Decidimos almoçar em uma lanchonete perto de casa. Elliot é a pessoa mais viciada em carne que conheço, e sei que ele nunca recusaria um cheeseburger com fritas que, diga-se de passagem, estavam deliciosas. Decidi ficar no meu sandiuchinho natural mesmo, apesar de ter que ficar escutando meu ficante dizer que eu não preciso seguir minha dieta tão rigorosamente. Mal sabe ele que só estou nessa dieta para manter minhas medidas para ele.

Voltamos para meu apartamento e ficamos o resto da tarde conversando abraçados, enquanto ele enrola meus cachos negros em seu indicador. Como... Como esse homem pode ter acreditado numa história tão maluca e mirabolante como essa? Ele só pode gostar muito mesmo de mim... Só espero ser uma mulher boa para ele. Quer dizer, tanto quanto uma louca perseguida por um fantasma pode ser.

Espera... Eu estou planejando algo mais com ele? Na real, eu não sou de namorar por mais de tês meses, mas depois de ele ter confiado em mim... É como se eu tivesse me apaixonado por ele mais ainda. Eu preciso desse homem. Se ele acredita em mim, nenhum mais irá.

— Está pensando em quê, Bellucci?

— Não gosto desse sobrenome. — Resmungo, mas estou envolvida demais para levantar minha cabeça e olhar diretamente para ele.

— Bem, Bellucci é um nome lindo, italianinha. — Ele ri. — Assim como a dona do nome.

— Para com isso, você sabe que eu não sou dessas mulheres melosas. — Levanto do sofá e vou até a cozinha. — Mas vou deixar passar. Eu... Eu gosto quando você me elogia, apesar de saber que eu não sou tudo isso.

Ele me lança um olhar do tipo "por favor, Vanessa, autocomiseração não é seu forte.", apesar de eu não me achar tudo isso mesmo.

Pfff, você não é tão modesta assim.

— Qual é?! — Falo para Jaden, mas serviu perfeitamente para Elliot. — O que você achou de interessante em mim?

— Primeiramente, foram duas coisas me chamaram mais atenção. — Ele se aproxima ainda mais, discretamente deslizando suas mãos até meus seios, mas para meu alívio logo depois as tira de lá. — Mas depois vi que você toda é linda, atraente, inteligente e divertida.

Sorrio, totalmente ruborizada. Eu detesto ficar envergonhada, principalmente na frente de caras. Sabe como é, eu detesto parecer fraca na frente de qualquer um.

— Olha, eu não sou do tipo que fica dizendo "eu te amo" com só um mês de... — Franzo o cenho. — De quê mesmo?

— Ah... ficada? — Ele sorri torto. — Eu sei, sou meio lento.

— Jura? — Ironizo, e ele ri de nervoso.

— Você... Você aceita...

Abro um sorriso.

— Para com isso, Elliot! — Dou um leve tapa em seu ombro. — Parece até que vai me pedir em casamento...

Você é bruta, hein, Vany? Deixa o cara!

Quer namorar comigo? — Ele pergunta lentamente.

— Deixa eu pensar... — Faço um pouco de charme.

A janela da sala se abre e fecha bruscamente, fazendo um vento extremamente frio tomar conta do ambiente. Elliot me abraça ainda mais, como se tentasse me proteger da ventania.

— Foi ele, não foi? — Ele sussurra. — Jaden?

— Sim, foi. — Suspiro. — Não precisa sussurrar, ele vai escutar de qualquer maneira.

Ele coça a cabeça e se afasta um pouco de mim. Sua expressão confusa me faz ter um pouco de pena dele, afinal, ele deve estar achando isso tudo uma loucura sem tamanho, e querer que ele mergulhe de cabeça em minha conturbada vida é muita crueldade com um homem desses.

— Desde quando você tem esse... Esse fantasma com você mesmo?

— Desde criancinha. — Sento-me no sofá e ele fica olhando para mim. — Elliot, eu sinto muito mesmo.

— Para com isso, tá? — Ele bufa, para minha surpresa. — Essa situação toda é difícil para mim, Vanessa. Eu gosto muito mesmo de você, mas sei lá... Essa coisa de fantasma...

Desvio o olhar. Eu não devia ter falado nada para ele desde o começo... Devia ter poupá-lo disso tudo. Elliot não merece isso.

— Mas eu falei que ia te ajudar. — Ele levanta minha cabeça. — Não sei o que é isso que você causa em mim, mas é o que me mantém aqui.

Como você consegue gostar de um cara tão meloso quanto esse? Você nem é assim!

— Sim. — Sussurro de olhos fechados.

— Sim o quê? — Elliot pergunta.

— Eu aceito namorar você. — Sorrio. — Vamos oficializar isso que a gente tem logo.

— E com "isso" você quer dizer "relacionamento", não é? — Ele ri de mim.

— Eu não sou muito boa nisso. — Eu coloco uma mecha atrás da orelha. — Em relacionamentos. Sempre fui muito sozinha.

— Eu sei, e sinto muito por isso... Seu pai era empresário da sua mãe ou alguma coisa assim, não era?

— Sim. A única "pessoa" — Faço aspas no ar com os dedos. — Que eu pude realmente chamar de amiga foi Jaden, então você deve perceber o quanto minha infância foi atormentada e completamente solitária.

— Mas você não tinha amigas, de carne e osso? — O jeito com que ele me pergunta isso quase me faz querer rir. — E namorados?

— Sim, mas a maioria se aproximava de mim por causa da minha mãe. Elas achavam que teriam alguma chance de ingressar nas passarelas me tendo como amiga. Ah, e garotos... Bem, eles também queriam conhecer minha mãe, que nojento. Mas é claro, eu ser parecida com ela me fez ter um pouco de vantagem. — Suspiro. — Deus, sorte minha ser inteligente.

Elliot fica me encarando com um sorrisinho de lado.

— E você nunca pensou em ser modelo? — Ele indaga, realmente surpreso.

— Na verdade não. — Confesso, e ele fica chocado. — Ah, qual é!

— Calma! — Ele levanta as mãos como se estivesse sendo assaltado.

Tem alguém na porta. Jaden me avisa antes mesmo que a campainha toque.

— Espere aí. — Advirto-o e vou até lá atender.

Quando abro a porta, vejo um senhor de mais ou menos quarenta anos segurando uma carta para mim. Pego-a.

— Preciso assinar alguma coi...

Ele mesmo fecha a porta antes que eu possa terminar a frase.

— Ué... Quem era? — Elliot pergunta, deitando-se no sofá.

— Um maluco... Me deixou isso aqui.

Sento-me ao lado dele e começo a rasgar o envelope. Dentro dele há uma carta rosada com algo escrito em uma linda caligrafia. Meu Deus... Aquela letra...

— Minha mãe escreveu isso. — Solto meus pensamentos.

— Como assim? — Elliot se senta e a observa comigo.

— Essa letra... É a de minha mãe. — Passo meus olhos rapidamente. Só há uma frasezinha escrita.

Vanessa. Rua Standford Holmes, 1843. Amanhã, às sete e meia da noite. Espero minha belle lá.

– Mama.

Notas finais
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