Eu não sei bem o que fazer agora.

Olhando para a porta, vejo uma mulher vestida totalmente de branco. Calça branca, blusa branca, sapato branco. Seus cabelos escuros desciam em ondas até o meio do braço. Sua pele é de um moreno claro, que contrasta com as roupas. Ela estava olhando para o chão, e quando me encara... Seus olhos verdes e fantasmagóricos me petrificam.

Se não fosse pelo estilo réveillon, poderia até dizer que era um espelho.

Ciao, filha. — A mulher, minha mãe, fala.

— Oi pra você também. — Sussurro.

— Quem é esse? — Ela aponta para Elliot, que me encara.

— Ela chegou? — Ele pergunta. — Você está falando com quem?

Viro-me para ele.

— Você não consegue vê-la? — Murmuro.

— Acho que não... — Ele força a visão para a porta. — Eu sinto muito mesmo.

Ele só não pode vê-la, Vany. Assim como ele também não pode me ver.

— Jaden disse que você não pode vê-la. — Suspiro.

— Quero que ele vá embora. — A mulher diz, cruzando os braços.

— Ele vai ficar! — Resmungo. — Não vai haver conversa se ele não ficar aqui comigo!

Ela arregala os olhos, e aquela luz verde que irradia deles parece que atravessa meu corpo. Por que fantasmas tem que ter esses olhos do mal?

— Eu prefiro ir, Nessa. — Ele se volta para mim, me abraçando. — Não quero que vocês briguem.

— Mas... Você é covarde. — Sorrio.

— Sou sim. — Ele me beija e depois me abraça. — Boa sorte, tá? Eu vou estar lá no carro.

— Certo. — Ajeito sua gola e o deixo ir. Tão covarde, mas tão lindo...

Assim que ele some da minha vista, Jaden toma sua forma de loiro sedutor. Ele caminha até Flora. Movo-me um pouco para o lado, tentando enxergar melhor a cena.

— Boa noite, ahn, Flora Bellucci Miller... Certo? — Ele faz uma cara de... Ironia?

— Sim. Quem é você e o que faz junto à minha filha? — Ela pergunta autoritária.

— Ora ora ora... Tão mandona! — Ele ri. — Primeiro, você tem que ter mais respeito comigo. Estou nessa forma a mais tempo que você e sei de muitos "truques" que podem fazer você se dar mal rapidinho.

— Posso saber quem você é, pelo menos? — Ela pergunta, num tom de voz mais baixo.

— Eu sou Jaden. — Ele a responde. — O tal amigo imaginário que sua filha tinha.

Ela olha para mim, chocada.

— Então... — Ela deixa Jaden no vácuo e vem até mim. — Esse tempo todo você estava falando a verdade?

Fico calada. Oh, merda, aquela dor no peito começou de novo...

— Você nunca acreditou em mim. — Começo, engasgando com o princípio de choro. — Você e aquele velho, nunca acreditaram em mim. Nunca cuidaram de mim...

— Filha... — Ela faz aquela cara de pena. Detesto que sintam pena de mim.

— Deixa eu falar! — Grito, e ela põe suas mãos em cima dos lábios, calando-se. — Desde pequena, a única coisa que eu queria era que vocês estivessem comigo. Sabe o que era meus pedidos de natal, que eu fazia para o papai Noel?

Ela está em choque, e Jaden olha para mim.

— Continue, Vany. — Ele pede.

— Uma família. — Enxugo uma lágrima que desce. — Eu pedia uma família, desde meus cinco anos. Se não acredita, pode olhar nas cartas que estão numa caixa, no porão da casa do seu marido.

Jaden se aproxima de mim, e num ato inesperado ele faz como se me abraçasse. E então eu começo a sentir aquele calor, aquela sensação única que me consolou no dia triste de inverno. Por um breve momento sinto paz novamente.

— Você não tem ideia do que é passar uma vida inteira sem ter sua mãe por perto. E acabou que Catarine era mais mãe do que você. Ela que me educou. Ela que me levou aos médicos. Ela que me esclareceu todas as minhas dúvidas de adolescente. Ela me viu crescer. E eu sou grata por ter tido aquela mulher para cuidar de mim.

— Eu estava trabalhando, Vanessa! — Ela se defende. — Estava trabalhando para te dar condições!

— Dinheiro não compra tudo! — Exalto-me e Jaden mais uma vez me abraça. — Eu precisava de amor!

Não aguento mais, acabo tombando no chão, desesperada e aos prantos. Eu... Nunca pude dizer tanta coisa assim para ninguém. E ao mesmo tempo que surge um alívio em mim, também surge um sentimento de profundo desprezo por aquela alma que se intitula minha mãe.

— Vany. — Jaden sussurra. — Eu sinto muito mesmo. Se eu pudesse...

— Você foi meu único amigo. — Enxugo mais lágrimas. — Jaden foi meu único amigo que sabia o que se passava comigo. Por mais que eu tenha raiva de você, Jaden, eu sou eternamente grata por você ter estado comigo esse tempo todo.

— Não há de quê, Vany. — Ele sorri, envergonhado. — Mas você precisa terminar esse assunto com sua mãe.

— Não diga que ela é minha mãe. — Peço.

— Mas ela é. — Ele sussurra.

Suspiro e levanto-me do chão sujo. Flora continua olhando para mim, seus olhos observam cada movimento meu, como se analisasse minha alma.

— Eu só me dei conta do quanto eu tinha te feito sofrer depois que eu faleci, mia bella.— Ela murmura, e eu sinto dor em suas palavras. — Se eu pudesse mudar o que fiz, eu mudaria, mas infelizmente não posso. Isso tudo foi culpa do meu emprego, Vanessa. E foi meu emprego que me matou. Se eu não estivesse indo àquela festa...

— Mas você estava. Era fim de ano, e você estava indo à uma festa enquanto sua filha ia comemorar mais um estúpido ano-novo com vodka e caras que eu nem sabia o nome.

— Eu sinto muito. — Ela diz. — É por isso que eu te chamei aqui, Vanessa. Eu sei que é pedir demais, mas...

— Não. Eu não vou lhe perdoar. — Falo antes mesmo que ela complete a frase.

— Eu nunca pediria isso. — Ela afirma, dizendo com os olhos que realmente não pensava nisso. — O que eu preciso para descansar é um abraço seu.

Olho para ela, confusa.

— Um... Abraço?

— Envergonha-me dizer que nunca te abracei. — Ela anda lentamente pelo salão, olhando os vitrais e passando sua mão pelos castiçais. — Tudo o que eu mais preciso agora é de um abraço seu. Eu não peço seu perdão, só isso.

Vou até ela, que fixou seu olhar em um espelho, dessa vez de verdade. No reflexo, porém, só há eu.

— Você é tão bonita, Vanessa... Seus olhos verdes, suas bochechas salientes, seus cabelos brilhosos... — Ela suspira. — Eu queria ter te visto crescer.

— Você quer agora, mas antes não queria.

— Confesso; é verdade. — Ela se vira para mim. — Por favor, Vanessa, o que eu te peço não é tão ruim assim...

— Esses anos todos eu precisei de um abraço. Um simples abraço, que você não pôde me dar. — Engulo em seco. — E agora quem precisa é você.

Ela desvia o olhar, fitando o chão.

— Mas felizmente eu não sou você. — Sorrio ironicamente. — Por que se alguém precisa de um abraço, eu dou.

— Então isso significa que... — Ela abre um sorriso.

— Sim. — Também tento sorrir, mas qualquer coisa que esteja na minha cara agora com certeza não é um sorriso. — Eu abraço você.

Então lembro-me do que Jaden me disse, e mentalmente permito que ela me toque. Flora lentamente se aproxima e abre seus braços para mim. E... Era disso que eu precisava, de um abraço dela. Agarro-me àquele fantasma como se minha vida dependesse disso. Meu choro começa a descer de novo, e ela afaga meus cabelos.

— Eu quero que você seja muito feliz, bella. — Ela sussurra. — Oh, Deus, estou sentindo a plenitude!

Ela me solta e Jaden se aproxima dela.

— Como é? — Ele pergunta, extremamente animado. — Como é essa sensação?

— É... Maravilhosa. — Ela suspira. — Eu preciso que vocês saiam, agora.

— C-como? — Jaden gagueja. — Não, eu preciso ver como é...

— VÃO EMBORA! — Ela exclama. Meu Deus... — Vai ser muito doloroso!

— Doloroso? — Ele sorri ironicamente. — Mas você estava dizendo que...

— Jaden. Eu vou. — Respondo. — Não tenho mais nada a fazer aqui, então eu vou. Deixe-a aí.

— Vany... — Ela resmunga, mas eu já estou andando para a saída. quando me afasto uns vinte metros, vejo que ele me seguiu.

Andando em direção ao carro, vejo Elliot escorado nele, olhando para mim. Quando chego perto dele, abraço-o tão forte que ele geme de dor baixinho. Ele beija minha testa, tentando de tudo para me acalmar.

— Vamos pra casa, tudo bem? — Ele afaga meus cabelos. — Não chora...

— Me leva pra casa, por favor...

Ele me ajuda a entrar no carro e logo depois faz o mesmo. Indo o mais rápido que pode, em dez minutos chegamos. Ele me ampara ao subir as escadas, e nervosamente enfio a chave na fechadura. Quando finalmente consigo girá-la, abro a porta e saio correndo para a cama. Elliot vem logo em seguida.

— Ei, não fica assim... — Ele me consola. — O que houve lá?

— Eu abracei ela. — Digo, e logo depois explico como isso foi possível.

— O que eu posso fazer para te acalmar? — Ele pergunta.

— Fica aqui comigo. — Peço. — Por favor, eu preciso de você comigo.

Ele se deita ao meu lado na cama. Suas mãos acariciam meu braço, enquanto eu olho fixamente para ele. Eu adoro esse homem.

— Preciso te contar uma novidade.

— O quê? — Pergunto, tentando de todas as formas esquecer o que havia acontecido.

— Comprei nossas passagens. — Ele sorri. — O voo sai daqui direto para o aeroporto de Leeds e de lá a gente tem que comprar umas passagens de ônibus para Gayle. É daqui a uma semana.

— Isso é bom! — Sorrio. — Você é demais...

Ele ruboriza, um pouco envergonhado.

— Sou sim. Mas sou medroso também. — Ele ri.

— Com certeza. — Aproximo-me dele e o abraço. — Pelo menos não teve medo de se aproximar de mim.

— Quem disse que não? — Ele sorri. — Uma mulher linda sorrindo para mim, eu me senti bem intimidado.

— Sério? — Sorrio.

Bleargh.

— Cala a boca, Jaden. — Sussurro, mas Elliot não se ocupa em perguntar o que ele tinha falado.

— Boa noite. — Ele murmura baixinho, me fazendo cafuné. — E tente não ter pesadelos.

— Boa noite. — Bocejo. — Não prometo nada.