Notas iniciais
Prometi um capítulo longo, mas decidi dividir ele...

Sinto a visão turvar.

— Calma, Vanessa... — Elliot me segura antes que eu caia no chão.

Ainda me segurando pelos cotovelos, ele me ajuda a andar para um pouco mais perto do portão. Eu... Minha nossa. Tantos anos se passaram e a mancha escura continua marcada lá. Isso me faz lembrar meu pesadelo.

— Elliot...

Jaden provavelmente abre o portão, e então Elliot me leva para dentro.

A porta está aberta. Sempre esteve.

Elliot lentamente gira a maçaneta dourada, exatamente igual a do meu pesadelo. Entrando na casa, sento-me no sofá empoeirado e suspiro. Já me sinto melhor, mas a minha visão ainda está embaçada como antes. Meu namorado segura minha mão com força, se sentando ao meu lado. Olho para frente.

— Ninguém nunca entrou aqui depois que Alice faleceu? — Pergunto a Jaden.

— Não. Eu acho que não.

Quando me volto para Elliot, vejo que seus olhos mais arregalados que nunca. E então eu olho para trás e vejo Jaden olhando para nós dois.

— Va-va-vane — Elliot gagueja. Oh, Deus, ele está o vendo.

— Oi, Elliot. — Jaden sorri, seus olhos azuis demonstram confiança. — É um prazer conhecê-lo.

Diferentemente do que eu pensava que iria acontecer, Elliot se levanta do sofá e vai até Jaden. Sem medo, sem espanto. Será que ele está tentando me impressionar? Quando eles se aproximam, vejo que não é o medo que começa a comandar Elliot, mas sim uma certa curiosidade.

— Então você é assim... — Ele faz um gesto como se fosse tocar em Jaden, mas para no meio do caminho.

— Oh, por favor. Pode tocar.

Lentamente Elliot põe suas mãos ao redor do rosto dele. Também me levanto para acompanhar melhor a cena. Que infelicidade a minha, tantos anos ao lado de Jaden e nunca pude tocá-lo, enquanto Elliot pode logo quando se veem pela primeira vez. Elliot se afasta um pouco, ainda parecendo chocado.

— Eu precisei trazer vocês aqui para se familiarizarem com o local. Eu creio que passaremos um bom tempo por aqui. — Jaden passa as mãos pelos cabelos loiros e suspira.

— O-ok. — Elliot ainda gagueja.

— Bem, — Jaden pigarreia. — Precisamos encontrar algo que faça com que Suzanne se lembre da sua vida passada. Alguma cor, forma, cheiro ou objeto.

— Mas como você pode ter certeza de que ela é Alice? — O moreno pergunta.

— Eu não tenho. — Ele explica. — Se ela não for Alice, não irá acontecer nada. Se ela for, conseguirei falar com ela.

Os dois ainda se encaram intensamente. Eu queria saber o que estão pensando.

— Desde que voltei a me comunicar com a Vany...

— Vany? — Elliot indaga.

— É o jeito que eu a chamo. — Ele sorri bobo. — Desde pequena eu a chamava assim. Bem, quando eu voltei a me comunicar com a Vany, sinto algo. Uma energia enorme que só fez crescer desde que chegamos aqui. Quando Suzanne entrou por aquela porta, foi como se tivesse levado um choque elétrico.

— E é por isso que você acha que Alice pode ser ela. — Eu então começo a entender.

Elliot anda um pouco pela casa, tentando tirar um pouco da poeira que cobre os objetos. Então eu noto, em cima da mesinha de centro, um porta-retratos. Eu o pego e com a minha mão retiro a camada de sujeira, e enfim consigo visualizar a foto. Um Jaden, quer dizer, Matthew mais novo, de uns dezoito anos, e uma linda mulher também jovem, de cabelos loiros compridos e olhos azuis gélidos. Os dois estão abraçados e parecem felizes.

Sinto uma pontada no peito. E minha vista escurece mais uma vez.

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— Socorro! Por favor, alguém chame uma ambulância! Há um homem gravemente ferido em frente a minha casa! — Ela berrava para os vizinhos, e um vulto aparece em sua frente.

Estou novamente vendo a cena do ponto de vista de Alice. Ela não conseguia distinguir os próprios gritos dos da vizinha, que parecia estar ligando para a emergência. Alice não sabia mais o que via, era claro. Ela estava perturbada demais para pensar no que poderia ter ocorrido, e seu único pensamento era salvar Jaden, nesse caso Matthew, da morte que se aproximava.

Eu sei disso porque também estou sentindo isso.

— Alice... — Escuto um leve sussurro seguido de uma tosse úmida de sangue, e vejo os olhos de Jaden começando a escurecer.

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Antes que eu pudesse ter falado algo para ele, volto à minha realidade. Quando retomo os sentidos, vejo Jaden me encarando como se eu fosse uma aberração. Era estranho ver aqueles olhos, de um azul tão vívido que beira ao impossível, quando se acaba de vê-los esvaecer.

— Você viu a mesma coisa que eu vi. — Ele tenta me acalmar. — São os objetos. Eles carregam histórias, fatos. Nossas almas estão conectadas, todas as informações que eu coleto desses objetos vão diretamente para você, por isso a visão.

E então eu percebo que estou arfando. Por que, na visão, eu vi novamente Jaden morrendo e chamando por ela. Ela tentou ajudar...

Elliot está encostado na parede, olhando para eu e Jaden sentados no sofá. Seu olhar parece um pouco perturbado, triste... Sem vida. Ele continua olhando para nós quando eu resolvo que estou forte o suficiente para ficar em pé.

— Eu preciso voltar para casa, Jaden. — Digo, mas ainda olho para meu namorado. — Pelo menos serviu para sabermos que a casa está destrancada.

— Aham. Ninguém entrou aqui nos últimos vinte anos, pelo visto. Acho que ninguém quer comprar, muito menos vender, uma casa onde bem em frente aconteceu um assassinato. — Jaden ri da própria desgraça. — Bem, acho que você devia levar o porta-retratos. Talvez sirva para ajudarmos Suzanne a se lembrar.

— Claro. — Eu o pego novamente e suspiro. — Vamos, Elliot.

— Certo. — A voz dele soou rouca, como se ele houvesse reprimido um choro. O que aconteceu?

Voltamos para casa em silêncio. Elliot não parou de encarar o chão, e logo que nos distanciamos da casa, Jaden some de nossas vistas. Entramos em casa e seguimos diretamente para o quarto. Sento-me na cama e Elliot vai até o canto do quarto e se senta no chão.

— O que houve, Elliot? — Pergunto. — Não está falando comigo direito desde o que aconteceu lá na casa...

Ele agora parecia mais frustrado do que triste.

— Eu nunca vou ser como ele. — Elliot olha para as próprias mãos. — Quando você teve a visão, pensei que havia desmaiado. Foi só por alguns minutos, mas foi tempo suficiente para ele te sentar no sofá. Ele não me deixou aproximar de você quando a visão passou.

— Eu... — Tento falar, mas não consigo formular algo.

— Ele cuida de você. Ele se importa com você, apesar de que algumas vezes você me fez achar que ele só estava te usando para conseguir o que quer. — Ele suspira. — Ele te ama, Vanessa.

Meu coração dói, só não sei se de tristeza ou de alegria.

— Elliot... — Eu vou até onde ele está e me sento ao seu lado. — Você está com ciúmes de um fantasma?

— Estou. — Ele cora. — Sei que é infantil, até meio bocó da minha parte... Mas eu vi nos olhos dele. A preocupação dele por você é extremamente forte, e eu sei que você também se preocupa com ele muito. Se não se preocupasse, por que viajaria para o outro lado do oceano?

Engulo em seco. Não sei bem o que dizer... Ele tem um pouco de razão, apesar de parecer esquisito. Afago seus cabelos, e então finalmente ele sorri em minha direção.

— Vocês tem todo um passado. Uma vida juntos, mesmo que depois de alguns anos sem se falar. Vocês estão conectados, e esse é um tipo de elo que eu nunca vou poder ter contigo.

Eu o abraço.

— Você está o superestimando. — Sorrio. — É óbvio que eu quero ajudar Jaden, mas quem eu realmente amo aqui é você. Sim, eu e ele temos uma história, bem maluca, por sinal, mas isso não significa que nós não possamos ter a nossa própria história juntos. Eu estou tão confusa... Como eu posso ter esse sentimento tão forte por você? Como você mesmo disse, eu tive uma vida inteira com Jaden, e ainda não nos entendemos bem. Com você, em menos de um mês eu me sinto totalmente diferente.

Ele começa a dar um sorriso mais alegre.

— Você está me ajudando muito. Se não fosse por você, talvez eu ainda estivesse na minha casa, tentando saber o que fazer. Você se dispôs a me ajudar, acreditou em mim. — Algumas lágrimas surgem no canto dos meus olhos. — Ninguém nunca acreditou em mim. Só você.

Decido parar de falar antes que eu caia no choro. Agora eu entendo. Eu amo Elliot por que ele acreditou em mim quando ninguém mais acreditou. Quando ninguém mais acreditaria. Pela primeira vez na minha vida alguém não me questionou; não me taxou de maluca ou me levou a uma psiquiatra por causa de Jaden. Pela primeira vez alguém confiou em mim. E é incrível que esse alguém tenha sido um cara que eu conheci a pouco mais de dois meses.

— Desculpa por isso. — Ele ri. — Eu sou idiota. Ter ciúmes de um fantasma... Dá pra acreditar?

— Não mesmo. — Sorrio. — Anda, vamos fazer algo para almoçar mais tarde.

E, antes de irmos para a cozinha, coloco o porta-retratos no criado mudo.

Notas finais
review?