Consequências do Amor
1 Capítulo 1 - Uma Volta, Uma Lembrança
Notas iniciais
"A ciegas, perdido,
Se detiene mi respiración
Duele ver que tu futuro
No combina conmigo
Y no quiere comprender mi corazón
¿Para qué fingir?
Si sabes como yo
Que este sueño terminó
Somos fuego que se enfrió
El tiempo nos desvaneció
Y se ha borrado todo lo que fuimos"
A Ciegas (Reik)
ANGIE
Meu coração batia acelerado em meu peito. A ansiedade me consumia cada vez mais conforme me aproximava de meu destino.
Não tinha certeza se estava pronta para retornar, afinal, tive de tomar muitas decisões nos últimos dias e meu índice de estresse estava alto demais. Mas eu era uma nova Angie, uma Angie que não tinha mais medo de lutar pelos seus objetivos. Estava disposta a seguir meu coração e ser feliz.
O avião parecia se movimentar mais rápido, fazendo com que meus nervos se aflorassem, mesmo que faltassem ainda duas horas até o tão esperado desembarque.
Precisava de algo que me acalmasse, então pesquei meu fone de ouvido e o conectei junto ao meu smartphone, fui até a pasta de música e coloquei minha playlist preferida e deixei que aquela seleção me acalmasse. Comecei a me sentir tão calma que entre uma música e outra, acabei adormecendo.
Acordei com o auto falante; uma aeromoça auxiliava os passageiros a se prepararem para pousar. Apertei o cinto, mesmo que ele já estivesse apertado o suficiente. Eu particularmente não gostava de aviões, mas até que me saía bem tendo de viajar por esse meio de transporte, até a parte do pouso. Eu odiava essa parte. Era nessa parte que minha mente adorava fantasiar cenas desastrosas, envolvendo um avião caindo e passageiros gritando desesperados. É, eu tinha de parar com esse hábito.
Respirei fundo e permaneci com os olhos bem fechados e só os abri quando tive certeza de que não estávamos mais no ar. Um suspiro de alívio irrompeu de meus lábios.
Por fim tudo ocorreu bem e em questão de vinte minutos eu já estava dentro de um táxi, que seguia rumo a minha casa.
As ruas de Buenos Aires estavam calmas, com pouco trânsito. Eu observava atentamente as casas passarem diante de meus olhos. Eu sabia que não havia se passado tanto tempo assim que eu deixara a cidade, mas eu certamente sentira mais falta da mesma do que podia mensurar.
Continuei observando as moradias passarem por mim, e lembrei que caixas e mais caixas me esperavam amontoadas em minha casa, já que quando me mudei levei todas as minhas coisas comigo, e quando decidi voltar pra cá, enviei novamente todas elas juntamente com as adquiridas na França. Sorte que Pablo, como o bom amigo que é, fez a gentileza de receber todas as caixas com a minha mudança. Comecei a me sentir cansada, já sabendo que teria muito trabalho a fazer.
Ainda pensando na quantidade de trabalho que teria, me assustei quando meu celular vibrou, anunciando uma nova mensagem. Peguei minha bolsa e procurei meu celular, coisa que me custou algum tempinho, já que como a pessoa prevenida que eu era minha bolsa era um caos; eu até me assustava as vezes com a quantidade de coisas que eu carregava comigo. Mas é melhor prevenir do que remediar né?
Depois de retirar dois batons, minha carteira, meu protetor solar, uma mexerica (nunca se sabe quando aquela fome vai bater né?) e meu molho de chaves, finalmente encontrei o aparelho. Logo que a tela se acendeu, vi que a mensagem que recebi era de Violetta. Li toda a mensagem; Vilu perguntava se eu estava bem e quando a visitaria. Mal ela sabia que agora só algumas ruas nos separavam. Optei por não contar a ela que retornaria a Buenos Aires, pois minha decisão foi repentina e não queria iludi-lá caso eu mudasse de idéia.
Querendo fazer uma surpresa pra minha sobrinha, pedi ao taxista que mudasse um pouco o rumo do caminho e me levasse até a mansão Castillo, que atendeu o pedido gentilmente.
Cinco minutos depois, eu me encontrava a um passo da porta principal, apenas com minha bolsa e minha mala. E com um nível baixíssimo de coragem. Será que era uma boa idéia eu ter vindo sem avisar? Sem pensar muito no assunto, tomei coragem e toquei a campainha.
Menos de trinta segundos depois, (Sim, eu estava tão nervosa que até os segundos eu contei) Vilu abriu a porta e ficou surpresa ao me ver ali parada. Não demorou muito e um largo sorriso surgiu em seu rosto delicado.
— Angie! — Gritou, me puxou pra dentro e se jogou em meus braços, onde a recebi carinhosamente.
Ficamos abraçadas por vários minutos em silêncio, o momento falava por si só, não precisava de palavras.
— Senti tanto a sua falta, Vilu. — Falei logo que nos desgrudamos uma da outra.
— Eu também tia, as coisas não são as mesmas sem você. — Constatou — Por que não avisou que estava vindo visitar?
— Queria fazer uma surpresa pra minha sobrinha.
— E conseguiu. — Sorriu e pegou na minha mão esquerda. — Nem acredito que você está aqui sabe, em carne e osso. De verdade. — Falou e nós duas rimos.
— Nem eu, querida.
NARRADORA
Angie sentira tanta falta de Violetta, e mesmo que conversassem por mensagens e pelo Skype todos os dias, não era a mesma coisa. Mas agora ela teria muito tempo pra passar com a sobrinha e recuperar o tempo que não puderam passar juntas.
Não demorou muito pra que todos os presentes na casa se juntassem as duas. Olga foi a primeira a cumprimentar Angie, e como sempre a envolveu em um abraço de urso. Aliás, Olga não seria a Olga se não desse um dos seus famosos abraços na amiga. O próximo foi Ramalho, que depois de lhe abraçar fez o favor de trazer a bagagem de Angie pra dentro.
Ludmila e Frederico também cumprimentaram Angeles com um abraço e revelaram que sentiram muita falta dela, não só da professora mas também da boa amiga, ao que Angie emocionada os abraçou outra vez. Ludmila tinha mudado bastante desde a última vez que a vira, sorria com felicidade verdadeira e não como se maquinasse um plano maquiavélico em sua mente e parecia demonstrar melhor seus sentimentos. E era verdade, a garota havia se transformado, enquanto Frederico continuava o mesmo garoto simpático e alegre de sempre. E com uma auto-estima admirável.
Faltava cumprimentar apenas German e se ela se lembrava bem, a mãe de Ludmila, Priscilla, se ela não se enganava. Ela devia ter topado uma ou duas vezes com ela no Studio.
Angie se aproximou e educadamente se limitou a lhes cumprimentar com um aperto de mão e um sorriso gentil no rosto. Priscilla se apresentara como mãe de Ludmila e noiva de German, tudo isso com um sorriso vencedor e falso no rosto. Enquanto German a cumprimentara com um sorriso verdadeiro no rosto e um leve aperto de mãos, que não levou mais que alguns segundos, mas foi o suficiente para ela sentir a maciez da mão do engenheiro e estremecer por meros dois segundos.
German continuava o mesmo: usava social, tinha um sorriso de fazer qualquer uma se derreter, inclusive ela mesma, um olhar penetrante e com a mesma beleza máscula de quando o conheceu. E com o ar confiante de sempre.
Vilu convidou Angie para almoçar e a tia aceitou.
O almoço estava sendo um pouco entediante, Priscilla ficava falando do noivado e dos preparativos. Angie sabia que ela fazia aquilo de propósito, mas decidiu que não iria se abalar. Ela havia seguido seu próprio caminho, feito as próprias escolhas e German feito as dele. Era simples.
Vilu se cansara de ouvir a futura madrasta falar e falar sobre o evento que a mansão cediaria dali duas semanas. A garota sabia que a tia estava fingindo não se importar com todo o blá-blá-blá do noivado, mas ela podia ver nos olhos da tia algo parecido com tristeza, além do tédio, do qual todos na mesa pareciam compartilhar, exceto Priscilla, claro.
— Angie, estou tão feliz de ter você aqui com a gente. — Olhou pra tia, que sentara a sua frente, ao lado de Frederico.
— Eu também, meu amor.
— E então Angie, como está indo na França? — O garoto italiano perguntou.
— Muito bem, obrigada.
— E já visitou algum lugar legal? — Quis saber.
— Ah, sim. Alguns quando tenho tempo livre.
— E as lojas, Angie? — Ludmila entrou na conversa. — Entrou em alguma? Ouvi falar que são maravilhosas.
— E são, mas infelizmente não tive muito tempo pra fazer compras. — Respondeu e de soslaio olhou pra Priscilla, que mantinha um olhar entediado no rosto. A mesma não tinha gostado nem um pouco de perder o centro das atenções pra Angie.
— Já sabe quanto tempo vai ficar em Buenos Aires? — German que até o momento se mantivera calado, pronunciou-se.
— Por quê? Já quer se livrar de mim? — Brincou e percebendo a confusão estampada no rosto de German decidiu se explicar: — Estou brincando.
Todos riram do comentário, menos Priscilla, que não achou graça nenhuma. E naquele momento German percebeu o quanto sentira falta da alegria de Angie, do seu sorriso doce e das suas típicas risadas calorosas.
— Na verdade não estou só de visita. Decidi voltar a morar aqui em Buenos Aires. — Revelou para surpresa de todos.
— Sério tia? — Violetta perguntou surpresa. Não podia acreditar que sua tia agora estaria sempre por perto, como nos velhos tempos.
— Muito sério. — Confirmou sorrindo.
Feliz, Vilu levantou-se, deu a volta na mesa e abraçou a tia por trás.
— Ai Angie, nem consigo acreditar que voltaremos a ser inseparáveis. — Falou, fazendo com que a loira em questão, se levantasse e a abraçasse pela segunda vez desde sua chegada.
— E eu muito menos, Vilu. — Disse e soltou a garota, que depois de segurar de forma carinhosa a mão da tia, voltou pro seu lugar sorrindo.
— Já que pretende ficar, Angie, vai voltar a ser nossa professora de canto? — Frederico perguntou, animado demais com a ideia.
— Com certeza. — Começou — Falei com o Antônio alguns dias atrás e ele disse que se quisesse o cargo era meu.
— Isso é maravilhoso, Angie! — A sobrinha se alegrou, como se fosse possível sentir-se mais animada do que já estava.
(...)
ANGIE
O almoço foi melhor do que eu esperava. Pude conversar e matar a saudade de algumas das pessoas que eu mais amava e ainda me atualizar sobre alguns acontecimentos do tempo em que estive longe, sendo um deles o iminente noivado de German e Priscilla. Priscilla falara tanto do tal noivado que eu até havia decorado a cor das toalhas de mesa (cor de pêssego), quais seriam as flores que decorariam a mansão (lírios e tulipas) e o sabor do bolo (bolo branco com recheio de amêndoas). Ela parecia não se cansar de tagarelar sobre todos os detalhes. Eu sabia que ela fazia aquilo no intuito de me atingir, mas eu era uma nova Angie e precisava ir em busca da minha própria felicidade e se German estava feliz ao lado de Priscilla, por mim tudo bem.
Logo depois de terminarmos a sobremesa, Vilu me arrastou até o seu quarto. Segundo ela, tínhamos muito assunto atrasado pra por em dia.
— E então, o que foi que eu perdi? — Perguntei me sentando na cama.
— Fizemos uma turnê de shows, Angie. — Contou — Foi incrível! Eram tantas pessoas na platéia, fiquei tão nervosa que pensei que não iria conseguir.
— Mas conseguiu. — Sorri docemente — Ficar nervosa é normal, querida, mas o importante é deixar o medo de lado e seguir em frente. Você e o pessoal do Studio foram maravilhosos, ouvi muitos elogios.
— Obrigada, Angie!
— E você e o Léon? — Quis saber.
— Estamos as mil maravilhas. — Nós duas rimos — Ele é tão fofo. Já contei que no meu aniversário ele me levou pra andar de balão? Ele até fez um curso pra isso — Concordei com a cabeça, sorrindo com seu entusiasmo ao falar do namorado. — E depois ele e o pessoal organizaram uma festa de aniversário surpresa pra mim. Tudo foi maravilhoso!
— Eu imagino. Léon é um bom rapaz e te ama muito.
— É mesmo, é recíproco. — Concordou. — E você, Angie?
— Eu, eu o quê?
— Você sabe o que eu quis dizer. — Falou, sorrindo da forma que sempre fazia quando queria que alguém confessasse algo. Ela estava certa, eu tinha entendido, mas não estava muito afim de me abrir.
— Não, eu não sei. — Disfarcei.
— Sabe sim. Mas já que vai se fazer de desentendida, eu pergunto. — Olhou pra mim curiosa. — Se apaixonou por alguém na França?
— Eu? Claro que não, Vilu! Eu estava só a trabalho, não pra arrumar um namorado.
— Então, quer dizer que está apaixonada por alguém daqui?
NARRADORA
Angie não sabia como responder aquela pergunta. Se ela exitasse em responder, Vilu tomaria como resposta o pai. E se mentisse tinha grandes chances de a sobrinha não acreditar. A sobrinha a conhecia melhor do que ninguém.
Vendo que a tia ficou em silêncio, falou, mas dessa sua voz era séria:
— Você ainda é apaixonada pelo papai.
Angie percebeu que aquilo não era uma pergunta, era uma afirmação.
A sobrinha sabia que o pai era assunto perigoso, já que Angie nunca se referia a ele quando trocavam mensagens ou se falavam pelo Skype, mas ela precisava ter essa conversa com a tia.
— Na verdade, os dois são apaixonados um pelo outro. — Constatou. — Você não percebeu a forma com que ele te olhava, principalmente quando você falava ou ria? Vocês se gostam, desde o momento em que você se tornou minha governanta.
— Não importa o que sentimos, nunca poderíamos ficar juntos. Não seríamos felizes.
— E como você pode saber isso, se nunca nem ao menos tentaram? — Questionou.
— Sempre quando seu pai estava livre e poderíamos tentar algo, alguma coisa atrapalhava. Isso é um sinal de que não fomos feitos um pro outro. — Contou, no mesmo tom de seriedade que a sobrinha usara.
— Isso não prova nada. Talvez não deu certo antes porque não era o momento certo.
— E agora muito menos. — Falou, como se não pudesse fazer nada para adiar o inevitável. — Seu pai esta com a Priscilla e ficará noivo em breve.
— A Priscilla só é uma distração pra ele não pensar no que ele realmente quer. — A garota insistiu.
Angie estava disposta a não se iludir outra vez, não valia a pena o esforço. German já machucara seu coração outras vezes, ela não deixaria ele faze-lo novamente. Precisava manter distância; era o melhor a se fazer. Diziam que o tempo era o melhor remédio para curar as feridas, ela se apegaria a isso, mas precisava se manter ao máximo afastada de German, se queria que o tempo fizesse sua parte.
— Podemos mudar de assunto? — Pediu, sentindo-se desconfortável com o rumo que a conversa havia tomado.
— Tudo bem, Angie. Eu não deveria ter te pressionado, me perdoa. — Pediu, culpada por ter tocado em um assunto tão pessoal quanto aquele.
— Sem problemas. — Angie respondeu sem emoção.
Vilu se aproximou da tia e abraçou-a. E as duas ficaram ali, abraçadas por vários minutos. A garota sentia que a tia precisava de um ombro amigo. Vilu sabia que seu pai fora um completo covarde em relação aos seus sentimentos por Angie, sabia que ele deveria ter feito alguma coisa. Seria um sonho ter Angie como mãe, mas Angie não faria só bem a ela, mas também ao pai. Ela tinha certeza que o pai estava usando Priscilla como forma de esquecer a tia.
— Melhor? — Vilu perguntou quando se afastaram.
— Sim. — Angie concordou exibindo um sorriso agradecido no rosto.
— Por que não assistimos algum filme? — Propôs na tentativa de animar a tia.
— Ótima idéia, Vilu.
(...)
Angie e Vilu, acompanhadas por Ludmila passaram a tarde inteira assistindo. E quando se deram conta já era hora do jantar.
Angie, por insistência de Violetta acabara ficando para o jantar.
Quando as três chegaram a sala de jantar, logo se sentaram. Vilu sentara na diagonal esquerda de onde era o lugar do pai e Ludmi ao seu lado, enquanto Angie sem opção, sentou-se na diagonal direita do lugar do moreno.
Não demorou muito e German apareceu. Seu cabelo negro estava molhado, o que indicava que saira do banho há não muito tempo atrás. Ele estava lindo, isso Angie admitiu pra si mesma. Seu coração pulou uma batida quando o viu chegando. Como seu coração podia ser tão traidor daquele jeito?
— Boa noite. — Disse de bom humor, ocupando seu lugar na mesa.
— Boa noite. — As três responderam em uníssono.
Estranhando que Priscilla não estava ali, Vilu perguntou:
— E a Priscilla? Pensei que ela fosse jantar com a gente.
— Ela saiu pra jantar fora com as amigas. — Ludmila se apressou em dizer. — Típico dela. — Se entristeceu. A mãe nunca passava tempo suficiente com ela, mas quando se tratava das amigas, parecia não perder tempo.
Vendo que aquele não parecia um assunto do qual Ludmila se sentia bem ao tocar, Angie mudou de assunto.
— E então meninas, como estão indo nas aulas no Studio? — Lançou um olhar carinhoso para as meninas.
— Muito bem, Angie. Só falta você, né? — Vilu disse.
— É mesmo. — Ludmi concordou. — Eu, o Fred e a Vilu terminamos de compor uma música pro exercício do Pablo, Angie. Gostaríamos de saber sua opinião, pra ver se ficou boa.
— Ah, claro. Será um prazer escuta-los. — A loira respondeu animada. — Mas falando no Fred, onde ele está?
— Foi se encontrar com a banda. — German entrou na conversa. — Ele saiu quando vocês ainda estavam lá em cima. Ele não queria incomodar, então mandou que eu avisasse.
— Ah, é verdade. Esqueci que hoje ele se encontraria com a banda. — Ludmi falou.
— É mesmo, o León me disse algo a respeito também. — Disse Vilu.
Não demorou muito e o jantar foi servido.
Em um determinado momento, Angie pediu que passassem o sal, e para sua surpresa fora German que atendera seu pedido. Enquanto passava o saleiro pra Angie, suas mãos se roçaram de leve e seus olhares se encontraram.
German encarou fixamente aquele par de olhos verdes, mais lindos do que o próprio se lembrava. Um sorriso doce surgira nos lábios da loira, o que a deixou mais linda do que já estava, ele percebeu. E como retribuição, German, contagiado pelo belo sorriso de Angie, sorriu também.
Angie sentiu as bochechas queimarem, e desviando o olhar, se concentrou em colocar sal na sua comida.
German continuou a observa-lá por mais alguns segundos. Ele percebera a reação de Angie e se deu conta de que deveria fazer o mesmo, desviar o olhar e se concentrar em outra coisa que não fosse Angie. Ele estava com Priscilla não estava? Mas por quê não conseguia resistir àquele sorriso tão doce e ao jeito espontâneo de Angie?
Ele devia ficar longe dela. Isso, era isso mesmo que ele iria fazer.
Depois do jantar, German se deslocara até seu escritório, precisava analisar alguns papéis e dar alguns telefonemas. Enquanto Angie, Vilu e Ludmi, decidiram ir sentar ao redor da piscina e conversar.
GERMAN
Fazia mais de uma hora que eu estava trabalhando, quando ouvi uma batida na porta.
— Pode entrar.
— Olá, papai. — Vilu falou ao entrar.
— Oi, filha. — Cumprimentei. — Precisa de alguma coisa?
— Sim, quero te pedir uma coisa.
— Pode pedir, se estiver ao meu alcance, ficarei feliz em ajudar.
— Angie pode dormir aqui hoje? — Disse sorrindo de uma forma tão encantadora. — Por favor.
Eu sabia que se queria me manter longe de Angie, ter ela dormindo em casa não era uma idéia sensata, mas foi só olhar para Vilu e seus olhinhos suplicantes, que não tive outra opção ao não ser concordar. Se minha filha ficaria feliz, por mim tudo bem.
— Tudo bem. — Respondi.
— Sério? Obrigada, papai! — Agradeceu e me deu um beijo no rosto. — Já disse que você é o melhor pai do mundo?
— Umas duas ou três vezes. — Brinquei.
— Engraçadinho. — Disse e nós dois rimos. — Mas agora preciso ir. Angie e Ludmi estão me esperando.
— Tchau, filha.
— Tchau, papai. — Falou e saiu sorridente. Balancei a cabeça. Pelo jeito eu estava começando a me tornar um pai muito flexível, mas não me importei. Faria de tudo pra ver Violetta sorrindo daquele jeito.
Continuei trabalhando por mais uma hora, até que minha cabeça começou a latejar.
Decidi ir até a cozinha pegar algo pra beber.
Chegando lá, me servi de um copo de suco e aproveitei e tomei uma aspirina pra dor de cabeça.
Me sentei em uma das banquetas da cozinha e beberiquei meu suco enquanto checava minha caixa de e-mail.
O último e-mail era uma confirmação da prova de escolha de um terno pro noivado. Soltei um suspiro cansado. Eu não precisava de um terno novo, eu tinha vários deles, mas Priscilla insistia que eu precisava de um e que combinasse com o vestido que ela usaria. Eu não estava nem um pouco afim de acrescentar mais um terno a minha coleção, mas se isso era importante pra Priscilla, eu o faria.
Massageei minha tempora, na tentativa de minimizar a dor de cabeça.
— German. — Uma voz doce me chamou.
— Angie. — Cumprimentei-a com um aceno de cabeça.
— Está se sentindo bem? — Perguntou parecendo realmente preocupada.
— Sim, é só uma dor de cabeça.
— Tem certeza? — Olhou pra mim com olhos inquisidores. — Sua cara está péssima.
— Quando você se tornou tão sincera? — Perguntei sorrindo. Não tinha dúvidas de que minha aparência não estava boa.
— Ah... Perdão German, é que... — Começou a se desculpar, quando eu a interrompi.
— Não foi nada, estava brincando. — Expliquei.
— Agora estamos quites. — Ela sorriu irônica.
— Acho que sim.
Ela olhou pra mim de repente, me analisando, como se pudesse ler todos os meus pensamentos e como se fosse descobrir todos os segredos da minha alma.
— Você precisa descansar de vez em quando sabe? Relaxar um pouco. — Deu o veredicto. — Que tal um chazinho? Aceita?
— Aceito. — Concordei e ela sorriu. E se deslocara até os armários para conseguir tudo que precisava.
NARRADORA
German observava Angie atentamente enquanto ela preparava o chá. Ela se movia com rapidez e agilidade.
Ele não estava tentando mante-la afastada? Essa era a idéia não era? Mas por quê era tão difícil afasta-la? Era melhor parar de seguir seus movimentos com os olhos.
Então ele voltou a atenção pro celular, até que Angie colocou uma xícara fumegante de chá na sua frente e se sentou na banqueta ao lado.
— Obrigado. — O moreno agradeceu e tomou alguns goles da bebida.
— Disponha.
Os dois ficaram alguns segundos em silêncio.
— German, eu estava falando sério. Você deveria tirar uma folga e relaxar, você parece cansado. — Quebrou o silêncio.
— Eu tenho tirado folgas, Angie. — Explicou. — É que toda essa coisa de noivado têm me roubado algum tempo, sabe? A Priscilla quer que eu participe de tudo, quer que eu saiba dos mínimos detalhes.
— Você será o noivo, precisa se manter informado.
— Eu sei. — Concordou.
— São tantos preparativos, detalhes, provas... Ela quer um noivado grandioso demais.
— E não é isso que você quer. — Afirmou.
Como ela sabia que não era aquilo que ele queria? Ela o entendia. German constatou que esse definitivamente era o motivo pelo qual não conseguia se manter longe. Seria bom conversar com alguém que o entendia verdadeiramente.
— Se você ficasse noiva, como você gostaria que seu noivado fosse? — Perguntou de repente.
Ele queria mesmo que ela respondesse? O único homem que ela já sonhara em se casar estava sentado ao seu lado. Que tipo de pergunta era aquela?
Ela parou pra pensar por alguns segundos e respondeu:
— Nunca parei pra pensar nisso. — Mentiu. — Mas se fosse meu noivado, iria querer algo simples, uma reunião só para os mais íntimos. — Falou e abaixou a cabeça, desviando do olhar atento de German. — Mas o que realmente importa é o que o evento significa, não se será grandioso ou simples.
Os dois ficaram mudos e pensativos.
Por que Priscilla não podia pensar igual a Angie e optar por um noivado simples? Não. Ele sabia que estava errado, não devia comparar as duas. Priscilla seria sua noiva dali duas semanas. Ele queria faze-la feliz e se pra isso fosse preciso sacrificar seus desejos e acatar os dela, ele faria sem pensar duas vezes. E como Angie dissera, o importante era o que o noivado significava.
— Por que veio aqui? — German falou, querendo quebrar o silêncio desconfortável alastrado pela cozinha.
— O quê? — Angie perguntou, saindo de seus devaneios.
— Por quê veio pra cozinha?
— Insônia. Não estava conseguindo dormir e achei que um chá podia ajudar.
— Posso te fazer uma pergunta? — Ele perguntou de repente.
— Claro.
— Como ou quando decidiu que queria voltar pra Buenos Aires? — Perguntou interessado.
Angie ergueu a cabeça e o encarou por alguns instantes antes de responder.
— Eu estava em um café. — Começou. — Eu tinha acabado de sair do meu novo trabalho com o You Mix e parei na cafeteria que frequentava sempre e entre um gole de café e outro, do nada comecei a pensar e refletir se queria mesmo continuar na França, se era feliz do jeito que estava. Acho que tive um daqueles momentos reflexivos sobre a vida.
— E como você soube que era isso que queria? Como soube que decisão tomar?
— Simples. Segui meu coração. — Ela respondeu se lembrando do momento em que tomara a decisão de retornar a sua cidade natal. — Eu me sentia feliz na França, mas também sentia falta do que deixara pra trás.
— Como o quê?
— Sentia falta das pessoas que deixei pra trás. Sentia falta de dar aulas, minha vocação mesmo é ser professora, ensinar e aprender. Sentia falta de ser eu mesma e voltar pra cá me dá a oportunidade de recomeçar e me dedicar as coisas que realmente me fazem feliz, coisas que estão aqui em Buenos Aires e que não encontraria em nenhum outro lugar.
German assentiu. Ele devia seguir seu coração? Um coração que já se enganara mais de uma vez com a pessoa errada? Ou devia fazer o que acreditava ser o certo?
— As vezes é preciso dar um passo no escuro. Se arriscar pelo que realmente quer. — Soltou, sem pensar no que dizia. Percebendo tardiamente as palavras que escaparam de seus lábios. Mas ela não tinha culpa, apenas falou o que sentia.
German passou a olha-lá profundamente. Angie sentiu a respiração tornar-se mais rala. Por que ele olhava pra ela daquele jeito?
Por um momento ela se perdeu naquelas profundezas escuras, que eram os olhos de German. Mas se dando conta da intensidade daquele olhar, decidiu disfarçar. Se levantou e quando estava prestes a colocar sua xícara na pia, German a chamou, ao que ela virou com tudo e deu de cara com ele, fazendo com que o restante do chá no recipiente, respingasse na blusa branca de German.
— Ai, me desculpa. Eu... é melhor limpar isso. — Falou, pegou um pano de prato e o molhou. E automaticamente começou a esfregar a mancha de chá da blusa, que se localizava na parte do peitoral do moreno.
— Angie, está tudo bem. — Falou segurando o pulso dela. — Não precisa se preocupar.
Ela pareceu nem ouvi-lo, continuou o que estava fazendo.
— Angie. — Ele chamou e dessa vez ela ergueu o olhar até que se encontrasse com o dele, e acabou deixando o pano cair no chão, fazendo com que sua mão repousasse no peito de German.
O toque dela fez com que seu corpo parecesse entrar em chamas.
Angie podia sentir os batimentos acelerados do coração de German, e percebeu que o seu coração também batia loucamente no peito.
Seus olhares ainda permaneciam travados um no outro. E sem querer, German lembrou de quando, anos atrás, ele beijara Angie ali na cozinha e instantaneamente seu olhar passou dos olhos aos lábios da loira. Ele nunca esquecera a sensação de beijar aqueles lábios macios. Por quê estava se lembrando daquilo?
Ambos estavam tão próximos que podiam sentir suas respirações se cruzarem. German se encontrava meros centímetros longe de Angie, centímetros quase imperceptíveis.
Angie se mantinha escorada na bancada. Seu peito subia e descia rapidamente, ela mal conseguia respirar direito. Como ele podia afeta-la daquele jeito? Por quê deixava que ele mexesse com ela assim? Parecia que seu coração gostava de sofrer. Ela tinha consciência de que não poderia te-lo.
Ela abaixou a cabeça, envergonhada. Aliás, sentia-se idiota. Idiota por saber que ele não era e nunca seria seu.
German, em um momento de impulso, se aproximou mais ainda da loira e levantou o queixo dela, fazendo com que ela voltasse a encarar seus olhos negros. E naquele momento o mundo pareceu parar. Nada mais existia, só os dois.
Seus lábios estavam próximos demais; poucos milímetros os separavam. Entraram em um transe. E foi quando o celular de German apitou e os dois retomaram a consciência.
Angie apoiou as mãos no peito de German e o afastou delicadamente, sem conseguir encara-lo... E saiu dali o mais rápido que pode, deixando um German mais que confuso pra trás.
(...)
* NOTAS: TRADUÇÃO
ÀS CEGAS
"Às cegas, perdido,
Se detém a minha respiração
Dói ver que seu futuro
Não combina comigo
E meu coração não quer compreender
Para que fingir?
Se sabe tanto quanto como eu
Que este sonho terminou
Somos fogo que esfriou
O tempo nos desvaneceu
E se apagou tudo o que fomos"
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