Meu amor,

Eu estou tão envergonhado. Perdoe-me pelo que você viu, querida. Apesar de que, se eu soubesse o que iria acontecer, faria de tudo para evitar. Alice, você sabe o quanto eu te amo, pois eu nunca menti para ti, e sabe também o quanto Anna consegue ser astuciosa. Eu ainda não entendo por que você preferiu acreditar no que viu do que em minhas palavras... Eu sempre te amei, Alice. Sempre te amei. Se fosse o contrário, algo que tenho certeza que nunca aconteceria, eu estaria do seu lado, mesmo que me chamassem dos piores nomes possíveis por te perdoar. Espero que você seja feliz algum dia, apesar de meu profundo amarguramento em saber que você realmente não gostava de mim de verdade.

— Nessa carta parece que Jaden está inconformado. — Sussurro para Elliot.

Estamos sentados na cama. Elliot separou as cartas em duas pilhas, uma onde colocamos as que já lemos e outra para as que ainda vamos ler. Olhando para elas, sinto uma enorme vontade de me chorar. Chorar muito, muito mesmo. E é isso que eu fiz nas últimas horas. Chorar, chorar, chorar... Pelo menos eu tenho alguém com quem posso ficar abraçada enquanto o pranto rola. Elliot é a única pessoa que entende o que eu estou sentindo nesse momento, e o único que pode me consolar. Nem mesmo Jaden, com aquele poder quase milagroso de me alegrar instantaneamente, poderia me ajudar como Elliot está fazendo.

— Eu também ficaria. Depois de tanto tempo juntos, ela preferiu acreditar na palavra de Anna do que na dele. Isso é horrível...

— Ela acreditou no que viu, não no que Anna possa ter dito para ela! — Defendo-a.

Elliot dá de ombros. Como ele é teimoso!

Depois disso, continuamos a ler as cartas, uma por uma. Isso dói em mim, por que é como se eu pudesse sentir a dor dele no momento em que ele escreveu todas essas declarações. Algo me diz que Elliot também pode sentir isso.

Eu espero que Jaden se manifeste para mim, mas ele não murmura sequer uma palavra. Eu me pergunto o que ele deve estar pensando agora... Ele deve estar triste demais. Eu não gostaria de reviver isso, mas ainda assim comentaria alguma coisa. Não faz bem para ele ficar calado, somente absorvendo isso tudo.

E então, dentro da caixa, encontramos um pequeno bilhete. Não, não é uma carta, e sim um papelzinho amarelado e amassado. Pego-o e tento desamassá-lo, e enfim consigo ler o recado.

Rua Miss Gardner, 182. Espero você lá.

— Jaden, você que escreveu isso? — Pergunto ao ar.

Sem obter resposta.

— Deve ter sido. — Elliot suspira. — Esse papelzinho parece que foi rasgado dessa carta aqui, olha. — Ele me mostra uma das infinitas cartas que lemos. A carta está rasgada em uma das pontas.

Eu estou muito triste. Ler todas essas cartas me fazem pensar no quanto eles eram felizes, apesar de várias brigas. Mas as brigas eram comuns, triviais, bem parecidas com as minhas brigas com Elliot. O problema é que eu amo Elliot, e sei que ele me ama também. Saber que Alice e Jaden eram tão parecidos conosco só me fazem ter certeza de que a dor que ela sentiu ao vê-lo morrer foi insuportável.

Elliot pega as cartas e as leva para o criado-mudo. Eu não consigo me mover. Ele volta para a cama, sentando-se, e eu me arrasto até seu colo, deitando minha cabeça nele. Elliot afaga meus cachos.

— Eu sei. É horrível pensar no que aconteceu com eles.

— Aham. — Murmuro. — Elliot...

— O quê? — Ele pergunta.

— Eu me pergunto quando será que você vai se cansar de mim.

Ele para de fazer cafuné em mim e me faz olhar diretamente para ele.

— Por quê você insiste em dizer que eu vou me cansar de você? — Ele parece estar mesmo irritado. — Até parece que você quer é se livrar de mim!

— Não! Mas... — Meus olhos enchem de lágrimas. — Às vezes eu acho que você vai perceber que eu não valho a pena, e vai acabar desistindo de ficar comigo.

Ele suspira profundamente.

— Eu não sabia que sua auto-estima podia ser tão baixa assim. — Ele põe sua mão em minha bochecha, aquecendo-a. — Vamos nos concentrar no assunto Jaden, certo? Quando a gente voltar pra casa nós resolveremos essas suas questões existenciais.

Ele não me dá nem tempo de ficar ofendida e me beija. Não um beijo como todos os outros, mas um beijo que mais parece... Uma promessa. Um beijo-promessa. Eu não sei bem o que significa isso.

— Você vai no endereço daquele bilhete?

— É a casa de Jaden e Alice, quando vivos. — Levanto-me da cama e ele também. — Ir lá só me trará mais lembranças ruins, e talvez seja só uma coincidência esse papelzinho ter parado na caixa, mas...

— Mas?

— Algo me diz que, se eu for, vou saber como encontrar Alice. — Amarro meus cabelos em um coque mal feito. — Você vai comigo.

— E alguma vez disse que não iria? — Ele segura minhas mãos. — Quando quer ir?

— Ainda hoje. — Suspiro. — Não aquento mais essa cidade. Quero voltar pra casa.

— Logo nós vamos voltar, Vanessa. — Ele sorri calidamente e me envolve em seus braços.

Damos as mãos e descemos as escadas. Anna cantarola pela casa, mas quando ela se vira para nós, vemos os olhos inchados e avermelhados. Sorrio para ela, que sorri também. Ela está ajeitando a casa novamente.

— Pelo visto está muito disposta mesmo. — Comento.

— De fato. — Ela suspira. — Aonde vocês vão?

— À casa dele. — Respondo. — Voltaremos ainda antes do jantar, tudo bem?

— Tudo bem. — Ela para um pouco de andar de um lado para o outro e abre a porta para nós.

E então saímos da casa. O vento extremamente frio me assusta um pouco, e é então que percebo pequenos flocos de neve caindo sobre os cabelos negros de Elliot. Sorrio, limpando seus ombros, e seguimos até a casa de Jaden e Alice.

A mancha de sangue está bem menor, mas o enjoo está cada vez maior. Agarro-me nos braços de Elliot antes que eu despenque no chão, e ele me ajuda a me recompor.

— Você está bem? — Pergunta.

— Estou. — Afirmo, ajeitando minha roupa. — Anda, vamos entrar.

Abrimos a porta lentamente e, assustando-nos um pouco, vemos Jaden sentado no sofá. Sorrindo para nós maquiavelicamente.

— Até que enfim. — Ele suspira. — Hora de falar a verdade.

Notas finais
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