Connected Spirits

20 Simples hortênsias?


Na cozinha, Elliot começa a cortar alguns legumes enquanto eu faço o macarrão. Ele anda parece estar triste, mas pelo menos não quer demonstrar tanto isso. Sempre que me volto para ele, sorrio e beijo sua bochecha de leve.

Mas algo que ele me disse martela em minha mente.

— Elliot... — O chamo. — Você falou que Jaden me colocou no sofá quando tive a visão. Como ele fez isso, se não pode me tocar?

— Ele empurrou o sofá até você, antes que caísse no chão. — Ele suspira. — Eu devia ter notado o que estava acontecendo. Por pouco você batia a cabeça.

Olho para ele e vejo que o arrependimento é real. Sorrio.

— Não se sinta culpado. — Apago a boca do fogão e viro-me para ele. — Agora nós temos que fazer algo em relação ao porta-retratos. Precisamos mostrá-lo a Suzanne.

Ele suspira, mostrando-se um pouco frustrado com minhas palavras.

— Mas não dá pra chegar e dizer "ei, Suzanne, será que você pode olhar para essa foto e se lembrar da sua vida passada?"! O que vamos fazer?

— Bem, a gente podia inventar uma história. — Digo, um pouco zangada com o tom de ironia que ele usou. — Dizer que é um retrato antigo de família, e que ela se parece muito com essa minha "prima de quinquagésimo grau". Nós o entregaríamos para ela ver e bang, ela lembraria.

Elliot começou a cortar os legumes mais violentamente.

— Tá, mas e depois? — Ele larga a faca, para o meu alívio, e se volta para mim. — Quando ela se lembrar, se ela se lembrar, o que falaremos para ela? Isso é bem mais complicado do que eu imaginava. Se ela não acreditar nisso, ela não perdoaria Jaden, perdoaria? E se ela não perdoar? — Ele bufa ao notar que eu continuava a fazer o macarrão na máxima tranquilidade possível naquele momento. — Pelo amor de Deus, Vanessa, parece que você está em outro mundo! Será que você poderia...

— Eu não tenho todas as respostas, Elliot! — Exclamo, assustando-me com meu tom de voz. — Pare de me fazer perguntas como se eu fosse a dona da verdade!

Ele para repentinamente de por os legumes na panela. Seus olhos estão arregalados e confusos ao mesmo tempo, mas logo seu semblante muda para raiva.

— Eu vou lá fora. — Ele lava as mãos e sai rapidamente. — Não precisa me seguir.

— Elliot... — Tento impedi-lo, mas ele não me ouve mais.

Oh, Deus... Ele sabe que eu estou nervosa com tudo isso que está acontecendo e com o que eu vi na visão, então por que ele fica agindo dessa maneira? Mas eu também não precisava gritar com ele... Ora, ele que está agindo como um besta! Decido não segui-lo, de qualquer forma.

— Vany. — Jaden aparece ao meu lado, mas finjo que não o escuto. — Vanessa...

— O quê? — Quase grito. — Você também quer encher a minha paciência?

— Elliot ficou magoado. — Ele suspira. — Eu não quis afastá-lo de você. Nunca quis fazer nenhum mal a relação de vocês.

— Do que você está falando? — Tiro o macarrão da panela e o coloco na travessa de acrílico.

— Desde que chegamos em Gayle vocês vêm se distanciando. — Ele olha para mim com aqueles olhos azuis fluorescentes. — Eu não quero que vocês se distanciem, de maneira nenhuma.

— Você está enganado. — Sorrio, tentando demonstrar que não estou abalada. Provavelmente não consegui. — Eu e Elliot nunca estivemos mais próximos.

Ele dá uma risada afetada e me ajuda a levar a travessa com o almoço para a mesa.

— Elliot foi a melhor coisa que te aconteceu em toda a sua vida. — Ele sorri. — Sua vida, sejamos sinceros, sempre foi bem medíocre. Mas depois que ele chegou em sua vida, tudo melhorou. Você ficou mais disposta, alegre... Mais sorridente do que eu nunca tinha visto em toda a sua vida. Olha, quando você está contente, eu fico contente. Isso me ajuda a me comunicar com você. — Ele começa a sumir da minha vista. — Não deixe que discussões bestas e o ciúme maluco dele separem vocês. Vocês são o casal mais lindo que eu já vi. Claro, sem levar em conta eu e Alice.

E então ele desaparece por completo.

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— Elliot... — Saio de casa, depois de criar coragem para falar com ele e vejo meu namorado sentado na calçada. — O almoço está pronto.

— Eu já vou entrar. — Ele se vira para mim e sorri.

Ele não se move, e então desisto de só falar. Sento-me ao seu lado, me agarrando desesperadamente ao seu braço.

— Desculpa. — Seguro forte sua mão. — Eu não devia ter gritado contigo.

— Não esquenta, eu sei que tudo isso está sendo complicado pra você. Quer dizer, acho que está difícil para todos nós. — Ele beija a ponta do meu nariz. — Eu que não devia ficar com raiva de você por coisas bobas como essa, nem ficar te enchendo com tantas perguntas. Você deve estar mais confusa que eu, com certeza.

— Pelo menos você reconhece que foi besteira. — Rio, e ele me olha com um falso olhar ofendido. — Estou brincando...

Ele suspira, me beija de uma maneira leve e embriagadoramente e olha para o horizonte. Enquanto ele parece fixar o olhar em algum lugar longe, dedico-me a olhar cada detalhe do rosto dele. Engraçado como eu geralmente não faço isso com as pessoas, olhá-las em cada detalhe, para memorizá-las em minha mente. É como se eu quisesse esquecê-las.

O nariz de Elliot é um pouquinho torto, e ele já havia me dito que isso era o resultado de uma briga dele com o irmão Arthur. Os cílios dele são curtos, porém volumosos. O cabelo escuro dele está costumeiramente penteado para trás. Eu sempre tive uma queda por homens de olhos escuros, talvez pelo ar de mistério que eles causam. Os lábios dele não são finos nem grossos, mas isso não importa quando ele me beija. Alguns pelos da barba dele estão começando a crescer, depois desse tempo sem barbear. O quão estranho será ele de bigode?

Saio do meu devaneio quando ele me encara novamente.

— Por que eu? — Ele fala como se estivesse libertando algo que estava a muito tempo entalado em sua garganta.

Franzo o cenho.

— Como assim, Elliot? — Indago.

— Por que eu tive que conhecer você? — Ele continua. — Por que eu me apaixonei por você, e por que você se apaixonou por mim? O que eu fui fazer naquele curso de artes? Eu nunca gostei de pinturas!

Aquelas perguntas pareciam estranhas, apesar de eu já tê-las feito tantas vezes. O tom que ele fala, um tom de dúvida, me faz relembrar do meu medo. Meu medo de que ele, um dia, se canse de mim, perceba que sou só uma aventura.

Aventura. Agora eu sei porque tenho medo de perdê-lo. Eu nunca havia me apaixonado por nenhum outro, mas eles haviam se apaixonado por mim. Do mesmo jeito que eu destroçava os corações deles quando terminava um relacionamento, na minha opinião, corriqueiro, eu agora temia que ele fizesse o mesmo comigo. Papéis invertidos. Talvez Elliot estivesse em algo corriqueiro, mas eu não. E isso me dá medo.

— E você se arrepende de tudo isso? — Murmuro.

— Claro que não! Te conhecer foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida! — Ele exclama, e sinto uma inundação breve de alívio em meu coração. — Mas isso tudo é muito estranho. Eu largo tudo lá em casa e decido viajar com você. Eu nunca fui de agir por impulso, você sabe. Desde que eu te conheci, um lado meu totalmente estranho surgiu. E eu gosto desse lado.

Ele me abraça mais forte, e sinto no meu coração uma sensação calorosa de carinho e amor. Eu adoro essa sensação. Ele me ajuda a levantar, mas antes de entrarmos, ele percebe algo.

— Olha... Hortênsias. — Ele aponta para um arbusto cheio de hortênsias rosas e azuis. — São lindas, não são?

— Com certeza. — Sorrio para ele.

— Deixa eu colher umas pra você. — Ele se agacha, pegando um dos ramos mais arroxeados. — Acho que a Anna não se importará.

Mas, assim que ele toca nas flores, ele desmaia.

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— Elliot! — Exclamo, logo depois que consigo colocá-lo na cama (imagine o sofrimento de colocar quase noventa quilos em cima da cama). — Acorde, por favor...

— Vanessa... — Ele sussurra, enquanto se ajeita na cama. — Eu apaguei por quanto tempo?

— Quinze minutos. — Suspiro aliviada. — O que aconteceu? Será que foi alguma reação alérgica as plantas?

Ele coça a cabeça e olha para mim bastante preocupado.

— Eu acho que... — Ele engole em seco, parecendo nervoso e suando frio. — Eu acho que tive uma visão. Eu tive uma visão.

Notas finais
Reviews?