altos em seus ouvidos- Infelizmente, os médicos tiveram que remover o lóbulo direito dela. Eu...Eu realmente sinto muito, Aizawa-san.

Jirou Kyouka. Aluna número 12, 16 anos. Individualidade: Earphone Jack. Uma menina que transborda sarcasmo e que aparenta sempre estar entediada, mas que, conforme vai se sentindo mais confortável com os outros, mostra-se uma garota incrivelmente simpática e protetora de seus amigos. Uma menina com um potencial gigantesco.

Sentiu um nó se formar em sua garganta. Lembrou-se da vez que a garota caçoou de seu saco de dormir junto com Sero e Kaminari, exibindo um sorrisinho debochado quando Shouta a fuzilou com o olhar. Lembrou-se da vez que ela fora parar no hospital por causa da invasão no acampamento, simplesmente o assegurando de que tudo estava bem quando fora lhe pedir desculpas por ter falhado em protegê-la. Lembrou-se da vez que a sua música fora capaz de liberar uma garotinha das correntes de um monstro, lembrou-se do orgulho que sentira da aluna.

Respirou fundo, voltando o olhar para a enfermeira.

— Quem mais? — A mulher franziu as sobrancelhas, um olhar inseguro em seu rosto. Endireitou-se na cama, suas mãos se fechando em punhos- Quem mais?

— A-ah...Kaminari Denki ainda está inconsciente. Mas está estável- A mulher acrescentou a última parte, sua voz soando nervosa. Aizawa esperou uma explicação, mas ela apenas abaixou a cabeça e abraçou a prancheta contra o peito.

— O que aconteceu com ele?

— Aizawa-san, eu realmente acho que-

— Me responda! – Ela lhe olhou com um olhar de pena, e Aizawa sentiu sua raiva aumentar ainda mais. Não queria pena. Só queria saber o que havia acontecido com seus alunos.

— Segundo os amigos, foi atingido por destroços durante um confronto com a Liga dos Vilões. Ele chegou aqui quase morto.

Kaminari Denki. Aluno número 7, 16 anos. Individualidade: Eletrificação. Um garoto amigável e engraçado, responsável por unir a turma com suas brincadeiras e piadas. Um garoto leal e confiante, talvez até um pouco confiante demais.

Conhecera alguém igual a Denki no passado. Alguém que também era amigável e engraçado. Alguém que sempre o encorajava a melhorar e a seguir seu caminho de cabeça erguida. Alguém que também fora atingido por destroços. Alguém que morrera.

Sentiu seu olho começar a arder, lutando para segurar as lágrimas. Deparou-se com o olhar preocupado da jovem mulher, que esticava o braço hesitantemente em sua direção, como se quisesse o consolar.

Não.

Não existia consolo para o que estava ouvindo.

— E o outro?

Ela desviou o olhar, encarando a porta do quarto com olhos arregalados. Parecia prestes a sair correndo, fugindo do quarto e do paciente que a intimidava cada vez mais. Sinceramente, Aizawa começava a duvidar da capacidade da mulher para o emprego que tinha. Ela deu um passo em direção a porta, e rapidamente Shouta esticou seu braço, agarrando seu pulso com força.

— O outro.

— Aizawa-san- Voltou seu olhar para o homem, os olhos cheios de lágrimas- Aizawa-san, por favor, pare de se torturar assim.

Encararam-se, Aizawa com um olhar quase assassino em seu rosto, a garota com um olhar aterrorizado. Quis gritar com ela, quis gritar que ela não tinha o direito de estar assustada- que quem tinha esse direito eram seus alunos, seus alunos que tinham sido machucados e traumatizados. Seus alunos que haviam sido queimados, seus alunos que haviam sido esmagados. Aumentou sua força no aperto, e a mulher cessou sua tentativa de fuga.

— O outro.

.

Eram quase três horas da manhã. Os corredores do hospital estavam iluminados e cheios de pessoas, mesmo que o horário de visitas já tivesse passado há muito tempo. Havia diversos feridos deitados em macas improvisadas, ali mesmo no corredor, e Shouta sentiu seu estômago se revirar. Pode reconhecer alguns heróis entre os civis, mas ninguém que fosse conhecido seu. Ficou feliz por isso, e se sentiu mais culpado ainda.

A enfermeira, Mirai-san, o empurrava em uma cadeira de rodas pelos corredores, um olhar nervoso em seu rosto, como se estivesse fazendo algo errado e temesse ser pega. Bem, ela tinha motivo, já que Shouta praticamente havia a obrigado a levá-la até seus estudantes, ameaçando contar a seus supervisores sobre sua incompetência como enfermeira. Óbvio que ele iria omitir a pressão psicológica que colocara em cima dela, mas isso era problema da mulher, não dele.

Dobraram à esquerda e Shouta fechou os olhos ao ver que a situação no próximo corredor só piorara. Havia diversas pessoas atiradas nos cantos dos corredores- queimadas, esmagadas, ensanguentadas. Médicos corriam de um lado para o outro, comunicando-se aos gritos.

Perguntou-se onde Nemuri estava. Havia sido queimada? Pisoteada? Estava estável? Ou em perigo? Quando perguntara da amiga para a enfermeira, ela não soubera lhe informar em que ala ela estava e sua condição. Sentia aquele sentimento horrível crescer em seu peito cada vez mais, mas não podia fazer nada para pará-lo. Sentia-se inútil.

Pegaram o elevador e subiram um andar, a enfermeira guiando-o até o final do corredor. Assim como os outros, esse andar também tinha médicos correndo de um lado para o outro, mas parecia mais silencioso- Shouta não conseguia se decidir se isso era algo bom ou não. A mulher parou de empurrar a cadeira, entrando na sala de esperas do corredor. Shouta olhou sobre seu ombro, fuzilando-a com o olhar.

— Espere aqui um momento, Aizawa-san- Ela disse, caminhando em direção a saída- Eu vou buscar a autorização com a minha supervisora e volto logo.

Não tinha o que fazer, então simplesmente assentiu. Voltou o olhar para a sala, arregalando seu olho ao notar duas faces familiares no cômodo.

— Bakugou. Todoroki.

Aizawa chamou os dois, um aperto se formando em seu peito ao ver os rostos de seus estudantes. Nunca vira olhares assim na face de nenhum de seus alunos, muito menos na face de dois dos três estudantes mais problemáticos da 1A.

Shouto tinha suas sobrancelhas franzidas e seus lábios grudados em uma linha reta. Seus olhos heterocromáticos encaravam o chão com tanta intensidade que Shouta apostaria que o piso havia feito algo incrivelmente ofensivo contra ele. Estava sujo de poeira e sangue, e Shouta se desesperou por um segundo, até perceber que os machucados do garoto já haviam sido tratados. Percebeu então que o sangue não era dele, lembrando-se imediatamente de sua conversa com Hizashi. Todoroki e Manual o levaram até a ajuda após...após...Sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Aquele sangue muito provavelmente era dele. Seu sangue. Em seu aluno.

Bakugou também estava imundo, coberto por poeira e sangue- muito sangue. Aparentava estar mais machucado que Shouto, mas, assim como o Todoroki, também havia sido tratado. Mas o que realmente assustou Aizawa não foram os machucados ou a sujeira, mas sim a expressão calma em seu rosto. Calma demais. Seus olhos vazios estavam voltados para seu próprio colo, mas Shouta duvidava que o garoto realmente enxergava seus membros. Parecia estar dissociando, e Shouta não conseguia aguentar aquele olhar no rosto de seu aluno. Era errado ver o garoto naquele estado. Era errado o garoto estar naquele estado.

Ao ouvir a voz de seu professor, Shouto se ergueu do sofá em um pulo, encarando o homem com olhos arregalados. Aproximou-se com passos hesitantes, esticando um braço trêmulo na direção de Shouta.

— Aizawa-sensei- Ele começou, sua voz soando rouca e desesperada. Seus olhos analisaram o corpo inteiro do professor, parando por um momento mais longo no que restara de sua perna, voltando para seu olho hesitantemente- V-você...

Nunca vira o aluno tão hesitante. Todoroki Shouto sempre fora uma pessoa sem papas na língua, normalmente não medindo o peso de suas palavras e pouco se importando com a reação das pessoas quando dizia algo muito delicado de uma maneira muito “foda-se”. Ver o garoto assustado, hesitante em lhe dirigir a palavra lhe doía o peito.

— Todoroki- Começou, empurrando a cadeira para mais perto do garoto. Pegou a mão do estudante que estava postada no ar, sentindo a tremedeira de Shouto cessar- Eu estou bem.

Shouto apertou sua mão, e Aizawa presenciou a onda de emoções passando pelo rosto do aluno. Frustração, raiva e alívio. Os olhos do garoto se encheram de água, e ele virou seu rosto para o lado, tentando ocultar as lágrimas que desciam rapidamente por seu rosto. Apertou a mão de Shouto com mais força, tentando assegurar a si mesmo de que tudo estava bem. De que tudo iria ficar bem.

Voltou seu olhar para Katsuki, que continuava sentado. Encarava-o tristemente, os olhos vermelhos circulados por olheiras profundas, e Aizawa percebeu que ambos os garotos provavelmente ainda não haviam descansado. No fundo, bem no fundo, Shouta sabia que os dois não conseguiriam descansar. Não depois do que havia acontecido. Não depois do que o amigo deles havia passado.

Guiou a cadeira para mais perto do sofá, ainda segurando a mão de Shouto. Bakugou o seguiu lentamente com o olhar, quase indiferente. Ergueu uma mão e a postou sobre os cabelos loiros e espetados de Katsuki, afagando as mechas suavemente entre seus dedos. Encarou-o com seu único olho, os pelos de seu corpo se arrepiando conforme analisava cada vez mais a expressão do rapaz. Ou melhor, a falta de expressão. Por um momento, desejou que ele fizesse que nem Todoroki. Que chorasse, que botasse tudo para fora. Céus, seria até mesmo capaz de sorrir se Katsuki começasse a berrar, apontando o dedo em seu rosto e o ofendendo de todas as formas possíveis. Mas Bakugou não chorara. Não gritara. Apenas o encarara com olhos cansados e vazios.

Os três ficaram em silêncio até a enfermeira chegar. A mulher parecia relutante em se aproximar, mas Aizawa a fuzilou com o olhar, deixando claro que já havia notado sua presença. Ela caminhou em direção ao trio, Bakugou erguendo seu rosto em sua direção e Todoroki secando suas lágrimas rapidamente.

— Aizawa-san, hmm... -Olhou para os garotos com uma mistura de hesitação e desconfiança antes de continuar- Vamos poder entrar agora, mas não podemos ficar muito tempo...

— Certo- Murmurou, o aperto em seu peito aumentando ainda mais.

Aizawa começou a empurrar a cadeira em direção ao corredor, porém a mulher se apressou em tomar o controle, insistindo que ele precisa poupar suas energias. Estava se sentindo cada vez mais inútil.

— Me deixe ir junto.

Aizawa ergueu a mão, sinalizando para a enfermeira que cessasse seu movimento. Virou a cadeira de rodas com dificuldade, encarando Katsuki. O rapaz estava de pé, as mãos fechadas em punhos e uma expressão ansiosa em seu rosto. Ao seu lado, Shouto encarava o amigo com tristeza.

— Bakugou-

— Estão indo ver ele, não é? – Bakugou o interrompeu, aproximando-se do professor e da enfermeira- Me leve junto.

— Ahn, eu não posso permitir isso- Mirai murmurou, recebendo um olhar raivoso do estudante. Encolheu-se, preferindo deixar a situação para Aizawa.

Abriu a boca, pronto para negar o pedido de Bakugou e defender a enfermeira. Já estava errado em praticamente obrigar a mulher a deixá-lo ver seu estudante, não podia piorar sua situação colocando mais uma pessoa lá dentro. Porém, antes que pudesse rejeitar o pedido de Katsuki, foi interrompido mais uma vez.

— Sensei, eu... – Não finalizou, sua voz saindo trêmula e sufocada. Shouto se aproximou, colocando uma mão sobre o ombro do garoto, tentando o acalmar. Bakugou se afastou da mão com um empurrão, mas não aparentava ter se ofendido com o toque. Depois de um tempo, sua voz trêmula voltou a sair, e Shouta desejou não ter ouvidos para ouvir aquelas palavras- Sensei, fui eu que carreguei ele. Eu...Eu que tive que carregar...carregar...- Katsuki levou suas mãos ao rosto, escondendo-o. Shouto desviou o olhar, e Aizawa fechou seu olho, tentando encontrar em seu subconsciente uma forma de lidar com aquela situação. Uma forma de aceitar aquela situação- Aizawa-sensei, tinha tanto sangue...Tanto sangue...Eu...Eu...

— Bakugou.

Katsuki lentamente tirou as mãos do rosto, encarando o professor com olhos cheios de lágrimas. Podia ver toda a frustração e medo que seu aluno estava passando, as emoções estampadas em sua expressão. Perguntou-se se tinha uma expressão parecida com a dele. Se também estava tremendo daquele jeito.

Aproximou-se, segurando as duas mãos de Bakugou nas suas, ambos os pares trêmulos. Encostou sua testa contra os dedos do garoto e fechou o olho, tentando conter suas emoções, tentando acalmar o garoto, tentando fingir que tudo aquilo não passava de um pesadelo.

— Eu sinto muito, Bakugou.

Pode ouvir os soluços do garoto, pode sentir as lágrimas caírem e molharem seu cabelo. Mas não se atreveu a erguer a cabeça. Não se atreveu a testemunhar a forma vulnerável de Katsuki, que parecia finalmente aceitar que aquilo realmente havia acontecido com Midoriya. Com ele. Com Aizawa. Com Todoroki. Com todos os seus colegas. Aizawa apertou as mãos do garoto com força, esperando-o se acalmar.

Depois de um tempo, Bakugou puxou suas mãos agressivamente, afastando-se do homem. Aizawa ergueu seu rosto, mas não voltou o olhar para o adolescente. Sabia que se o fizesse, não conseguiria segurar as lágrimas que se esforçava para segurar.

Olhou para trás, encontrando o olhar da enfermeira, que assistia a cena à sua frente com um olhar de pena. Ela olhou-o com aquela hesitação que parecia estar sempre presente, assentindo e empurrando a cadeira de rodas para longe dos dois rapazes.

Shouta encarou os números em cima da porta intensamente, quase que com medo. Sabia o que lhe esperava atrás daquela porta, mas não conseguia aceitar de forma alguma. Não conseguia acreditar. Esperava que a qualquer momento fosse acordar e olhar ao seu redor desesperado, apenas para perceber que ainda tinha as duas pernas e todos os seus alunos estavam seguros. Mas, não importava o quanto tentasse, ele não acordava desse pesadelo.

Entraram no quarto silenciosamente, a mulher parando a cadeira de rodas ao lado da cama. Parou para checar a máquina conectada por fios ao braço do garoto, afastando-se com um sinal positivo de cabeça. Olhou para Aizawa, analisando a expressão do homem pesarosamente.

— Eu vou deixar vocês sozinhos por um tempo- Sussurrou, e Aizawa nem se deu ao trabalho de a responder.

A primeira coisa que notou foi o quão pálido o garoto estava. Sua pele marcada por cicatrizes e sardas tinha um tom doentio, que alternava entre o branco e o verde. Seus olhos estavam cerrados e circulados por olheiras fundas e negras, a forma como seus cílios tremiam denunciando que não estava tendo um sono profundo ou prazeroso. Os cabelos verdes e rebeldes circulavam um rosto contorcido em dor, e Aizawa se perguntou se os remédios não estavam funcionando no garoto. Mas ele sabia o real motivo para aquela expressão de dor.

Esticou o braço, postando sua mão sobre os cabelos do garoto e os afagando. Afagou-os tão levemente que não tinha nem certeza se ele estava sentindo algum conforto no toque, mas tinha medo de o despertar. Queria que ele descansasse o máximo possível, mas sabia que o real motivo para não querer que ele acordasse era outro. Não queria que ele tivesse de lidar com a realidade ainda. A realidade que se manifestava em um braço amputado.

Correu o olhar sobre o que restara do braço esquerdo de Midoriya Izuku, sentindo seu estômago se embrulhar novamente. Não conseguia aceitar o que estava vendo, não queria aceitar. Sequer sabia sobre a situação preocupante dos braços do garoto antes da guerra, e queria socar a si mesmo, porque era tão óbvio. Tão óbvio. Uma pessoa não se machuca diversas vezes sem haver consequências. Shouta deveria saber isso melhor do que ninguém.

Lembrou-se de todas as vezes que subestimou o rapaz. De todas as vezes que o diminuiu, que o encarou com uma sobrancelha em pé e um olhar que dizia “será que você é capaz mesmo?”. Lembrou-se dos esforços do rapaz, de seu crescimento, tanto como herói como pessoa. Porque era isso que Midoriya era, um herói. Mas antes de ser um herói, Izuku era uma pessoa. Uma pessoa machucada e traumatizada. Uma pessoa que se emocionava com simples elogios. Uma pessoa que parecia brilhar sempre que estava com seus amigos. Uma pessoa que tremia sempre que criticada, como se esperasse um tapa ou um soco. Uma pessoa que parecia determinada a salvar aos outros ao invés de si mesma, não importando as consequências. Uma pessoa muito melhor do que Shouta.

— Ugh..

Afastou a mão rapidamente, assustado. O rosto de Izuku se contorceu, espremendo seus olhos com força antes de abri-los fracamente, um olhar perdido em seu rosto. Demorou um pouco para encontrar o olho de seu professor, primeiro tentando entender onde diabos estava e o que havia acontecido.

— Sensei...- Murmurou, sua voz soando incrivelmente rouca. Ouvira a voz do garoto soar assim quando fora internado após o acampamento na floresta, e se lembrou do sentimento horrível que sentira na época que sequer se comparava ao que estava sentindo agora.

De repente, Izuku arregalou os olhos, uma expressão aterrorizada em seu rosto. Tentou se apoiar com os braços para se erguer da cama, apenas para desabar contra ela com um grunhido agoniado.

— Midoriya! – Aizawa exclamou, movendo a cadeira de rodas para mais perto ainda da cama- Fique deitado, Midoriya. Você não está-

Tentou mais uma vez, dessa vez movendo o olhar para a parte esquerda de seu corpo. Seu braço direito tremeu, e Midoriya caiu contra a cama novamente, seu olhar ainda em seu ferimento. Apoiou o braço direito contra a cama mais uma vez, e Shouta decidiu dar um basta naquele momento, pressionando o rapaz contra a cama com ambas as mãos.

— Midoriya, não tente se levantar- Disse calmamente, tentando não assustar o aluno. Seus olhos verdes se focaram com dificuldade nos olhos negros de Shouta, piscando algumas vezes para tentar distinguir a imagem do professor- Você não pode. Vai se machucar de novo.

Sentiu o garoto se acalmar rápido demais, e afrouxou o aperto que colocara contra seus ombros, afagando-os levemente. Os olhos de Izuku começaram a perder seu brilho, dando lugar à exaustão física e mental, mas não se rendendo totalmente à inconsciência.

Shouta continuou a fitar os olhos exaustos do rapaz, voltando a acariciar seus cabelos gentilmente, tentando confortá-lo. Sentiu sua sobrancelha e lábios tremerem levemente, mas se manteve firme. Não podia se desesperar na frente do garoto. Não na frente dele.

— Sensei...

— Hm?

— Sensei...- Lágrimas começaram a descer pelas bochechas do garoto, sua expressão continuava vazia e cansada- Eu...Eu-

— Shhh, não fale- Interrompeu-o. Puxou um lenço da cômoda ao lado da cama, secando as lágrimas do rosto do garoto. Sentiu agonia e frustração ao tocar as bochechas que ainda apresentavam aquela fofura e maciez infantil. Aquele garoto, deitado e machucado, à sua frente, era uma criança. Fechou o olho, tentando esconder seu olhar de culpa- Apenas descanse, garoto problema.

Lentamente, Midoriya fechou os olhos, rendendo-se ao descanso depois de um tempo. Shouta continuou acariciando seus cabelos, encarando o rosto pálido e exausto de Izuku. Finalmente permitiu que as lágrimas descessem por seu olho, secando-as logo que desciam.

Depois, Izuku lidaria com seu ferimento. Depois, lidaria com o dano severo que recebera psicologicamente. Depois, lidaria com a derrota que sofrera apesar de seus esforços. Depois, lidaria com seus colegas, que estavam igualmente machucados, seja fisicamente ou mentalmente. Depois lidaria com as perdas, com os feridos, com os estragos. Mas, agora, a única coisa que podia fazer era descansar.

E a única coisa que Shouta podia fazer era consolá-lo.

Notas finais
Será que eu mereço comentários?? ♥
Qualquer errinho gramatical que acharem, me informem que eu arrumo! ♥
E então? O que acharam? O mangá tá só a desgraça ultimamente, então acho que um cenário assim futuramente não é tão fora da realidade kkkkkkk cada k uma lágrima. Quero nem ver quando isso for animado, Jesus Cristo.
Bem, até a próxima! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!