Converso mais alguns minutos com Jaden, o suficiente para que eu começasse a entender algumas questões da minha vida. Primeiro, ele morreu pouco mais de vinte anos atrás, assassinado a facadas. Isso já me deixou com medo, mas ele prossegue. Por uns três anos ele ficou vagando pelo mundo, tentando entender por que ele não havia ido para a "vida eterna". Ele começou a acreditar que isso não existia, mas encontrando-se com algumas almas penadas, descobriu que existia sim. O único problema é que só entra no paraíso quem não tem nada pendente no mundo material. E pelo visto, ele tem.

— Eu pensei, pensei, pensei muito, até que eu lembrei da carta que eu tinha escrito para minha esposa. Eu nunca tive a chance de entrega-la, e soube que devia fazer isso para conseguir.

Sento-me na cama, tentando fazer com que tudo que ele me falou entre na minha cabeça. Ele se senta na poltrona, na minha frente.

— E como eu entro no meio disso tudo? — Pergunto, olhando para aquele fantasma.

— Todos os seres estão conectados com seu "par", digamos assim.

— Você quer dizer tipo alma gêmea? — Pergunto, ruborizando. É estranho pensar que minha alma gêmea pode ser um fantasma.

— Almas gêmeas não existem. — Ele ri. — É difícil explicar... Algumas almas têm conexões com outras. Eu mesmo não sei por que isso acontece, pra ser sincero. Na maioria das vezes há duas almas conectadas, mas pode haver mais que isso. Acho que, no nosso caso, somos só nós.

— Mas por quê? — Questiono. — Por que existem essas conexões?

— Em geral, nós não podemos nos comunicar com outras pessoas. Assustar sim. — Ele dá um largo sorriso. — É a maneira que a gente encontra para se divertir. Mas, quando uma alma vagante está conectada a uma alma vivente, se pode comunicar com ela.

— Vagante? Vivente?

— É a maneira correta de falar. Vagantes são como eu, viventes são como você.

Olho para ele. Seu semblante é de tristeza. Nossa, pensar que por causa de uma coisa não feita, ele ficou sem descanso por mais de vinte anos, é terrível. Não quero que isso aconteça comigo.

— Quando você nasceu, foi como se eu tivesse sido teletransportado até você, ainda no parto. E desde então não consigo ir mais que vinte e cinco metros de distância de você.

— Nossa... — Sussurro. É informação demais para um dia só.

— Você é a única que pode me ajudar, Vany. — Ele se aproxima de mim, olhando fundo nos meus olhos. — Por favor... Eu te imploro.

— Eu... É claro que eu ajudo, Jaden. — Minha vontade é de abraçá-lo, mas não consigo. Meus braços atravessam seu corpo, e eu me encolho de novo. Meu Deus...

— Desculpa. — Apresso-me em dizer. Ele dá um leve sorriso.

— Não há problema. Só de saber que você vai me ajudar, eu já estou contente.

Sorrio, e ele se levanta da poltrona. Levanto-me, o seguindo. Ele não faz barulho nenhum ao andar, mas é como se cada passo eu sentisse sua presença. Desde criança eu sentia isso.

— E por onde começamos?

— Eu morava no interior do Reino Unido. Bem no centro, pra ser mais preciso.

Arregalo os olhos.

— Reino Unido? Na Europa? — Gaguejo, e ele ri.

— Existe outro? — Ele solta uma gargalhada. — Eu era de lá. De uma cidadezinha chamada Gayle. Pertinho de Hawes.

— Eu não conheço nem essa Hawes, quanto mais Gayle. — Suspiro. — Isso significa que eu vou ter que viajar até lá?

Jaden sorri, triste.

— Eu não posso ir sem você.

Ponho meu chapéu e visto meu casaco. Finalmente noto seus trajes. Apesar de ser atravessável, seu corpo aparenta ser tão sólido quanto o meu. Ele está vestindo um terno preto com linhas cinzas, o típicos riscas de giz. Sapatos marrons escuros, gravata preta e um sorriso estonteante. Ele só não é mais bonito que Elliot.

— E sua mulher ainda mora lá?

Ele arregala os olhos, engole em seco e encara o chão. O que ele está me escondendo?

— Acho que ela ainda está lá, sim.

Ele anda em direção a janela.

— Aonde vai? — Pergunto. — Vou sair para tomar café.

— Eu preciso descansar. — Ele fecha os olhos fortemente. — Ficar nessa forma custa energia. Preciso voltar a forma de espírito, mas não se preocupe. Eu vou continuar perto de você.

Não tenho tempo de responder algo, pois seu corpo começa a se dissolver. Não, é como se ele ficasse com uma forma de fumaça. O vapor tem a cor do seu terno, mas logo se desfaz no ar.

— Jaden? Você ainda está aí?

Não tenho como ir embora, idiota. Ele zomba, mas sei que é brincadeira.

Saio do quarto em direção a padaria mais próxima.

Notas finais
reviews?