Connected Spirits
7 Não tão bonzinho quanto parece
— Nessa? Ah, eu sabia que você estaria aqui! — Olho para trás e vejo Isabel vindo em minha direção.
— Claro que sabia! — Abraço-a. — Sabe meu lema...
— Nada de cozinha aos sábados! — Ela sorri. — Aproveitei que estava na casa da minha mãe e vim tomar café aqui.
— Então senta comigo.
Isabel é, digamos, minha melhor amiga. Eu digo assim por que eu nunca fui boa em fazer amizades. Ela está na faculdade de jornalismo na mesma universidade onde eu faço artes. Que eu faço só por fazer, pois pra mim um verdadeiro artista não precisa ser ensinado. Isabel é o oposto de mim, vive fazendo novos amigos. Foi ela quem se aproximou de mim, quando eu entrava no campus e, pra ser sincera, fiquei muito aliviada em saber que as pessoas poderiam gostar de mim, mesmo sem saber quem minha mãe era.
— Como foi a saída com Elliot? — Ela sempre é invasiva assim, mas eu já me acostumei.
— Ah, foi bom. Muito bom. — Suspiro. — Fazia muito tempo que eu não dormia com alguém tão doce e sensível, mas que também... – Eu fechei os olhos, tentando pensar em qualquer frase mais adequada que 'sabia me fazer gemer feito uma louca'.
— Você dormiu com ele? Finalmente! Mais detalhes! — Ela parece ter percebido o quanto aquela conversa estava caminhando para algo íntimo demais. — Quero dizer, só o que você quiser falar, claro...
Uma brisa fria e forte adentra a parte gourmet da padaria. Por que será que eu tenho uma estranha sensação de saber de onde isso veio...
— Nossa, que frio! — Ela fecha mais seu sobretudo. — Mas voltando ao assunto...
— Elliot é um cara legal. Ele sabe como me tratar bem, e espero que ele também se sinta bem comigo. — Sorrio feito uma boba. — Não vejo a hora de encontrá-lo de novo.
Ela parece estar mais feliz por mim do que eu mesma estou, e por isso deixo um sorriso escapar. Eu a conheci mais ou menos na mesma época em que eu parei de fumar, e nesse mesmo período eu havia desistido de contato romântico e sexual. Claro, ela não sabia na época as coisas que eu avia feito na adolescência, por isso tentava me empurrar para um monte de caras legais da faculdade. Nenhum conseguiu me ganhar, e então conheci Elliot. Ela quase não acreditou quando eu disse que ia sair com ele, em nosso primeiro encontro.
— Qual é o pedido das senhoritas? — Um jovem atendente vem até nossa mesa.
— Eu vou querer um café forte com torradas e geleia de uva. Vocês podem trazer açúcar à parte? — Isabel olha para ele com tanta intensidade, fazendo biquinho. Céus, ela está flertando com o garçom.
— Sim, podemos. — Ele sorri para ela. — E a senhorita?
Ele se volta para mim. Aqueles olhos... Eu nunca havia visto tal tom de azul antes. Só mesmo com... Jaden?
— E-eu... Vou querer o mesmo que ela. Mas troque o café por um suco de laranja.
Ele anota os pedidos rapidamente em seu bloquinho de notas e volta a olhar pra mim. Eu só posso estar delirando, mas juro que ele piscou pra mim antes de sair. Volto a olhar Isabel, que está olhando para trás, acompanhando cada passo dele.
— Deus, que gato! — Ela olha para mim novamente. — Vou chamá-lo para sair!
— Meu Deus, você nem sabe o nome dele! — Digo, ainda processando aqueles olhos em minha mente.
Noto um começo de tumulto na entrada do hall. Uma mulher começa a gritar para alguém chamar uma ambulância ou coisa assim. Só espero que não seja um assalto, por favor...
— Espere aqui, Isabel. — Advirto-a, enquanto ando lentamente até o pequeno aglomerado formado.
Andando lentamente, vejo que as pessoas estão ao redor de algo no chão. Tento de tudo para enxergar o que é, mas meus poucos um metro e sessenta e cinco não me deixam ver nada. Olho para as pessoas ao redor.
— Ele desmaiou, pessoal. Deixem-o respirar! — Uma mulher tenta afastar a multidão.
— O que... O que está acontecendo? — Escuto alguém fazer a pergunta que eu tenho na minha mente.
As pessoas ficam boquiabertas, e então vejo um homem se levantar do chão. Oh, era o homem que nos atendeu! Ele ajeita seu cabelo e olha em volta.
— O que aconteceu?
— Você desmaiou, jovem. — Uma senhora responde.
Olho melhor para aquele homem. Ele parece também olhar para mim, e meu medo se torna realidade.
Os olhos dele são castanhos.
Volto para minha mesa no mesmo instante. O que foi aquilo? Que meus pensamentos não sejam verdade... Aqueles olhos, aquele azul não era daquele homem. Aquela mesma cor era a de Jaden, eu sabia.
— O que aconteceu? — Isabel pergunta. – Eu pensei em ir com você, mas fiquei um pouco assustada
— Nosso garçom desmaiou. — Simplesmente respondo. Eu estou atordoada demais...
— Oh meu Deus... O gostoso está bem? – Ela pergunta, e o sorriso malicioso dela me faz esquecer um pouco das minhas presunções.
— Está, Isabel. – Respondo, para logo depois notar que nossos pedidos já estavam na mesa. – Quem trouxe a comida?
— Enquanto isso uma garçonete veio com nossos pedidos. — Ela diz. – Se senta.
Sento-me e como calada. Os olhos dele, quando veio nos atender, eram idênticos aos de Jaden. E depois que ele desmaiou, quando olhei de novo em seus olhos, estavam tão escuros quanto os de Isabel. Eu me recuso a acreditar no que eu acho que é...
— Eu preciso ir, Nessa. Prometi à mamãe que eu iria levar ela para a casa da minha irmã daqui a uns dez minutos. — Ela se levanta, dando um abraço meio desajeitado em mim, que permaneci sentada. — Vai pro campus amanhã?
— O que eu vou fazer no campus em um domingo?
— É a confraternização de outono! Esqueceu? — Assinto, e ela sorri. — Te espero lá, hein?
— Certo. — Sorrio de volta. — Tchau!
Ela, antes de sair, me entrega a quantia certa de dinheiro para eu pagar o café dela. Suspiro, olhando ela se afastar. Depois de alguns minutos eu termino, pago e volto para casa, mas sei que ele está me seguindo. É como se eu escutasse a risada dele ecoando na minha cabeça. Assim que giro a chave na porta, trancando-me no apartamento, ele reaparece para mim.
— Mas que merda foi essa que você fez lá? — Exclamo, mas ele não para de rir.
— Eu só estava me divertindo! — Ele explica com um sorriso nos lábios. — Foi só uma ventania, Vany...
— Eu não estou falando da sua crise de ciúmes, e sim da possessão!
— Ciúmes? — Ele parece ignorar o que falo. — De quê?
— De mim e do Elliot! — Exclamo novamente. — Toda vez que eu mencionava o nome dele você fazia um vento frio vir até eu e Isabel!
— Sabe o significado de "coincidência"? — Ele sorri. — Deus...
— Tá certo, vamos levar isso em consideração. — Olho para aqueles olhos. — Mas o que você fez com o garçom é terrível!
Ele abre um sorriso largo.
— Você sabia que era eu?
— Claro! Seus olhos são humanamente impossíveis de existir. — Ruborizo. Falar sobre ele (com ele, já que não falo sobre fantasmas com pessoas) me deixam desajeitada.
— Eu só quis me divertir um pouquinho... — Ele dá um sorriso maquiavélico. — O desespero das pessoas é o que me diverte. Eu não posso beber, nem fumar, muito menos transar. A única coisa que me resta é assombrar os viventes!
Ele se joga na minha cama, rindo feito um bobo.
— Não faça isso. — Peço. — Você podia ter machucado aquele homem. Ele podia ter quebrado um osso, ou batido a cabeça no chão...
Ele se senta e me encara.
— Não vou fazer isso no seu campo de visão. — Ele sorri e desaparece mais uma vez.
Dou um giro de 360° em torno de mim mesma.
— Volte aqui!
Ele reaparece no mesmo local.
— O que foi?
— Por que eu tenho que fazer tanta coisa para me livrar de você? Eu não entendo...
Ele abaixa os olhos, suspirando lentamente.
— Você não é burra, Vanessa. — Ele volta a me encarar seriamente. — Eu já lhe expliquei. Não vou fazer isso de novo.
— Vou comprar essa passagem de avião o mais rápido possível. — Sento-me na outra beira da cama. — Vinte e um anos sem descanso, Jaden. 21 anos com você sussurrando em meu ouvido, me assustando. Não tenho mais medo, o que eu tenho é impaciência. Não quero mais ter que carregar você pra todo lado que eu for.
— Eu não queria estar aqui, Vanessa. — Viro-me e vejo que ele está, além de triste, com raiva. — Se eu pudesse, eu estaria no paraíso exatamente agora. Faria de tudo pra te ver feliz. Eu te vi nascer, crescer... Se isso fizesse você feliz, eu iria até para o inferno.
Inferno. Nunca acreditei nisso.
— Não pedi pra você sentir compaixão por mim.
— Compaixão? — Ele se levanta. — Eu não tenho escolha! Ou eu gosto de você e aprendo a conviver com suas manhas e manias, ou eu tenho que ficar para sempre ao lado de uma chata de galocha!
— Chata, eu? — Rio desdenhosa. — Você consegue se enxergar no espelho?
Ele respira pesadamente.
— Você está me obrigando a fazer algo que eu não quero...
— O quê, por acaso?
Ele vem bem perto de mim. Sua mão esquerda faz como se fosse cobrir meu rosto, mas ela atravessa minha cabeça. Tento sair, mas seus olhos estão me fitando de uma maneira que me faz paralisar de medo. Ele continua a vir, a se aproximar... Até que seu "corpo" entra em mim.
E então não lembro de mais nada.
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