Consequências

4 Quem é você?


–Ainda irá se orgulhar de mim? — ela manteve-se firme pela primeira vez. Não derramou uma lágrima sequer, apesar de seus olhos teimarem em arder.

–Eu não vou te perseguir, more onde e com quem você quiser. A única coisa que eu não prometo é que os testes vão terminar. Quando você tiver coragem de dizer as palavras corretas, eles vão parar, mas você terá perdido. Então, você sabe o que deve fazer.

–Como você pode fazer isso com a pessoa que você ama?

–Porque você é a única pessoa que eu amo. Isso é para o seu próprio bem.

–Sentir medo não faz bem a ninguém...

–Mas enfrentar seus medos faz. Se eu fosse um pai ruim, nem saberia quais são seus maiores medos.

–Claro que você sabe quais são. Foi você quem plantou eles em mim!

Virou-se de costas com indiferença. Roberto notou que as atitudes da filha estavam começando a mudar. Cada vez mais ela o enfrentava e não abaixava a cabeça para o que os outros diziam. Mas ele sabia que aquele era apenas o começo e que a filha era teimosa demais para aceitar seus conselhos.

Taila continuou caminhando firme, estava com a respiração ofegante. Nada podia assustá-la mais do que os testes. Foi até o banheiro feminino para lavar o seu rosto e ter capacidade de voltar para a sua sala de aula. Uma garota da sua turma havia acabado de sair de um dos banheiros e foi em direção a pia, lavar suas mãos.

–Ei, você não é a Taila? A amiga estrangeira do Kim Tan.

Ela olhou com indiferença para a garota. Sentia medo de si mesma quando olhava para alguém daquela forma. Era um eu que estava se formando dentro dela e ela não conseguia controlar. Talvez ceder poderia ser uma opção, pensou. Mas não seria uma opção que iria escolher.

–Sou. Por quê?

–Eu sou a Jang Yang Mi. Eu também sou nova aqui no colégio Jeguk e gostaria de fazer amizade com alguém.

–Eu não estou bem agora. Será que podemos conversar no final da aula?

–Sim — a menina abaixou o olhar, a voz de Taila soou arrogante e ríspida. O que não era a sua intenção.

Ela apenas virou as costas novamente. Ela gelou novamente no momento em que saiu do banheiro. Eles poderia estar em qualquer lugar, poderiam atacar aquele que ela ama novamente. Atacar a pessoa que ele ama.

Ela foi em direção a enfermaria, sentindo seu coração bater forte, como se fosse ter um ataque cardíaco. Quando chegou lá, apenas deitou em uma cama, a enfermeira não estava lá.

–Eu tenho que me controlar! Vai ficar tudo bem Taila — repetia para si mesma enquanto fitava o teto, branco e vazio. — Essa guerra ainda não acabou... é você quem vai ganhá-la.

Havia se passado uma semana em que ela estava na casa de Choi Young Do. Era sábado de manhã. Acordou com o barulho do despertador. Deveria levantar e preparar o café da manhã, mas estava muito nervosa para fazer aquilo. Já se fazia uma semana e nada havia acontecido. Nenhum teste surpresa, aquilo estava a matando. “Também tenho que tomar cuidado para que ninguém descubra! Isso é tudo para o meu bem”, repetia para si mesma, com a intenção de que aquilo se fixasse na sua mente.

Levantou-se em seguida, tomou um banho quente e foi para a cozinha. Ela já estava cozinhando a uma semana, mas ainda sentia-se como se nunca tivesse cozinhado na vida. Mesmo com as dificuldades, ela ainda não havia sido repreendida por ele somente pela comida.

Assim que terminou o café da manhã, foi para o quarto dele e abriu as janelas, em seguida voltou em direção a cama e chamou com a voz suave:

–Choi Young Do! Choi Young Do! — ele abriu seus olhos, e por um instante suas vistas doeram, o quarto estava completamente claro. Ela estava diante dele com a bandeja do café da manhã. — Você me pediu para te acordar!

–Sim! — ele começou a rir da situação. — Incrível como você está cumprindo com o nosso combinado.

Ela respirou fundo. Detestava perder seu melhor horário de sono para cuidar dele, e não entendia o porquê de continuar ali já que seu pai não a perseguiria por um longo tempo.

–Como é bom ter uma escrava! — ele sorria bastante enquanto mordia um pedaço de morango. — Eu vou acabar me acostumando.

–Você precisa de mais alguma coisa? Eu tenho que fazer a minha lição de casa agora. Aproveitar que hoje é sábado.

Ele ficou sério de repente, seu olhar tornou-se perdido e ele perguntou com a voz rouca:

–Hoje é quanto do mês.

–Primeiro.

–Hoje é o dia — ele sorriu, mas não era o mesmo sorriso de há pouco. Era um sorriso triste. — O dia de visitar o meu pai na cadeia.

–Então é por isso que você vive sozinho?

–Sim.

–E... — quando ela ia começar a falar, o telefone começou a tocar. Ela nem sequer pensou, foi buscá-lo para ele atender.

–Atenda! — disse ele, ainda com seu olhar distante.

–Mas é uma ligação para você.

–Deve ser o Myung Soo. Atenda e diz para ele que você, é minha amiga e que eu estou no banho.

–Mas...

–Só atenda.

Ela respirou fundo e apertou o botão. Sabia que iria arranjar problemas para si mesma logo, logo.

–Alô?

–Pensei que o Choi Young Do ainda estava sofrendo sozinho — era a voz de uma mulher, que ela não fazia ideia de quem poderia ser. — Você é a garota da sexta dele?

–Quê? Você ficou maluca?

–Já que você está na casa dele. Avisa para ele que eu chego em cinco minutos aí.

–Ei... alô? — a pessoa desligou o telefone na mesma hora. — Quem é ela pra dizer o que eu sou?

–Quem era? — perguntou ele, tomando um pouco de suco.

–Sua garota de sábado! — sua voz estava ríspida e seu olhar esbanjava ódio. Jogou o telefone sobre ele e virou-se de costas para deixar o quarto.

–Ei! Aonde você pensa que vai?! Volta aqui! — gritou — Ah, francamente, que tipo de escrava é essa? — resmungou para si mesmo irritado.

Alguém bateu à porta. Dentro de casa não havia ninguém além dos dois, as empregadas chegariam somente depois de meio-dia. Taila tratou de se trancar em seu quarto, para que Choi Young Do não a fosse procurar enquanto estava fazendo seu dever.

Ele resolveu descer e atender a porta ele mesmo. Assim que abriu a porta, ele se surpreendeu, era Rachel, com um belo sorriso radiante. Ela estava diferente, seu cabelo estava na altura do ombro e sua franja estava grande e jogada para o lado. Retirou os óculos escuros e disse a ele com a voz suave:

–Olá, Choi Young Do!

–Rachel! — sorriu torto como sempre fazia. — Você voltou!

–Voltei, não está feliz em me ver?

–Claro. Entra! — ela entrou já avaliando a casa nova dele. O tom neutro da casa não a havia agradado, mas sim a mobília de luxo que compunha a sala.

–Então essa é a sua casa nova.

–Sim! É a mais bonita que eu encontrei.

–É, ela é luxuosa.

–Eu soube que você estava viajando.

–Estava! Eu estava em Paris, aprendendo um pouco sobre o trabalho da minha mãe. Eu estou começando a me interessar por isso.

–Vai voltar para o colégio?

–Vou. Eu só perdi uma semana de aula, acho que isso não vai atrapalhar no meu histórico. Que estranho!

–O quê?

–Pensei que eu ia encontrar a sua “garota de sexta”. Ela ainda está aqui?

Taila havia acabado de sair do seu quarto, quando ouviu essas palavras, ficou interessada e resolveu espiar, e não acreditou que era ela quem estava conversando com Choi Young Do.

–Não! — respondeu ele. Descobriu também naquele momento quem era a pessoa que estava do outro lado do telefone e o motivo de Taila ter ficado tão furiosa. — Ela acabou de sair.

–Aquela voz, aquele sotaque. Eu já ouvi em algum lugar. Preciso ter certeza se é quem eu estou pensando.

–Com certeza você não a conhecia.

–Como você tem certeza?

–Eu só tenho certeza. Já que você está aqui, por que não passamos a tarde juntos? — Rachel sorriu torto, sentindo-se superior, mas ainda estava confusa.

–Eu não posso. Tenho coisas importantes para fazer.

–Ah! Então, te vejo no colégio.

Assim que ela foi embora ele jogou-se no sofá e pegou seu celular que havia ficado sobre a mesa de centro da sala. Mandou uma mensagem para Myung Soo, perguntando se eles poderiam marcar algo para fazer à noite.

Taila resolveu sair de seu esconderijo e andou com passos pesados em direção a ele. Ela não queria demostrar que estava com raiva, mas não conseguia se controlar.

–Ei! — gritou para Choi Young Do, que com desânimo largou seu celular. — O que vocês são um do outro?

–O que isso te interessa?

Expirou seu ar com indignação. E virou-se para ele ainda irritada.

–Então você e a Rachel Yoo devem ser namorados.

–Então você a conhece?

–Claro que conheço. Ela era a noiva do Kim Tan. Por que você acha que eu pulei de alegria quando eu soube que ele estava com a Chan Eun Sang?

–Então é por isso que ela reconheceu a sua voz.

–Já que vocês estão juntos, eu não posso mais ficar aqui... — virou-se de costas pronta para subir as escadas.

–Eu nunca disse que nós tínhamos algo — ele levantou-se do sofá no mesmo instante. Ela paralisou o passo enquanto ele se aproximava cada vez mais. — Falando assim parece até que você está com ciúmes de mim.

Ela começou a gargalhar, mesmo não achando a situação engraçada.

–Eu não teria ciúmes de um completo estranho. Mas pensando bem, pode ser divertido. Ela não é mais noiva do Kim Tan, então, ela não tem mais vantagens.

–O que esse cara tem de tão bom pra três mulheres bonitas brigarem por ele? — ele realmente parecia indignado com a situação. Sentou-se no sofá e pegou seu celular novamente. Myung Soo havia respondido sua mensagem dizendo para ele ir ao seu estúdio.

–Então quer dizer que você gosta de uma dessas três. Você gosta da Chan Eun Sang.

–Ei! — ficou irritado. — Como você vai tirando conclusões precipitadas assim?

–Você gosta ou não gosta dela?

–Sim! — ele jogou o celular para o lado de apoiou a cabeça no encosto, colocando a mão sobre a boca enquanto observava o teto. — É tão obvio assim?

–Dá para perceber quando você olha pra ela. É da mesma forma que o Kim Tan olha — ela sentou-se ao lado dele e também fitou fixamente o teto. — Eu sou muito patética mesmo. O que foi que eu vim fazer aqui na Coreia?

Ele permaneceu em silêncio.

–Acho que eu sou uma daquelas pessoas que não tem uma alma gêmea.

–Você acredita nisso?

–Você não? Eu sempre pensei que o Kim Tan era a minha alma gêmea, mas ele só me via como irmã dele.

–Pelo menos você tem coragem de permanecer ao lado dele, mesmo sabendo que ele não precisa mais de você.

–Vocês eram próximos, não é? — ela sorriu e disse virando seu rosto na direção dele. — Me desculpe, Choi Young Do!

–Desculpar pelo quê?

–Eu sempre soube quem você era. Melhor amigo do Kim Tan desde o fundamental. O bullying com os bolsistas. O fato de você odiar o Kim Tan por ele ser um filho bastardo.

–O que mais você sabe? — a expressão dele não era agradável. Ele estava furioso por uma garota desconhecida saber sobre toda a sua vida. — Quem foi que te contou isso?

–Você sabe quem foi. Por isso eu confiei em você.

–Quê? — virou-se para ela com um olhar furioso. Sua voz estava ríspida e seu tom estava alto. — Você sabe tudo sobre mim? Que direito ele tinha de contar a minha vida pra você? ...

–Ele não contou a sua vida, ele me contou a vida dele — ele permaneceu indignado e completou sua frase que havia sido cortada.

–E o mais importante... que provas você tem de que eu sou uma pessoa boa?

Ela sorriu, deixando-o ainda mais furioso.

–Eu posso ver nos seus olhos. E também, se o Kim Tan mudou depois de ter me conhecido, por que você não mudaria após ter conhecido a Chan Eun Sang?

Ele estava perplexo, aquilo havia sido um forte susto para ele. Sua voz estava trêmula e ele somente conseguiu dizer:

–Quem é você Taila Monteiro?

Notas finais
Bom, mais um capitulo dessa história surpreendente. Conseguiram descobrir um pouco mais da Taila ou estão cada vez mais curiosos para saber quem pode ser essa garota? Bom, vejo vocês no capitulo 5.