Conquistá-la.
1 Ela tem olhos penetrantes.
O jovem bardo cantava por vilas, apenas se preocupando em acumular novas histórias e estragar a própria voz com fumos e bebidas variadas, até que avistou uma nobre. Cabelos lindos e olhos penetrantes como o sol, ele presumia que o beijo dela fosse como o inferno, porque nunca a tinha beijado. O bardo se apaixonou perdidamente pela donzela, que desistiu de ficar na vila por seus costumeiros dois ou três dias e se dedicou que só sairia de lá quando a conquistasse.
O bardo então decidiu cantar para ela uma cantiga de amor, aquelas que o mesmo entendia bem, mas foi negado, teve seu coração despedaçado. O músico nunca tinha levado um não, sempre foi um mulherengo, galanteador, mas ele também nunca tinha se apaixonado. Ele apenas queria conquistar as garotas, ficar com elas por umas noites, saciar seus prazeres e ir embora, mas dessa vez estava ferrado. Ao ver os olhos da nobre se viu preso em seus encantos e ele sabia: precisava conquistá-la. Ele então resolveu fazer uma poesia, com as palavras mais complicadas que conseguiu pensar, mas ainda era simples demais para o vocabulário rebuscado da garota. O bardo contou uma história, uma inventada sobre o vale do amor, e ela apenas riu.
Ele estava amaldiçoado, a única paixão dele nunca o notaria. Mas, ele não ia desistir fácil. Fez músicas novas, sonetos, deu tudo de si e ela não retribuiu nada. Apenas debochava. Ela nunca ficaria com um bardo. Nunca. Não era culto como ela.
O bardo, quebrado, resolveu dar a última cartada no dia de uma festa que ocorreria na vila. Usou seu pouco dinheiro para comprar roupas novas, cortou os cabelos, se perfumou e deixou sua flauta em uma taverna qualquer, para pegá-la depois. Inventou uma história de ser um nobre recém chegado na vila e resolveu ir até a festa e com seus galanteios, conquistá-la.
Com sua nova personalidade dançou com a nobre de olhos penetrantes durante toda a noite, mas ficou calado, não disse nada além das costumeiras cantadas. Se dissesse mais alguma coisa seria poesia sobre como ela rodopiava naquele salão, estragando o disfarce do bardo. No fim da festa eles se dirigiram para um beco escuro, a nobre ria enquanto o jovem falso nobre a conduzia pelo lugar. Eles jurariam amor. O bardo estava apaixonado. Olhava nos olhos da jovem, estava seduzido.
“Eu prometi que só sairia daqui quando te conquistasse.” Murmurou baixinho o músico enquanto passeava as mãos pelo vestido de seda da garota.
“E você cumpriu muito bem.” Disse no mesmo tom enquanto encostava seus lábios nos do jovem, a sensação era a mesma de estar no inferno. A nobre então retirou seus lábios e sorriu. Os dois se olhavam como apaixonados, mas falsos, afinal o bardo era apenas um bardo.
Ele assentiu. O beijo cessou. Eles se encaravam e olhavam para o lugar.
Nos olhos da nobre o bardo entendeu a menção que ela queria algo mais, ela sorria, pois a noite era deles. Porém, ele falhou nisso. O jovem falso nobre já começava a apontar para uma hospedagem onde eles poderiam passar a noite, conversando e se conhecendo, mas ela apenas riu. Um riso sádico, e não um riso apaixonado como o bardo esperava.
A nobre então o empurrou e o encurralou em um muro. Logo depois sussurrou.
“Você cumpriu sua promessa muito bem, bardo.” Ela passou sua mão pelos cabelos recém cortados enquanto o encarava com repulsa, ela era superior a ele na própria visão, pois tinha dinheiro e poder. “Eu conheço seu tipo mulherengo...” Falava enquanto arrumava a gola do jovem nobre. “Iria me conquistar para me jogar fora depois.”
“NÃO!” Ele tratou de dizer. Estava se sentindo mal, tinha feito isso com tantas mulheres... “Eu me apaixonei por você!” Clamava sincero. “Faça-me o poeta mais feliz do mundo e me beije!”
A nobre riu com gosto enquanto acariciava a bochecha do falso nobre, agora os papéis estavam invertidos, ela tratou de usá-lo para jogá-lo fora. Ela via no olhar, bobo e ingênuo (embora tentasse parecer maduro e experiente) do músico a verdadeira paixão. Que ela nunca corresponderia. A jovem parecia satisfeita.
“Acha mesmo que eu ficaria com alguém da sua laia, bardo?” Perguntou em seu ouvido, o que fez o músico se arrepiar de êxtase. Ela faria questão de estraçalhá-lo, mas isso pouco importava para o poeta, entretido nas caricias. A nobre sabia que ele estava vulnerável, queria acabar com ele. Os bardos chegavam de vila em vila, cantavam, bebiam, se achavam os donos do lugar, se satisfaziam e iam embora deixando tavernas sujas e corações quebrados. Não, dessa vez seria diferente.
“Posso te recitar uma poesia?” Murmurou de olhos fechados.
Ela negou, enquanto dava uma risada forçada tomada por raiva.
“Você não entendeu? Eu não gosto de bardos.” Disse a palavra “bardos” com repulsa, mas o falso nobre nem se importou. Ela levantou a voz sem perder a classe. “Eu não gosto de você.”
“Então me diga o que devo fazer para te conquistar!” O músico falou com a voz pastosa, tomada pelo desejo.
Ela era penetrante como o inferno e o bardo estava no inferno.
A nobre então pensou, e disse com um olhar sádico.
“Entregue-me seu bem mais precioso.”
O bardo rapidamente sacou um punhal que estava em seu bolso e perfurou a própria carne. A nobre se assustou, pois ficara com o vestido manchado de sangue. O jovem entregaria seu coração, pois só sairia da vila tendo a conquistado. O músico gritou poemas de amor enquanto sentia o sangue subir por sua boca. Morreria, mas por amor. A nobre ficou estática, sem dizer nenhuma palavra.
O jovem encarava o olhar penetrante da nobre e não se arrependeu. Não tinha sido um tolo. Ela não tinha conseguido tirar o melhor dele. Seu bem mais precioso era uma flauta que estava em uma taverna.
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